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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Salazar por Fernando Pessoa

"Politicamente, só existe aquilo que o público sabe que existe."
António de Oliveira Salazar na inauguração do S.N.I. em 1933.



Salazar, capa da TIME em 1946: «Após 20 anos de Salazar (o decano dos ditadores 
da Europa), Portugal é uma terra triste de pessoas pobres, confusas e assustadas...» In TIME.



Fernando Pessoa - António de Oliveira Salazar
s.d., em Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa.
1ª publ. in Diário Popular, Lisboa, 30 Maio e 6 Junho 1974


António de Oliveira Salazar
Bernard Hoffman veio a Portugal em Julho de 1940, fazer uma reportagem para a LIFE.
A Exposição do Mundo Português tinha sido inaugurada (em plena 2ª Guerra Mundial)
 um mês antes. Hoffman não tirou qualquer foto dela (pelo menos eu não encontrei).
Pode ver as fotos dessa reportagem da LIFE, neste post mais antigo carregando aqui.
Três nomes em sequência regular...
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.

Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
Água dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.
Oh, c’os diabos!
Parece que já choveu...
Em 04 de Julho de 1937, Salazar escapou por um triz (infelizmente) a um atentado
organizado por um grupo de anarquistas. Revista Ilustração 16-07-1937.

Coitadinho
Do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho...
Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.
Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.
Mas afinal é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
 1938, um ano antes de começar a guerra, Salazar organiza uma caçada em
Mafra para membros do Corpo Diplomático. Revista Ilustração 16-07-1937
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.




SIM, É O ESTADO NOVO

Sim, é o Estado Novo, e o povo
Ouviu, leu e assentiu.
Sim, isto é um Estado Novo
Pois é um estado de coisas
Que nunca antes se viu.
Em tudo paira a alegria
E, de tão íntima que é,
Como Deus na Teologia
Ela existe em toda a parte
E em parte alguma se vê.
Há estradas, e a grande Estrada
Que a tradição ao porvir
Salazar, anos 50.  Foto de Rosa Casaco, um Pide. Encontrada na net.
Liga, branca e orçamentada,
E vai de onde ninguém parte
Para onde ninguém quer ir.
Há portos, e o porto-maca
Onde vem doente o cais.
Sim, mas nunca ali atraca
O Paquete "Portugal"
Pois tem calado de mais.
Há esquadra... Só um tolo o cala,
Que a inteligência, propícia
A achar, sabe que, se fala,
Desde logo encontra a esquadra:
É uma esquadra de polícia.
Visão grande! Ódio à minúscula!
Nem para prová-la tal
Tem alguém que ficar triste:
União Nacional existe
Mas não união nacional.
E o Império? Vasto caminho
Onde os que o poder despeja
Conduzirão com carinho
A civilização cristã,
Que ninguém sabe o que seja.
Com directrizes à arte
Reata-se a tradição,
E juntam-se Apolo e Marte
No Teatro Nacional
Que é onde era a inquisição.
E a fé dos nossos maiores?
Forma-a impoluta o consórcio
Entre os padres e os doutores.
Casados o Erro e a Fraude
Já não pode haver divórcio.
Que a fé seja sempre viva.
Porque a esperança não é vã!
A fome corporativa
É derrotismo. Alegria!
Hoje o almoço é amanhã.
s.d.


Salazar - Um cadáver emotivo


Salazar
Um cadáver emotivo, artificialmente galvanizado por uma propaganda...
Duas qualidades lhe faltam — a imaginação e o entusiasmo. Para ele o país não é a gente que nele vive, mas a estatística d'essa gente.
Soma, e não segue.
1932?
Pessoa Inédito. Fernando Pessoa.
(Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes)
Lisboa: Livros Horizonte, 1993.  - 221.


D. Maria chorando no velório de Salazar. 1970. Foto da net.



“passou a época da desordem e da má administração; temos boa administração e ordem. E não há nenhum de nós que não tenha saudade da desordem e da má administração.”

