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terça-feira, 9 de abril de 2013

Cara, decote e voz

Volto a publicar este post de 2012, agora que soube 
pelos jornais que a grande Sara Montiel nos deixou.

SARA MONTIEL

ou Sarita Montiel


Coisas boas em jornais

Texto de
Manuel S. Fonseca
Expresso, 21-03-1992


TINHA truques. Na Cinemateca, numa das maiores apoteoses com que o público de Lisboa brindou uma estrela convidada, Sara Montiel, 64 anos, muito pouco vestida, e toda em rosa, num estilo que Almodóvar copia em «mui-to-po-bre», contou um dos seus truques favoritos. Filmava com Gary Coper. A cena era iluminada por um gigantesco projector de arco. Os olhos de Cooper eram só um traço, incapazes de se abrirem, tão violenta era a luz. Sara, pelo contrário, lá estava de olho arregalado. Cooper quis saber como é que ela conseguia. «Tenho um truque», disse ela. «Diz-me qual é», pediu-lhe o galã. «Não é de dizer, é de fazer», explicou ela, levando-o para um canto. Puxou de um frasquinho e deitou umas gotas em cada um dos olhos de Gary Cooper. «Anestésico», segredou Sarita a um Cooper que, durante quatro horas, passou a ter faróis em lugar de olhos.


«Na Cinemateca, numa das maiores apoteoses com que o público de Lisboa 
brindou uma estrela convidada, Sara Montiel, 64 anos, muito pouco vestida» 
Foto copiada do Expresso.

A carreira de Sara Montiel deve-se começar a ver pelo meio. Os primeiros anos foram, com efeito, anos de chover no molhado, filmando para poder continuar a levar o pão à boca. De Ti Quiero Para Mi (1944), a sua estreia aos 16 anos de idade, até Pequñeces (1950), nem ela pareceu interessar a câmara, nem os espectadores viram nela, e no que dela se podia ver, motivos para sobressalto.
Essa primeira fase espanhola já estaria esquecida e enterrada, se o caso de popularidade de Sanita não tivesse explodido, inopinadamente, na fase que se iniciou com El Ultimo Cuplé. Maltratada e mal paga, Sarita Montiel deixou, em 1950, a ingrata, espúria e mesquinha Espanha, procurando emprego e papéis mais adequados no então florescente cinema mexicano. Começou com Necessito Dinero e acabou com Yo no Creo en los Hombres, passando por Cárcel de Mujeres, títulos suficientemente sugestivos para descrever o tipo de ficção populista e as personagens primárias que incarnou.

Capa da «plaquete», editada pela Cinemateca em homenagem a Sara Montiel em 1992.

Foi por esses anos, de 50 a 54, que a sua presença começou a ganhar na tela parte das qualidades eróticas que seriam trampolim para a fama ibérica e latino-americana, qualidades que entretanto pode exercitar em Hollywood, primeiro no conhecido Vera Cruz, de Robert Aldrich, ao lado de Burt Lancaster e Gary Cooper, e logo a seguir em Serenade, de Anthony Mann (com o qual se casou), e em Run of The Arrow, de Samuel Fuller. O sol da Califórnia foi, todavia, de pouca dura.
Em Espanha lembraram-se, então, dela, convidando-a, em 1957, para um filme que ninguém queria fazer e muito menos alguém queria pagar. O que ninguém adivinhava é que a carreira de Sarita Montiel estava, nesse momento, naquele ponto exacto onde repousa toda a virtude, a meio. E ainda menos poderiam adivinhar que esse filme, El Último Cuplé, parecendo ser durante a rodagem quase uma humilhação para quem o fazia, se iria converter no maior sucesso popular do cinema espanhol, obrigando a apreciar a nova luz tudo o que Sarita tinha feito para trás e, sobretudo, criando expectativas para tudo o que a actriz iria fazer daí em diante.



Sara Montiel cantando Quizàs, Quizàs, Quizàs no filme 
Noches de Casablanca (1963) com Maurice Ronet.


Cara, decote e voz foram os três vértices do sucesso de Sarita, por obra e graça de El Ultimo Cuplé, convertida em avatar do erotismo ibero-americano, para uso de quarentões a cauterizar casamentos no mínimo enfadonhos. La Violetera, Carmen la de Ronda, Mi Ultimo Tango e La Reina del Chantecler tornaram-na, no final dos anos 50 e no começo da década de 60, objecto de devoção e de peregrinação das classes mais desfavorecidas, nas tintas para os dramas ideológicos ou de acção social que a sociedade espanhola politizada vivia. Hoje, seja como fenómeno «camp» seja por recuperação cinéfila, mais ou menos historicista, Sara, a bela Sara, voltou a despertar as velhas «loucuras de amor». «Esa mujer»!

