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sábado, 6 de abril de 2013

A mulher que fazia brilhar as estrelas


Costumes by Edith Head
Texto  de Vítor Pavão dos Santos
Jornal Se7e 4-11-81

 Coisas boas em jornais

«Costumes by Edith Head» é uma das frases de maior prestigio na história de Hollywood. De facto, a grande figurinista, soube aliar a mais elevada qualidade ao maior profissionalismo, com uma versatilidade e um talento difíceis de igualar. Responsável por mais de 500 filmes, desenhou todos os géneros, de ternurentos melodramas a violentos westerns, de movimentadas comédias a apavorantes filmes de terror, de musicais alegres e dramas sombrios, de esplendores bíblicos a sórdidos policiais.

Edith Head (1898-1981). 1955. Hollywood. Allan Grant.


As suas qualidades de trabalho eram lendárias. Entre 1937 e 1942, nunca desenhou menos de 35 filmes por ano. Com rara flexibilidade e profunda compreensão dos temas tratados, demonstrou amplamente como um vestido pode caracterizar uma personagem sem se tornar demasiado notado, mas antes se integrando no conjunto e contribuindo para a criação da atmosfera requerida para cada filme. Sempre simpática, era tão popular entre as  stars,  que procurava se sentissem bem dentro dos vestidos que lhes desenhava, como entre as equipas técnicas, com as quais colaborava estreitamente. No entanto, Edith Head era uma mulher de temperamento forte. Por exemplo, decidiu que o ano do seu nascimento era 1907 e embora toda a gente soubesse que era muito mais velha, nunca se lhe descobriu a idade exacta. Nem agora quando morreu, o segredo foi revelado. Até a conservatória de Los Angeles, onde foi registada, ardeu há muitos anos. E não faltaram línguas maldosas que falassem de fogo posto...
Sabe-se que teve uma boa educação, tirou um curso universitário e casou, com brevidade, com um tal mr. Head, do qual guardou o nome. Em 1923, era professora de Espanhol e estudava arte, à noite, quando respondeu a um anúncio que pedia desenhadores para a Paramount. Como pagavam bem, embora quase não soubesse desenhar não se atrapalhou, pediu alguns desenhos emprestados a uma colega e mediante este expediente apresentou-se a Howard Greer, que era então quem vestia as stars do estúdio, e logo a admitiu. E não se arrependeu, pois ela revelou-se uma grande trabalhadora, com raro talento para aprender os segredos da profissão.
Por isso, em 1927, quando Greer deixou o estúdio, Edith Head estava já tão integrada que foi elevada à categoria de chief designer e primeira assistente do grande Travis Banton, mundialmente famoso pela fantasia delirante, mas de gosto impecável, com que vestia Marlene Dietrich nos filmes de Joseph von Sternberg. Ofuscada pelos triunfos de Travis Banton, a jovem Edith Head desenhava montes de filmes série B, que não davam nas vistas mas lhe iam fornecendo uma enorme experiência.


 Desenhos de Edith Head para Dorothy Lamour no filme Road to Bali (1952).
Encontrados em thesilverscreenaffair.blogspot.pt e bid.profilesinhistory.com

Um sucesso chamado «Sarong»