(Fernando Pessoa, 1935)


Fernando Pessoa (1888-1935)




sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

As máscaras que se olham

Por
José  Saramago
Jornal de Letras,  26 de Novembro de 1985

José Saramago, foto de Daniel Mordzinski, encontrada em www.flaac2012.com.br



Coisas boas em jornais


Fernando Pessoa e os seus heterónimos. Pintura de Costa Pinheiro (1978). Foto encontrada em pt.wikipedia.org


Naquele jazigo do cemitério dos Prazeres, onde durante cinquenta anos os restos de Fernando Pessoa foram esquecidos (agora os transportaram para o Mosteiro dos Jerónimos e acomodaram em arca nova, perante uma plateia fúnebre de ministros e secretários de Estado), havia, como é costume cristão, uma cruz. De mármore, ou outra pedra calcária menos nobre, colocada a prumo sobre a fachada insignificante, o conhecido símbolo derramava sobre o defunto bênçãos para o imediato e promessas de eternidade. De quanto valham umas e outras não sou eu o competente contabilista, nem seria esta a ocasião para se apurarem transcendências tais. Diga-mos, no entanto, porque em algum ponto de doutrina terei de comprometer-me, que me incluo entre os cépticos.


Fernando Pessoa, pintura de Júlio Pomar, 2007. Foto encontrada em wwwpoetanarquista.blogspot.pt


Ora, a cruz desapareceu, já não está lá. Partiram-na ao rente do pé, deixando o jazigo subitamente nu, com aquele ar friorento e sem jeito que têm os homens quando lhes cortam o cabelo, ou as árvores quando são podadas. Não se sabe quem foram os autores do atentado sacrílego, desconhecem-se as razões do atrevimento. Mas a alma portuguesa, a mística alma, não pode deixar de sentir-se confortada  ante  o acto magnífico de roubar-se uma cruz de pedra só porque, durante meio século, ela velou o último sono de um poeta. Portugal, afinal de contas, não está perdido, se filhos seus mantêm esta fé e praticam esta coragem. Acredito que sobre a cruz e o furto possam vir a ser lançados os alicerces de um culto novo, de que Fernando Pessoa seria, ao mesmo tempo, profeta e livro. E também não me surpreenderia se me viessem dizer que a esta mesma hora, numa qualquer cave de Lisboa, uma congregação de neófitos já vai elaborando um rito e inventando orações, ou simplesmente adaptando os velhos passes de mágica à nova esperança de redenção.


«Heterónimos de Fernando Pessoa». Pintura de Lívio de Morais. Foto encontrada em pessoasempre.blogspot.pt


Há sempre um fundo de tristeza na ironia: a esta pouco lhe faltou para atingir a lágrima. Claro que não cairei na banalidade de interrogar-me sobre se Portugal merecia este poeta, como não pergunto se mereceu Camões. Mas torna-se cada vez mais evidente o carácter redutor da relação que, preconcebidamente ou pela obscura força das circunstâncias de tempo e de lugar, se está estabelecendo entre os portugueses vivos que hoje somos e o poeta morto e trasladado, mais emblema, ele, que homem, mais símbolo difuso que discurso coerente, mais pretexto evasivo que afirmação peremptória.
É possível que Fernando Pessoa tenha nisto grande responsabilidade. Homem de máscaras que olham máscaras, é como se só máscaras o pudessem ler e porventura compreender. Mas o que, sendo assim, produziria infalivelmente uma constelação de sentidos, de significados, de leituras infinitamente abertas e nunca conclusivas, veio, pelo contrário, a esbarrar com a tentação de definir um Fernando Pessoa unificado, do qual, por mera ramificação sucessiva, tivessem nascido heterónimos em qualquer momento reversíveis ao seu ponto de partida. Trabalho vão, em meu entender. Cada um de nós é quem é, mas aquele que em nós faz é outro. Fernando Pessoa soube-o melhor que ninguém, e os heterónimos, mais do que «drama em gente», são, cada um deles, a expressão individualizante de um conteúdo plural que se tornou singular no seu fazer-se, um ser que é diferente porque diferente foi o fazer dele.


