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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

BELARMINO e RICHARD WIDMARK

BELARMINO (DE «CANA» SEM SABER PORQUÊ)
CONTRACENA COM RICHARD WIDMARK

 Jornal A Capital
3 de Novembro de 1970
(não assinado)


Coisas encontradas em jornais

Uma reportagem que é um festival de má-língua


 Belarmino e Richard Widmark em 1972, na capa de A Capital.

   Richard Widmark é um actor norte-americano célebre um pouco em todo o mundo. Fez muitos papéis, de «cow-boy». Foi xerife em «O homem das pistolas de ouro». Na década de quarenta interpretou um filme — por muitos considerado como a sua obra-prima — em que fazia de detective. Ferido, jorrando sangue, em perigo de vida, o polícia deu entrada num hospital. E quando o médico de serviço se preparava para o operar, o detective encontrou forças, ainda, para lhe cuspir na cara, manifestando-lhe, assim, todo o seu desprezo. O médico era negro (Sidney Poitier)...
   — O filme era uma extraordinária denuncia do racismo, mas Widmark desempenhava, ai, um papel perfeitamente de acordo com a sua  personalidade, com a sua maneira do pensar... — comentava ontem um técnico do cinema português. O comentário vinha a propósito, porque o técnico há vários dias que trabalha de perto com a grande vedeta do cinema norte-americano, há cerca de duas semanas em Lisboa, a rodar para a televisão  do seu país uma série em que volta a fazer de detective, intitulada «Madigan».


Richard Widmark foi Madigan na TV e no cinema.
Foto encontrada na net.

   Contudo, se a permanência de Widmark entre nós tem sido rodeada de curiosidade, os portugueses que com ele trabalham são unanimes em  considerarem a experiência como «bastante negativa»:
— Não aprendemos nada de novo, nem sequer no que respeita a organização, capítulo em que pensávamos que eles fossem de facto extraordinários — comentou um assistente de realização. — A equipa italiana que os americanos foram buscar para rodarem o filme em Portugal mais não tem feito que explorar-nos tanto quanto pode. A nós, técnicos, e a todos os outros!
   Entre , estes últimos conta-se o conhecido Belarmino Fragoso — sobre cuja vida agitada ainda há pouco os telespectadores puderam assistir à, exibição na TV do filme de Fernando Lopes, «Belarmino» — que  apesar de se ter deixado fotografar ao lado de Richard Widmark comentou:
   — Sou  figurante no filme, faço de camionista, vou de «cana» e tudo, não sei bem porquê, mas isso não é nada. Estou habituado a pequenos papéis no género. O pior é quando «toca» a pagar. Se não fossem uns amigos que aqui tenho, eles não me davam mais que «300» por dia... Na terra deles ganham dez vezes isso!


Esta foi a única foto que encontrei de "Lisbon Beat".
Foto encontrada na net.

A vergonha e o fosso

   Com efeito, o ambiente que tem rodeado as filmagens de «Lisbon Beat» (assim se chama o episódio da série «Madigan» que o actor está a rodar entre nós) não é, ao que consta, dos mais famosos. E embora as filmagens de ontem  não tenham sido muito agitadas, a verdade é que bastaram os três quartos de hora do jantar para se poder fazer uma ideia de quanto é grande o fosso que separa a vedeta americana e os seus mais íntimos colaboradores, por um lado, de toda a restante equipa (portuguesa), por outro.
   — Muitos de nós consideram que é uma vergonha, para, não lhe chamar outra coisa, trabalhar nestas condições. O triste é termos de aproveitar todas as oportunidades que nos surgem, tão poucas elas são... — desabafou outro técnico português integrado na equipa que esta a produzir a película, filmada a cores, em 35 milímetros, para a Universal Pictures.



