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sábado, 2 de junho de 2012

Os Bairros de Lusalite


Interior duma casa, no Bairro da Boavista, 1940.

Algumas das fotos são do Bairro da Boavista em 1940, que foi inaugurado quatro meses depois do nosso, em 13 Junho de 1939. Estão aqui porque das duas primeiras não consegui arranjar iguais, mas do Bairro da Quinta da Calçada; são fotos do interior de uma casa, do dispensário e a terceira e quarta é para verem como era quase tudo igualzinho ao nosso bairro. 
Lembro-me ainda muito bem daquele tipo de armário e do guarda-pratos, que eram iguais na Quinta da Calçada e que no caso da minha mãe, duraram muitos anos; das cadeiras e das mesas não me recordo mas deviam ser iguais. Isto era a chamada sala de jantar, à direita entre o guarda-pratos ficavam os quartos e do local onde foi tirada a foto ficava a cozinha e quarto de banho. Repare-se no pormenor da lâmpada que era de 25w (era a única luz na casa), as outras divisões não tinham luz (só depois do 25 de Abril tivemos iluminação completa) e esta tinha de ser apagada às 10 horas da noite sob pena de multa. 

Dispensário e consultório médico no Bairro da Boavista,  1940. Domingos Alvão.

Foto do interior do dispensário médico que ficava no Infantário, que era o edifício à esquerda da Igreja e também igual ao da Quinta da Calçada. A minha mãe trabalhou durante uns tempos no infantário e contava-me algumas coisas de lá, aliás, manteve contacto com algumas das senhoras que lá trabalhavam; a Dona Mariazinha, a Dona Elisa, a Dona Irene. Eu, não fiquei com nenhuma recordação do infantário, tirando brincar aos médicos e enfermeiras nas traseiras. No caso da Quinta da Calçada, havia em frente ao Centro Social (mais tarde sede do Juventude União Clube) uma casa que era utilizada como maternidade e que foi onde eu nasci. A Ti Virgínia e a mãe do Armindo (Bába), disseram-me várias vezes que tinham ajudado a transportar a minha mãe e a mim numa padiola até minha casa.

Bairro da Quinta da Calçada; Centro Social, Igreja, Infantário, 1940. 

Bairro da Boavista; Centro Social, Igreja, Infantário, 1940. Domingos Alvão.

Bairro da Boavista, Inaugurado a 13 Junho de 1939, vista geral, 1940. Domingos Alvão.

O Centro Social era o local onde havia uma espécie de ATL da altura, onde as miúdas (principalmente) iam depois de saírem da escola. A minha irmã Isaura recorda-se: "No meu bairro havia uma escola para rapazes e outra para raparigas; Um Centro Social onde tínhamos actividades (ATL), depois das aulas onde aprendíamos a fazer renda, croché, tricô, a bordar, etc. A monitora era a assistente social Dona Elisa. Durante o tempo que andei na escola as aulas eram só de manhã, almoçávamos na escola e depois íamos para o Centro Social, onde ficávamos (as que queriam) até mais ou menos às cinco da tarde a fazer trabalhos manuais ou a ensaiar qualquer peça de teatro para apresentarmos. naquele tempo não sabíamos o que nos faltava porque não tínhamos conhecimento do que existia"


A Igreja já se sabe para o que serve, (quem quer que lhe faça bom proveito) tanto a católica como as outras. Não tenho grandes recordações da Igreja, embora a tenha frequentado algumas vezes (até me obrigaram a fazer a primeira comunhão), a certa altura deixei de lá ir (ia só à missa do galo, por causa das miúdas), lembro-me do sacristão, coitado; o que a gente gozava com ele. Tenho uma vaga memória de umas procissões que havia lá no bairro (acabaram quando era muito miúdo  e anos depois, das tardes e das noites de batota encostados às paredes da igreja; bingo, montinho, pedida, valia tudo menos tirar olhos.