FERNANDO PESSOA: ele próprio e os "OUTROS". Foto encontrada em luardejaneiro.blogs.sapo.pt


Posta a questão nestes termos, seria fascinante ler Ricardo Reis como Ricardo Reis, e não como Fernando Pessoa. E o mesmo com Álvaro de Campos. Ou Alberto Caeiro. Ou Bernardo Soares. E todos os esboçados e inacabados heterónimos como crianças ou adolescentes que não puderam crescer, mas que eram já, no que foram, outros. E finalmente duvidar que os poemas ortónimos tenham sido realmente escritos por um Fernando Pessoa, tal como ele, com esse próprio nome, duvidou da sua existência. Estaríamos, aí, em pleno campo da esquizofrenia (com ressalva do emprego não de todo adequado da expressão), mas, correndo os riscos de quem ousa um passo em terreno tão instável, poderíamos agora interrogar-nos sobre a virtual maior produtividade duma leitura radiante, aceitando à letra aquilo que teria sido a verificação final  de Fernando Pessoa: eu não sou eles. E talvez que «O Ano da Morte de Ricardo Reis» seja, em mais de quatrocentas páginas de prosa, tão-somente uma leitura que caminha ao longo de um raio, uma trajectória vital e poética a que nenhum outro poema pode ser juntado, mas em que se admite como plausível uma vida outra, que é mentira e por isso verdade outra, como a máscara é um rosto outro. Talvez seja preciso escrever também sobre os anos da morte de Alberto Caeiro, de Alvaro de Campos, de Bernardo Soares, para que sejam, cada um deles, cada vez menos Fernando Pessoa, como Fernando Pessoa os quis.

Há vertigem neste jogo. As máscaras olham-se sabendo-se máscaras. Usam um olhar que não lhes pertence, e esse olhar, que vê, não se vê. Colocamos no rosto uma máscara e somos outro aos olhos de quem nos olhe. Mas de súbito descobrimos, aterrados, que, por trás da máscara que afinal não poderemos ser, não sabemos quem somos. Está portanto por saber quem  é  Fernando Pessoa.

José  Saramago
Jornal de Letras, 26 de Novembro de 1985


Rui Pimentel, «Fernando Pessoa», 1989. Foto encontrada em www.apontamentosportugues.com



sábado, 3 de novembro de 2012

Cinemas onde vi filmes: O Politeama


«A fachada do novo teatro Politeama depois de retirado o tapume: o emprezario sr. Luiz Pereira à janela.» Foto Joshua Benoliel, copiada da revista Ilustração Portugueza de 22-12-1913.


Ao Politeama fui muitas vezes já adolescente e depois em adulto, creio que deixei de ir lá a seguir ao 25 de Abril, quando comecei a querer ver outro tipos de filmes. No Politeama, fui expulso uma vez porque não tinha idade para ver o filme (já não recordo qual, sei que tinha 15 ou 16 anos e o filme era para maiores de 17), mas o "sacana" do porteiro que já me tinha cortado o bilhete, quando reparou em mim, foi-me buscar ao hall e meteu-me na rua. Geralmente ia para os lugares mais baratos que era no chamado galinheiro e parecia que estava no 3º anel do estádio da Luz.
Anos depois em 1989, voltei ao Politeama para fazer as luzes de uma peça (Final de Samuel Beckett), encenada pelo Mário Viegas, que tinha conseguido o empréstimo? da sala entre as 19h e as 21h, porque as sessões de cinema continuavam às 14h, 16h e 21,30h. Passei cerca de três noites no Politeama depois da última sessão de cinema, o que quer dizer que só começava a trabalhar por volta da meia noite. O Mário Viegas pediu à Secretaria de Estado da Cultura alguns projectores e a mesa de comando e eu montei todo o material. 


