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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O Feio Alheio


Perguntai a um sapo o que é a beleza, o verdadeiro belo. Responder-vos-á que consiste na sua mulher, com os seus belos olhos redondos que se projectam para fora da pequena cabeça, o pescoço grosso e achatado, o ventre verde e as costas castanhas. Interrogai o diabo: dir-vos-á que o belo é um par de cornos, quatro patas com garras e um rabo.
Aparentemente, beleza e fealdade são conceitos que mutuamente se exigem: habitualmente entende-se a fealdade como o oposto da beleza, de modo que bastaria definir a primeira para se saber o que é a outra. Mas as diversas manifestações do feio através dos séculos são mais ricas e imprevisíveis do que comummente se julga. Por isso, não só os textos antológicos, mas também as ilustrações extraordinárias deste livro, levam-nos a percorrer um itinerário surpreendente entre pesadelos, terrores e amores de quase trinta mil anos, onde os actos de repulsa caminham de mãos dadas com comoventes movimentos de paixão, e a rejeição da deformidade é acompanhada de êxtases decadentes que, as mais das vezes, são violações sedutoras de todos os cânones clássicos.
In Introdução, HISTÓRIA DO FEIO de  Humberto Eco (direcção), Editora  Difel, 2007.


HISTÓRIA DO FEIO de  Humberto Eco (direcção). Capa e página 393
.



Para eles eram feios

Relatórios de leitura e recensões


«As composições de Johann Sebastian Bach são totalmente sem beleza, harmonia e sobretudo, clareza.»
(Johann Adolph Scheibe, Der critische Musikus, 1737)

«Uma orgia de barulho e vulgaridade.»
(Louis Spohr aquando da estreia da 5ª sinfonia de Beethoven)

«Se (Chopin) tivesse sujeitado as suas músicas ao juízo de um perito, ele tê-las-ia rasgado… Em todo o caso, gostaria de ter sido eu a fazê-lo.»
(Ludwig Rellstab, Iris im Gebiete der Tonkunst, 1833)


Johann Sebastian Bach, Ludwig van Beethoven Frédéric Chopin.


«O Rigoletto é carente no plano melódico. Esta ópera não tem nenhuma possibilidade de inserir-se no reportório.»
(Gazette Musicale de Paris, 1853)

«Estudei durante muito tempo a música daquele velhaco. É um bastardo sem qualidade.»
(Tchaikovsky no seu Diário, acerca de Brahms)

«Dentro de cem anos, Les fleurs du mal serão recordados com uma curiosidade.»
(Émile Zola, por ocasião da morte de Baudelaire)

«Terá tido os dotes de um grande pintor, mas faltou-lhe vontade.»
(Émile Zola sobre Cézanne)

«É a obra de um louco.»
(Ambroise Vollard em 1907 sobre Les demoiselles d’Avignon de Picasso)


Les demoiselles d’Avignon. 1907. Pablo Picasso.


«Serei talvez duro para compreendê-lo, mas não consigo capacitar-me do facto de que um senhor possa empregar trinta páginas para descrever como se dá voltas e mais voltas na cama antes de adormecer.»
(Relatório de leitura sobre a Recherche de Proust)

«Senhor, sepultaste o vosso romance num cúmulo de pormenores que estão bem desenhados, mas totalmente supérfluos.»
(Carta de um editor a Flaubert, acerca de Madame Bovary)

«Nos seus romances não há nada que revele particulares dotes imaginativos, nem a trama, nem as personagens, Balzac nunca ocupará um lugar de relevo na literatura francesa.»
(Eugène Poitou, Revue des deux mondes, 1856)

«Em O monte dos vendavais, os defeitos de Jane Eyre [da irmã Charlotte] multiplicaram-se por mil. Pensando bem, a única consolação que nos restará é o pensamento de que o romance nunca se tornará popular.»
(James Lorimer, North British Review, sobre Emily Bronte, 1849)

«A incoerência e a falta de forma das suas poesíolas – não saberia defini-las de outro modo – são espantosas.»
(Thomas Bailey Aldrich, The Atlantic Monthly, sobre Emily Dickinson, 1882)

«Moby Dick é um livro triste, esquálido, chato e até ridículo… Depois, aquele capitão louco, é de um aborrecimento mortal.»
( The Southern Quarterly Review, 1851)


Moby Dick de Herman Melville. Publicado em 1851.