O Infantário era destas três unidades a mais útil às mães e pais que tinham de trabalhar e não tinham quem olhasse pelos filhos. As Mães deixavam os seus bebés, “de borla”; e existia um posto médico, que se chamava na altura dispensário e creio que não tinha médico mas sim enfermeira ou alguém com conhecimentos médicos; existiam também várias “assistentes sociais” para auxílio material e moral aos mais necessitados. Tudo isto (Igreja, Centro Social, Infantário) ligado com o Fiscal do bairro e a esquadra da policia. Mais tarde, construíram-se mais dois bairros de lusalite: o Bairro das Furnas nos anos 40 e o Bairro Padre Cruz nos anos 60, como podem ver pelas fotos o tipo de lusalite era diferente.

O Bairro das Furnas
Inaugurado a 28 Maio de 1946

 Construção do Bairro das Furnas. 1945. Eduardo Portugal.

A Rua das Nogueiras no Bairro das Furnas. 1961. Artur Goulart.

O Bairro Padre Cruz
Inaugurado em 1962 ?

 A Rua do Rio Alviela no Bairro Padre Cruz. 1962. Artur Inácio Bastos.

Inauguração da Carreira de Autocarros entre a Praça dos 
Restauradores e o Bairro Padre Cruz, 1963. Armando Serôdio.


Curiosidades

Excerto de relatório do presidente da Câmara de Lisboa em 1940. Refere-se à construção do Bairro da Boavista, igual ao da Quinta da Calçada com alguns melhoramentos e a edifícios na Quinta da Calçada, que só foram acabados em 1940, caso das escolas e igreja. Clique para poder ler. 

Excerto de relatório de um serviço da CML em 1940.

Excerto de relatório do comandante da policia municipal de Lisboa em 1940 . Tem a curiosidade de o chefe da policia chamar ao Bairro das Minhocas; Bairro da Bélgica ou Bairro do Bélgica. Talvez tivesse os dois nomes e o nome Bélgica, talvez fosse por causa do cinema Bélgica que já existia desde 1928.

Excerto de relatório dos serviços de finanças da CML. Refere-se às rendas da altura. 



Palavras de um deputado em 1940

Seja-me permitido citar o Bairro da Quinta da Calçada, para onde, por iniciativa do Governo e da Câmara Municipal de Lisboa, foram transferidos os antigos moradores do «Bairro da Lata». (Bairro das Minhocas)
Toda aquela gente – que se dizia indomável e revolucionária, a ponto de nem a polícia ousar penetrar nos seus domínios – aparece hoje, a menos de um ano de convívio com a assistência social, como a melhor gente do mundo. À parte um ou outro caso mais rebelde, ninguém que visite o Bairro da Quinta da Calçada dirá estar em frente de uma «raça» estranha que ainda há pouco era considerada extremamente perigosa para a paz social.
Esta obra de regeneração completa de tantas centenas de famílias criminosamente votadas até há pouco ao mais absoluto desprezo e abandono é fruto da dedicação da Obra das Mães pela Educação Nacional, da Junta Central da Legião Portuguesa, que mantém um pequeno subsídio mensal em favor do Bairro e confiou a uma comissão da sua confiança o encargo de dirigir a assistência social, e do apoio da Câmara Municipal de Lisboa e do Sr. Ministro das Obras Públicas e Comunicações.
Mais uma vez se provou, pela experiência de poucos meses, que o povo português é fundamentalmente bom e generoso e só se torna mau quando, desprezado e abandonado, o tratam como se para ele não houvesse o direito à vida e à alegria de viver.
É por isso que, consciente desta realidade, subi a esta tribuna para trazer o meu incondicional apoio ao decreto-lei n.º 30:135 e o meu preito de homenagem ao Sr. Ministro da Educação Nacional pelo largo alcance da medida de que tomou a iniciativa com a publicação do referido decreto.


ABEL VARZIM da CUNHA e SILVA,  Deputado à ASSEMBLEIA NACIONAL
SESSÃO N.º 70 da Assembleia Nacional, Em 8 de Fevereiro de 1940



(As fotos são do Arquivo Fotográfico da CML, os excertos de
 relatório foram copiados de publicações da Hemeroteca da CML)




terça-feira, 1 de maio de 2012

Memórias dos Cabos Ávila

Dedicado a 
Manuel Grave e Aurélio Grave
e a todos os que passaram por lá.


