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domingo, 25 de novembro de 2012

Graham Greene - Na mansão do prazer


por
Manuel S. Fonseca
Expresso 13-04-1991



Coisas boas em jornais

The Pleasure Dome: Colectânea de críticas de cinema de Graham Greene,1935-1940.


FUGIR, escreveu ele. Graham Greene fugia muito. Cada fuga, hora e meia, e o abrigo era sempre o mesmo. Mansão de prazer, chamava-lhe; todos os cinemas de Londres, acrescentamos nós. Em quatro anos e meio, entre 1935 e 1940, ficaram registadas cerca de 400 fugas.
O «registo» é, preferencialmente, o «The Spectator», a revista onde Graham Greene publicou as recensões desses filmes para onde fugia dos tormentos infernais por que passava quando tinha que dar vida ao personagem secundário de um romance, ou quando queria chegar à boa construção de um capítulo. Era, como escreveu no prefácio de Pleasure Dome, livro que reúne esses seus textos, «a fuga por hora e meia à melancolia que inexoravelmente tomba à volta do romancista quando ele viveu meses demais no seu mundo privado».



A Revolução Cubana tinha começado em Janeiro de 1959. A foto é de Abril e alguns casinos ainda funcionavam. Em pé, Noel Coward e Graham Greene. Sentados da esquerda para a direita: Carol Reed, Alec Guinness, Maureen O'Hara, Ernie Kovacs e Jo Morrow. Foto de Peter Stackpole em Havana, Cuba, 1959, durante as filmagens de O Nosso Homem em Havana (Our Man in Havana, 1959) de Carol Reed.


Graham Greene descobriu-se crítico de cinema quase por acaso. «Depois do perigoso terceiro Martini», se quisermos acreditar na sua versão. Nessa altura, Greene achou-se capaz de preencher o que considerava uma lacuna do «Spectator», a falta de tratamento do cinema.
Mas Greene já tinha culpas anteriores no cartório. Em Oxford, constituíra-se crítico de cinema do «Oxford Outlook», uma revista literária de que ele mesmo era o editor. A essa conspícua actividade deve somar-se a sua veneração por uma publicação tão elitista quanto fascinante, a saber, a revista «Close Up», que Kenneth Macpherson editava a partir do seu «château» na Suíça. (Dessa revista rara, a Cinemateca possui uma colecção preciosa na sua Biblioteca; e de Kenneth Macpherson foi já exibido, também na Cinemateca, Borderline, um filme singular na sua relação com as vanguardas artísticas do final dos anos 20).
Era exactamente aos anos 20 que Greene devia a formação do seu gosto cinematográfico. Não admira, por isso, que os seus textos tenham começado por reflectir um vincado preconceito contra a utilização do som, a que sucedeu, mais tarde, o preconceito contra a cor — esta mesma «reacção humanista», à introdução de novas tecnologias no campo artístico, pode hoje observar-se nas terríveis batalhas contra o audiovisual propostas pelas Vestais de um pretenso cinema puro.


Graham Greene conversando com Alec Guinness em plena Revolução Cubana que tinha começado em Janeiro de 1959. Foto de Peter Stackpole em Havana, Cuba, Abril, 1959, durante as filmagens de O Nosso Homem em Havana (Our Man in Havana, 1959) de Carol Reed.


Da actividade crítica de Graham Greene o que apetece guardar, antes de mais, é a sua feroz ironia — que lhe valeria, de resto, pesada pena fiduciária no «caso Shirley Temple», que adiante se relata. Digna de registo é, também, a tendência para as digressões na primeira pessoa, digressões que, por vezes, ganhavam um carácter autónomo relativamente ao filme comentado. Uma das mais saborosas, por se ligar às convicções religiosas de Greene, talvez seja a que subscreveu na crítica a The Garden of Allah, filme em que o renegado monge trapista que é Charles Boyer renúncia ao amor de Marlene Dietrich para regressar ao mosteiro.
A cena de despedida suscitou-lhe este comentário: «Alas! minha pobre Igreja, tão pitoresca, tão nobre, tão sobre-humanamente piedosa, tão intensamente dramática. De facto, prefiro a versão do ‘News Statesman', padres mesquinhos a contar pesetas pelos dedos, em cafés encardidos, antes da acção de graças».
Da sua feroz ironia, o melhor testemunho é o caso Shirley Temple. Em Agosto de 1936, Greene, comentando Captain January, de David Butler, espetara a primeira farpa. Primeiro começava por reconhecer à pequenina menina-prodígio um imenso vigor e segurança, tanto na representação como na dança. Acrescentava a seguir que, no entanto, a «sua popularidade parecia residir numa coqueterie tão madura como a de Claudette Colbert e num corpo, peculiarmente precoce, tão voluptuoso nas suas calças de flanela cinzenta como o de Marlene Dietrich». Um ano depois, e desta vez na revista «Night and Day», Greene escreveu sobre Wee Willie Winkie, um filme de Ford protagonizado pela mesma Shirley. Semeou ventos e colheu a tempestade que uma legião de advogados, da 20th Century Fox e da própria Shirley Temple, lhe fizeram cair em cima. Na opinião dos juízes que julgaram o caso, a crítica de Greene era «um dos mais horrendos libelos que alguém poderia imaginar». Por causa dessa «beastly publication» (a opinião é ainda dos juízes e dá em português a colorida expressão «texto animalesco»), Greene e a «Night and Day» tiveram que pagar pesadas multas à companhia e à actriz. O texto foi interdito e, por essa razão, não consta da recolha das críticas do escritor, nem pode ser citado na Imprensa inglesa.


Graham Greene engraxando os sapatos em Havana, no inicio da revolução cubana. Foto de Peter Stackpole em Havana, Cuba, Abril, 1959, durante as filmagens de O Nosso Homem em Havana (Our Man in Havana, 1959) de Carol Reed.


Do conjunto das críticas que publicou entre 1935 e 1940, podem compulsar-se algumas ideias recorrentes sobre o que Greene entendia dever ser o cinema. E, segundo ele, devia antes de mais ser uma arte de massas, dando às pessoas o mesmo que o teatro isabelino lhes dera no passado, «as tragédias violentas e universais que elas compreendem».
Defensor de um «cinema poético», Greene sempre entendeu o realismo como premissa indispensável desse cinema. Na crítica aos Tempos Modernos, de Charlie Chaplin, pode inferir-se claramente o alcance que atribuía aos conceitos de «poesia» e de «realidade»: «Chaplin tem, como Conrad, algumas `pequeninas ideias simples' que podem ser expressas pelos mesmos termos — coragem, lealdade, trabalho — contra o mesmo fundo niilista de sofrimento sem finalidade. `Mistah Kurtz — he dead'. Essas ideias não são suficientes para um reformador, mas provaram ser amplamente suficientes para um artista».
Raramente reconheceu a Hollywood aquilo que reconheceu a Chaplin, quase sempre se queixando que o cinema americano tinha tendência para envolver a realidade em celofane, sem esse «sentido adulto» da arte que dizia entrever na Kermesse Héroique do francês Jacques Feyder. Mesmo assim, soube pôr em evidência as qualidades de John Ford (chamando-lhe «um dos melhores realizadores deste tempo», logo que viu Stagecoach e Young Mr. Lincoln), de Frank Capra (não sem separar o trigo de Mr. Deeds Goes to Town e Mr. Smith Goes to Washington do joio que o desiludia em Lost Horizon). Como soube ver e sublinhar que alguns dos génios alemães, convidados para Hollywood nos anos 30, tinham afinal beneficiado com as condições que os grandes estúdios colocaram à sua disposição, caso de Ernst Lubitsch e de Fritz Lang, cujo Fury saudou, em 1936, afirmando ser «o único filme ao qual quereria associar o epíteto `grande'».