Manuel S. Fonseca
Expresso, 21-03-1992



Excerto da entrevista do Expresso a Sara Montiel, pouco 

antes da homenagem da Cinemateca Portuguesa em 1992.



EXPRESSO — Sempre proclamou em público as suas ideias políticas de esquerda?
SARA MONTIEL — Nunca fui muito dada a provocações gratuitas. Mas recordo que no princípio dos anos 60, com Franco ainda bem vivo, Manuel Vazquez Montalbán fez-me uma entrevista que quase nos levou  à prisão! Tivemos então sérios problemas, só porque eu havia manifestado ideias e preocupações simplesmente liberais! De todos os modos, nunca me considerei uma mulher política. Aliás, voto socialista, mas nunca tive nem terei o «carnet» do PSOE.
EXPRESSO — Como grande vedeta espanhola e universal, terá sido recebida ou convidada alguma vez pelo general Franco?
SARA MONTIEL — Uma só vez e chegou! Foi durante um encontro colectivo de artistas, numa daquelas sinistras festas-recepções do regime franquista. Não troquei uma única palavra com o ditador, somente um frio aperto de mão. De qualquer maneira, era um regime que não tinha nada a ver com o mundo da cultura e do espectáculo — um mundo que, segundo Franco, só podia estar «infectado» de intelectuais liberais e progressistas, ou seja, de «comunistas». Sinto-me feliz por ter assistido à morte desse regime e por viver enfim numa Espanha democrática.
EXPRESSO — Até que ponto se identifica com a Espanha folclórica, a Espanha de Carmen, simbolizada de algum modo por Lola Flores?
SARA MONTIEL — Se tenho inveja de alguém, esse alguém é Lola Flores! E um autêntico monumento nacional, um, exemplo único, inimitável. Ninguém lhe chega aos calcanhares! A Pantoja? Essa não serviria sequer para lhe limpar os sapatos! São artistas como Lola Flores que fazem a grandeza de um país como Espanha, com uma personalidade forte e ímpar, o que não impede que seja também um país moderno, dinâmico e com uma boa imagem no exterior. Pretender que Lola Flores dá uma imagem negativa de Espanha é uma estupidez.
EXPRESSO — Como recebeu a notícia da homenagem da Cinemateca Portuguesa à filmografia de Sara Montiel?
SARA MONTIEL — Com uma grande alegria. Com o meu marido Pepe Tous e com os realizadores do meu programa «Ven al Paralelo» na TVE2, procurámos logo conciliar as datas das gravações e dos ensaios com uma viagem a Lisboa, uma cidade pela qual tenho uma paixão particular. Sempre mantive uma estreita e secreta relação com Portugal, uma relação «underground». Não tive, infelizmente, grandes contactos com os meios artísticos portugueses, mas quando oiço Amália Rodrigues cantar o fado estremeço dos pés à cabeça!

Entrevista de José Alves em Madrid
Expresso Março 1992


Destaque na Visão, num trabalho sobre o cinema espanhol.



terça-feira, 5 de março de 2013

O amante de Laura


Dana Andrews e o retrato de Laura.
Foto de avaxhome.ws

Gene Tierney e Dana Andrews (colorizados) em "Laura" de Otto Preminger. 1944.
Foto de www.fabuloushollywoodmemories.com