A recta dos Cabos Ávila em 1961. Arnaldo Madureira. Foto do Arquivo Fotográfico da CML.


Tinha 14 anos quando entrei para a fábrica dos Cabos Ávila. Tinha sido despedido de uma loja de tecidos na rua da Prata (a Pereira, Gonçalves e Xavier) por responder a um dos patrões e como se calhar já andava a dar problemas em casa, o meu pai tratou de arranjar maneira de eu ir para os Cabos Ávila para me ter sob controle. Trabalhei lá durante dois anos e meio até ser despedido por responder (que chatice) torto ao chefe dos guardas; Quando tocava a sirene a anunciar  o fim do dia de trabalho, os operários tinham 15 minutos para saírem da fábrica, Um dia resolvi tomar banho porque estava mais sujo do que o habitual e demorei uma meia hora e o chefe dos guardas desatou aos gritos comigo eu respondi com toda a delicadeza «vá gritar com a puta que o pariu» ou outra coisa do género e tratei de fugir rapidamente e esqueci o assunto e passados um mês ou dois ouvi  nos altifalantes «o operário numero tal é favor dirigir-se á secção de pessoal», quando lá cheguei disseram-me «pode ir vestir-se, está despedido». Tive alguma satisfação anos depois, quando o meu pai me disse que esse chefe dos guardas foi o primeiro a ser saneado a seguir ao 25 de Abril, era informador da PIDE. 

O meu tio Aurélio e o seu irmão Manuel (meu pai) já reformados e "livres" das 
máquinas infernais dos Cabos Ávila, onde passaram metade das suas vidas.


Eu com 15 anos em 1969, nesta altura
trabalhava nos Cabos Ávila. Aqui estou
com o meu sobrinho Paulo ao colo.
Tenho algumas memórias dos Cabos Ávila que duraram todos estes anos porque de certeza que têm a ver com o facto do meu pai contar em casa muitas coisas do que lá se passava. O meu pai, Manuel Fernandes Grave era Trefilador nos Cabos Ávila e trabalhou lá metade da sua vida (cerca de 40 anos) e recordo que o local da Trefilagem era á esquerda de quem entrava na nave principal. Sei que já velhote chegou a ser da comissão de trabalhadores e que teve um processo contra a administração dos Cabos Ávila, anos e anos nos tribunais e que acabou por ganhar. Lá também trabalhava o meu Tio Aurélio, irmão do meu pai e sei que trabalhavam por turnos que mudavam semanalmente (não tenho a certeza se era á semana ou quinzenalmente); era uma vida muito dura, aguentavam aquele ritmo á custa de muitos litros de vinho e tenho a certeza que com a grande maioria dos outros operários acontecia o mesmo. O meu tio Aurélio era mais implicado politicamente que o meu pai (penso que já naquele tempo era militante do PCP). O meu pai nunca foi militante mas tinha muitas simpatias, lembro-me de discussões da minha mãe com o meu pai por causa de ele querer ouvir a rádio Moscovo, nessa altura ninguém podia fazer barulho em casa já que o meu pai, Manuel Fernandes ouvia a rádio muito baixinho por causa de quem pudesse ouvir, já que na quinta da calçada ouvia-se tudo de umas casa para as outras. 

Noticias no jornal A Capital no ano de 1968, referentes á fábrica dos Cabos Ávila: A instalação de uma máquina gigante e uma festa de natal; tenho vagas memórias, da máquina recordo que ficou instalada na nave 2 e da festa de natal creio que foi no Cinema Lido da Amadora. Estas festas faziam parte da politica do estado salazarista, quase todas as grandes empresas faziam estas festas.