A sala do Politeama em 1944/45. Estúdio Mário Novais.


Estava sozinho  e digo-vos que é um bocado assustador estar num edifício antigo, sozinho durante toda a noite, ouve-se o ranger das madeiras e parece-nos outra coisa. Além disso circulavam umas histórias de fantasmas (como existem em vários teatros antigos), mas o esquisito é que de vez em quando cheirava a rosas nos bastidores e não havia lá flores nenhumas, nem outra coisa que pudesse deitar aquele cheiro. Tentava não pensar nisso e lá fiz o trabalho de iluminação, que foi difícil, porque a parte principal da iluminação, teve que ser montada no galinheiro e dentro do palco não havia sitio para pendurar projectores. Tive que os pendurar na cortina corta-fogo (que é toda em ferro) e segurá-los com arames. A iluminação da peça no palco, foi mais difícil porque o écran subia e quando descia para as sessões de cinema, não podia haver projectores no seu caminho, o que colocou algumas limitações, mas lá se fez um trabalho digno e a peça ganhou o prémio do espectáculo teatral do ano. Muitas vezes encontra-se referências na net e não só, dizendo que foi o Filipe La Féria, que reabriu o Politeama para o teatro (desde os anos 60). Não é verdade, foi o Mário Viegas em 1989 e ainda nesse ano voltei a fazer iluminação de uma peça de A Barraca, que aproveitou a ideia do Viegas e fez lá no Politeama a peça " O Menino de sua Mãe", baseado em Fernando Pessoa, com a Maria do Céu Guerra, a Ilda Roquete e o José Maria Pinto.


Teatro Politeama em 1990, à espera do La Féria. 1990. Michel Waldmann.


Os 75 anos do Politeama
Texto de Manuel Cintra Ferreira em 1988

EMERGINDO das camadas de sujidade que lhe desfiguravam a fachada, o velho Teatro Politeama retoma uma imagem que ainda há poucas décadas era a de uma das salas mais populares de Lisboa. A limpeza que ali decorre tem a ver com os novos projectos que a Lusomundo tem para a velha sala da Rua das Portas de Santo Antão, procurando reconquistar o público com uma programação mais cuidada, estando a inauguração prevista  para o dia 6, data em que o Politeama comemora os 75 anos de existência. Não são muitas as salas que se podem orgulhar de terem resistido ao camartelo durante tanto tempo, e menos ainda as que prosseguem o mesmo tipo de actividade. 


A sala do Politeama. 1944/45. Estúdio Mário Novais. Ver as fotos seguintes.

Félix Ribeiro no seu livro  Os Mais Antigos Cinemas de Lisboa  dá conta da forma com surgiu o Teatro Politeama, uma obra a cargo do arquitecto Ventura Terra, e resultado da iniciativa de Luís António Pereira. A sala foi inaugurada a 6 de Dezembro de 1913, na presença do então Presidente da República Manuel de Arriaga e de Afonso  Costa, com a opereta Valsa de Amor
Este tipo de espectáculo terá ali, carácter dominante durante algumas décadas; apesar de, logo no ano seguinte, a 10 de Setembro de 1914, terem tido início as exibições cinematográficas com o filme de Carmine Gallone La Donna Nuda (A Mulher Nua) interpretado por Lyda Borelli, uma das actrizes italianas que António Ferro incluiu no Grandes Trágicas do Silêncio. Só a partir do princípio da década de 30 a sala passará a apresentar maioritariamente uma programação cinematográfica, embora o seu palco continue a ser usado, com frequência  até fins dos anos 40 por várias companhias de teatro, entre elas a Companheiros da Alegria. 