«Walt Whitman tem a mesma relação com a arte que um porco com a matemática.»
(The London Critic, 1855)

«Pouco interessante para o leitor comum e não bastante aprofundado para o leitor científico.»
(Relatório de leitura sobre H. G. Wells, A máquina do tempo, 1895)

«A história não chega a uma conclusão. Nem o caracter nem a a carreira do protagonista parecem chegar a um ponto que justifique o final. Em suma, parece-me que a história não conclui.»
(Relatório de leitura sobre Francis Scott Fitzgerald, Este lado do paraíso, 1920)

«Meu Deus, meu Deus, não podemos publicá-lo. Acabamos todos na prisão.»
(Relatório de leitura sobre Faulkner, Santuário, 1931)

«É impossível vender histórias de animais nos EUA.»
(Relatório de releitura sobre George Orwell, O triunfo dos porcos, 1945)

«Esta rapariga não parece ter uma especial percepção ou então o sentimento de como se pode levar este livro acima de um nível de simples curiosidade.»
(Relatório de leitura sobre o Diário de Anne Frank, 1952)

«Deveria ser contado a um psicanalista e provavelmente foi e transformou-se num romance que contém alguns passos de bela escrita, mas é excessivamente nauseabundo… Recomendo que seja sepultado por mil anos.»
(Relatório de leitura sobre Nabokov, Lolita, 1955)


Lolita de Vladimir Nabokov. Publicado em 1955.


«Os Buddenbrook não são senão dois volumes em que o autor conta histórias insignificantes de gente insignificante num estilo insignificante.»
(Eduard Engel sobre Buddenbrook de Thomas Mann, 1901)

«Acabo de ler o Ulisses e julgo-o um insucesso… É prolixo e desagradável. É um texto grosseiro, não só em sentido objectivo, mas também do ponto de vista literário.»
(Do Diário de Virginia Wolf)

«Aquele rapaz não tem o mínimo talento.»
(Manet a Monet sobre Renoir)

«Nenhum filme sobre a guerra civil deu dinheiro.»
(Irving Thalberg da Metro, desaconselhando a compra dos direitos de E tudo o vento levou)

Cartaz de Gone With The Wind (E tudo o vento levou, 1939) de Victor Fleming.


«E tudo o vento levou será o mais clamoroso fiasco da história de Hollywood. Estou muito contente por ser Clark Gable e não Gary Copper quem enfrentará as dificuldades.»
(Gary Cooper, depois de ter recusado o papel de Rhett Butler)

«Que farei eu com um tipo com aquelas orelhas?»
(Jack Warner depois do ensaio de Clark Gable, 1930)

«Não sabe recitar, não sabe cantar e é calvo.»
(Dirigente da Metro, depois de um ensaio de Fred Astaire, 1928)


Transcrito da página 393 de HISTÓRIA DO FEIO de Humberto Eco (direcção), Editora Difel, 2007.



 Clark Gable (1936), por Alfred Eisenstaedt e Fred Astaire (1945), por Bob Landry.




(Fotos LIFE Archive e da net)






segunda-feira, 7 de maio de 2012

Albert Schweitzer em Lambarena

"Na medida em que vamos adquirindo mais conhecimento, as 
coisas se tornam menos compreensíveis e mais misteriosas."
(Albert Schweitzer)


Fotos de W. Eugene Smith

Documentário biográfico completo de 1957 realizado por Jerome Hill e narração do grande actor Burguess Meredith e onde o actor Fredric March faz a voz de Albert Schweitzer. Ganhou o Óscar para melhor Documentário em 1957, foi escrito em parte pelo próprio Albert Schweitzer, e traça a vida dele (com actores), desde o seu nascimento na França até á idade de 30 anos quando ele toma a decisão de ir para Lambarena no Gabão, na África Equatorial Francesa e construir um hospital na selva. A segunda metade do filme abrange um dia inteiro no hospital-vila, seguindo Albert Schweitzer em suas rondas diárias.