Nos Cabos Ávila assisti á primeira greve da minha vida (só tive consciência disso, anos mais tarde) e recordo perfeitamente essa paragem que não sei se durou mais que um dia; os operários parados ao lado das máquinas e do silencio geral. Recordo-me de o meu chefe me mandar fazer recados a várias partes da fábrica com recados absurdos do género «quantos parafusos havia de determinado tamanho» ou «quantas ferramentas havia em determinada secção» se «faltavam ferramentas», só muitos anos depois tive consciência de que me utilizavam (a mim e a outros) para saber os números da adesão á greve.  Recordo das andanças pela fábrica de um monte de homens de gabardina e estranhos à fábrica  (devia ser a PIDE) juntos com o chefe do pessoal e outros chefes de bata branca que eram os engenheiros (na altura chamavam-se: agentes técnicos?); não me recordo se estava lá o patrão mais odiado (Manuel de Ávila) que aliás só vi uma vez em dois anos e meio. Geralmente o meu pai referia-se ao Manuel Ávila como "Esse Bandido" e do outro patrão Jorge Ávila nunca o ouvi dizer nenhuma "bojarda", nem do pai deles Diogo Ávila, presumo que fossem, umas pessoas mais cordatas no trato com os operários. Deixo a seguir umas palavras de uma operária referente a essa greve, que trabalhou nos Cabos Ávila mais de 30 anos:

«Recordo-me que houve, em 1969, uma greve de três dias por aumentos. A empresa tinha muito mais mulheres que homens. Encheram a fábrica de pides, armados, para nos intimidar. Ao segundo dia, deram os aumentos às mulheres, pensando que assim acabavam com a greve. Mas a greve manteve-se, até haver aumentos também para os homens e até voltarem para a fábrica os trabalhadores que tinham sido postos na rua durante a luta. Nessas lutas houve despedimentos, houve comunistas e outros trabalhadores que foram presos, passámos muitos sacrifícios, mas resistimos.» 
(Rosa Faria, operária fabril, in, jornal Avante, Nº 1284 - 9.Julho.98)


Levantava-me muito cedo talvez seis e meia da manhã, tomava o pequeno almoço e apanhava o autocarro 50, que fazia a carreira Poço do Bispo até Algés, por volta das sete horas na segunda circular. Naquele tempo (1968/70), o 50 chegava de meia em meia hora (quando chegava) e ia pela segunda circular virava para Benfica ia até á estação de comboios, passava por baixo da linha férrea e ia até Pina Manique depois subia até aos Montes Claros no cimo do Monsanto, descia para a Estrada de Queluz e virava á esquerda para Algés. Aí era onde eu descia e ia a pé até á fábrica dos Cabos Ávila. Muitas vezes os atrasos do 50, faziam com que a carreira terminasse em Pina Manique e então tinha de ir a pé pelo Bairro da Boavista e atravessava as barracas do lado direito da estrada da Circunvalação e apanhava uma azinhaga ou estrada velha que ia dar á  Estrada Nacional 117 e á parte de cima da fábrica Cabos Ávila. No inverno era uma odisseia ir por esse caminho de terra porque desde grandes poças de águas a lama por todos os sítios era impossível chegarmos limpos á fábrica. Mas era o que fazíamos (havia muita gente do Bairro da Boavista que trabalha na fábrica) para não termos de dar uma grande volta; percorrer a estrada da Circunvalação passando a curva do parque de campismo até chegarmos ao cruzamento e subirmos até aos cabos Ávila passando pelos Laboratórios Azevedo.

Laboratórios, Torre e Escritórios. Maqueta do Arquitecto Edmundo Tavares 
e camião de transporte, parado perto dos laboratórios e torre dos Cabos Ávila. 
Fotos sem data, de IPPAR, e inoxnet.com.


Comecei a trabalhar na serralharia (como aprendiz), que era um barracão de madeira e onde fazia um frio dos diabos no inverno, tínhamos de fazer uma fogueira dentro de um bidão do óleo dos grandes para ficarmos com brasas para nos aquecer. Tenho uma cicatriz desses tempos e várias recordações daqueles 2 anos e meio que trabalhei nos Cabos Ávila (entre 1968 e 1970): Lembro-me da construção da Nave 2, porque alguns dos trabalhos foram feitos pela serralharia da fábrica, lembro dos vestiários com cacifos para cada operário (?), de lavatórios gigantes, como se fossem uns alguidares em metal para 6 a 8 pessoas (posso estar a inventar um pouco), dos chuveiros e de que havia água quente, uma coisa do outro mundo para quem só tomava um banho quente uma vez por semana. Havia uma biblioteca onde li muitos clássicos, que se podia levar para casa, havia um grupo desportivo, uma enfermaria com médico que creio era permanente; lembro-me da zona das oficinas por detrás da torre, onde havia uma rua que passava por baixo do edifício dos laboratórios ao lado da torre, da chaminé que ficava perto da carpintaria. 