Acontecia que Banton bebia que se fartava, estava dias e dias sem aparecer no estúdio, era malcriado para toda a gente, só fazia o que lhe apetecia. Como tudo isto começasse a pesar mais que o seu enorme talento, a Paramount, em 1937, não lhe renovou o contrato, oferecendo então o lugar de head designer a Edith Head, que se iria manter à frente do departamento até 1967. Ser sucessora de alguém tão famoso como Travis Banton, não era coisa nada fácil. Os problemas começaram logo com Claudette Colbert, então a maior  star  do estúdio, que detestou os vestidos que Edith Head lhe desenhou para Zaza  (1938) e se recusou a voltar a ser vestida por ela, embora sem razão, pois eram lindos. Melhor andaram as coisas com Mae West, que sabia exactamente aquilo que queria vestir e se deu tão bem com Edith Head que sempre a chamou para os seus filmes. Ainda em 1970, quando fez o seu célebre comeback  em Myra Breckinridge (filme inédito em Portugal), declarou: «Edith Head é a única desenhadora capaz de vestir Mae West como Mae West». E era!
Estávamos em plenos anos 30, na época em que, na Metro-Goldwyn-Mayer, o famosíssimo Adrian dispunha de rios de dinheiro para deslumbrar o mundo com a flamboyance  dos vestidos que desenhava para Greta Garbo, Joan Crawford e Norma Shearer. No entanto, apesar de tal concorrência, Edith Head, num estúdio com muito trabalho e poucos meios, não tardou a impor o seu estilo e a sua aparente simplicidade, conseguindo que os vestidos que desenhava fossem os mais copiados pelas mulheres americanas. E isto era o maior sucesso, pois significava que sabia tornar próximas do público as personagens que vestia.

 Modelos usando vestidos desenhados por Edith Head. 1941. Peter Stackpole.
Fotos de LIFE Archive

Um dia, lá por 1936, enrolou com tal arte um pano estampado à volta de uma rapariga sorridente e lânguida, chamada Dorothy Lamour, que o sarong  se tornou uma moda que durou muitos anos e todos os estúdios copiaram. Mas o boom tremendo de Edith Head chegou em 1941, quando vestiu Barbara Stanwick com uma série de vestidos de cintura alta e influência espanhola, em The Lady Eve (As três noites de Eva). Antecipando-se às modas, como frequentemente iria acontecer, ela dava o sinal de partida para a loucura do south american way,  que dominaria nos States durante a guerra. Mas, para além disso, criava possibilidades insuspeitadas a uma grande star,  que ninguém até então tinha sabido como vestir para a transformar numa mulher sofisticada. Ficaram grandes amigas e a magnífica Barbara Stanwyck nunca mais a dispensou, levando-a atrás de si, durante sete anos, para os vários estúdios em que ia trabalhando, embora a Paramount não gostasse nada de emprestar a sua preciosa costume designer.
Por esse tempo, tinha o estúdio descoberto uma rapariguinha, de aparência adolescente mas cheia de potencialidades. O departamento de penteados deu-lhe uma madeixa sobre o olho, que o mundo inteiro iria copiar. Quanto ao resto, transformar a miúda miope na provocante Veronica Lake, foi obra de Edith Head. E acertou em cheio, como acertou depois com Betty Hutton ou com Paulette Goddard.

Desenho de Edith Head para Hedy Lamarr em Sansão e Dalila  e a própria no filme (1949).
Fotos de flapperdays.blogspot.pt 

O vestido certo na cena certa

Por meados dos anos 40, todas as  stars  disputavam Edith Head, pois sabiam que ela as valorizava ao máximo, sem as afogar num exagerado «decorativismo». Olivia de Havilland atribui-lhe uma boa parte da responsabilidade do seu êxito nos dois filmes em que ganhou o  Oscar  para a melhor actriz do ano:  To Each His Own (Lágrimas de mãe, 1946), onde  atravessava várias épocas e várias idades;  The Heiress (A Herdeira, 1949), onde os seus vestidos 1850 tinham rigor histórico, mas eram «compreensíveis» para o público actual. É a actriz quem afirma: «Cada um dos vestidos desenhados por Edith Head eram sempre perfeitos. Bastava-me vesti-los para me transformar na mulher que tinha de interpretar.» 
De facto, nada desenhado por Edith Head era gratuito, tudo se conjugava para acentuar um determinado momento de um determinado filme. E, no entanto, o seu estilo simples, directo, «jornalístico», beneficiava pouco da súbita riqueza que a II Grande Guerra trouxera à Paramount. É que quando havia superproduções, pensavam sempre para as desenhar em alguém mais ligado a coisas espectaculares. Pois se até Cecil B. De Mille, o produtor supremo, trabalhava sempre, dentro da Paramount, com a sua equipa própria. Era um bocado de mais e Edith Head reagiu com violência, e fez muito bem. Por isso, quando De Mille realizou uma das suas obras mais belas e arrebatadas, Samson and Delilah (Sansão e Dalila, 1949), foi ela, integrando-se admiravelmente na grande tradição demilleana, quem inventou aquela inesquecível teoria de caudas, sedas roçagantes, cascatas, para já não falar das penas de pavão, que envolvem Hedy Lamarr. Raramente se terá conseguido algo de mais espectacular. Quem é que dizia que a Head só fazia coisas sóbrias?