Hall ou a sala de fumo do Politeama. Aumentando a foto dá para perceber que o filme que está nos cartazes é A Mulher do Cabelo Vermelho (Lady with Red Hair, 1940) de Curtis Bernhardt, que estreou em Portugal em 28 de Dezembro de 1944 e saiu de cartaz em 04-01-1945, o que significa (em principio), que todas as fotos do Estúdio Mário Novais, são de 1944 ou inicio de 1945. Mas, também pode ter acontecido ter havido uma reposição do filme anos depois. Ver a seguir os anúncios dos filmes no Diário de Lisboa de 1944 e 45.

Seria ainda outra das «trágicas» italianas, Francesca Bertini, a inaugurar em 1927, uma temporada de maior regularidade na apresentação de filmes, com Monte Carlo (O Fim de Monte Carlo), realizado em 1927 por Mario Nalpas. Com estreias e reposições de filmes que então se incluíam numa designação de «filme d'arte», herdeira daquela que no começo do século teve início em França com O Assassinato do Duque de Guise, a sala adquiriu um certo prestígio. Foi lá que teve lugar, em 1916, a estreia do famoso Cabíria, de Pastrone, que se diz ter influenciado Griffith para o seu  Intolerância, e lá teve lugar  também aquele que se pode considerar o primeiro acto de censura sobre um  filme em  exibição em Portugal. Foi em 1917, em Novembro, quando o país estava em guerra, e era ministro da dita o general Norton de Matos que mandou retirar de exibição o filme de Thomas Inos, Civilização. As razões invocadas tinham a ver com as teses pacifistas que Civilização defendia (o filme, americano, datava  de 1916 e fora feito antes da intervenção dos EUA na Grande Guerra). A proibição não foi recebida de bom grado e deu origem a uma certa agitação em frente do cinema, que provocou mesmo a intervenção da GNR a cavalo. 


Anúncios no Diário de Lisboa em 28-12-1944 e 04-01-1945.


Quando nos anos 30 as sessões  de cinema  entraram numa relativa regularidade, o modelo utilizado, era, regra geral, o «double bill», o programa duplo, à excepção de uma ou outra obra de prestígio que por si só fosse suficiente para atrair  o público. 
No chamado lote dos filmes «de prestígio», durante o mesmo período, são vistos,  O Último Escravo, de Leo McCarey, O Malvado Zaroff,  de  Ernst Schoedsack, Não Sou  um  Anjo, com Mae West, Os Quatro Espiões de Hitchcock e O General Morreu  ao Amanhecer de Milestone, entre outros. Vale a pena destacar que, em 1937, é apresentado no Politeama A Filha do Bosque Maldito, o segundo filme a usar a nova fórmula do Technicolor dois meses depois da estreia do primeiro filme feito com este processo: A Feira da Vaidade. A programação durante esses anos divide-se entre a Columbia, a Warner Brothers e a Paramount, ainda que em breve a segunda ao lado da RKO, passasse a ocupar, quase exclusivamente, aquela sala, no que foi, talvez; o período mais rico da sua existência. Antes, porém, a  sala do Politeama serviu ainda de lançamento a uma curiosa experiência. 


A história do Politeama por Manuel Félix Ribeiro, em OS MAIS ANTIGOS CINEMAS DE LISBOA 1896-1939, edição da Cinemateca. Clique para ler.


Foi no, início de 1940. A distribuidora Lisboa Filme formara-se recentemente e apresentara nessa sala, em Novembro do ano anterior, os primeiros filmes do seu catálogo: A Linha Siegfried  e Precisam-se de 13 Mulheres, ambos alemães, o primeiro um documentário sobre a famosa linha que se opunha à francesa Maginot (isto mesmo no início da guerra). Também alemães foram os filmes que nesses começos de 1940 passaram de forma, original, naquele cinema:  O Chapéu Florentino e Hora de Tentação que apresentavam a particularidade de serem parcialmente dobrados em português. A experiência foi, no entanto, efémera, apesar da curiosidade do primeiro para o qual foi filmada uma introdução, cujo autor tudo indica ter sido Arthur Duarte, e que contava com a participação de, entre outros, Manuel dos Santos Carvalho. Um trabalho que hoje se julga perdido. A nova tentativa de  dobragem morreu à nascença. 