Albert Schweitzer descansando na varanda e coordenando 
trabalhos em seu hospital em Lambarena no Gabão, 1954.


Albert Schweitzer (14-01-1875 — Lambarena, 04-09-1965) foi um teólogo, músico, filósofo e médico alemão, nascido na Alsácia, então parte do Império Alemão.
Formou-se em teologia e filosofia na Universidade de Estrasburgo, onde, em 1901, o nomearam docente. Tornou-se também um dos melhores intérpretes de Bach e uma autoridade na construção de órgãos.
Aos trinta anos, gozava de uma posição invejável: trabalhava numa das mais notáveis universidades europeias; tinha uma grande reputação como músico e prestígio como pastor de sua Igreja. Porém, isto não era suficiente para uma alma sempre pronta ao serviço. Dirigiu sua atenção para os africanos das colónias francesas que, numa total orfandade de cuidados e assistência médica, debatiam-se na dura vida da selva.


Albert Schweitzer braço na enfermaria do hospital. / Mulher idosa morrendo de velhice sentada com os olhos fechados numa cama da leprosaria do hospital. / Bebê a ser alimentado no berçário do hospital Albert Schweitzer. Lambarena, Gabão, 1954.


Em 1905, iniciou o curso de medicina, e seis anos mais tarde, já formado, casou-se e decidiu partir para  Lambarena, no Gabão, onde uma missão necessitava de médicos. Ao deparar-se com a falta de recursos iniciais, improvisou um consultório num antigo galinheiro e atendeu seus pacientes enfrentando obstáculos como o clima hostil, a falta de higiene, o idioma que não entendia, a carência de remédios e instrumental insuficiente. Tratava de mais de 40 doentes por dia e paralelamente ao serviço médico, ensinava o Evangelho com uma linguagem apropriada, dando exemplos tirados da natureza sobre a necessidade de agirem em beneficio do próximo.
Com o início da I Grande Guerra, os Schweitzer foram levados para a França, como prisioneiros de guerra. Passaram praticamente todo o período da guerra confinados num campo de concentração. Nesse período, Albert escreve sobre a decadência das civilizações. Com o final da guerra, retoma seus trabalhos e, ante a visão de um mundo desmoronado, declara: “Começaremos novamente. Devemos dirigir nosso olhar para a humanidade”.


Albert Schweitzer, alimentando animais na área do seu hospital. Lambarena, Gabão, 1954.


Realiza uma série de conferências, com o único intuito de colher fundos para reconstruir sua obra na África. Torna-se muito conhecido em todos os círculos intelectuais do continente, porém, a fama não o afasta dos seus projectos e sonhos.
Após sete anos de permanência na Europa, parte novamente para  Lambarena. Dessa vez acompanhado de médicos e enfermeiras dispostos a ajudá-lo. O hospital é levantado numa área mais propícia, e com o auxílio de uma equipe de profissionais, Schweitzer pode dedicar algumas horas de seu dia a escrever livros, cuja renda contribuía para manter os pavilhões hospitalares. Extasiou o mundo com sua vida e sua obra, e em 1952, recebe o Prémio Nobel da Paz, como humilde homenagem a um “Grande Homem”. Morreu a 4 de setembro de 1965, em  Lambarena, no Gabão. (In, wikipedia.org)


Mulher deitada numa padiola, depois de dar á luz é transportada para a Vila do Albert Schweitzer hospital. / Leprosos tomando os medicamentos no Albert Schweitzer hospital. Lambarena, Gabão, 1954.




Albert Schweitzer com uns sapatos com mais de 30 anos e amarrando suas páginas manuscritas com pedaços de corda em Lambarena, Gabão, 1954.


2009 - Uma homenagem a Albert Schweitzer 


Faixa 2: Sankanda + Lasset uns den nicht zerteilen do CD Lambarena - Bach to Africa. Projecto Lambarena - uma ideia de Mariella Berthéas concretizada pelos músicos Hughes de Courson e Pierre Akendengué.




(fotos W. Eugene Smith e LIFE Archive)