John Ford sentado, dá instruções a Shirley Temple no filme, "Shirley, Soldado da Índia" (Wee Willie Winkie, 1937). Foto de moirasthread.blogspot.com


Entre os seus ódios de estimação conta-se grande parte dos filmes ingleses de Hitchcock — exactamente por causa do seu «inadequado sentido da realidade». Foi, aliás, o seu ataque sistemático a algum cinema inglês, e em particular às produções de Alexander Korda, que esteve na origem da sua passagem de crítico a argumentista. Korda, intrigado com as cerradas críticas, quase sempre insistindo nas fraquezas de construção das personagens ou do argumento, acabou por convidá-lo a fazer o que ele dizia que os outros não faziam. No balanço que fez da sua actividade como crítico cinematográfico, Greene confessou que um dos seus poucos motivos de arrependimento era, justamente, o de não ter considerado, por desconhecimento, quanto é que um realizador e um argumentista podem sofrer nas mãos de um produtor. Mas essa é já uma outra história, a das suas relações menos pacíficas e às vezes tumultuosas com os produtores.
Apesar de mais importante no corpo da sua obra, talvez a actividade de argumentista nunca lhe tenha provocado uma declaração tão nostálgica como esta, que a sua memória de espectador e crítico lhe ditou: «Chorei pelos filmes mudos quando os sonoros apareceram e chorei pelo preto e branco quando o Technicolor veio lavar os ecrãs. Hoje, vendo o último filme sério e socialmente consistente de Monsieur Godard, tenho saudades desses desaparecidos anos 30, tenho saudades de Cecil B. De Mille e dos seus Cruzados, tenho saudades dos dias em que quase tudo podia acontecer».

Manuel S. Fonseca
Expresso 13-04-1991



Graham Greene. Inglaterra. 1951. Larry Burrows.


Graham Greene - Caso encerrado


1904 — Nasce em Berkhamsted. O seu pai dirige a escola local, e Graham passa a infância e parte da adolescência a sofrer as consequências disso: lealdade dividida entre os colegas e o pai, depressões muito fortes, tentativas de suicídio, psicanálise com certo êxito.
1922 — Inicia estudos universitários (História Moderna) em Oxford. Ainda durante o curso, dirigirá o periódico estudantil «Oxford Outlook» e começará igualmente a trabalhar em jornais civis.
1923 — Inscreve-se no Partido Comunista inglês durante cerca de três semanas. Explicaria mais tarde porquê esse acto: havia a esperança de ganhar uma viagem à Rússia. Uma explicação que é quase impossível não aceitar, conhecendo-se a vocação viajante de Graham. Muito mais tarde, porém, essa remota filiação vermelha impedi-lo-á de entrar nos EUA.
1925 — Fim dos estudos. Publica Babbling April, um livro de poesia.
1926 — Por influência da futura mulher, converte-se à fé católica. Entra no «Times» como secretário de redacção.
1927 — Casa com Vivien Dayrell-Browning, que lhe dará um filho e uma filha.
1929 — Publica The Man Within,  o seu primeiro romance. Seguir-se-ão mais de trinta.
1932 — Começa a fazer crítica literária no «Spectator». Publica Combóio de Istambul, o primeiro de uma longa série de romances «ligeiros» aos quais, por não poder assiná-los com pseudónimo, ele chamou divertimentos.
1934 — Visita a África pela primeira vez: Libéria e Serra Leoa.
1935 — Começa uma coluna regular de cinema no «Spectator».
1936 — Publica Jornada sem Mapas, sobre a viagem de 1934 a Africa.
1937 — Com Evelyn Waugh e Elizabeth Bowen, tenta lançar «Night  and Day», um equivalente britânico da famosa revista «New  Yorker».  Mas um processo judicial movido pela actriz Shirley Temple e pela 20th Century Fox obriga «Night And Day» a fechar.
1938 — Enviado ao México para investigar as perseguições a padres, recolhe elementos para O Poder e a Glória, para muitos o seu melhor livro. Entretanto, publica outro ao mesmo nível, Brighton Rock.
1939 — Escreve o seu primeiro argumento para cinema. Publica O Agente Secreto.
1940 — É nomeado editor literário do «Spectator». Entra para o Ministério da Informação. Mais tarde é transferido para o Foreign Office, onde o encarregarão de diversas tarefas, uma das quais em Africa, para os serviços secretos.
1941 — Recebe o Prémio Hawthornden. Outros prémios importantes (Legião de Honra e Prémio Shakespeare, entre outros), bem como doutoramentos «honoris causa», seguir-se-ão ao longo dos anos.
1944 — Torna-se director literário das Edições Eyre e Spottis-wode.
1945 — Volta à crítica literária, agora no «Evening Standard».
1948 — Com François Mauriac, vai à Bélgica participar numa conferência católica. Parte depois para a Checoslováquia e para Viena.
1950 — Publica romances extraídos de dois argumentos cinematográficos seus, entre os quais O Terceiro Homem.
1951-1955 — Faz inúmeras viagens — à Malásia, à Indochina, ao Quénia, ao Haiti, a Cuba, à Polónia — enviado por publicações como a «Life», o «Paris-Match» e o «Sunday Times».
1953 — Publica Ensaios Católicos, que muitos consideram o seu livro menos interessante. Escreve a sua primeira peça de teatro:  The Living Room.
1957 — Vai a Cuba, à China e à Rússia.
1858 — Após uma nova visita a Cuba, regressa a Londres para assumir a direcção das edições Bodley Head, cargo que manterá dez anos. Publica O Nosso Agente em Havana.
1959-1960 — Vai uma vez mais a Cuba, e depois ao Congo Belga, à Rússia e ao Brasil.
1961— Publica Um Caso Arrumado.
1962-1971 — Vai à Roménia, a Cuba, ao Taiti, a Goa, a Berlim, à RDA, a São Domingo, a Israel, à Serra Leoa, a Istambul, ao Paraguai, à Argentina, à Checoslováquia, ao Chile. Entretanto, publica A Sense of Reality (1963), Os Comediantes (1966), Empresta-nos o seu Marido? (1967), Collected Essays (1969) e Viagens com a Minha Tia (1969). Em 1966, vai viver para Antibes.
1971— Publica A Sort of Life (primeiro volume de autobiografia).
1973 — Publica O Cônsul Honorário.
1977 — Integra a delegação panamiana que vai a Washington assinar o tratado sobre o Grande Canal.
1978 — Publica O Factor Humano.
1982 - Publica J’Accuse, um panfleto em que denuncia a corrupção das autoridades de Nice e as ligações delas ao crime organizado. Os problemas daí resultantes acabarão por obrigá-lo a partir. Em 1990, o «maire» de Nice fugirá para a América Latina, dando assim razão às acusações de Greene.
1983 — Arthur Lundkvist, jurado do Prémio Nobel, garante que Greene só receberá essa distinção «por cima do meu cadáver».
1984 — Publica Getting to Know the General.
1987 — Vai a Santiago do Chile participar num encontro internacional de intelectuais pela democracia.
1989 — Publica O Capitão e o Inimigo.
1990 — Muda-se de França para a Suíça.
1991— Morre em Vevey, nas margens do lago Genebra.