Lista dos filmes para estreia no Politeama, na época de 1948-1949  e planta do Politeama em: Plantas e Programas dos Cinemas de Estreia em Lisboa, época 1948/49. Esta publicação de 1948 era distribuída pela companhia de seguros Mundial Confiança aos clientes.


Os  anos 40 e parte dos 50: são os mais prolixos do Politeama, tanto em qualidade, como no número de êxitos  comerciais. Em parte, como já se disse,  devido a programação com base em  filmes  da  Warner  e  RKO, primeiro,  e da Fox, depois. Em especial os filmes com Errol Flynn que provocavam verdadeiras enchentes: sete semanas para Aventuras de Robin dos Bosques, outras tantas para o Gavião dos Mares, quatro para Vida Nova: Os números podem ter pouco sentido hoje em dia, mas um sucesso comercial,  então, media-se pelas duas ou  três semanas. Imbatíveis foram as 8 semanas com que Casablanca entusiasmou os cinéfilos lisboetas. E não só. Estreado só em 1945, já no fim da guerra, a sua exibição era pretexto para algumas manifestações contra regime,  especialmente no momento do filme em que se canta a Marselhesa cujo coro se  confundia com o da plateia. 


 O Politeama e a Rua das Portas de Santo Antão. A da esquerda é de Alberto Carlos Lima e só se sabe que é posterior a 1913. Possivelmente será da década de 30. A da direita é de Arnaldo Madureira e foi tirada por volta de 1960.

Os anos 50 assistiram ao progressivo predomínio da Fox, em especial a partir de 1954, com a inauguração do Cinemascope, sendo o Politeama a quarta sala a o utilizar o novo formato, depois do Tivoli, S. Jorge e S. Luiz. No fim desse ano, o ecrã largo do  Politeama apresentava a continuação de A Túnica, Demétrio O Gladiador. Mas, o maior sucesso comercial dessa década teria lugar em 1956 com o filme de Hathaway, O Fundo da Garrafa, segundo uma novela de Simenon, que esteve em exibição 8 semanas. Outro triunfo desse anos foi o cómico mexicano Mario Moreno (Cantinflas), cujos filmes, distribuídos pela Columbia, eram quase um exclusivo deste cinema. É a partir de 1957 com Cantinflas na Ribalta, primeiro, e O  Bolero de Raquel, depois. 


«Foi no Politeama por volta de 1916 que se estreou "Cabiria", o famoso filme italiano de Giovanni Pastrone». «Para inauguração da sua temporada 1927/28 o Politeama escolheu um filme da famosa e belissima actriz Francesca Bertini. Assim a partir de Outubro de 1927 pela tela do Politeama, por onde alguns filmes de Francesca Bertini haviam anos antes corrido, voltou a imagem da popularissima actriz italiana a ser projectada». (Manuel Félix Ribeiro)

Será, aliás, Cantinflas a única nota, de êxito a partir do fim da década de 50 quando  a programação começa progressivamente a cair numa irremediável mediocridade. Cinema de características populares, o Politeama passa a reflectir a deterioração dos modelos  da série B, recorrendo profusamente ao «peplum» e ao «western spaghetti», e a um estilo de comédia erótica de características «soft». As recentes tentativas de recuperação da sala não tem sido felizes. 
Ao optar por um filme como Tucker, a obra-prima de Francis Coppola, para a reabertura do Politeama parece haver, por parte dos seus responsáveis, uma decidida vontade de lhe devolver o velho prestígio. 

Manuel Cintra Ferreira 
Expresso, 03-12-1988


Noticia sobre a inauguração do Polytheama em 1913 e critica à Opereta com que o teatro foi inaugurado  no jornal A Capital - Diário Republicano da Noite, dias 5 e 7 de Dezembro de 1913. A noticia da direita é de 1968 e conclui-se dela que a Gulbenkian organizava Bailados regularmente no Politeama e que, tinha havido grandes obras no Teatro.