Noticia no jornal A Capital em 1970, referente a um incêndio na zona da carpintaria. Disto não 
tenho qualquer memória e devia ter porque ainda lá trabalhava. Talvez estivesse doente nesta altura.


A nave principal era uma coisa gigante (para um miúdo) cheia de máquinas e com um barulho infernal, ainda agora parece que estou a ver o meu tio Aurélio a trabalhar junto de uma máquina no centro da nave. Do que não me recordo é de quanto ganhava mas devia ser uma miséria porque era uma miséria o que pagavam a homens e mulheres com filhos. Sei que comecei por receber á quinzena mas depois passou a mensal e quando o dia de pagamento calhava ás sextas feiras o Ávila só pagava na segunda feira seguinte dizia-se que era para ficar a ganhar juros nos bancos. Desta parte nunca me esqueci. A entrada para trabalhar era ás 8 da manhã e quem se atrasasse 5 minutos só entrava meia hora depois e era descontado no ordenado. A saída era, se bem me lembro ás 17,30h e tinha que se carregar num botão que dava verde ou vermelho, se desse vermelho éramos revistados tantos homens como mulheres.

Eram assim os Cabos Ávila por volta de 1970, trabalho "escolar" feito por mim, a partir das memórias desse tempo. É possível que tenha alguns erros mas nada de significativo. A recta dos Cabos Ávila não era tão larga, isto foi feito a partir de uma foto aérea do Google Earth de 2011.


Estas memórias estão muito misturadas já não sei onde começou uma e acabou outra; como já disse, comecei com aprendiz de serralheiro mas como tinha já alguma experiência, porque tinha trabalhado na Ferraria Franco no Campo Grande quase dois anos em 1965/66, rapidamente passei para ajudante do serralheiro mecânico principal da fábrica, que creio, se chamava Joaquim e acho que morava na Damaia. Assim deixei o barracão e passei a ajudar na reparação das máquinas e a trabalhar principalmente nas grandes naves 1 e 2 onde estavam quase todas as máquinas, este trabalho era muito melhor do que na serralharia, menos duro, menos sujo e só tinha um chefe e oficial a quem obedecer. Recordo a montagem de uma máquina gigante na nave 2 (ver a noticia de A Capital) que creio, era para fazer os cabos submarinos e de um acidente que não presenciei; De um operário que ficou sem os dois braços nos rolos metálicos das máquinas que amassavam o plástico para revistir os cabos, mas o meu chefe não me deixou ir ver. 


Estas fotos estavam lá para casa nas coisas de meu pai. Creio que se referem ao famoso "Um dia de trabalho para a Nação".  Isto ocorreu em 06 de outubro de 1974 e nas fotos estão o ministro do trabalho Costa Martins, a cumprimentar o Manuel Ávila que parece estar a dar-lhe a receita desse domingo. As fotos devem de ser de uma data posterior (pouco) e talvez se tenha organizado uma cerimónia. O que posso dizer é que o meu pai que está em todas as fotos não está nada satisfeito, assim como a maioria dos operários que assistem. E parece haver também algum incómodo na cara do ministro face ao ar satisfeito "desse bandido" Manuel Ávila, como dizia o meu pai.

«"Um dia de trabalho para a Nação" proposto pelo Primeiro Ministro Vasco Gonçalves. Um domingo é transformado em dia útil de trabalho oferecido gratuitamente pelos trabalhadores ao país. A adesão é significativa e o resultado financeiro desta campanha será dias mais tarde estimado pelas entidades oficiais competentes em cerca de 13000 contos.» (In, www1.ci.uc.pt)

Edifício dos Laboratórios e Torre dos Cabos Ávila, na foto da direita, vê-se mais em pormenor 
o que ficou de toda a fábrica. É considerado património industrial sem protecção?. Foto do IPPAR.