O amante  de Laura
Texto de
Manuel Cintra Ferreira
Expresso,  24  Dezembro  1992


Coisas boas em jornais

MESMO que outro papel não tivesse feito, bastava-lhe ter sido o apaixonado de Laura para Dana Andrews (...), ter garantido o lugar no panteão dos mitos de Hollywood. Paixão, primeiro, por uma imagem (o retrato), depois pela sombra (que se delineia em contraluz), depois pelo corpo. Querem evolução mais cinéfila? É esta  imagem, mais do que a da sua dependência do álcool, que fica na memória dos que acompanharam a sua carreira. Porque Andrews, não foi apenas o «amante de Laura». Começou como secundário, enfrentando Gary Cooper em A Última Fronteira,  de William Wyler, e percorreu as planícies do Oeste ao «lado» de Kit  Carson (As Aventuras de Kit Carson). Ao lado de Belle Starr  (A Lenda da Raposa Vermelha) tem o primeiro encontro com Gene Tierney, com quem formará um par mítico do cinema em Laura e O castigo da Justiça. Se não alcançou um estatuto de primeira grandeza, teve, porém, uma filmografia invejável. Alguns dos melhores realizadores americanos souberam explorar o seu rosto singular e pétreo, que parecia não deixar ver as emoções, mas de onde ressaltava, com frequência uma espécie de turbação inquietante. Que se julgue pela lista : Jacques Tourneur (Amor Selvagem, Noite do Demónio, Os Fabricantes do Medo), Renoir (Águas  Sombrias), Ford (A Estrada do Tabaco), Wellman (Consciências Mortas), Wyler (Os Melhores Anos da Nossa Vida), Preminger (Laura, O Castigo da Justiça, Anjo ou Demónio, Entre o Amor e o Pecado) e, «last but not least», Elia Kazan (Crime sem Castigo e o seu último filme importante, O Grande Magnate). Uma lista de fazer inveja a vedetas mais famosas.

Manuel Cintra Ferreira
Expresso,  24  Dezembro  1992


Dana Andrews (1909-1992). Califórnia. 1944. John Florea.
Foto de LIFE Archive

 Gene Tierney (1920-1991) é a Laura de Preminger.
Foto de ocinema.blogs.sapo.pt

Em 1983, encontro de Dana Andrews, Gene Tierney e Vincent Price em Hollywood.
Foto de greggorysshocktheater.tumblr.com



terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Ingrid Bergman

"Felicidade é ter uma boa 

saúde e uma péssima memória"


“Existem apenas uns sete astros de cinema, cujo nome, sozinho, faz com que banqueiros americanos emprestem dinheiro para a produção de filmes, e a única mulher na lista é Ingrid Bergman”. (Cary Grant, anos 40)


Ingrid Bergman durante as filmagens de Elena et les hommes (Helena e os Homens, 1956) de Jean Renoir. 1956. Thomas D. Mcavoy.

«Ingrid Bergman (1915-1982) foi uma grande actriz sueca, senhora de uma beleza extraordinária, que na época em que o cinema de Hollywood ainda criava e se alimentava de mitos e de divas, ela — mesmo contra todas as evidências iniciais — tornou-se uma das maiores de sempre. Mas a carreira de Ingrid Bergman em Hollywood está pontilhada de atitudes firmes e paixões tórridas.


Ingrid Bergman olhando para o que tinha de vestir no filme Joana d'Arc (Joana d'Arc, 1948) de Victor Fleming. 1947. Allan Grant.

Um exemplo é a forma como ela se transferiu do cinema sueco para o de Hollywood. Otto Friedrich conta, em "Hollywood nos Anos 40", que David Selznick tomou conhecimento da existência de Ingrid por um ascensorista sueco que trabalhava no prédio onde funcionavam os escritórios de Kay Brown, representante do produtor em Nova York. O ascensorista contara à mulher de Brown que seus pais tinham ficado comovidos com um novo filme sueco, Intermezzo, e em especial com a heroína, uma jovem de 21. Kay Brown foi ver o filme e relatou ao patrão que a jovem actriz era "tudo o que havia de melhor". Selznick estava acostumado com os entusiasmos dela (foi a senhorita Brown quem insistiu em vão para que ele comprasse os direitos de Gone with the Wind (E Tudo o Vento Levou)). Disse-lhe que comprasse a história, não a moça. Ela comprou as duas, conta Friedrich. 


 Ingrid Bergman e Gary Cooper durante a rodagem do filme Saratoga Trunk (1945) de Sam Wood. 1943. John Florea.

Ingrid Bergman com Fernandel durante as filmagens de Elena et les hommes (1956) de Jean Renoir. 1956. Thomas D. Mcavoy.

