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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A Cigana Búlgara

de
Luis Fernando Veríssimo


A família era tão grande que, quando contaram ao dr. Parreira que seu sobrinho Geraldo tinha viajado para a Europa, ele precisou ser lembrado: qual dos sobrinhos era, mesmo, o Geraldo?
― O Geraldinho da Nena. Largou tudo e foi para a Europa.
O dr. Parreira sorriu. Desde pequeno o Geraldinho, filho único de mãe devotada e pai rico, fazia tudo o que queria. Lembrava-se dele criança, comendo espaguete com as mãos e limpando as mãos na toalha. E a Nena, mãe de Geraldinho, como se não fosse com ela. O dr. Parreira ainda chamara a atenção da irmã: ― Olhe o que seu filho está fazendo. ― Deixa o coitadinho se divertir. Na adolescência, Geraldinho se metera em algumas encrencas. Uma vez até tinham recorrido ao dr. Parreira, o tio mais velho e mais bem relacionado, para livrá-lo do castigo. Uma aventura amorosa que acabara mal. Mas não era má pessoa. Apenas um vagabundo mimado. E, na opinião de todos, o mais simpático da família. Geraldo anunciara em casa que estava indo para a Europa e, apesar do choro da mãe, convencera o pai a financiar a viagem, e seu sustento na Europa até "conseguir alguma coisa". Vez que outra, o dr. Parreira tinha notícias do Geraldo. ("Quem?" "O Geraldinho da Nena. O que foi pra Europa.") Geraldinho estava lavando pratos em Londres. Geraldinho estava ensinando surfe em Paris. ("Surfe em Paris?!") Geraldinho estava colhendo morangos na Suíça. Geraldinho tinha conhecido uma moça. Geraldinho estava namorando firme com a moça. E, finalmente, a única notícia que interessou ao dr. Parreira, pelo menos por dois minutos: a moça era cigana, de uma tribo búlgara. Depois: Geraldinho brigou com a moça. (Todos sacudiram a cabeça, afetuosamente. "O velho Geraldinho de sempre."). Depois? Geraldinho desapareceu.
― Como, desapareceu? ― Há dois meses não têm notícias dele. A Nena está desesperada. Pediram ajuda ao dr. Parreira, que, como o mais velho, assumira o papel de patriarca da família depois da morte do pai, o Parreirão. Mas, antes que o dr. Parreira entrasse em contato com o Itamaraty, chegou a notícia terrível. Geraldinho estava num hospital em Berna. Tinha sido castrado e só choramingava, pedindo a mãe. Nena e o marido, Alcides, embarcaram imediatamente para a Suíça. Ao chegarem ao aeroporto de Zurique pegaram um táxi e descobriram tarde demais que era um táxi falso, que os levou para um galpão fora da cidade onde o Alcides também foi castrado e a Nena marcada na testa com um ferro em brasa com as três iniciais (soube-se depois) da frase, em búlgaro, "Mãe da besta". Dois primos mais velhos do Geraldinho também embarcaram para a Suíça e também foram seqüestrados, no caminho para Berna. Não foram castrados, mas até prefeririam isto ao que passaram nas mãos de um bigodudo enorme chamado Ragud, que os outros incentivavam com frases em búlgaro (soube-se depois) como "Agora a posição do touro apressado, Ragud!" O dr. Parreira convocou uma reunião da família para decidir o que fazer. Não seria prudente mandar outros familiares à Suíça, onde evidentemente todos corriam perigo. O consulado brasileiro daria a assistência necessária aos hospitalizados e as autoridades suíças investigariam os atentados. Enquanto isso, alguém saberia dizer o que o Geraldinho tinha aprontado com a cigana búlgara? Ninguém sabia. Mas alguém lembrou que os ciganos búlgaros eram famosos por serem vingativos. ― O melhor ― disse o dr. Parreira ― é ninguém da família chegar perto da Europa, até que esta coisa passe. Mas quando a "coisa" passaria? Poucos dias depois da reunião da família em que tinham concluído que pelo menos no Brasil ninguém corria perigo, o dr. Parreira foi acordado no meio da noite com a notícia de que uma das suas fábricas estava em chamas. Fora invadida por um grupo, que escrevera uma frase em búlgaro numa parede antes de começar o incêndio. A frase era (soube-se depois): "Todos pagarão, até a terceira geração." Até a terceira geração! As crianças não vão mais à escola e a família contratou segurança armada para 24 horas, e mesmo assim entraram na casa da coitada da dona Zizica, viúva do Parreirão e mãe do dr. Parreira, e escreveram uma palavra em búlgaro no seu lençol que ninguém teve coragem de traduzir para a velha ― e tudo por culpa do Geraldinho, seu neto favorito. Todas as empresas da família têm recebido ameaças constantes, explosões são freqüentes nas suas instalações e a falência próxima do grupo é inevitável. Mas a vingança dos búlgaros não cessará. Continuará até a terceira geração. Preso em casa, atrás de barricadas, com medo até de chegar na janela, o dr. Parreira amaldiçoa a irmã pelo que fez, ou pelo que não fez, com o Geraldinho. Um único tapa na mão, um único "Não!", e tudo aquilo teria sido evitado. Mas Geraldinho podia comer espaguete com as mãos sem apanhar e o resultado estava ali. Todos sofriam pelo que ele tinha aprontado com a moça, fosse o que fosse. Provavelmente o mesmo que fazia com todas as moças que conhecia, nada grave: namoros inconseqüentes, promessas e mentiras simpáticas ― só que nenhuma das moças era uma cigana búlgara. E chegou a notícia de que um grupo invadira o cemitério e pintara insultos em búlgaro no túmulo do Parreira pai. No túmulo do velho Parreirão!