Luís Coelho
Expresso 13-04-1991



Graham Greene (1904-1991)
Foto copiada do Expresso





(Fotos Peter Stackpole e Larry Burrows. LIFE Archive, excepto as assinaladas)


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Gore Vidal - Entrevista

"Um escritor deve sempre dizer a verdade, a não ser que seja jornalista."
(Gore Vidal)

Coisas dos Deuses ou do Alzheimer, só ontem soube que Gore Vidal tinha falecido. Como é um dos escritores que eu mais gosto de ler e reler, quis aqui fazer um pequena homenagem; tinha uma série de fotos dos anos 60 da LIFE, mas, depois encontrei esta entrevista e decidi fazer o post juntando as duas coisas.

“O dia em que entrevistei o grande escritor 
Gore Vidal - e descobri que ele tem medo de elevador”
por 
Ricardo Setti

Ricardo Setti com Gore Vidal, no hotel Cá d’Oro, em São Paulo, para hora e meia de conversa. Gore Vidal se mostrava disposto e bem humorado. Texto e foto de em veja.abril.com.br

«Uma entrevista inédita feita há 23 anos com um grande escritor contemporâneo achada casualmente no fundo de um baú. Esta é a história da entrevista que se segue.»


(…) Um belo dia, chego à bela sucursal do Jornal do Brasil na Avenida Paulista, que depois teria a honra de dirigir, e recebo a ordem de meu chefe, o diretor Augusto Nunes:
– Setti, você vai entrevistar o Gore Vidal depois de amanhã.
Augusto tinha conseguido para o JB junto ao editor Luiz Schwarcz, da editora Companhia das Letras, então detentora de direitos sobre algumas obras de Gore Vidal no Brasil, uma das poucas entrevistas exclusivas que o escritor concederia no Brasil. Não sendo versado na obra de Vidal, embora tivesse lido alguns de seus livros, mergulhei em pesquisa, devorando tudo o que podia a respeito do escritor como preparação para a tarefa. Sendo Vidal um homem do mundo e um ser político por natureza – as famílias paterna e materna abrigaram políticos e ele próprio tentou ser deputado por Nova York e senador pela Califórnia nos anos 60 –, nove das 13 perguntas na época vindas a público no Jornal do Brasilacabaram versando sobre política, inclusive relações internacionais, pois estávamos em plena época de mudanças na até então pétrea, inamovível União Soviética.
A maior parte de seus conceitos sobre a literatura e o fazer literário, assim, não puderam ser aproveitados pela limitação insuperável do jornalismo pré-internet: o espaço disponível. Eles têm permanência, como se verá, mas não só isso: alguns dos temas políticos tratados são de uma impressionante atualidade, como a questão de, como quer Vidal, o “Império” americano, título aliás de um de seus romances, de 1987, tendo a história dos Estados Unidos como pano de fundo.

Dava a entrevista por perdida quando encontrei a fita gravada

Topei com a íntegra da entrevista que realizei com o escritor por um feliz, felicíssimo acaso ao promover, anos atrás, a organização dos arquivos de quase quatro décadas de carreira jornalística num recém-montado escritório particular. Tratava-se de uma fita gravada, por mim já dada como perdida, que encontrei misturada a dezenas de cassetes imprestáveis de música popular, prontamente lançados ao lixo.
A gravação com Vidal, porém, revelou-se miraculosamente audível. Foi realizada durante a movimentada visita – a única, até agora – do grande escritor ao Brasil em 1987, promovida pela editora Companhia das Letras, pelo jornal Folha de S. Paulo e pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Em uma semana entre São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro e Brasília, o eterno enfant terrible da literatura americana teve como cicerone em São Paulo um jovem de 23 anos responsável por indicações de livros estrangeiros e traduções para a Companhia das Letras e que futuramente, como colunista de VEJA, se tornaria ele próprio um enfant terrible: Diogo Mainardi, colunista de VEJA. No Rio, valeu-se da experiência e dos contatos do jornalista Sérgio Augusto. Vidal proferiu duas palestras, concedeu duas entrevistas coletivas e três individuais, divertiu-se em festas e jantares.
Um ritmo adequado a alguém polivalente como Eugene Luther Gore Vidal, seu nome na certidão de nascimento, titular de uma carreira de impressionante fecundidade, mais de 30 romances, uma autobiografia em dois volumes, uma coletânea de contos, seis peças de teatro, 24 roteiros de filmes e séries para cinema e TV – incluindo desde o épico Ben-Hur (1959), de William Wyler, em cujos créditos não aparece, ao menos remoto Dimenticare Palermo (1990), do diretor italiano Francesco Rosi –, numerosos livros de ensaios e mesmo duas dezenas de participações, como ator ou como ele próprio, em filmes de ficção e documentários.
A passagem pelo Brasil incluiu também, para Vidal, alguns contratempos. Convidado por conta própria pelo embaixador José Aparecido, assessor do presidente José Sarney, para um tête-à-tête em Brasília com seu chefe, também ele escritor, bateu com o nariz na porta porque Sarney estava irremediavelmente enredado em compromissos.
O visitante também precisou aturar cerimônias aborrecidas, como um interminável concerto de música erudita brasileira na reitoria da Unicamp, sob um calor insuportável, a que eu, estoicamente, também assisti. Uma coisa jeca, como que a provar para o grande homem que no Brasil também se fazia música de qualidade.
Mas ele não perdeu a verve. Ao me receber em sua suíte no hotel Cá d’Oro, em São Paulo, para hora e meia de conversa, Vidal se mostrava disposto e bem humorado.
Como sempre, viajava com Vidal, hospedando-se cada um em sua suíte, seu peculiar companheiro desde 1950, e que morreria em 2003, o discretíssio ex-publicitário Howard Austen, com passagens pela Broadway e pelo cinema, que atuava como uma espécie de gerente da vida do escritor.
Vidal, que é homossexual mas teve casos com mulheres, causaria espanto ao relevar no primeiro volume de suas memórias, Palimpsest — A Memoir, de 1995, publicado no Brasil como Palimpsesto no mesmo ano, que jamais teve sexo com Austen, ao lado do qual quer ser sepultado. E que, em todos seus incontáveis casos com outros homens, foi unicamente ativo.

Gore Vidal em sua casa junto do Rio Hudson em Nova York. 1960. 
Foto de Leonard Mccombe e LIFE Archive.

Parte da entrevista foi feita descendo escadas

Diferentemente de Vidal, homem de aparência máscula e porte físico avantajado, Austen, de aparência frágil, magro e sardento, tinha trejeitos efeminados. Quando eu e Diogo — que, uma vez feitas as apresentações, discretamente se retirou — e tocamos a campainha da suite de Vidal, onde Austen também estava naquele momento, ouvimos uma voz cantada, levemente aflautada avisar de dentro do quarto:
– Gooore, they’re heeeere! (“Gooore, eles chegaram!”).
O grande escritor parecia não ter grande confiança na tecnologia do Terceiro Mundo: incerto quanto ao impacto potencial dos elevadores brasileiros em sua controlada claustrofobia, preferiu, já no final da conversa, enfrentar oito andares de escadas rumo ao térreo, onde faria gravação de três minutos para uma emissora de TV.
Lá fui eu junto, escada abaixo, com o gravador ligado e fazendo perguntas. Voltamos pelo mesmo caminho, Vidal resfolegando enquanto respondia.
Leia a seguir a entrevista.