A Fábrica de Cabos Eléctricos Diogo d’Ávila instalou-se por volta de 1952, numa área industrial da Amadora, Alfragide. A sua implantação, nesta zona, foi estratégica de modo a tirar partido das vias de comunicação que a ligavam a Lisboa. O seu projecto arquitectónico é da autoria do arquitecto Edmundo Tavares, destacando-se de todo o edifício, de características marcadamente industriais, a torre do relógio, cuja função era suspender os cabos eléctricos, para a sua experimentação. Cessou a sua laboração em 1997, ficando o edifício devoluto, desde então, tendo sido parcialmente demolido em 2004. Neste momento para além de parte do edifício principal, também se mantém ainda erguida uma chaminé com cerca de 30 metros de altura.
(In, www.geocaching.com)


Recordo que foi aqui que comecei a aprender truques para quando fosse preciso ir para o médico e descansar uns dias em casa (mas esses não vos conto) com os outros ajudantes e aprendizes que eram tudo putos do Bairro da Boavista e do Bairro de Santas Martas em Algés, havia na altura bastantes putos a começarem a vida de trabalho. Foi nos Cabos Ávila que foi feita a minha primeira inscrição na segurança social e há uns meses fui verificar os meus descontos e constatei que a inscrição fora feita mas parece que o dinheiro dos descontos não chegou a sair dos cofres dos Ávila. E com todas estas memórias não vos cheguei a falar da Srª Teresa Ávila (de quem o meu pai me contou imensas coisas) que veio substituir o seu pai Manuel Ávila á frente da administração dos Cabos Ávila e que se revelou uma santa. É tão santa que só lhe desejo que vá para Serpa quando estiver 45 graus como preparação para o Inferno (escrevi isto antes de ver as fotos dela vestida de freira).

1978 - Lutas e negócios nos Cabos Ávila.

1981, Policias Paralelas - Noticia sobre a utilização de "comandos" nos Cabos Ávila como seguranças  
para intimidação dos trabalhadores. E duas fotos encontradas na net sobre o que resta dos Cabos Ávila.

2004, Cabo dos Trabalhos. Artigo da Visão. "Entre guerras de família, a administração 
da Cabos Ávila está a negociar a venda da maioria da empresa a investidores franceses".


1998 - Aspecto da concentração de trabalhadores da Cabos Ávila no refeitório da empresa por ocasião da passagem 
do 1º aniversário da entrada da fabrica em situação económica difícil. Foto António Cotrim, Lusa encontrada na net.

1997 - Excerto de uma reportagem sobre mulheres empresárias em que a própria Teresa Ávila diz que o pai Manuel Ávila «...havia assinado um documento que me proibia assumir a gestão de pessoal da empresa...». O que curioso é que nesta reportagem havia várias mulheres a serem entrevistadas e com fotos excepto Teresa Ávila. Eu já tinha feito uma busca exaustiva para arranjar uma foto de Teresa Ávila e não tinha conseguido nada. Foi então que lendo um "Avante" antigo que referia uma luta dos trabalhadores dos Cabos Ávila, e onde se falava numa reportagem do jornal Tal & Qual (de que falo adiante) e de onde fiz esta ampliação desta foto de Teresa Ávila com o pai Manuel Ávila. Duas prendas que ficam em foto para memórias futuras.