(Luís Fernando Veríssimo - Cronicas Selecionadas Do Jornal Estadão, em pt.scribd.com)



domingo, 8 de janeiro de 2012

Contra os feiticeiros

de
Luis Fernando Veríssimo



Esperava-se que a proliferação de computadores, notibuques e lepitopis fosse criar uma vasta nação sem fronteiras de nerds sedentários, uma geração inteira que só sairia da frente das suas telas e teclados arrastada. As redes sociais substituiriam a vida social, todo contato humano seria eletrônico e virtual e nada levaria a grande nação enclausurada a desligar seus aparelhos e ir para a rua. Mas, como se vê, aconteceu o contrário. Tanto nas manifestações que estão derrubando déspotas em cadeia no Norte da África quanto nos protestos na Europa foram as redes sociais que, em boa parte, encheram as ruas. O pessoal do movimento Ocupar Wall Street, nos Estados Unidos, também foi mobilizado pela internet.
Se você pensar que a internet foi criada pelo e para o Pentágono e representa a máxima conquista tecnológica do empreendedorismo capitalista, aumenta a ironia de, nos casos da Europa e dos Estados Unidos, ela estar levando manifestantes às ruas contra os poderes estabelecidos e os desmandos do capital. O que há de mais moderno no mundo trazendo de volta a ação política mais antiga e direta, a da multidão sublevada. O feitiço virado numa direção que os feiticeiros, decididamente, não previram.
Hoje em dia, a frase que pais preocupados dizem para filhos permanentemente ligados na internet não é mais "Meu filho, vai brincar um pouco o lá fora" mas "Meu filho, por favor, revolução não".
No mesmo assunto: se Darwin tinha razão nas suas teorias sobre a sobrevivência dos mais aptos e adaptáveis, daqui a algumas gerações todos os seres humanos nascerão com dedos finos para acertar as teclas certas em iPodis e iPadis cada vez menores. Os dedos gordos e rombudos desaparecerão como os dinossauros. Mas ouvi dizer que a evolução se dará do outro lado: os teclados tenderão a desaparecer, substituídos pelo comando de voz. Não duvido. Não duvido de mais nada desde que conheci o GPS falante. Os feiticeiros podem tudo.


(Luis Fernando Verissimo, em jornal O Estado de S.Paulo 10-11-2011)






terça-feira, 22 de novembro de 2011

Premeditando o Breque


Ontem dei boleia á Eneida e enquanto íamos no carro de pára-brisas partido (isto agora não interessa nada), mostrei-lhe uma canção dos Premeditando o Breque, e contei-lhe algumas coisas deste grupo e de como arranjei a gravação há uns 25 anos atrás. Hoje fiz uma busca no Youtube e vi que havia várias gravações deles e isso deu-me a ideia para este post.
Já andava pelo teatro e uma das pessoas com quem me dava era o Trindade Santos, que além de ser professor (não sei se era só isto) de literatura grega clássica na universidade de letras, era também critico de música em jornais, revistas e mais sítios. O homem sabe (sim porque ainda está vivinho da costa no Brasil) mais de musica, do que cinco vidas que eu venha a ter, jamais saberei. Recebi várias lições, uma de que me lembro foi quando lhe pedi algumas coisas de musica clássica ele me disse que não: que não me dava só os bombons eu também tinha que levar as caixas e os celofames, (quem percebeu percebeu), mas fez-me várias gravações de Jazz em cassetes, algumas ainda tenho em casa de coisas que ele achava que eu devia conhecer. Mas voltando á vaca fria, nessa altura  o Trindade Santos correspondia-se com um filho de uma pessoa amiga que vivia no Brasil e tanto o Trindade como ele trocavam discos das coisas interessantes que iam saindo nos dois países. Um dos discos que chegou dos Brasis foi o primeiro (e o mais interessante) dos Premeditando o Breque. Fiz uma gravação do LP para cassete e mais tarde gravei para um CD, e é isso que ainda corre no carro. Espero que gostem.