É o senhor quem escolhe seus temas ou, de alguma forma, eles o escolhem, eles se impõem ao escritor?

Bem, nunca é a mesma coisa. Eu produzo dois tipos de livros: reflexões e invenções. Prefiro as invenções porque todas elas são minhas. E ouço suas vozes. A voz de Myra Breckinridge eu nunca tinha ouvido antes [de escrever o livro com esse título, publicado em 1968]. Nem a voz de Duluth [1983], talvez minha invenção favorita. Nunca a tinha ouvido antes, e não tenho idéia de onde veio. Não sou assunto de mim mesmo, não escrevo sobre mim mesmo, não sou autobiográfico, e não tenho interesse por escritores desse tipo [como vimos na relação de suas obras, o autor viria a desmentir-se com a publicação oito anos depois, em 1995, do primeiro volume de suas memórias, Palimpsesto]. Entre outras características, isso me faz ser muito diferente da maioria dos escritores contemporâneos. As reflexões são de alguma forma escolhidas, como ocorre com minha tentativa de recuperar a história da República Americana desde a Revolução [1775-1783] até o presidente John Kennedy [1961-1963].
Não tencionava fazer isso. Comecei com Washington, D. C [1967], planejado para ser o último livro dessa série, então voltei no passado a Burr [1972], que é o começo. A ideia era descrever um país visto por uma família ao longo de duzentos anos.
Não posso dizer se expus tudo como queria, a história simplesmente veio à tona. Nunca sei se o que escrevo vai ou não ter um padrão no final. É justamente por isso que escrevo. Termino sem saber que caminho realmente queria ao começar. Assim, a idéia de um escritor esquemático é, para mim, uma contradição em termos.

O senhor já perdeu o controle de algum personagem?


O escritor muitas vezes não exerce qualquer controle sobre os personagens se está produzindo uma invenção. Só é possível esse controle em novela de televisão. Aí existem basicamente, digamos, dez enredos básicos. Você escolhe um deles e o recheia com personagens. Meus personagens são sobretudo vozes, que ouço, mas não vejo. As vozes falam e eu escuto, e elas continuam falando. É diferente dos romances históricos, as típicas cronicas americanas, como os chamamos. Nesses, eu crio pontos de vista, cada um dos personagens tem seu próprio estilo.
Tenho, claro, meus limites. Por exemplo, em Lincoln [1984], nunca penetro na mente do presidente [Abraham Lincoln] – não sou Shakespeare, embora esteja tentando ser… Penetro, no entanto, na mente da senhora Lincoln. É impertinente, mas ao mesmo tempo interessante.

Gore Vidal em sua casa junto do Rio Hudson em Nova York. 1960. 
Foto de Leonard Mccombe e LIFE Archive.

O senhor mencionou romances históricos. Falando deles, porque um ateu como o senhor acabou se interessando pela história do cristianismo como aparece em Juliano [1964]?

Não gosto do cristianismo, mas vim de uma tradição cristã – metade protestante, metade católica romana. Assim, conheço bem o cristianismo, e pude deixar minhas reflexões me conduzirem a Juliano, o Apóstata, durante cuja vida se inventou o cristianismo.
O cristianismo tal como o conhecemos não tem nada a ver com o [faz ar de desprezo] Novo Testamento, ou o Velho Testamento, mas foi o resultado de um certo número de encontros fechados entre um determinado número de bispos.
Quando eles finalmente chegaram à Santíssima Trindade – uma obra-prima capaz de acomodar todo mundo, como uma frente de partidos na Itália [risadas] –, perguntaram a São João Crisóstomo: “Mas como pode um Deus uno ser três pessoas distintas?” Ele respondeu: “Oh, é um Mistério tão grande… Não ousemos discuti-lo” [risadas].
Isso foi o máximo que fizeram em matéria de discussão teológica.

Para um ateu, o senhor escreveu um bocado sobre religião. Refiro-me também a Criação [1982].

Mesmo não sendo religioso, tenho interesse por religião. Está aí a origem de Criação. Sou fascinado pela religião do século V. Tentei descobrir, em Criação, como aconteceu de, num único século, ter sido pensado tudo de fundamental já cogitado pela raça humana, inclusive a teoria atómica, inventada por Demócrito.
Um homem do ano 75 d. C. podia ter encontrado Buda, Confúcio, Zoroastro, Sócrates. Obviamente não creio que, na vida real, qualquer pessoa pudesse ter conhecido os quatro, mas usei esse artifício, essa estrutura e fui então capaz de observar quatro culturas diferentes de um ponto de vista de um persa, em vez de seguir a tendência natural para um escritor ocidental e fazê-lo do ponto de vista de um grego.
Por isso, sou um herói dos iranianos estabelecidos nos Estados Unidos. Boa parte dos 600 ou 700 mil iranianos dos Estados Unidos vivem em Los Angeles, onde tenho uma casa. Um dia peguei um táxi para o Beverly Hilton Hotel, o motorista iraniano me reconheceu por causa de minhas aparições na TV e me disse: “O senhor não sabe como o admiramos na nossa comunidade, porque o senhor nos deu o ponto de vista persa – iraniano – e não aquele que sempre nos ensinaram, o dos gregos, nossos inimigos”.
Ele nem me cobrou os 17 dólares da corrida. Isto é que é admiração…

Qual imagina ser sua maior qualidade como escritor e, em sentido oposto, qual seria sua maior vulnerabilidade?

Não posso falar sobre forças e fraquezas. Então vamos falar sobre o que um escritor faz, ou acha que faz. Penso ter a habilidade de reflectir sobre coisas que não têm a ver comigo, a não ser intelectualmente. Isso me põe totalmente fora da tradição romântica que vem governando a literatura há 300 anos e que com certeza dirige a literatura latino-americana.
Isso não me coloca fora do realismo, mas me leva para longe do romance feito costumeiramente, [faz uma careta e imita, de forma caricata, o sotaque anasalado americano] “que é sobre casamento, e sobre como deixei minha mulher quando estava tentando uma carreira de professor e como conheci essa garota e como nós viajamos, e depois como conheci uns ingleses tão engraçados – ah, eles são tão engraçados, os ingleses”. Bem, não faço esse tipo de romance.

Seu diferencial, então, seria…

Tomemos, por exemplo, Duluth, de acordo com [o escritor italiano] Italo Calvino meu livro mais interessante. Calvino diz que conduzi todo o romance, o mega-romance, como ele chama, numa direção inteiramente nova.
Quando as pessoas morrem na minha imaginária cidade de Duluth – não a Duluth real, situada no norte dos Estados Unidos [no Estado de Minnesota], mas uma cidade na fronteira com o México sobre a qual existe um disco voador permanentemente estacionado, cuja porta nunca se abre e em que as pessoas vão perdendo o interesse.
Quando alguém morre, vai para uma série de TV chamada Duluth, cujos personagens são intercambiáveis e que permanece no ar o tempo todo. Acho que a fonte desse romance foi a Presidência de Ronald Reagan.

Como, assim? A história não parece ter nada a ver com a Presidência Reagan.

O sujeito assiste TV até tarde e de repente vê esse rapaz bem apessoado, em 1940, em histórias de amor da Warner Brothers. Na manhã seguinte, ele aparece já como um homem maduro na série para a TVDeath Valley Days. Depois, nos telejornais da noite, é um homem muito velho – e presidente dos Estados Unidos! E qual deles seria real? Este país é surrealista, está além da racionalidade. Pois bem, essa deve ter sido uma das raízes de Duluth. Para mim, os romances surgem assim.