1997/1998 - Noticias sobre as Lutas nos Cabos Ávila


A responsável pela gerência da empresa Cabos Ávila, cujos trabalhadores estão desde final de Novembro em luta pelo pagamento de salários e pela garantia de viabilização da empresa, mandou anteontem encerrar os portões da fábrica.
Os trabalhadores decidiram paralisar desde 28 de Novembro, por não terem sido pagos os ordenados desse mês e parte do mês de Outubro. Desde essa sexta-feira a gerência não voltou a comparecer na empresa, fazendo Teresa de Ávila a ligação às hierarquias apenas por telefone, a partir do escritório da sua empresa Cablexport (também de cabos eléctricos, mas onde não se verifica a participação de outros herdeiros, como na Cabos Ávila).
A insistência de Teresa de Ávila em ocupar a cadeira da administração é o principal impedimento a que a empresa retome a laboração e comece a cumprir os seus compromissos para com os trabalhadores, os fornecedores e o Estado, que é o principal credor da fábrica de cabos eléctricos.
(...) nas instalações de Alfragide mantinha-se a situação que tem sido tratada como braço-de-ferro entre aquela gerente e os trabalhadores dos Cabos Ávila, que ainda não receberam os salários de Novembro e Dezembro e o subsídio de Natal, bem como retroactivos de Janeiro, Fevereiro e Março do ano passado. Alguns também não receberam parte do subsídio de férias e do salário de Outubro. O valor médio da dívida é estimado em 350 contos por trabalhador.
Apesar de desautorizada pela demissão da gerente principal, Ana de Ávila, e pela oposição dos restantes familiares-herdeiros, Teresa de Ávila continuava barricada nas salas da administração. Os trabalhadores, em horário normal e em piquete durante a noite, também não estão dispostos a abandonar a fábrica. Nas instalações mantém-se igualmente um elevado número de homens do Corpo de Intervenção da PSP. 
(In, «Avante!» Nº 1254 - 11.Dezembro.97)


O Natal das bandeiras negras


Noutras ocasiões os trabalhadores dos Cabos Ávila foram forçados a recorrer a formas de luta, para exigirem o respeito pelos seus legítimos direitos e para garantirem o futuro da empresa e dos postos de trabalho. Desta vez, com uma pronta intervenção do Governo, poderia ter-se evitado que este fosse o Natal mais amargo dos que trabalham nos Cabos Ávila.
(...) A preocupação marcou o mês de Dezembro e ensombrou o Natal dos trabalhadores, situação denunciada com faixas e bandeiras negras a quem passava na «recta dos Cabos Ávila» naqueles dias.
No início do novo ano foi retomada a luta dos trabalhadores, que a 6 de Janeiro se deslocaram à residência do primeiro-ministro, para novamente reclamar do Governo uma intervenção que pusesse cobro aos desmandos de Teresa de Ávila. Na manhã seguinte, os primeiros operários a chegar aos portões da fábrica impediram a saída de uma viatura carregada por um grupo a mando da auto-administradora. Mais tarde, quando também os familiares de Teresa de Ávila foram por ela impedidos de entrar nas instalações, os trabalhadores forçaram a passagem e foram com aqueles até junto da misteriosa carga... que, como logo se descobriu, estava pronta para sair em tais condições que os herdeiros avançaram com uma participação por furto. 
(In, «Avante!» Nº 1259 - 15.Janeiro.98 )

A Fábrica dos Cabos Ávila em 2009. Foto de ruinarte.blogspot.pt


"Manuel d'Ávila deixou marcas na história da empresa, pela frieza com que despedia, pelos baixos salários que sempre fez pagar e pelo recrutamento de mulheres porque lhes podia pagar ainda menos que aos homens. Rosa Faria (delegada sindical e membro da Comissão de Trabalhadores, operária fabril há 30 anos no Ávila) e Aida Catarino (delegada sindical, há 35 anos na empresa, empregada de escritório), ao recordarem esse passado, lembram também que, não por acaso, as primeiras reivindicações após o 25 de Abril foram de aumentos salariais e de acabar com os despedimentos à maneira de Manuel d'Ávila.
(...) Teresa é uma das filhas deste patrão, cuja biografia os nossos entrevistados remetem para notícias já publicadas (designadamente no «Tal e Qual», no início deste ano, 1998). Lembram, contudo, que teve uma tempestuosa passagem pela empresa, como administradora social. Recusou-se a negociar o acordo de empresa, mesmo depois de uma greve de 14 dias, e mais tarde mandou colocar 50 trabalhadores na «sala amarela», mantendo-os desocupados durante um ano, e passou toda a gente para o regime de turno fixo. Também tem no seu palmarés o fim da creche que funcionava na fábrica. Chegou a despedir a própria irmã, ao saber que esta engravidara.
(...) a entrada de Teresa d'Ávila na fábrica foi feita numa altura de reestruturação e acompanhada da admissão, para cargos de chefia, de uma série de oficiais dos comandos, que «pisavam tudo e todos» para fazerem valer as suas razões. «Os trabalhadores encolheram-se um bocado, e começou aí o declínio dos Cabos d'Ávila», lamenta, recordando que naquela altura os processos de despedimento surgiam diariamente, «até no meio judicial se comentava».
Teresa Ávila, foi suspensa das suas funções na sequência de uma decisão do tribunal, que considerou procedente uma providência cautelar interposta por uma tia gerente. 
Uma suspensão face à qual tentou introduzir na empresa pessoas da sua confiança, para assegurar o seu poder, o que os trabalhadores decidiram impedir, mantendo-se nas instalações. 
(In, «Avante!» Nº 1267 - 12.Março.1998)