 A série fez acontecer um filme, com Richard Widmark e Henry Fonda. 
Na foto, Don Siegel dá instruções aos dois actores. E, cartaz do filme. 
Fotos encontradas em acertaincinema.com e fencernanowrimo.blogspot.pt

   Widmark, um «pequeno monstro» de exigências continuas e pródigo em discussões a propósito de tudo e de nada, é apontado como um dos principais responsáveis. Para que o leitor possa, fazer uma ideia mais aproximada de quem é o actor — que, segundo certos autores, e apesar de se mostrar pró McGovern, esteve implicado no período negro de Hollywood, que correspondeu ao domínio do senador MacCarthy e à, fuga para o estrangeiro de muitos intelectuais norte-americanos — bastará referir, por exemplo, que para além de um apartamento num dos mais luxuosos hotéis da cidade ele tem às suas ordens uma vivenda em Sesimbra e uma «roulotte» exclusiva, que o acompanha em todos os locais de filmagens.
   — O realizador, Boris Sagal, muito conhecido nos Estados Unidos, também é outra «prenda» no género — comentou outro membro da equipa. —  Já há dois ou três dias, no aeroporto, nos criou a todos um problema que pode ter consequências graves. Por orientação dele tínhamos, pedido autorizações para trabalhar no aeroporto em todos os lados menos na pista. Uma vez lá, porém, ele entendeu que na pista é que era bom, e sem pedir  mais nada a ninguém invadiu aquilo tudo como se estivesse em casa dele. Acabámos por ser expulsos dali, depois até de um piloto de uma companhia americana, de aviação ter feito queixa, da violação das regras internacionais sobre o movimento nas pistas... Só esperamos que, no domingo, não venha a acontecer o mesmo nas  filmagens na ponte sobre o Tejo, entre as 17 e as 19 horas! — acrescentou.



Cartaz do filme "Belarmino" de Fernando Lopes (1964).
Foto encontrada na net.


Atribulações de Belarmino

   No meio do desfasamento geral, fácil de sentir, aliás, que reina entre os elementos da equipa, as filmagens de ontem (no Castelo de São Jorge, de manhã, e nos becos de Alfama, à tarde e à noite) mostravam um personagem positivamente á deriva, votado ao abandono, lutando contra, uma ignorância total do seu exacto papel no meio de tudo aquilo. Referimo-nos não a Richard Widmark, como é fácil perceber, mas a Belarmino Fragoso, vedeta de um filme de fundo que ele é  o primeiro a contestar, em certos aspectos, e um dos figurantes mais experimentados que hoje conhece o cinema nacional.
   — As pessoas pensam que, depois do filme sobre a minha vida, eu nunca mais fiz nada. Não é verdade. Fiz «As Ilhas Encantadas», com a Amália, em Porto Santo; «O Roubo dos Diamantes», com o António Franciosa; «O Cabeça de Martelo», o «Mal Amado», do Matos Silva, e outros ainda — conta Belarmino, um ex-«boxeur» ídolo das multidões que virou engraxador em tempos que já lá vão e que é hoje porteiro de uma «boate» alfacinha.
   — O último filme em que participei, antes deste agora, foi a semana passada, num francês, com a Nathalie Delon. Tenho muitos amigos com quem posso contar. Eles sabem que eu estou sempre «a cantar ópera», e então eu aceito porque o dinheiro extra que vou ganhando faz-me muito jeito. claro, se eu fosse o Eusébio, ou assim, pedia outro valor pelo meu trabalho, Como sou  só o  Belarmino, contento-me com o que me dão...


 "Belarmino" de Fernando Lopes (1964).
Fotos encontradas na net.


   Belarmino tem feito de tudo um pouco:
   —  No «Mau Amado» era engraxador (não sirvo para outra coisa...), nas «Ilhas Encantadas» fui pirata, no «Roubo dos Diamantes» fui bandido, ou policia, não, sei bem. Aqui sou  motorista,  vou «de cana» mas ainda estou para saber porquê. Mandam-me cá estar às tantas e é o que faço, tem  que ser!
   Se lhe perguntarem qual o papel, «Belarmino» à parte, que gostou mais de desempenhar, o ex-«boxeur» responde:
   — Todos. Faço isto pelo dinheiro, não é que me sinta actor. Mas nunca nenhum me chateou...
   Mesmo falando apenas de cinema, apesar dos abraços , de Widmark, Belarmino tem outros problemas. Por exemplo, uns  mandaram-no estar no «set» às oito da manhã, e outros disseram-lhe que só precisam dele às duas da tarde:
   — Estes tipos não se entendem, e eu também não os entendo a eles. Mas há pior. Olhe, por exemplo a televisão passar o meu filme e eu ainda estar à espera de receber algum... Então não era justo que me dessem uma parte? Mas. havemos de falar nisso noutra  altura!
   E enquanto Belarmino, pesado e lento, se afasta, Widmark, o sarcástico, prepara-se para, filmar outra cena. «Silêncio!», gritam os assistentes de realização. «É proibido tirar fotografias», ordenam eles. O actor não gosta dos «flashes». Só dos holofotes. Quando se é vedeta, é preciso ser grande em tudo...