Gore Vidal em sua casa junto do Rio Hudson em Nova York. 1960. 
Foto de Leonard Mccombe e LIFE Archive.

Por que o senhor escreve?

Já nasci escritor. Se você nasce escritor, você escreve. Você não escolhe. Eu preferiria muito mais ser político – ser, por exemplo, presidente dos Estados Unidos. Nasci numa daquelas famílias de onde os presidentes costumam vir. Mas não dá para fazer as duas coisas de forma efetiva. Quer dizer, se eu fosse um mau escritor como Winston Churchill, aí, sim, seria possível. Um escritor sério, porém, sempre deve dizer a verdade, e um político nunca pode entregar o jogo. São duas características que se chocam. Só fui político parte do tempo, mas tenho sido um escritor em tempo integral.

O senhor segue uma rotina como escritor, um método de trabalho?

Meu primeiro romance, Williwaw [1946], foi publicado quando eu tinha 20 anos, e escrito aos 19. Tentei cinco romances antes dos 14 anos. Aos dez anos, eu era poeta – muito ruim, na verdade, mas o fato é que não houve época de minha vida em que não tenha escrito. Portanto, não tenho mais idéia de como faço ou de como a coisa funciona. É mais ou menos como fazer amor. Se o sujeito insistir em saber como se dá uma ereção, vai acabar tendo um trabalhão para funcionar [risos].

Que livro lhe deu mais trabalho?

Cada um apresenta seus problemas. Não tenho nenhuma dificuldade com minhas invenções. Mas, em História, sou preciso na medida e no limite do possível. Para saber os detalhes, preciso fazer um bocado de pesquisa, e a faço sozinho. Então, quando o livro termina, é enviado a um historiador daquele período específico.
O editor paga a esse historiador para fazer uma revisão do livro e checar toda a história compreendida nele. Depois, ele me faz um relatório. Lincoln foi revisado pelo professor David Irving Donald, chefe do Departamento de História da Universidade Yale e um especialista na Guerra Civil Americana [1861-1865].
Ele simplesmente me dizia: “Isto está errado, é necessário mais informação naquilo, não estou certo de ter entendido corretamente o trecho tal”.

Alguns críticos americanos disseram que Lincoln não trouxe nada essencialmente novo sobre um presidente sobre o qual se escreveram cerca de cinco mil diferentes livros…

[Interrompendo] Metade do que a imprensa fala a meu respeito nos Estados Unidos é terrível. Escreva o que escrever, sou o pior escritor da América. Nós somos uma nação muito sectária, bêbada de religião, totalmente reacionária, que odeia quaisquer novas formas de ver as coisas. E eu sou o demônio, porque sou um intelectual que é também popular e não aceito os pontos de vista da classe dirigente.

Mas, de todo modo, qual foi a maior contribuição que o senhor julga ter trazido para a compreensão do presidente Abraham Lincoln?

Eu o passei em revista. Ele é um desconhecido! Os americanos não conhecem nada de História. Se conhecessem, não elegeriam gente como Ronald Reagan presidente. Nossas escolas entraram em colapso. Elas são um deserto!
O sistema educacional americano é o pior entre todos os das potências ocidentais. O pior! Os garotos americanos frequentemente não sabem ler nem escrever no final do secundário, quando completam 17 anos. No primeiro ano da universidade, eles precisam ser ensinados sobre coisas que deveriam saber aos 14 anos. Praticamente não se ensina História americana.
Mas existe nos Estados Unidos uma fome por História americana, e eu, tristemente, sou obrigado a fazer minha parte para satisfazê-la, porque caso contrário ninguém mais vai. Não quero sempre estar fazendo isso. Preferiria bem mais estar pensando em Duluth e em Myra Breckinridge.

E por que, em sua opinião, há esse vazio no ensino de História americana?

Trata-se de uma diretriz política. Quanto mais ignorante for o povo, e quanto mais condicionado for pela TV a se tornar consumista e trabalhador dócil, mais fácil será pegar um ator vazio – um dos homens mais ignorantes que já conheci – e fazer dele o presidente dos Estados Unidos.
Nunca na minha vida presenciei coisa mais cínica. Um homem completamente vazio. E isso só pode ocorrer quando você tem um povo sem um mínimo de formação.

Essa sua postura política lhe tem causado dissabores como escritor?

Claro. Falávamos do sistema educacional americano. Veja bem: em todos os Estados Unidos, há apenas 10 mil pessoas aprendendo o idioma japonês. No Japão, um terço da população aprende inglês, e um garoto de 14 ou 15 anos já sabe alguma coisa de inglês na escola. Comparado ao de países como o Japão, nosso sistema educacional está falido.
E então vem uma figura como eu, conhecida por causa da TV, e diz esse tipo de coisa. É por isso que eles gostariam de me ver fora de combate. Em certos períodos não consigo continuar, e a única coisa a fazer, então, é ficar assistindo certos jornalistas dizerem que mau sujeito eu sou, por não amar os Estados Unidos e o consumismo desenfreado como deveria.
Sempre me mantive à parte disso, nunca fiz o jogo de ninguém, exceto o de mim mesmo. Tenho levado professores de História pelo país afora à loucura, porque eles não podem impedir as pessoas de lerem meus livros.

E como esse antagonismo se revela na grande imprensa americana?

Veja o caso da revista Time, por exemplo. Eles vivem uma espécie de jogo de empurra comigo: ora me colocam na capa, ora me odeiam. Eles não são confiáveis [risos]. Quando do lançamento de Lincoln, a Newsweek decidiu fazer uma reportagem de capa comigo, Time descobriu, e duas semanas antes de o trabalho chegar às prateleiras, publicou um grande comentário dizendo, em linhas gerais, que o livro era um dos piores jamais escritos.
O autor era um tal de Paul Gray, que não leu o livro – ele não teve tempo para isso, todas as citações incluídas em seu texto estão nas primeiras dez páginas. Pois justamente ele tinha escrito uma reportagem de capa de Time a meu respeito anos antes, dizendo o quão magnífico eu era. O editor da área cultural da revista na época da resenha de Lincoln era um daqueles neoconservadores que realmente me odeiam.
Ele adicionou pessoalmente um parágrafo à matéria – fiquei sabendo de tudo por informações obtidas lá de dentro. Eles tentaram matar o livro. A editora Random House levou a coisa tão seriamente que pensou em processar a revista por restrição ao comércio e outros dispositivos permitidos pelas leis americanas. Eles acabaram não seguindo esse curso, Newsweek disse exatamente o contrário, e foi meu livro de maior sucesso até então.

Excetuado o caso de Time, como é sua relação com os críticos literários?

Só existem dez críticos nos Estados Unidos, e a maior parte deles não escreve para jornais… De todo modo, já passei o diabo nas mãos de resenhistas. Depois de A Cidade e o Pilar [1946], levei um gelo interminável do The New York Times, que em sua edição diária [Vidal exclui da afirmação o suplemento literário semanal do Times] não publicou uma palavra sobre cinco romances meus consecutivos. Em Time e em Newsweek, foram sete os livros que passaram em brancas nuvens. Isso com o tempo mudou. No caso de Lincoln, tive sorte porque vários bons historiadores falaram bem do romance. E nosso melhor crítico literário, Harold Bloom, de Yale, gostou muito do livro. Mas se você desse uma olhada nas críticas e resenhas pelo país afora, chegaria à conclusão de que sou um escritor deplorável. Os americanos são incapazes de distinguir um bom de um mau texto, e os resenhistas também não sabem a diferença.
Em geral, me acusam de não amar Jesus ou de não amar o capitalismo, veja só você. Toda essa gente tem razões mesquinhas.

