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domingo, 23 de setembro de 2012

«Ó MARRECO OLHÓ SONORO»

Coisas boas em jornais

Reportagem no jornal A CAPITAL 

Segunda-feira, 23 de Agosto de 1971



AO ANIMATÓGRAFO DO ROSSIO
VAI VOLTAR A «COWBOIADA»

O Animatógrafo do Rossio vai reabrir. Depois de oito meses de ausência vão voltar os tiros e as «cowboiadas», as frases duras ou amorosas, as cavalgadas furiosas em perseguição dos bandidos (às vezes inocentes ou cheios de razão) à Rua do Arco do Bandeira. Crianças, jovens e adultos formarão de novo bicha às portas da pequenina sala de sessões contínuas onde, antigamente, se refugiavam das rusgas da Polícia dos costumes, os parzinhos ilegais que povoavam aquela zona de Lisboa.


«... Fundado em 1907 com paredes de veludo, a sala era um cinema «fino», a 30 réis o bilhete» 

Lisboa, cidade antiga. O Animatógrafo do Rossio de fachada quase única como documento de «modern style», monumento nacional por direito mas não por lei, sujeito ao mercado da oferta e da procura no circuito de exploração de salas de espectáculos vai reabrir.
     Quase totalmente destruído o seu interior, pela derrocada de um prédio de construção ilegal que pertencia à Confidente, ele deixou, durante oito meses, de fazer ouvir a sua voz naquela rua, onde, bem ou mal, toda a Mouraria, Alfama e Bairro Alto, todos os amantes de cinema da Costa do Castelo iam matar a sua sede de espectáculo por seis escudos a entrada. Dois filmes (qual deles o melhor, qual deles o pior), em sessões contínuas.
     Para quem gosta MUITO do cinema e não tem NADA que fazer, a possibilidade de encontrar refúgio, sentado no escuro, das 2 da tarde às 9 da noite. E por ali absorver muito do que o cinema (mau ou bom) tem para dar às pessoas: a formação ou a deformação moral, mental e talvez até, algumas vezes, com consequências físicas...

• «Ó marreco olhó sonoro»

     «Ó Marreco, olhó sonoro»... Esta frase ainda muito recentemente chave do início do filme vai agora fazer-se ouvir de novo, depois de amanhã, talvez no pequeno cinema-estúdio-popular do Rossio, quando, ao fim de oito meses de portas fechadas, o publico voltar a encher (se voltar) os 175 lugares da plateia.
     Modificações... não muitas. Paredes pintadas, cadeiras restauradas, um pequeno (tosco) mas parece que eficaz exaustor de ar, cortinas novas. O resto é igual, incluindo a programação.
     Com uma réstia de esperança de que a reconstrução do cinema tivesse dado origem a uma transformação no critério de aproveitamento da salita onde certos lisboetas se habituaram a ir, aproveitámos a pequena entrevista com os sócios gerentes Ricardo de Saint-Maurice e Manuel António Cardoso de Menendez para formularmos a pergunta.
     - Não, embora já tenhamos tido essa ideia. O Paulo Rocha e a Secretaria de Estado da Informação e Turismo já se mostraram interessados. Mas nós não somos pedagogos, somos industriais. Tornar isto num cinema-estúdio era um risco muito grande. Poderia não haver programação. Os espectadores de filmes de estúdios estão localizados noutros sítios diferentes da cidade, Era difícil conseguir público que pagasse o aluguer dos filmes. Apesar de tudo, a selecção da fita é uma questão de preço. As empresas estão a fundir-se e as companhias distribuidoras é que decidem. De há 15 ou 18 anos para cá o adulto tem vindo a desaparecer deste cinema. São só quase rapazes. Se se levava filmes um bocadinho melhores a casa ficava vazia. Ultimamente os adultos voltaram e, consequentemente, as casas já são razoáveis.


«Velha de 20 ou 30 anos a máquina de projectar tem tido sucessivas peças novas»

• Monumento nacional não é...