Pormenor do vestido de Edith Head para Hedy Lamarr em Sansão e Dalila.
Foto de flapperdays.blogspot.pt


Entretanto, em 1947, em Paris, num golpe mágico que deixou de boca aberta o mundo incrédulo, Christian Dior mudou por completo a silhueta feminina, instaurando o new look. Sempre com medo de que os vestidos dos filmes passassem muito rápido de moda, Hollywood. tentava ignorar essa nova moda. Foi Edith Head quem se atreveu a trabalhar a nova silhueta, equilibrando-a em termos  de cinema. E Bette Davis foi a primeira star a exibir o new look, em  June Bride (Noiva da  Primavera, 1948). E ficou tão chic que nunca mais dispensou Edith Head,  impondo-a quando foi  à Fox fazer All About Eve (Eva, 1950), embora todo o resto do elenco  fosse vestido pelo famoso Charles LeMaire. Na verdade, Bette Davis aparecia perfeita, muito elegante e apenas com uns toques de extravagância, ao interpretar, nesse filme, a temperamental  actriz teatral Margo Channing. Mas melhor para Edith foi vestir uma star como uma star, ou seja, Gloria Swanson como Norma Desmond,  rainha  do cinema mudo, vivendo a  esperança  de um  regresso impossível,  em Sunset Boulevard  (O Crepúsculo dos Deuses, 1950). A personagem podia  prestar-se  aos maiores exageros, mas a figurinista  soube, com imensa subtileza, manter-lhe  a humanidade, dando-lhe apenas os necessários elementos de exotismo e glamour que distinguem uma superstar de um  ser humano. Um triunfo absoluto.

 Desenho de Edith Head para Grace Kelly no filme Ladrão de Casaca (1955) e Grace Kelly.
Fotos de sheris-musings.tumblr.com

A  favorita de Hitchcock

Outra actriz que não dispensava Edith Head era Ingrid Bergman, que a exigiu em Notorious (Difamação, 1946), onde exibia um vestido de veludo negro com um decote de cortar o fôlego. Mas mais importante que a dita dècolletage foi o facto de, nesse filme, Edith encontrar Alfred Hitchcock, que viu nela a colaboradora ideal, inteligente e sóbria, capaz de fazer vibrar uma sensação no momento exacto. Fizeram nove filmes juntos, dois deles com Grace Kelly, cujo tipo distante e um tanto misterioso, mas também, desenvolto, a figurinista ajudou a modelar com grande sabedoria, ajudando a torná-la a mulher famosa que ainda é hoje. Edith Head considerava mesmo como seu trabalho preferido To Catch a Thief (Ladrão de Casaca, 1955). E contava: «Hitch disse-me: Não quero, de maneira nenhuma, cores fortes. Por isso, usei em todo o filme os mais pálidos tons de pastel. Depois, quando ela (Grace Kelly) aparece com o vestido dourado, o climax torna-se assim muito mais eficaz.» Nos anos 50, com a decadência dos estúdios e o enorme decréscimo dos filmes produzidos, Edith Head passou a ter mais tempo para estudar os seus trabalhos. Foi a sua época mais marcante. Até lhe deram oportunidade para desenhar uma passagem de modelos, cheia de cor e imaginação, em Lucy Gallant (Orgulho contra orgulho, 1955); onde uma das suas estrelas preferidas, Jane Wyman, interpretava uma desenhadora de modas. E nunca a primeira Mrs. Ronald Reagan apareceu tão fascinante e sofisticada.