Quando recebeu Ingrid pela primeira vez, Selznick iniciou um desfiar de insatisfações. Primeiro, implicou com a altura da actriz. "Meu Deus! Tire os sapatos!", lamentou-se ele, ao que ela retrucou que não iria adiantar nada, já que, com ou sem sapatos, media 1,73 metro. Depois, Selznick não gostou do nome e do sobrenome da nova contratada. Ingrid era uma coisa muito sueca, ou, pior ainda, com sabor muito germânico para uma época pré-guerra. Sugeriu que "Berriman" talvez fosse um bom nome. Ou que, embora seu nome de casada, Lindstrom, não servisse, talvez "Lindbergh" fosse uma boa escolha. A senhorita Bergman resistiu a tudo isso. Disse que o nome dela era Ingrid Bergman, e quem não soubesse pronunciá-lo que aprendesse. Selznick não se deu por vencido "Bem, discutiremos isso pela manhã. Mas, quanto a essa maquilhagem, as sobrancelhas estão muito grossas, os dentes não são bons e há muitas outras coisas para eu ver. Levarei você amanhã ao departamento de maquilhagem e veremos o que podemos fazer..." A resposta da senhorita Bergman foi exemplar. "Prefiro não fazer o filme", disse a Selznick, enquanto este ponderava. "Não vamos falar mais do assunto. Não há nenhum problema. Tomo o próximo trem e volto para casa." Selznick ficou impressionado, achou graça ou qualquer outra coisa. O fato é que decidiu transformar a intransigência da senhorita Bergman em promoção dele próprio. "Você será a primeira actriz "natural", disse a ela. "Nada vai ser modificado em você. Nenhuma alteração", conta Friedrich.


 Ingrid Bergman como Maria no filme For Whom the Bell Tolls (Por Quem os Sinos Dobram, 1943) de Sam Wood. 1944. John Florea. E, como Karin em Stromboli (Stromboli, 1950) de Roberto Rosselini. 1949. Gordon Parks.


Ingrid Bergman nasceu no dia 29 de agosto de 1915 na capital sueca, Estocolmo. Classificada por muitos como a maior estrela do cinema americano, tem sua marca na Calçada da Fama, assim como tantos outros artistas da época. Aos dois anos de idade perdeu sua mãe, e passou a viver somente com o pai, o qual lhe inspirou o gosto pela arte por ser fotógrafo. Infelizmente, quando Ingrid estava com 13 anos sofreu a perda do pai. Após esse marcante episódio, viu-se obrigada a morar com a tia , e como se não bastasse as tragédias anteriores, viu a tia falecer por complicações cardíacas. Em seguida, mudou-se para casa de outra tia com a qual viveu algum tempo. Depois de entrar numa escola de Arte Dramática, estreou no cinema participando de nove filmes suecos. A partir daí, Ingrid sabia que seu futuro poderia ser muito promissor. Em 1939 foi para Hollywood e alcançou o auge participando do filme "Intermezzo", que já tinha feito na Suécia. Seu talento recebeu o reconhecimento do público e dos críticos que a contemplaram com o Óscar. 


 Ingrid Bergman em foto de estúdio e com dois dos filhos (fotos sem data ou local). Gordon Parks.


Porém , o que poucos sabiam é que, apesar de não lhe render o Óscar, seu papel mais marcante nas telas seria viver a personagem Ilsa no filme Casablanca em 1942 ao lado de Humphrey Bogart. Posteriormente apaixonou-se por Roberto Rossellini, o que na época caiu como uma bomba em Hollywood, pois ambos eram casados. Como consequência do escândalo Ingrid ficou anos sem aparecer no cinema americano. De seu casamento com Rossellini teve três filhas. Depois de 8 anos casada, divorciou-se novamente e casou-se com Lars Schimidt, porém não demorou muito para que tudo acabasse como os outros casamentos. Sua saúde já demonstrava sinais de debilitações devido a sua luta contra o cancro de mama, porém Ingrid mesmo em tratamento recusava-se a abandonar as bebidas e o cigarro, consequentemente no dia de seu 67º aniversário a doença foi mais forte do que a sua vontade de viver.»


Casablanca (1942)