Entrevista com o Gerente do Politeama em 1970



Em 1970, o critico Eduardo Geada e o jornal A Capital fizeram uma série de entrevistas aos distribuidores de filmes, exibidores e gerentes de cinema, que são um grande retrato da comercialização e exibição de filmes em Lisboa em 1970. Neste caso, o entrevistado é Correia de Melo, gerente do Politeama desde 1967. «Pretendo  fazer voltar ao Politeama o prestígio que antigamente tinha. Determinado público foi-se habituando a ver neste cinema filmes de accão, mas eu gostava de, sem perder o público actual, reconquistar também os espectadores que gostam  de outro género de filmes. Por isso, este ano vamos inaugurar  a temporada com um filme de Carlos Saura. Como a coisa tem  de  ser  feita gradualmente, já comecei a apresentar alguns espectáculos de «ballet» para um público de escol e prossigo com as sessões clássicas dos  «Romances  de Amor» que o Politeama inaugurara há bastantes anos. O meu maior  problema consiste  em obter  filmes de grande nível que chamem o público. Somos um cinema independente a esgrimir sozinhos contra poderosos grupos de exibidores que apanham quase sempre os melhores filmes. A maior parte das vezes somos obrigados a fazer o contrato sem ter visto os filmes ou a aceitar outros para poder escolher o que queremos; chegam mesmo a apresentar-nos apenas uma lista limitada aos filmes de acção. O meu projecto é entremear os filmes de aventuras com outros de maior qualidade, para  o que  seria ideal o apoio de um distribuidor. E claro que o exibidor pode vir a influenciar a programação dos distribuidores se recusar sistematicamente determinado género de filmes bastante maus, que são normalmente os mais baratos. Mas para isso  é necessária a  força de mais de uma sala exibidora que garanta o escoamento e o apoio, do cinema de qualidade.»



Alguns filmes (para não lhe chamar outra coisa), que passaram no Politeama


Este de Michael Curtiz é o melhor de todos os filmes destes anúncios, foi em 1955.


O Politeama em 1965?. Foto copiada de jornal.

 Anúncios em 1966.

Anuncio de 1966.

 Anúncios de 1968 e 1972.


Anos 70 ou 80. Foto copiada de jornal.

Anos 70 ou 80. Foto copiada de jornal.

Há poucos anos atrás, estava assim o Politeama. Antes isso. Foto da net.



(Fotos do Arquivo Fotográfico da CML e da Fundação Calouste Gulbenkian)




quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Portugal em fotos da LIFE


Assim se faz Portugal


Palácio da Ajuda, Lisboa. Postal sem data.

Trajes típicos do Minho em Postais?, sem data.


Trajes típicos do Minho em Postais?, sem data.


Trajes típicos do Minho em Postais?, sem data.

Estoril, Portugal.1950. Gordon Parks.

Estoril, Portugal.1950. Gordon Parks.

Estoril, Portugal.1950. Gordon Parks.

Eurailpass na Europa: Estação de comboios de Aveiro (creio), Portugal. 1970. Carlo Bavagnoli.

Eurailpass na Europa: passagem de comboio, sobre a ponte ferroviária sobre o Rio Douro. Porto, Portugal. 1970. Carlo Bavagnoli.

Eurailpass na Europa: passagem de comboio, sobre a ponte ferroviária sobre o Rio Douro. Porto, Portugal. 1970. Carlo Bavagnoli.

Alcácer do Sal é uma das mais antigas cidades da Europa, fundada antes de 1000 a.C. pelos fenicios. Assim como as vizinhas e também fenícias Lisboa e Setúbal, fornecia sal, peixe salgado, cavalos para exportação e alimentos para os barcos que comerciavam estanho com a Cornualha. Durante o domínio árabe foi capital da província de Al-Kassr. D. Afonso Henriques conquistou-a em 1158. Reconquistada pelos mouros, só no reinado de D. Afonso II, e com o auxílio de uma frota de cruzados, a cidade foi definitivamente conquistada, tornando-se cabeça da Ordem de Santiago. Gravura sem data.