UMA FREIRA DOS DIABOS, 19 Janeiro 1998. Aqui está o "célebre" trabalho jornalistico do «Tal e Qual», onde vem duas fotos de Teresa de Ávila vestida de freira (isto parece um filme). Quando eu vi a referencia a esta noticia num jornal Avante antigo, tratei logo de encomendar á Hemeroteca a fotocópia e ei-la aqui; para ficar na história da fábrica dos Cabos Ávila.

2008 - Noticia sobre o lançamento de um livro que denunciava as empresas que entravam com dinheiro para a PIDE, como dizia o outro isto anda tudo ligado; empresas,freiras, pides e etc.

Os negócios que se preparam ?



Fotos de um projecto para a zona da Fábrica dos Cabos Ávila. Não consegui 
saber mais informações sobre este projecto. Ponto final sobre os Cabos Ávila. 
Fonte imagens: www.skyscrapercity.com. 




domingo, 18 de setembro de 2011

Anjos na Quinta da Calçada

Estas fotos devem ser de 1957 ou 1958; repare-se nos pormenores: as minhas irmãs, ambas 
descalças, os altifalantes, a bandeira rasgada na primeira e na segunda a minha irmã Isaura 
toda concentrada, com a minha irmã Helena a olhar por baixo para o fotógrafo.

As Procissões no Bairro da Quinta da Calçada


Quando era miúdo havia no Bairro procissões que percorriam as ruas com o padre a lançar água benta, presumo que para abençoar as casas. Era um tempo em que a igreja juntamente com os fachos da altura dominavam a vidinha de todos, mas isso agora não interessa nada. Não consegui saber em que datas se realizavam mas devia ser nas sextas-feiras santas e outras datas do género. As minhas irmãs Isaura e Helena estavam sempre a participar nelas, eu só tenho uma vaga lembrança destas procissões, o que se calhar significa que acabaram em meados dos anos 60, a minha irmã Emília lembra-se que a certa altura deixaram de fazer as comunhões no bairro e eram feitas no Bairro da Boavista.

As minhas irmãs Helena e Isaura quando eram anjos, em 1957/58. 


Era um tempo em que todos os miúdos eram baptizados, faziam as comunhões e outras coisas de que não me recordo. Desses tempos lembro-me de uma freira, creio que se chamava Madre Deus, que um dia em frente à igreja quando estávamos a jogar hóquei nas sarjetas que havia por aí (estava na moda o hóquei em patins), eu a certa altura disse uma asneira qualquer e a freira que ia a passar, ouviu e veio por trás de mim e deu-me uma tremenda estalada, o que fez com que eu a tenha insultado de tudo o que me veio à boca. Isso causou alguns problemas com a minha mãe a ser chamada ao padre e foi o fim da minha "relação" com a igreja. Que me lembre, nunca mais entrei na igreja do Bairro.


A minha irmã Isaura com 4 anos.

A minha irmã Helena é a da direita, a miúda que está á esquerda é a Graciete, irmã do Sérgio.