A Esperança É A Última Que Morre


Premeditando o Breque - Grupo musical de São Paulo, Brasil surgido no fim dos anos 70, característico pelo humor de suas composições. Formado por estudantes de música, o Premê, como ficou conhecido, participou de festivais no início dos anos 80 e gravou alguns singles até o lançamento do LP "Premeditando o Breque", em 1981, conseguindo notoriedade no meio universitário e intelectual. As letras são satíricas e bem-humoradas, e o estilo do grupo, de difícil classificação, de punk rock a baladas e sambas, passando por blues e "releituras" de clássicos sertanejos, fundindo MPB, chorinho, rock e até mesmo música erudita. O grupo destacou-se desde o início tanto pelas letras irreverentes e bem-humoradas quanto pela qualidade musical e pelos arranjos sofisticados, gravaram ao todo 5 discos mas que nunca tiveram grande sucesso e ainda duram fazendo shows esporádicos na zona de São Paulo. (texto pescado na net)


Fim de Semana



Brigando Na Lua


Quem curte uma roda de samba e de chorinho sabe o que significa premeditar o breque. É aquela capacidade de sentir o momento certo de dar aquela parada na percussão e/ou na melodia. Quem sabe premeditar o breque sabe e quem não sabe não sabe e não adianta querer ensinar.




Quer uma boa amostra do que é o breque?


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Fotos de Ruth Landes em Portugal

Assim se faz Portugal
Ruth Landes (1908-1991) 



Lisboa, 1952, Ruth Landes.


«Ruth Landes (1908-1991) foi uma etnóloga americana, nascida em Brooklyn, na cidade de Nova Iorque. Cresceu em uma família de judeus russos, intelectuais e politicamente activos. O pai foi fundador do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Têxtil e a mãe convivia em círculos activistas com escritores, intelectuais negros e judeus. A família conviveu com personalidades interessantes e importantes do meio progressista da cidade. A amizade do pai de Ruth com um eminente antropólogo, Alexander Goldenweiser, resultou em uma aproximação com Franz Boas e Ruth Benedict, dois dos maiores antropólogos da época, ambos professores da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, onde se formou. 


Lisboa, 1952, Ruth Landes.


Em 1938, ganhou uma bolsa de pesquisa para estudar as relações raciais no Brasil. Em fevereiro de 1939, foi expulsa da Baía pela polícia política, em razão da sua implicação com os cultos afro-brasileiros. Vítima de exclusão académica nos anos 40, principalmente pelo seu ponto de vista na análise etnográfica, Ruth Landes tem sido reivindicada hoje como pioneira feminista da etnografia. À frente de seu tempo em muitos aspectos, Ruth Landes trabalhou com questões que definiram o centro de debates na disciplina no alvorecer do século XXI. Estudou vários povos em diferentes continentes e em 1952 passou por Portugal e deixou no seu espólio várias fotos e slides dessa sua passagem por vários lugares, Lisboa, Nazaré e Alcácer do Sal.»



Nazaré, 1952, Ruth Landes.

Nazaré, 1952, Ruth Landes.

Nazaré, 1952, Ruth Landes.

Nazaré, 1952, Ruth Landes.

Nazaré, 1952, Ruth Landes.

Nazaré?, 1952, Ruth Landes.

Nazaré, 1952, Ruth Landes.

Nazaré, 1952, Ruth Landes.

Nazaré, 1952, Ruth Landes.

Nazaré?, 1952, Ruth Landes.

Alcácer do Sal ou São Martinho do Porto?, 1952, Ruth Landes. No espólio de Ruth Landes refere-se apenas, que esteve em Lisboa, Nazaré e Alcácer do Sal, mas um amigo anónimo que deixou um comentário, diz que as fotos são de São Martinho do Porto, fica a dúvida.

Alcácer do Sal ou São Martinho do Porto?, 1952, Ruth Landes.

Alcácer do Sal ou São Martinho do Porto?, 1952, Ruth Landes.

Cartão Postal de São Martinho do Porto, encontrado no espólio de Ruth Landes. 



(Fotos da Smithsonian Instituition)