 Desenhos de Edith Head para Audrey Hepburn nos filmes Férias em Roma (1953) e Sabrina (1954).
Fotos de sheris-musings.tumblr.com

Em 1953, a Paramount descobriu uma miúda cheia de espontaneidade, muito esguia e ossuda. Vesti-la foi um dos triunfos de Edith Head, pois em vez de lhe camuflar o seu corpo nada convencional, decidiu acentuá-lo e mostrá-lo tal qual. E assim nasceu, com Audrey Hepburn vestida por Edith Head, em filmes como Roman Holiday (Férias em Roma, 1953) e Sabrina  (1954), um novo tipo de mulher, uma nova beleza. Por isso, embora Audrey Hepburn talvez fique na história da  fashion como a musa inspiradora de Hubert de Givenchy, é bom não esquecer que quem lhe compreendeu o charme e o evidenciou foi Edith Head. Outra star que causou sensação na América, e beneficiou do «tratamento» de Edith Head, foi Sophia Loren, que ela vestiu muitas vezes, mas cuja personalidade definiu admiravelmente em That Kind of Woman  (Uma certa mulher, 1959). Embora trabalhando durante décadas com orçamentos reduzidos, foi ironicamente quando lhe deram possibilidades de desenhar vestidos aos montes para Shirley MacLaine, sem limite de verbas, em What a Way To Go (Ela e os seus maridos, 1963), que Edith Head realizou um dos seus trabalhos mais óbvios e falhos de estilo, embora aparentemente espectacular.

Edith Head e os seus Oscars.
Foto de sheris-musings.tumblr.com


Uma cabazada de «oscars»

Em 1966, quando a Paramount foi absorvida pela multinacional Gulf+Western, todos lamentaram que Edith Head fosse obrigada a abandonar o seu estúdio de tantos anos. Mas ei-la que aparece, triunfante, com um contrato para head designer dos Universal Studios, onde continuaria, desenhando sempre, até morrer, embora parando para fazer conferências, dar aulas nas universidades, e escrever dois livros de memórias:  The dress doctor  e  How to dress for sucess. Numa época em que os verdadeiros profissionais de Hollywood  quase tinham  já desaparecido,  Edith Head fez valer a  sua tremenda experiência, sobretudo na difícil arte de desenhar fatos de  homem. E com tal brilho que, inesperadamente, em 1973, com  The Sting  (A Golpada), o  modo impecável como vestiu, à  moda dos anos 30, Paul Newman, Robert Redford e Robert Shaw, caracterizando com exactidão cada uma das personagens, lhe  valeu  o  seu oitavo Oscar.
Desde que, em 1948, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood  resolveu instituir um Oscar para o melhor costume designer, Edith Head foi distinguida nos seguintes anos:  1949:  The Heiress  (A Herdeira); 1950: All About Eve (Eva) e Samson and Delilah (Sansão e Dalila), nas duas modalidades, respectivamente preto e branco e a cores; 1951: A Place in The Sun  (Um  lugar ao sol);  1953: Roman Holiday (Férias  em Roma); 1954: Sabrina; 1960: The Facts of Life (Coisas da vida); 1973: The Sting  (A golpada). Uma cabazada  de Oscars como mais ninguém tem.