 Gore Vidal em sua casa junto do Rio Hudson em Nova York. 1960. 
Fotos de Leonard Mccombe e LIFE Archive.


É por constatar essa situação que o senhor manifesta tanto interesse em tratar do poder em seus livros? Para explicá-lo?

Não tenho nenhum interesse em ser vítima ou em escrever sobre vítimas – embora, claro, em algum grau todos sejamos vítimas de uma forma ou de outra em nossa sociedade. A maior parte dos romancistas são vítimas e escrevem sobre vítimas. Não são capazes de entender quem são seus governantes nem quem é a classe dirigente.
E a classe dirigente americana é a mais esperta da história mundial. Os donos dos Estados Unidos são basicamente os mesmos há 200 anos. Alguns nomes mudaram, mas a proporção entre quem é dono e o restante ainda é a mesma.
Assim, o que faço é contar aos leitores quem são essas pessoas que mandam neles. E os leitores ficam fascinados, porque ninguém lhes fala disso na escola, na TV, na ficção popular. Por aí você já pode imaginar como sou popular com o Establishment…

É por isso que o senhor já disse, numa frase famosa – “Sou uma espécie rara: um escritor popular com causas impopulares”? Seriam, claro, causas impopulares junto ao Establishment?

Claro. Impopulares junto à classe dirigente do país, aos donos de jornais, de cadeias de TV, aos controladores dos conselhos de educação responsáveis por determinar o tipo de História americana que deve ou não ser ensinada.
O público normalmente gosta muito de mim – ao menos a parte dele capaz de ler livros. Em 1982, quando concorri a uma indicação para o Senado pela Califórnia, tive meio milhão de votos, e não gastei dinheiro algum. Se eu tivesse decidido ser político, tivesse tempo e fosse mais jovem, poderia arranjar 20 milhões de dólares para uma campanha política.
Então, como um candidato voltado a questões que realmente interessam ao povo, seria possível representar parte da América verdadeira – por exemplo, a América faminta de saber a respeito de Abraham Lincoln. Mas não seria fácil uma candidatura desse tipo arrecadar dinheiro, pois os recursos para a política vêm na maior parte do petróleo, da indústria aeroespacial, do que nós, americanos, chamamos latu sensu de “defesa” – o que, na verdade, quer dizer guerra.

O senhor pelo jeito mantém plenamente sua opinião de que a democracia americana é de faz-de-conta e hipócrita.

Sim, porque temos eleições, mas não política. Não temos política porque não temos partidos políticos. Há nos Estados Unidos um só partido com duas alas – uma se chama [Partido] Democrata, a outra Republicano. Se uma faz burradas demais, então é a vez da outra exercer o poder.
Mas ambos são financiados pelos mesmos grupos. Como resultado, metade do nosso povo não vota nas eleições. As pessoas simplesmente não aparecem para votar – e não se trata de apatia, mas de raiva. Eles sabem que votar em um ou outro não faz a menor diferença.
Além disso, o senhor vive criticando a desinformação do americano médio sobre política…
Vou lhe contar só uma historinha. Quando concorri ao Senado, em 1982, estava em Orange County [região ultraconservadora da Califórnia, perto de Los Angeles], e uma senhora se levantou, dizendo: “Senhor Vidal, tenho duas perguntas. O que eu, como uma dona de casa comum, posso fazer para combater o comunismo? E minha segunda pergunta é: o que é comunismo?” [risos].

Seu interesse pela política começou cedo, quando, praticamente adolescente, o senhor começou a trabalhar com seu avô materno, que era senador. Quanto o fato de sua família ter sempre respirado política o influenciou?

Meu avô [o advogado Thomas Pryor Gore, um dos responsáveis pela transformação do então território de Oklahoma em Estado em 1907 e, apesar de cego desde a infância, senador pelo Estado em quatro mandatos] inventou uma coisa que se chama o Estado de Oklahoma, que representou por 30 anos no Senado, e meu pai [Eugene Luther Vidal, engenheiro e empreendedor, que esteve associado à criação de três grandes companhias aéreas] integrou o primeiro dos três governos do presidente Franklin Roosevelt [1933-1937] como uma espécie de ministro da Aviação.
Acho que cada legislatura no Congresso abrigou pelo menos um membro da família de minha mãe, incluindo o atual senador Gore, do Tennessee, um primo distante. Ele já está se tornando um papabile [referia-se ao senador democrata Al Gore, e seu prognóstico segundo o qual Gore era um papabile – cardeal cotado para suceder o papa – revelou-se acertado: Gore seria vice-presidente na gestão Bill Clinton, entre 1993 e 2001, e candidato à Presidência em 2000, tendo vencido o republicano George W. Bush por mais de meio milhão de votos na votação popular, mas perdendo no Colégio Eleitoral, em eleições sobre as quais pairaram sérias suspeitas de fraude].

«O hoje militante pró-meio ambiente e Nobel da Paz Al Gore: primo de Gore Vidal que seria vice-presidente na gestão Bill Clinton, entre 1993 e 2001, e candidato à Presidência em 2000». Texto e foto de  veja.abril.com.br

Com essa imersão ancestral na política, não deve ser fácil resistir a ser político. O senhor desistiu definitivamente de ter uma carreira política?

Bem, desisti parcialmente já em 1948, quando publiquei A Cidade e o Pilar [romance cujo núcleo central é a amizade com tons homossexuais entre dois jovens que, para um deles, se transforma em obsessão na vida adulta], que causou um bocado de encrenca, embora não de forma terminal.
Falando de forma muito simples, se eu precisasse confessar – como aliás já fiz – que não gosto do cristianismo, isso significaria ter de cara pelo menos 30% dos votos violentamente contra uma candidatura em qualquer eleição. Abraham Lincoln era ateu e meteu-se em encrenca grossa porque descobriram. Aí precisou se fingir de crente.
Thomas Jefferson era ateu. No curso de 700 páginas dos Federalist Papers, as conversas e documentos que remontam a 200 anos atrás, quando se elaborou a Constituição americana, Deus é mencionado só duas vezes. Mesmo assim, nossa política é cercada pela religião de todos os lados.
Os religiosos, sobretudo os fundamentalistas, com seus programas de TV e tudo o mais, levantam bilhões de dólares e os colocam em campanhas contra o aborto e outras do tipo. Isso nos levou a ser privados da verdadeira política. Tudo o que temos são emoções: “Salvem nossas crianças!”, “Salve a vida que ainda não nasceu!”
É tudo bobagem sem nenhuma relação com assuntos de Estado.

Como o senhor se classifica politicamente? O senhor já se disse socialista, mais tarde um “liberal radical”, seja isso o que for.

Essas palavras na verdade não significam nada. Especificamente, sou anti-Império americano. Nós não temos capacidade para isso e cometemos um erro terrível após 1945, tornando-nos um Estado gendarme. A verdade é que os Estados Unidos nunca deixaram de estar em guerra.
Isso destruiu nossa economia, destruiu nossa vida política. Eu gostaria de restaurar a República Americana, esmagar o Império americano e arremessá-lo pela janela. Isso vai acontecer, de toda maneira, porque um dia nós vamos ficar sem dinheiro.
Assim, quaisquer que sejam minhas posições políticas, elas são concretas, práticas. Os americanos em geral não têm ideologia, têm religião. E alguns podem tornar-se maníacos.