     Há quatro, cinco anos o cinema tinha ainda muito da sua forma antiga. As cadeiras eram de ferro e estava ainda recente na memória a lembrança das mãos carimbadas como senha de saída. Depois, a casa fechou para obras, por dois meses, as cadeiras passaram do «ferro à sumapau». Agora, mais uma vez, tudo foi feito de novo. As condições de visibilidade, segundo dizem os gerentes-donos do cinema são boas, apesar dos muitos anos da máquina de projectar, que vai tendo sucessivas peças novas. O sonoro é «o último grito» … Apesar disso...
     - A exploração do cinema é difícil porque o público exige filmes de acção, que já não são fáceis de conseguir actualmente. Ainda por cima duas fitas e programação diária. Se levarmos uma fita do Oeste a casa enche-se. Se levarmos a «Música no Coração» não vem ninguém. Optamos por isso, pelo espectáculo comercial, para massas. É o que nos aconselha a bilheteira. E é preciso não esquecer que a casa tem muita despesa, que temos de pagar ao pessoal que, embora diga que não, é bem pago senão fugia-nos (porque há muita falta) e pelo aluguer das fitas pagamos o mesmo que unia sala de 600 lugares, quando temos só 175. Além do mais, de facto, este espectador quer um filme que o distraia. E há uma coisa curiosa: se o herói da fita morre na vida real ou no filme, a fita não tem êxito. «Robin dos Bosques», por exemplo, com o Errol Flynn, foi uma fita que passou aqui 20 ou 30 vezes. Logo que morreu o actor voltámos a trazer um filme do Robin dos Bosques. Foi um falhanço... Quando gostam do filme, há menino que vem para aqui às 2 da tarde e só sai às 9. Senta-se, come o amendoim, a castanha, a pevide e quando sai isto parece um cenário de luta.
     Constou-nos que a fachada do Animatógrafo fora elevada a monumento nacional. Mas não.
     - Não é; pelo menos ninguém nos disse nada...

• Carimbo na mão, senha de saída

     Fundado em 1907 com paredes de veludo, a sala era um cinema «fino», a 30 réis o bilhete. Depois, durante 10 anos passou por um teatrinho infantil onde as crianças eram simultâneamente actores e espectadores. Novamente cinema, propriedade de três senhores, José Correia, Barros e Teixeira, passou mais tarde para as mãos dos três sócios actuais. Lisboa cresceu, entretanto. E de «fino» passou a cinemazinho de bairro, agora sujeito sujeito a ser vendido, comprado e destruído onde toda a espécie de truques e habilidades eram permitidas para a rapaziada entrar de borla.
     - A história do carimbo na mão vem do Salão Lisboa. Por causa das sessões contínuas, era preciso dar às pessoas, no intervalo, uma senha de saída. Senha essa que era vendida depois de um tipo ver os dois filmes, por metade ou dais terços do preço. Assim nasceu a ideia e a prática do carimbar da mão que também não resultou grande coisa porque eles iam lá para fora e com o bafo passavam a tinta do carimbo para as mãos uns dos outros. Havia sempre uma maneira. Eu próprio, quando era miúdo, quando o porteiro ralhava com algum que tinha apanhado na falcatrua, passava por baixo das pernas dele e entrava sem pagar... Truques desses fazem-se sempre e toda a gente os emprega em certas alturas.


«Nós não somos pedagogos, somos industriais. Tornar isto num cinema-estúdio era um risco muito grande»

• As mulheres... eternamente ausentes

     Para além das pequenas beneficiações que já referimos, o Animatógrafo vai ver os seus azulejos restaurados bem corno a fachada («sem qualquer subsídio») e passa a ter, a partir de agora, instalações sanitárias também para senhoras. A propósito tentámos saber qual a frequência feminina do cinema. Respondem-nos com um sorriso um pouco misterioso:
     - Bom, sabe, dantes estas ruas eram uma espécie de picadeiro e quando aparecia a guarda era aqui o refúgio. As supostas senhoras honestas deixaram de vir por causa disso. Depois, acabou a rusga e deixou de entrar aqui qualquer mulher. Demos entrada gratuita às senhoras que vinham acompanhadas de homens para ver se as trazíamos cá. Agora... isso acabou. Paga tudo igualmente embora isto continue a ser um cinema frequentado fundamentalmente pelo elemento masculino.
     Quanto aos males que vêm por bem... Nem sempre o ditado acerta. Oito meses de inacção deixam apreensões numa sala de espectáculos. E as indemnizações (cujo montante não nos quiseram referir) deixaram de ser pagas segundo nos informam os sócios do cinema. «Contas a ajustar na altura devida» — dizem--nos. Apesar de tudo, segundo nos garantem, os empregados da casa nada sofreram das consequências: o projeccionista - montador - -revisor e delegado dos patrões junto dos distribuidores, com 42 anos de casa e 62 de idade, continua a receber os seus 5 mil escudos mensais; o bilheteiro, com 65 anos de idade e 45 de casa, os seus 3 mil escudos por mês e os porteiros e arrumadores os 25$00 por cada quatro horas ao serviço, actualmente 250$00 por semana.
     Assim, com pequenas alterações e benefícios, de cara lavada e cadeiras reluzentes o Animatógrafo do Rossio vai de novo falar ás «massas». Gostaríamos de poder esperar que, continuando embora a garantir a marca do tempo que tanto o valoriza, o pequeno cinemazinho agora de bairro pudesse em breve, falar uma outra linguagem que a tanta gente faz falta. Talvez houvesse menos tiros na Rua do Arco do Bandeira e menos «cowboiadas» alegres de outros tempos. Mas haveria decerto uma mais importante actualização naquilo que o cinema tem para dar e no que o público precisa de receber.