 Desenhos de Edith Head para Bette Davis e Natalie Wood nos 
filmes All About Eve (1950) e (1953) e Inside Daisy Clover (1965).
Fotos de sheris-musings.tumblr.com

O mais curioso é que Edith Head, sempre inultrapassável ao vestir as stars, pouco acertava consigo própria. Quando  se  arranjava para festas, toda decotada e cheia de jóias, com a sua eterna franja e óculos escuros, arrancava boas gargalhadas das sofisticadas que lhe deviam a sua elegância. Chegou mesmo a aparecer nas listas das mulheres mais mal vestidas. Mas ela pouco se ralava. Ligada, desde 1933, ao  art director  Wiard (Bill) Ilheu, com quem casou em 1940, levava uma vida privada pacata e muito confortável, longe da multidão. Gostava de viajar e, em 1952, passou por Lisboa, dando uma saborosa entrevista a «O Mundo Ilustrado», declarando-se encantada com o Museu Nacional dos Coches, dizendo que Carmen Miranda lhe ensinara a dizer «obrigada» para se desembaraçar em Lisboa, revelando ser Balenciaga o seu costureiro preferido (pois quem havia de ser?). E a entrevistadora rematava: «E para terminar, encarregou-nos de dizer às mulheres portuguesas que as achou bonitas e muito bem vestidas.»
Ora digam lá se Edith Head, além de uma grande figurinista, não era mesmo uma simpatia de pessoa?

Texto  de Vítor Pavão dos Santos
Texto e Titulos em
Jornal Se7e
4-11-81

Edith Head preparando o vestido para Grace Kelly no 
filme Ladrão de Casaca. 1955. Hollywood. Allan Grant.
Foto LIFE Archive




domingo, 8 de abril de 2012

O Beijo no Cinema


por 

Alves Costa

publicado no jornal  A Capital em 17-04-1971


Coisas boas em jornais

Esta é a primeira imagem sempre em movimento de um beijo. Foi seleccionado para preservação no National Film Registry. Cena de uma comédia de palco, "A viúva Jones", interpretado por May Irwin e John C. Rice. De acordo com o historiador de cinema Edison C. Musser, os actores encenaram o beijo para a câmara, a pedido do jornal New York World, e o filme resultante foi o mais popular filme Vitascope Edison em 1896. Filmado Abril de 1896, no Edison's Black Maria Studio. Embora Alves Costa no texto diga que foi em 1895. Foto encontrada em museucine.wordpress.com.


ENQUANTO os irmãos Lumière se preparavam para apresentar o seu cinematógrafo, já nos kinetoscópios de Edison podiam ver-se imagens reais em movimento. Edison não tinha conseguido encontrar um processo de projectar convenientemente os seus filmes sobre um grande écran. Nos kinetoscópios, o espectador espreitava por uma luneta para ver pequenos filmes de um minuto. A imagem exibida era muito pequena e mal iluminada, E os assuntos pouco variados: uma luta greco-romana, uma mulher a atirar ao alvo, um acrobata, uma dança de selvagens, habilidades de um malabarista, um fumador de ópio ou o revoltear de uma bailarina envolta em véus transparentes. Os kinetoscópios funcionavam como uma slot machine e eram postos, em número variável, à disposição do público, com outros aparelhos de diversão ou de jogo, em vastos recintos conhecidos pelo nome de Penny Arcades. Isto passava-se no fim do século XIX. Na mesma altura, fazia grande sucesso, num dos teatros da Broadway, um momento da comédia "A viúva Jones" em que os artistas May Irvin e John C. Rice davam um beijo em cena. Para renovar os assuntos habituais dos filmezinhos dos kinetoscópios, Raff e Gammon tiveram a ideia de filmar esse momento em grande plano. Os dois artistas foram fotografados a meio busto. Encostavam os rostos e Rice aflorava os seus grandes bigodes a um lado da boca de Mary Irvin. E era tudo. Nem um nem outro eram já muito novos. O penteado, o rosto gorducho e a opulência do busto de Mary; a bigodaça e os altos colarinhos engomados de John dão a esta cena — vista hoje — um misto de ridículo e de encanto na sua enternecedora ingenuidade. 