Jornal A Capital
3 de Novembro de 1970
Trabalho não assinado



Um tributo a Richard Widmark no youtube.




domingo, 23 de setembro de 2012

«Ó MARRECO OLHÓ SONORO»

Coisas boas em jornais

Reportagem no jornal A CAPITAL 

Segunda-feira, 23 de Agosto de 1971



AO ANIMATÓGRAFO DO ROSSIO
VAI VOLTAR A «COWBOIADA»

O Animatógrafo do Rossio vai reabrir. Depois de oito meses de ausência vão voltar os tiros e as «cowboiadas», as frases duras ou amorosas, as cavalgadas furiosas em perseguição dos bandidos (às vezes inocentes ou cheios de razão) à Rua do Arco do Bandeira. Crianças, jovens e adultos formarão de novo bicha às portas da pequenina sala de sessões contínuas onde, antigamente, se refugiavam das rusgas da Polícia dos costumes, os parzinhos ilegais que povoavam aquela zona de Lisboa.


«... Fundado em 1907 com paredes de veludo, a sala era um cinema «fino», a 30 réis o bilhete» 

Lisboa, cidade antiga. O Animatógrafo do Rossio de fachada quase única como documento de «modern style», monumento nacional por direito mas não por lei, sujeito ao mercado da oferta e da procura no circuito de exploração de salas de espectáculos vai reabrir.
     Quase totalmente destruído o seu interior, pela derrocada de um prédio de construção ilegal que pertencia à Confidente, ele deixou, durante oito meses, de fazer ouvir a sua voz naquela rua, onde, bem ou mal, toda a Mouraria, Alfama e Bairro Alto, todos os amantes de cinema da Costa do Castelo iam matar a sua sede de espectáculo por seis escudos a entrada. Dois filmes (qual deles o melhor, qual deles o pior), em sessões contínuas.
     Para quem gosta MUITO do cinema e não tem NADA que fazer, a possibilidade de encontrar refúgio, sentado no escuro, das 2 da tarde às 9 da noite. E por ali absorver muito do que o cinema (mau ou bom) tem para dar às pessoas: a formação ou a deformação moral, mental e talvez até, algumas vezes, com consequências físicas...

• «Ó marreco olhó sonoro»

     «Ó Marreco, olhó sonoro»... Esta frase ainda muito recentemente chave do início do filme vai agora fazer-se ouvir de novo, depois de amanhã, talvez no pequeno cinema-estúdio-popular do Rossio, quando, ao fim de oito meses de portas fechadas, o publico voltar a encher (se voltar) os 175 lugares da plateia.
     Modificações... não muitas. Paredes pintadas, cadeiras restauradas, um pequeno (tosco) mas parece que eficaz exaustor de ar, cortinas novas. O resto é igual, incluindo a programação.
     Com uma réstia de esperança de que a reconstrução do cinema tivesse dado origem a uma transformação no critério de aproveitamento da salita onde certos lisboetas se habituaram a ir, aproveitámos a pequena entrevista com os sócios gerentes Ricardo de Saint-Maurice e Manuel António Cardoso de Menendez para formularmos a pergunta.
     - Não, embora já tenhamos tido essa ideia. O Paulo Rocha e a Secretaria de Estado da Informação e Turismo já se mostraram interessados. Mas nós não somos pedagogos, somos industriais. Tornar isto num cinema-estúdio era um risco muito grande. Poderia não haver programação. Os espectadores de filmes de estúdios estão localizados noutros sítios diferentes da cidade, Era difícil conseguir público que pagasse o aluguer dos filmes. Apesar de tudo, a selecção da fita é uma questão de preço. As empresas estão a fundir-se e as companhias distribuidoras é que decidem. De há 15 ou 18 anos para cá o adulto tem vindo a desaparecer deste cinema. São só quase rapazes. Se se levava filmes um bocadinho melhores a casa ficava vazia. Ultimamente os adultos voltaram e, consequentemente, as casas já são razoáveis.