O Mosteiro de Santa Maria da Vitória (mais conhecido como Mosteiro da Batalha), situa-se na Batalha, Portugal, e foi mandado edificar em 1386 por D.João I de Portugal como agradecimento à Virgem Maria pela vitória na Batalha de Aljubarrota. Este mosteiro dominicano foi construído ao longo de dois séculos até cerca de 1517, durante o reinado de sete reis de Portugal, embora desde 1388 já ali vivessem os primeiros dominicanos. Exemplo da arquitectura gótica tardia portuguesa, ou estilo manuelino, é considerado património mundial pela UNESCO. Foto sem data.

O Mosteiro dos Jerónimos é um mosteiro manuelino, testemunho monumental da riqueza dos Descobrimentos portugueses. Situa-se em Belém, Lisboa, à entrada do Rio Tejo. Constitui o ponto mais alto da arquitectura manuelina e o mais notável conjunto monástico do século XVI em Portugal e uma das principais igrejas-salão da Europa. Destacam-se o seu claustro, completo em 1544, e a porta sul, de complexo desenho geométrico, virada para o rio Tejo. Os elementos decorativos são repletos de símbolos da arte da navegação e de esculturas de plantas e animais exóticos. O monumento é considerado património mundial pela UNESCO. Foto sem data.

A Praça dos Restauradores situa-se em Lisboa e é caracterizada pelo alto obelisco, de 30 metros de altura, inaugurado em 28 de Abril de 1886, como custo de 45 contos de réis, que comemora a libertação do país do domínio espanhol em 1 de Dezembro de 1640. Foto sem data.

O Miradouro de Santa Luzia tem uma ampla vista sobre Alfama e o rio Tejo. Os pontos característicos, da esquerda para a direita, são a cúpula de Santa Engrácia, a Igreja de Santo Estêvão e as duas torres brancas da Igreja de São Miguel. A muralha sul de Santa Luzia tem dois modernos painéis de azulejos, um da Praça do Comércio de antes do terramoto e outro com os cristãos a atacarem o castelo de São Jorge. Foto sem data.

A Praça do Comércio, também conhecida por Terreiro do Paço, é uma praça da Baixa de Lisboa situada junto ao rio Tejo, na zona que foi o local do palácio dos reis de Portugal durante cerca de dois séculos. É uma das maiores praças da Europa, com cerca de 36 000 m² . Em 1511, o rei D. Manuel I transferiu a sua residência do Castelo de São Jorge para este local junto ao rio. O Paço da Ribeira, bem como a sua biblioteca de 70 000 volumes, foram destruídos pelo terramoto de 1755. Na reconstrução, coordenada por Eugénio dos Santos, a praça tornou-se no elemento fundamental do plano do Marquês de Pombal. Os edifícios, com arcadas que circundam a praça, albergam alguns departamentos de vários Ministérios do Governo Português e ainda o famoso café Martinho da Arcada, o mais antigo de Lisboa, e um dos preferidos de Fernando Pessoa. Foto sem data.


A Torre de Belém é um dos monumentos mais expressivos da cidade de Lisboa. Localiza-se na margem direita do rio Tejo, onde existiu outrora a praia de Belém. Inicialmente cercada pelas águas em todo o seu perímetro, progressivamente foi envolvida pela praia, até se incorporar hoje à terra firme. O monumento se destaca pelo nacionalismo implícito, visto que é todo rodeado por decorações do Brasão de armas de Portugal, incluindo inscrições de cruzes da Ordem de Cristo nas janelas de baluarte; tais características remetem principalmente à Arquitectura típica de uma época em que o país era uma potência global (a do início da Idade Moderna). Classificada como Património Mundial pela UNESCO desde 1983. Foto sem data.


(Fotos LIFE Archive e textos Wikipedia)