Greta Garbo e John Gilbert em O Demónio e a Carne (Flesh and the Devil, 1926) de Clarence Brown. Foto encontrada em mythicalmonkey.blogspot.pt. / Clark Gable e Vivian Leigh em E Tudo o Vento Levou (Gone With The Wind, 1939) de Victor Fleming. Foto encontrada em weheartit.com.


O beijo de Mary Irvin e John Rice (0 primeiro beijo do cinema) foi filmado em 1895. Enquanto vista nos kinetoscópios, a imagem três vezes repetida desse beijo era tão pequena e tão pouco nítida que não despertou um interesse por aí além. Mas quando, um ano mais tarde, o filme pode ser projectado num écran, onde as figuras apareciam com o triplo do tamanho natural, foi um escândalo! E uma revista de Chicago, The Chap Book, de 15 de junho de 1896, referia-se-lhe indignadamente nestes termos : «Devem lembrar-se de que, numa peça recente, A viuva Jones, «miss» Mary Irvin e um certo John C. Rice trocavam beijos em cena. Nenhum deles era fisicamente atraente e o espectáculo dessa pastagem (sic) recíproca nos lábios um do outro já era difícil de suportar. Ao natural era grosseiro. Mas nada de comparável com o efeito que produz esta cena ampliada para proporções gigantescas e repetida três vezes de seguida. É absolutamente repugnante. Tudo o que resta do encanto de «miss» Irvin desvanece-se. A sua actuação torna-se indecente e de uma desmedida grosseria. Tais factos pedem a intervenção da polícia.» 


Burt Lancaster e Deborah Kerr em Até à Eternidade (From Here to Eternity, 1953) de Fred Zinnemann. Foto encontrada em wonderrland.blogspot.pt. / Marilyn Monroe e Tommy Noonan em Os homens Preferem as Loiras (Gentlemen Prefer Blondes, 1953) de Howard Hawks. Foto encontrada em www.thisismarilyn.com.


Passaram os anos... e o beijo voltou  a aparecer, uma vez por outra, no écran. Mas, ainda durante muito tempo, o beijo, no cinema, foi casto, tímido, fugaz e quase sempre no  rosto, antes de se tornar fim obrigatório e indispensável dos filmes de Hollywood. Hoje, é coisa tão natural, tão vista e tão vulgar que já mal se lhe presta atenção. Mas sessenta anos atrás perturbava seriamente os impressionáveis espectadores de cinema... Quando, em 1910, apareceram os primeiros filmes que mostravam dois apaixonados beijando-se na boca, o escândalo que causaram não fói menor do que havia causado, na América, o cândido Beijo de Mary Irvin e John Rice destinado aos espectadores solitários dos kinetoscópios quinze anos antes! O crítico do International Film Zeitung, Félix Holden, escreveria, amarguradamente chocado : «O beijo transformou-se totalmente. Os heróis do cinema já não se contentam com beijar-se rapidamente como nos bons velhos tempos. Agora unem os lábios demoradamente, com volúpia, e a mulher reclina a cabeça para trás em pleno êxtase.»... Referia-se aos filmes dinamarqueses...



Este beijo não pode ser mostrado em foto, tem de se ver toda a cena que está logo no inicio. Ele é, o melhor beijo de todos os filmes que vi e foram muitos. John Wayne e Maureen O'Hara em O Homem Tranquilo (The Quiet Man, 1952) de John Ford.