«Velha de 20 ou 30 anos a máquina de projectar tem tido sucessivas peças novas»

• Monumento nacional não é...

     Há quatro, cinco anos o cinema tinha ainda muito da sua forma antiga. As cadeiras eram de ferro e estava ainda recente na memória a lembrança das mãos carimbadas como senha de saída. Depois, a casa fechou para obras, por dois meses, as cadeiras passaram do «ferro à sumapau». Agora, mais uma vez, tudo foi feito de novo. As condições de visibilidade, segundo dizem os gerentes-donos do cinema são boas, apesar dos muitos anos da máquina de projectar, que vai tendo sucessivas peças novas. O sonoro é «o último grito» … Apesar disso...
     - A exploração do cinema é difícil porque o público exige filmes de acção, que já não são fáceis de conseguir actualmente. Ainda por cima duas fitas e programação diária. Se levarmos uma fita do Oeste a casa enche-se. Se levarmos a «Música no Coração» não vem ninguém. Optamos por isso, pelo espectáculo comercial, para massas. É o que nos aconselha a bilheteira. E é preciso não esquecer que a casa tem muita despesa, que temos de pagar ao pessoal que, embora diga que não, é bem pago senão fugia-nos (porque há muita falta) e pelo aluguer das fitas pagamos o mesmo que unia sala de 600 lugares, quando temos só 175. Além do mais, de facto, este espectador quer um filme que o distraia. E há uma coisa curiosa: se o herói da fita morre na vida real ou no filme, a fita não tem êxito. «Robin dos Bosques», por exemplo, com o Errol Flynn, foi uma fita que passou aqui 20 ou 30 vezes. Logo que morreu o actor voltámos a trazer um filme do Robin dos Bosques. Foi um falhanço... Quando gostam do filme, há menino que vem para aqui às 2 da tarde e só sai às 9. Senta-se, come o amendoim, a castanha, a pevide e quando sai isto parece um cenário de luta.
     Constou-nos que a fachada do Animatógrafo fora elevada a monumento nacional. Mas não.
     - Não é; pelo menos ninguém nos disse nada...

• Carimbo na mão, senha de saída

     Fundado em 1907 com paredes de veludo, a sala era um cinema «fino», a 30 réis o bilhete. Depois, durante 10 anos passou por um teatrinho infantil onde as crianças eram simultâneamente actores e espectadores. Novamente cinema, propriedade de três senhores, José Correia, Barros e Teixeira, passou mais tarde para as mãos dos três sócios actuais. Lisboa cresceu, entretanto. E de «fino» passou a cinemazinho de bairro, agora sujeito sujeito a ser vendido, comprado e destruído onde toda a espécie de truques e habilidades eram permitidas para a rapaziada entrar de borla.
     - A história do carimbo na mão vem do Salão Lisboa. Por causa das sessões contínuas, era preciso dar às pessoas, no intervalo, uma senha de saída. Senha essa que era vendida depois de um tipo ver os dois filmes, por metade ou dais terços do preço. Assim nasceu a ideia e a prática do carimbar da mão que também não resultou grande coisa porque eles iam lá para fora e com o bafo passavam a tinta do carimbo para as mãos uns dos outros. Havia sempre uma maneira. Eu próprio, quando era miúdo, quando o porteiro ralhava com algum que tinha apanhado na falcatrua, passava por baixo das pernas dele e entrava sem pagar... Truques desses fazem-se sempre e toda a gente os emprega em certas alturas.