Seu envolvimento político, suas posturas políticas e sua obra literária tornaram-no uma celebridade. O quanto ser uma celebridade o afeta?

[Resfolegando enquanto sobe a escada do hotel] Eu diria que sou uma celebridade de terceira geração. Já fui capa da revista Time, meu pai já esteve na capa de Time, meu avô também. Assim, sendo uma celebridade de terceira geração, essas coisas já passam a integrar seu metabolismo.
E se, além disso, você está acostumado a ter uma vida pública, e sua atividade o torna uma pessoa pública, então você se torna mesmo alguém público. A minha atividade me faz e eu sou uma pessoa pública.

O senhor tem medo da morte?

[Enfático] Não! Não se tem medo da morte! Acho que nenhuma das minhas circunvoluções cerebrais jamais temeu a morte. O medo é de morrer aos poucos. É muito desagradável. Há, naturalmente, o medo da dor física. Mas maior ainda é o medo de ficar gagá. De todo modo, a morte nada mais é do que a continuação do que ocorria antes do nascimento.

Para encerrar, voltemos à literatura. Que autores ainda o atraem a percorrer uma livraria?

Não muitos, hoje em dia. Italo Calvino seria meu favorito entre os escritores da última metade do século XX. Costumava ler [o russo de nascimento que passou a escrever em inglês Vladimir] Nabokov com prazer – gostava dele, não tanto quanto ele próprio gostava de si, mas de todo modo gostava. Leio [o britânico] Anthony Burgess – Burgess escreve a meu respeito há vinte anos, e só depois disso escrevi pela primeira vez sobre ele, resenhando suas memórias [Little Wilson and Big God, 1987] para The New York Review of Books. Resolvi dar uma mãozinha para a carreira de Burgess [risos].
Leio também Paul Bowles, James Purdy – Purdy escreve um bocado, eu tento ler. Paul não escreve mais, mas é nosso melhor contista. E Graham Greene, claro, um grande amigo. Participamos certa vez de um evento em Moscou e ele espantou os russos num fim de noite, recitando Thomas Hardy. Eu recitava John Milton. Os russos diziam: “Ah, cultura, cultura…” O que eles não perceberam é que Greene nunca leu Milton e eu nunca li Hardy. De fato, uma vasta cultura [risos]… Dos franceses, não consigo mais pensar em ninguém.

E latino-americanos?

Não quero discutir esse assunto. Caso contrário, teria problemas com editores. Se elogiar um escritor brasileiro, então, cinqüenta outros vão me odiar [risos].


Entrevista de Ricardo Seti a Gore Vidal em 1987, encontrada em veja.abril.com.br




  


 Capas de alguns dos livros escritos por Gore Vidal (1925-2012).


Democracia é o direito de escolher entre o Analgésico A 
e o Analgésico B. Mas ambos são aspirinas.
(Gore Vidal)



segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Terceiro Homem


The Third Man de Carol Reed, 1949


«O Terceiro Homem é um filme americano ou inglês? É um filme de Carol Reed, de David O. Selznick ou de Orson Welles?» 
(João Bénard da Costa)


Carol Reed discutindo ? com Orson Welles em Viena durante 
as filmagens de O Terceiro Homem (The Third Man, 1949).

Texto de João Bénard da Costa escrito para o dicionário do Catálogo de Cinema 
Inglês (1933-1983), sobre Carol Reed e fotos da LIFE Archive. Clique para ler.

Carol Reed ouvindo Anton Karas tocar cítara, 1950.

Anton Karas.


Texto de 
João Bénard da Costa sobre O Terceiro Homem
(The Third Man), 1949 de Carol Reed


O Terceiro Homem é um filme americano ou inglês? É um filme de Carol Reed, de David O. Selznick ou de Orson Welles?

Ambas as perguntas têm resposta na ficha técnica mas ambas têm razão de ser, para além dela. Baseado numa história original de um dos maiores escritores ingleses do Século XX (Graham Greene), realizado por um inglês (Carol Reed) e oficialmente produção britânica (Korda) o filme só tem no cast três actores ingleses (Trevor Howard, Bernard Lee e Wilfrid Hyde-White, todos em papéis secundários), é protagonizado por dois célebres actores americanos (Welles e Cotten) e por uma italiana, à época em Hollywood (ALIDA VALLI) e traz a inconfundível marca que David O. Selznick imprimiu a tudo quanto produziu. Além disso, é claríssima a sua dependência e filiação em obras e géneros do final dos forties na América, aproximando-se mais dos códigos de Hollywood do que dos de Londres (embora, como adiante desenvolverei, com as notas peculiaríssimas do argumento de Greene).

Depois, houve e há uma lenda sobre o verdadeiro papel de Orson Welles nesta história. Foi só o intérprete genial de Harry Lime (personagem profundamente wellesiano) ou co-dirigiu o filme (pelo menos na parte que lhe tocava) de parceria com Carol Reed? Interrogado por Bazin, Bitsch e Domarchi numa célebre entrevista publicada nos “Cahiers du Cinéma” em 1958 (nº 87), Orson Welles admitiu que tinha tido no filme uma intervenção maior do que em Journey Into Fear (1943) (que figura em todas as filmografias, como obra sua), mas fugiu a mais pormenores “porque a questão era delicada”. “Tudo o que posso dizer é que escrevi inteiramente o papel de Harry Lime, tudo o que diz respeito a esse personagem (...) Harry Lime faz evidentemente parte da minha obra. É, de resto um personagem shakespeareano. É um parente próximo do bastardo do King John”. Quanto à realização, é mais vago: “tudo depende de quem toma as iniciativas. E não quero dar-me ares de pretender ter substituído Carol Reed que é incontestavelmente, um realizador competentíssimo, e que se parece comigo num aspecto: quando alguma coisa acontece no ‘plateau’, quando alguém tem uma ‘trouvaille’, Reed apaga-se diante do autor dessa ideia nova (...) Mas é muito delicado, para mim, falar desse filme: fui discretíssimo e não gostava nada agora de ...”.

Apesar destas meias-palavras (que efectivamente não são meias-palavras), Reed saiu logo à estacada, dizendo que se se parecia com Orson Welles nalguma coisa não era certamente no “exibicionismo” que este mais uma vez, patenteava. E reagiu fortemente à insinuação (também contida nessa entrevista) que a sequência da Grande Roda tivesse sido rodada por Welles. Graham Greene apoiou-o: o personagem de Harry Lime era dele (Greene) e Welles limitou-se a compô-lo como queria, acrescentando-lhe algumas frases (a famosa tirada sobre os relógios de cuco suíços que, de resto, Welles diz ter sido tirada de uma peça húngara).

A questão mantém-se assim um tanto ou quanto misteriosa, embora pareça líquido que Welles tenha tido uma forte influência em muitos momentos do filme, bastante “wellesianos”, desde a sua famosa “entrada” no filme na soleira da porta, descoberto pelo gato que só gostava dele, ao plano do homem dos balões, desde o diálogo da Grande Roda até alguns private jokes com Cotten (seu actor nos Citizen Kane, Ambersons, em Journey Into Fear) quando este se compara (e é comparado) a um dumb duck (cara de pato já lhe chamara George Amberson no filme dessa família).