É que  os dinamarqueses, ao criarem a vamp (e a primeira e mais famosa delas foi a grande artista dramática Asta Nielsen), introduziram, também, nos seus filmes — então com grande expansão na Europa-- os beijos longos e apaixona-dos. Conta Georges Sadoul, em Le cinéma devient un art, que «os beijos à dinamarquesa chegaram a chocar também a Imprensa parisiense na primeira década deste século e que, por causa deles, frequentemente achavam que as fitas da Nordisk eram lascivas ou escabrosas». Então e ali — ao contrário do que iria acontecer no cinema de Hollywood — o beijo não se aliava a um fim feliz. No reino da Dinamarca o fim , trágico era de regra. Um pouco antes dos anos vinte, o cinema italiano atingira o apogeu. Depois da vaga de filmes histéricos que iriam influenciar até o cinema americano (consta que Griffith teria estudado o filme Cabiria antes de se lançar na realização de Intolerância), os italianos voltaram-se para o presente e, por seu turno, trouxeram a diva para os seus dramas passionais. E tão famosas, como Asta Nielsen, foram as mulheres fatais do cinema transalpino. A Lyda Borelli, a Francesca Bertini, a Pina Menichelli, a Hesperia, a Maria Jacobini vieram, então, perturbar os espectadores de todo o mundo, com as suas atitudes coleantes, o ardor do seu olhar, o arrebatamento dos seus beijos. 


Marlon Brando e Anjanette Comer em The Appaloosa (1966) de Sidney J. Furie. Foto encontrada em classicmoviestills.com. / Audrey Hepburn e George Peppard em Boneca de Luxo (Breakfast at Tiffany's, 1961) de Blake Edwards. Foto encontrada em www.foolzfun.com.


Mas, nessa altura, já não causavam escândalo, provocavam uma desmedida admiração. «Depois de 1914 - escreveria Sadoul, na obra citada — o divismo tornou-se loucura no cinema italiano. Enquanto que o star-system especula com o sex-appeal ou a beleza americana, na medida em que o público paga, na Itália os financeiros e os duques arriscavam a sua fortuna pelo amor de uma diva, de uma donna muta, como chamavam, então, ás estrelas italianas. Estes novos barões de Nucingen investiram os seus milhões em sociedades de produção onde as suas amadas eram senhoras absolutas. Produtores e realizadores tornaram-se fiéis escravos do prestígio e da beleza dessas mulheres idolatradas. Um romantismo semifeudal envolvia de latino ardor cada uma dessas donnas mutas que, agitando os seus belos braços e sacudindo a sua luxuriante cabeleira, conduziam, no meio dos paroxismos da paixão, o cinema ita1iano para a decadência e a ruína.» 
Também em Portugal não se escapou ao fascínio das divas. Em 1917, o beijo das divas era igualmente, entre nós, motivo para arrebatamentos inflamados... e publicamente confessados, como se vai ver. Em 1 de Junho de 1917, Leopoldo O'Donnell, empresário-gerente do Cinema Olímpia, de Lisboa, promoveu uma matinée de arte de homenagem a Lyda Borelli, Pina Menichelli e Francesca Bertini, precedida de uma conferência. Deste acontecimento deu conta a «Cine-Revista», no seu n.° 4, nestes termos: «As grandes trágicas do cinema foi o tema escolhido pelo distinto poeta António Ferro para a sua conferência cinematográfica realizada no dia um do corrente, em matinée de arte no Salão Olímpia. Facultado gentilmente pelo seu autor, começamos hoje a publicar esse primoroso trabalho. (...) A iniciativa do sr. António Ferro abre, sem dúvida, um movimento intelectual valiosíssimo em volta do importante papel reservado à cinematografia em todos os ramos da actividade e do saber humanos.»


Paul Newman e Joanne Woodward em A New Kind of Love (1963) de Melville Shavelson. Foto encontrada em www.acertaincinema.com.