«(...) Todo mundo em Casablanca estava profundamente infeliz. Humphrey Bogart, além de irritado por estar sendo obrigado a uma vez mais substituir George Raft em um papel que este havia recusado, enfrentava a ira de sua mulher na época, que o acusava de estar cortejando Ingrid Bergman e ameaçava matá-lo (comenta-se que foi essa a raiva mal contida que conferiu aquela mordacidade à sua interpretação, que proporcionou o desprezo sarcástico de algumas das falas do filme que ele tornou famosas). Já Ingrid Bergman preocupava-se com o fato de que ninguém parecia saber como o filme iria terminar. Afinal, ela ficaria com Rick ou viajaria com Lazlo? Se ninguém dizia isso a ela, como ia saber por quem estava realmente apaixonada?" Apenas interprete, bem... um meio termo", disse Curtiz. Anos mais tarde, Ingrid desabafou. "Era ridículo, horrível. (...) Todos os dias filmávamos de improviso. Todo dia nos entregavam diálogos e tentávamos pôr algum sentido naquilo. Ninguém sabia o rumo do filme." O curioso é que essa hesitação dos produtores, em relação ao destino da heroína do filme, num paradoxo, ajudou a interpretação da actriz, como ela reconheceu 30 anos depois: 
— Durante as filmagens, cheguei a me irritar. Queria saber com qual dos dois homens (Bogart ou Paul Henreid) eu ficaria. Um dia, pressionei o Curtiz: afinal, com quem vou ficar no fim do filme? Preciso passar isso à plateia. Mas ele também não sabia, e pediu que eu fosse levando a coisa de forma ambígua. Hoje percebo que o fato de eu estar indefinida em relação ao rumo da interpretação, reflectia a realidade da personagem que, na história, também está confusa sobre o seu destino. A minha dúvida de actriz, assim, se reflectiu de forma muito verdadeira no carácter da personagem.
Numa festa, no British Film Institute (que promovia uma sessão especial com trezentos convidados especiais do mundo inteiro, para comemorar o 30º aniversário de Casablanca), Ingrid Bergmann estava presente como convidada de honra. Logo depois do avião para Lisboa levantar voo, as luzes da sala se acenderam, Ingrid Bergmann subiu ao palco e, diante do microfone, ainda emocionada, ficou alguns segundos em silêncio. Por fim deixou escapar: 
— Vocês viram? Que filme bom! Risos comovidos da plateia e uma estrondosa salva de palmas pela frase espontânea e verdadeira. 
— Fazia mais de 25 anos que eu não assistia ao filme inteiro, como um espectador, que senta e presta atenção do princípio ao fim — explicou ela. — Assim, foi emocionante. E, tantos anos depois, percebi como o filme foi bem feito. A acção é intensa, o espectador não se distrai nunca. Esta, na minha opinião, é a razão principal do sucesso perene do filme. Pode ser que a infelicidade de todo o elenco tenha sido o que fez de Casablanca um sucesso. É Otto Friedrich que conta : "A incerteza de Ingrid Bergman em relação a qual dos dois heróis devia amar não era um problema, como pensava, mas sim o aspecto essencial da personagem que interpretava. E sua ansiedade quanto à possibilidade de fazer Maria em For Whom the Bell Tolls — para o qual tinham destinado, logo quem, Vera Zorina, a ajudou a retratar Ilsa com aquele ar maravilhosamente nostálgico. Quanto a Paul Henreid, que se queixava de que nenhum líder da Resistência desfilaria na Casablanca de Vichy de terno branco, saiu-se bem exactamente em função da espiritualidade ligeiramente pretensiosa implícita no tal terno branco. Até Max Steiner, encarregado de compor a música do filme, estava infeliz. Odiava As time goes by." Por sinal (talvez felizmente), Casablanca chegou ao final mais ou menos dentro do mesmo espírito. Era tanta a indecisão em relação ao final que os produtores decidiram filmar as duas possibilidades. "Iam filmar dois finais" — conta Ingrid — "porque não conseguiam decidir se eu ia viajar com meu marido ou ficar com Humphrey Bogart. Então, a primeira versão que filmamos foi aquela em que me despeço de Humphrey Bogart e sigo com Paul Henreid. E todos disseram: 'Pronto! É isso aí! Não precisamos do outro final'." 
— Tudo foi tão improvisado que acabou sendo uma surpresa para todos quando ganhamos o Óscar de melhor filme. Nunca se sabia exactamente o que seria filmado no dia seguinte — contou Ingrid Bergmann na noite do 30º aniversário do filme, em 1972, em Londres. — Havia só um esqueleto, um plano geral da película. O roteiro era refeito quase todos os dias. O diretor Michael Curtiz tinha discussões frequentes com os produtores, pois até ele tinha dúvidas sobre o que seria o filme exactamente. Pelo menos uma das dúvidas da filmagem cruzaria as décadas seguintes e ainda hoje persiste: Ilsa Lund (Ingrid Bergman) deveria ficar no final com Rick (Bogart) ou com Laszlo (Paul Henreid)? 
— Só na ultima semana de filmagens ficou decidido que eu viajaria com Laszlo, deixando Rick em Casablanca — revelou Ingrid Bergmann. — Chegamos até a filmar um final em que Laszlo viajava sozinho e eu ficava com o Rick... Não teria sido um final melhor? — perguntamos todos nós até hoje. — Não creio. Acho que elegeram o melhor. Se Laszlo tivesse embarcado sozinho, seria decepcionante. — respondeu Ingrid Bergmann, convicta. Mas nós outros sabemos que Ilsa Lund não tinha essa certeza toda, e embarcou de coração partido. 
(textos: allclassics.blogspot.com e www.ocaixote.com.br)




(fotos LIFE Archive)


terça-feira, 29 de novembro de 2011

King Vidor em Lisboa

King Vidor.