Reportagem, títulos e legendas das fotos A CAPITAL 
Segunda-feira, 23 de Agosto de 1971

MARGARIDA SILVA DIAS
(texto)
FERNANDO RICARDO
(fotos)



sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Hermínia Silva e o Fado


"Anda Pacheco"
(Frase com que Hermínia iniciava alguns fados, dirigida ao seu guitarrista António Pacheco)

Coisas boas em Jornais


"Desde que me entendo que gostei de cantar. E o fado, cantava­‑o a todo o mo­mento, e por toda a parte: na rua, em casa, na escola, desde que aos seis anos comecei a frequentar a escola, que ficava ali na Rua da Madalena, mesmo em frente da igreja.
Ora lá na escola, por vezes, havia umas festas nas quais tomavam parte algumas meninas que sabiam cantar. Eu deixava­‑me ficar muito caladinha quanto aos meus «méritos», pois tinha vergonha de os reve­lar. Até que um dia, quando se preparava uma dessas festas, uma das minhas colegas dirigiu-se à mestra e, apontando-me, revelou:
— Minha Senhora, esta menina canta muito bem!
Claro está que a professora quis, imediatamente, avaliar as minhas possibilidades e mandou-me cantar uma música que eu soubesse bem. E eu «desatei» logo a cantar um fado, daqueles bem fadistas.
A professora ao ouvir-me cantar o fado levou as mãos à cabeça e, fazendo um gesto negativo, declarou:
—  Ai. Esta menina! Não… Fado não!
Depois, talvez por ver a decepção estampada na minha cara, incitou-me a cantar outra «moda» que eu soubesse. Cantei, ou melhor, comecei a cantar uma canção que sabia também, mas o pior é que mesmo a canção, na forma como eu cantava e na minha voz, soava como fado. E, de novo, a senhora me interrompeu, repetindo, um tanto ou quanto escandalizada:
—  Não, fado não… Esta menina não pode cantar na festa! As meninas não cantam fado!
Escusado será dizer que fiquei com uma grande «pinha», pois cantar já era para mim uma paixão.
E começava também já a despontar em mim o desejo de representar. E chorei que me fartei.
Mas a vida continuou e eu sempre cada vez mais possuída por aquela verdadeira paixão que era para mim o cantar. E sempre que podia lá estava eu de «boca aberta» quer fosse em casa, quer fosse nas casas de pessoas amigas que me convidavam, de vez em quando, a cantar um «fadinho», quer fosse em festas particulares, onde me chamavam de propósito para eu «botar» cantiga, porque achavam que eu tinha «jeitinho».E eu ia sempre cantando e sempre a pensar no Teatro, pois nesse tempo não havia casas típicas e eu para as tabernas não ia… claro que não ia. (...) Chegou a altura em que tive necessidade de ir aprender um ofício e empreguei­‑me como aprendiza de modista. No en­tanto, o meu pensamento estava sem­pre no Teatro e no Fado. E continuei a cantar, quer pelos bailaricos, quer em festas particulares, para as quais estava sempre a ser chamada. E eu ia sempre, pois o que eu queria era cantar…"
(Palavras de  Hermínia Silva em lisboanoguiness.blogs.sapo.pt) Ler Mais Aqui



Hermínia Silva canta "Sou Miúda" da autoria de Luís Ribeiro e João Fernandes.
Gravação de 1958. Carregado por TiMariaBenta em 19/12/2009


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Um último olhar para Lisboa


Stanley Kubrick em Portugal - 1948

Um último olhar para Lisboa, 1948


Tinha 17 anos, ainda não fazia filmes, mas já fotografava (desde os 13, com uma Leica oferecida pelo pai em dia de aniversário). Antes de ser Kubrick, portanto antes do cinema, Stanley teve uma primeira vida na fotografia. Em Agosto de 1948, Kubrick com 20 anos esteve em Portugal onde passou uma temporada, para fazer uma reportagem para a prestigiada revista Look, então a grande rival da Life, e para a qual trabalhava desde 1945.






Os editores da revista Look, tinham-lhe dito para fotografar os locais turísticos mais conhecidos de Portugal, um país que tinha escapado incólume aos horrores da II Guerra Mundial, bem como os principais monumentos e as igrejas mais antigas, ao acompanhar as férias de um casal de compatriotas, Jan e Bill Cook. Kubrick (1928-1999), foi o mais jovem fotógrafo de sempre contratado pela Look. O "modus operandi da revista" foi uma escola para ele: a Look contava histórias por episódios e exigia dos seus repórteres um acompanhamento obsessivo, e o mais naturalista possível, dos protagonistas das reportagens. Estas imagens "espantam pela sua surpreendente profundidade", antecipando o modo engenhoso como Kubrick tiraria partido dos recursos técnicos à sua disposição para representar e interpretar a realidade. 
(Fontes: Diário de noticias e fotosdistoedaquilo.blogspot)







(fotos (4) encontradas em giorney.tubir.com e outras (6) estavam á solta na net)