A conferência é muito longa, mas vale a pena. reproduzir os parágrafos finais que António Ferro dedica ao beijo das divas homenageadas «Quero marcar bem, num rápido confronto, o temperamento de cada uma das trágicas de que falei. Para fazer, perdoem-me o arrojo, achei uma solução. Surpreender a sua alma através do seu beijo. O beijo é a melodia da alma, a melhor maneira de ela respirar, como afirma Edmond Rostand... O beijo é a síntese de todos os sentimentos, o sinete do amor. Assim, o beijo de Francesca Bertini é o beijo desvairado, o beijo que soluça, o beijo que se entrega, o beijo que floresce, o beijo doido, virgem, que apenas quer ser beijo. O beijo de Pina Menichelli é o beijo maldoso, o beijo que faz doer, que faz dos seus lábios punhais e dos nossos ferida, o beijo Judas, beijo fatídico que faz da boca taça onde ele é veneno que nos mata. O beijo de Lyda Borelli é, porém, o mais belo de todos, o mais cristão, o mais estilizado, jóia de preço que eu quisera ver nos meus lábios... É um beijo que, pelo burilado da forma, lembra um soneto de Verlaine. Depois deste delírio, António Ferro termina, sem dúvida sob entusiásticos aplausos da selecta assistência, com estas palavras: «Numa última síntese, o beijo de Francesca Bertini é o beijo humano, é o beijo mulher. O beijo de Pina Menichelli é o beijo diabólico, o beijo Satanaz. E, finalmente, o beijo de Lyda Borelli é o beijo divino, o beijo arte, o beijo Deus.» Era assim emocional e impressionável, como o reflectem estas palavras de António Ferro, como o reflectem palavras semelhantes publicadas em revistas da época, o público dos cinemas em 1917. O beijo das mulheres fatais, das grandes amorosas, deixara de ser escândalo. Era motivo de uma geral e alienadora admiração... tão ardente como risível. O tempo voltou a passar. O cinema evoluiu... e o público também. Hoje, já nenhuma vedeta do écran poderá gabar-se de provocar tais arrebatamentos. E o beijo, no cinema, tomado na sua dimensão natural, tornou-se moeda corrente... e desvalorizada.

Texto de Alves Costa, publicado no jornal  A Capital em 17-04-1971


Neve Campbell e Denise Richards em Ligações Selvagens (Wild Things, 1998) de John McNaughton. Foto encontrada em cinemaepoesia-felipe.blogspot.pt. / Javier Beltran e Robert Pattison em Little Ashes (2008) de Paul Morrison. Foto encontrada em cinemaepoesia-felipe.blogspot.pt.


Ewan Mcgregor e Jim Carrey em Eu Amo-te Phillip Morris em (I Love You Phillip Morris, 2009) de Glenn Ficarra e John Requa. Foto encontrada em cinemaepoesia-felipe.blogspot.pt. / Sarah Michelle Geller e Selma Blair em Estranhas Ligações (Cruel Intentions, 1999) de Roger Kumble. Foto encontrada em www.autostraddle.com




sábado, 3 de setembro de 2011

Actores e Realizadores


Harpo Marx e Danny Kaye em um show de caridade organizado por estrelas de Hollywood com o 
Ringling Brothers Barnum e o Bailey Circus em beneficio do Hospital St. John, em Hollywood. 1948.

Buster Keaton e Gary Cooper em um show de caridade organizado por estrelas de Hollywood com o Ringling Brothers Barnum e o Bailey Circus em beneficio do Hospital St. John, em Hollywood. 1948.

Buster Keaton num filme para TV, The Silent Partner em 1955.

Carole Lombard "dirigindo" Alfred Hitchcock em Mr. & Mrs. Smith, 1941.

Carole Lombard "dirigindo" Alfred Hitchcock em Mr. & Mrs. Smith, 1941.

Douglas Fairbanks segurando Charlie Chaplin em Manhattan, 1918.

Audrey Hepburn e Grace Kelly esperando nos bastidores do 
Theatre RKO Pantages, durante a entrega dos Óscar's em 1956.

Clark Gable, Cary Grant, Bob Hope e David Niven dando gargalhadas 
juntos durante um intervalo dos ensaios para a entrega dos Òscar's em 1958.



(fotos LIFE Archive)