No entanto, quando se vê Welles nas grandes angulares, nas perspectivas distorcidas, nos enquadramentos oblíquos, no uso e abuso dos grandes planos insólitos, na profundidade de campo, estamos provavelmente a ser induzidos em erro. Tudo isso já existe no interior de outro filme de Reed, Odd Man Out (46), e tem a inconfundível marca do operador Robert Krasker, outro homem que imprimiu carácter em tudo quanto fez. Era uma conversa que levaria longe e por isso me limito a deixar esboçada: Krasker, como Toland, são herdeiros directos da “escola alemã” dos anos 20 e muitos processos que a crítica francesa dos anos 50 filiou em Welles, Wyler, etc (o chamado “cinema da transparência”) tem origens mais remotas e mais complexas, a que tais grandes operadores estão muito longe de ser alheios.

Por outro lado ainda, este filme pelo menos “internacional” (muitos actores austríacos, música do austríaco Karas, desconhecido que, graças a ele, se tornou célebre e ganhou rios de dinheiro), filmado em Viena, evocara irresistivelmente muitos fantasmas nos Kordas, oriundos do império austro-húngaro. A portentosa direcção artística de Vincent Korda (que cada vez mais me parece um dos elementos capitais do filme) é obviamente a dum homem dependente da cultura centro-europeia e que conhecia Viena como as suas mãos.

Se me demorei tanto nestes aspectos, é porque este carácter híbrido do filme, esta mescla de contribuições variadas (de Reed a Welles, de Selznick a Alexander Korda, de actores de tão diversas escolas, de Krasker a Vincent Korda), em vez de desequilibrarem a obra lhe conferem grande parte do seu fascínio e do seu acerto com o décor. Na cidade de 4 zonas é um filme de 4 zonas (austro-húngaro, alemão, americano e inglês) que logo desde o princípio (jogo de plongés e contra-plongés quando Cotten sabe, pelo porteiro, da morte de Harry Lime) anda “para cima e para baixo”, no milagre do acerto dessas diversas direcções estilísticas. Por isso, O Terceiro Homem é, mesmo, no plano da história do cinema, um filme tão fascinante, de certo modo um caso único.

Mas se o espectacular êxito que a obra obteve (melhor filme inglês de 1949; top money maker do mesmo ano) se deve ao concurso de tão magistrais e diversas colaborações, deve-se também, e em não pequena parte, ao portentoso argumento de Graham Greene, a nota mais britânica desta obra.

Há uns bons trinta anos, o grande historiador Marc Ferro esteve em Lisboa e apresentou o filme na Gulbenkian, enquadrado no tema “Cinema e História”. Desenvolveu a ideia de que O Terceiro Homem era, de modo extremamente inteligente e elíptico, o primeiro filme característico da ideologia da “guerra fria”, servindo habilmente, através de apontamentos narrativos, a atitude ocidental face ao ex-aliado, nesses anos já mais do que potencial inimigo. Se tudo isso é inegavelmente verdade (Harry Lime é “o homem da zona russa”, ALIDA VALLI tenta escapar a um repatriamento para a Checoslováquia, depois do “golpe de Praga”, os vários ocupantes são perfeitamente tipificados, com a suprema ilustração na sequência da prisão de ALIDA VALLI, com a “frase perfeita” nas bocas do francês, do inglês, do americano e russo) também é verdade que o americano deste filme (“Holly Martins, que nome!”) é já o precursor do “americano tranquilo” do mesmo Greene, “The Lone Rider of Santa Fe”. “Oklahoma Kid” vindo do oeste para uma história de leste, num desfasamento ironicamente sublinhado pelo argumento. O americano não só não percebe nada, como é vítima dos vários fogos que sobre ele se abatem: Harry Lime que o chamou a Viena, Galloway que o utiliza como “peão das nicas” (puxando-lhe pela corda ética), os sinistros austríacos e até esse espantoso personagem de Hyde-White que o conduz à inesquecível e hitchcockiana sequência da conferência. Perdido no mundo da cultura (com os equívocos a que se prestava a sua profissão de escritor) quem jamais ouviu o nome de James Joyce, quem sempre trocou Winkel por “Uinkel”, está também perdido no mundo daquela cultura e nada entende dos valores que estão em causa. É “Mr. Martins from the other side”. A espantosa personagem de ALIDA VALLI (então no seu máximo esplendor) existe para fazer ressaltar que a ética linear de Cotten é tão, ou mais, repugnante do que a amoralidade de Orson Welles. Pensando friamente, Cotten é um personagem sinistro, ou, como ALIDA VALLI lhe diz, “há um nome para pessoas como você”. E Cotten bem merece aquela sequência final do cemitério, quando fica na profundidade de campo ao lado do único personagem grande do filme: ALIDA VALLI, que avança para a câmara, sem ter sequer um olhar para o homem que foi capaz de matar o melhor amigo (e por causa de quem - suprema astúcia do argumento - morreu também o único homem que o admirava, o sargento, seu fiel leitor).

O Terceiro Homem é um filme que começa e acaba num cemitério e que tem a sequência decisiva nos esgotos. Nada disso acontece, evidentemente, por acaso: na “cidade em ruínas” (historicamente em 1949, o destino de Viena era assaz incerto), são os mortos que reinam, quer os falsos quer os verdadeiros, quer os que como máscaras de morte se assumem (o barão, o médico, o romeno, o porteiro) e a merda substitui as valsas, num Danúbio bem pouco azul. Todos estão atolados nela, à excepção de VALLI, único personagem capital no filme que não desce aos abismos (esgotos) e se recusa a ser moeda de troca, mesmo quando se sabe supremamente enganada por Harry Lime. Traição por traição antes a do homem que amara do que a de Cotten, antes cair às mãos dos russos do que aceitar a protecção de Howard.

No fundo, ALIDA VALLI escolhe contra a liberdade, pela qual não está disposta a pagar qualquer preço.

Neste sentido, a ambiguidade do O Terceiro Homem é enorme. Porque se no filme se perfilam (ou se declaram) as inquietantes sombras do terror totalitário, se a obra é, ideologicamente, uma obra de propaganda anti-soviética, nenhuma complacência existe para o terceiro homem que, metaforicamente, é muito mais Cotten do que Welles. E este, na dimensão estética e shakespeariana que confere ao personagem, desequilibrou ainda mais os pratos da balança. Na Grande Roda, o extremo individualismo de Cotten não ganha aos “pontos negros” que lá de cima Welles lhe aponta.

Porque também chegou o dia em que Cotten teve que decidir suprimir um desses “pontos negros” que era o seu melhor amigo e o amante da mulher por quem, impotentemente, se apaixonou e que uma noite lhe dedicou uma belíssima lágrima.

O Terceiro Homem é ainda um filme que, historicamente, faz a transição de duas éticas e duas ordens do imaginário: a dos grandes filmes, à Selznick, dos forties e a dos grandes filmes amargos e desesperados dos fifties. Filme ainda romântico, filme já decadente, é, na sua magistral estrutura narrativa e na sua insólita disparidade formal, um monumento erguido à glória dum décor: jamais Viena foi tão onírica e tão letal como em The Third Man. Ao som da cítara, fica-nos a cicuta. Só que já nenhum justo morre dela.

Por tudo isto, em 1949 como agora, The Third Man se vê com o mesmo fascínio e apesar do seu datado formalismo (ou por causa dele?) não envelheceu uma ruga.

João Bénard da Costa
Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema
In, www.cineclubeguimaraes.org7filme.php?id=2790



(Fotos LIFE Archive)