Uma possível explicação?


"Eu tenho três filhas. Durante a guerra, em 1940, as duas últimas filhas estavam vivendo com sua mãe em Biarritz. Eu fui lá e aluguei um quarto em um hotel. Veja, Eleanor e eu tínhamos nos divorciado em 1932. Eu queria muito as minhas filhas e fiquei lá, embora decorresse a guerra. Mas, um dia quando elas estavam da escola, eu peguei nelas e nós fugimos, deixamos tudo, fugimos para a Espanha, e depois para os Estados Unidos." 
(De gravações de Catherine Berge, King Vidor: A Tribute)

King Vidor esteve hospedado no Hotel Aviz em 1940


King Wallis Vidor (1894-1982) foi um cineasta americano de ascendência húngara. A carreira no cinema de King Vidor começou na adolescência, como projecionista num teatro de Galveston. Fez um filme amador baseado no furacão de 1900, e em 1915 abriu em Houston sua primeira companhia, a Hotex, cujo vice-presidente seria seu pai. Depois de alguns filmes amadores, aos 21 anos King mudou-se para Hollywood decidido a aprender mais sobre a arte do cinema. Em Hollywood, sua carreira foi dos primeiros filmes mudos à "idade do ouro", e é considerado um dos maiores realizadores de sempre.
Fez vários filmes que dignificavam os pobres e expunham o racismo e os horrores da guerra, como The Big Parade (1925), Our Daily Bread (1934), The Texas Rangers (1936), Northwest Passage (1940), e The Fountainhead (1951). Embora Vidor seja provavelmente lembrado por sua colaboração com Selznick, que resultou em alguns dos maiores filmes da história, ele fez mais filmes com a MGM, que produziu sua primeira obra consagrada — The Big Parade, em 1925, que foi exaltada pela crítica como um pungente filme antiguerra, e Our Daily Bread obteve um prêmio da Liga das Nações por sua "contribuição à humanidade". (fonte:Wikipédia)

King Vidor  e Gary Cooper durante as filmagens de The Fountainhead 1949. 


"Eu acho que cada um de nós sabe que a sua maior tarefa na Terra é fazer alguma contribuição, ainda que pequena, para a marcha inexorável do progresso humano. O caminho do homem, a meu ver, não vai desde o berço até o túmulo, mas do animal ou o físico ao espiritual. O avião, a bomba atómica, o rádio, radar, a televisão é a prova da existência de uma unidade para superar as limitações físicas para a liberdade de espírito." (King Vidor)



(fotos de kingvidor.com e hollywoodhistoricphotos.com)


sábado, 3 de setembro de 2011

Actores e Realizadores


Harpo Marx e Danny Kaye em um show de caridade organizado por estrelas de Hollywood com o 
Ringling Brothers Barnum e o Bailey Circus em beneficio do Hospital St. John, em Hollywood. 1948.

Buster Keaton e Gary Cooper em um show de caridade organizado por estrelas de Hollywood com o Ringling Brothers Barnum e o Bailey Circus em beneficio do Hospital St. John, em Hollywood. 1948.

Buster Keaton num filme para TV, The Silent Partner em 1955.

Carole Lombard "dirigindo" Alfred Hitchcock em Mr. & Mrs. Smith, 1941.

Carole Lombard "dirigindo" Alfred Hitchcock em Mr. & Mrs. Smith, 1941.

Douglas Fairbanks segurando Charlie Chaplin em Manhattan, 1918.

Audrey Hepburn e Grace Kelly esperando nos bastidores do 
Theatre RKO Pantages, durante a entrega dos Óscar's em 1956.

Clark Gable, Cary Grant, Bob Hope e David Niven dando gargalhadas 
juntos durante um intervalo dos ensaios para a entrega dos Òscar's em 1958.



(fotos LIFE Archive)