«Nós não somos pedagogos, somos industriais. Tornar isto num cinema-estúdio era um risco muito grande»

• As mulheres... eternamente ausentes

     Para além das pequenas beneficiações que já referimos, o Animatógrafo vai ver os seus azulejos restaurados bem corno a fachada («sem qualquer subsídio») e passa a ter, a partir de agora, instalações sanitárias também para senhoras. A propósito tentámos saber qual a frequência feminina do cinema. Respondem-nos com um sorriso um pouco misterioso:
     - Bom, sabe, dantes estas ruas eram uma espécie de picadeiro e quando aparecia a guarda era aqui o refúgio. As supostas senhoras honestas deixaram de vir por causa disso. Depois, acabou a rusga e deixou de entrar aqui qualquer mulher. Demos entrada gratuita às senhoras que vinham acompanhadas de homens para ver se as trazíamos cá. Agora... isso acabou. Paga tudo igualmente embora isto continue a ser um cinema frequentado fundamentalmente pelo elemento masculino.
     Quanto aos males que vêm por bem... Nem sempre o ditado acerta. Oito meses de inacção deixam apreensões numa sala de espectáculos. E as indemnizações (cujo montante não nos quiseram referir) deixaram de ser pagas segundo nos informam os sócios do cinema. «Contas a ajustar na altura devida» — dizem--nos. Apesar de tudo, segundo nos garantem, os empregados da casa nada sofreram das consequências: o projeccionista - montador - -revisor e delegado dos patrões junto dos distribuidores, com 42 anos de casa e 62 de idade, continua a receber os seus 5 mil escudos mensais; o bilheteiro, com 65 anos de idade e 45 de casa, os seus 3 mil escudos por mês e os porteiros e arrumadores os 25$00 por cada quatro horas ao serviço, actualmente 250$00 por semana.
     Assim, com pequenas alterações e benefícios, de cara lavada e cadeiras reluzentes o Animatógrafo do Rossio vai de novo falar ás «massas». Gostaríamos de poder esperar que, continuando embora a garantir a marca do tempo que tanto o valoriza, o pequeno cinemazinho agora de bairro pudesse em breve, falar uma outra linguagem que a tanta gente faz falta. Talvez houvesse menos tiros na Rua do Arco do Bandeira e menos «cowboiadas» alegres de outros tempos. Mas haveria decerto uma mais importante actualização naquilo que o cinema tem para dar e no que o público precisa de receber.


Reportagem, títulos e legendas das fotos A CAPITAL 
Segunda-feira, 23 de Agosto de 1971

MARGARIDA SILVA DIAS
(texto)
FERNANDO RICARDO
(fotos)



sábado, 28 de janeiro de 2012

José Rodrigues Miguéis - Conto "Inédito"

"Comércio com o Inimigo"


Coisas boas em Jornais

José Rodrigues Miguéis em 1958.


"A vida não é um privilégio pessoal: é alguma coisa que nos ultrapassa como indivíduos; que pertence à natureza, à história e à sociedade. É dos homens como "todo", no tempo e no espaço, que se faz a verdadeira eternidade. E é só entre eles, na sociedade, na consciência e na acção, que somos e nos sentimos reais ...
José Rodrigues Miguéis


Conto inédito (na altura) de José Rodrigues Miguéis, publicado
no Diário de Lisboa em 24-06-1971. Clique para ler.


Citação:

“Com grande espanto, vejo logo à cabeça da lista esta coisa inesperada: 
Sopa de nabos com feijão branco à portuguesa.
Nabos! Em Boitsfort! E feijão branco à portuguesa! Dei um pulo que fez sorrir a criadinha roliça, loira e flamenga a olho nu, que desenvoltamente se viera postar a meu lado.Como a todos os portugueses, sempre me alvoroçou encontrar lá fora, fosse onde fosse, um reflexo da nossa influência civilizadora. Não há português digno do nome que, passando por Paris, não vá abrir a boca de admiração a uma esquina da Rue de Lisbonne ou do Boulevard Pereyre; que não sinta espicaçá-lo uma ponta de orgulho ao ver, em Bucareste ou Nova Iorque, a tabuleta dum mercador chamado Portugal ou Portugalov, ou achar a cada passo, por esses restaurantes, as clássicas ‘ostras portuguesas’ ou a sopa de tomate a que chamam portugaise, talvez em homenagem à nossa nunca desmentida tesura. Uma cidade chamada Lisbon, no Ohio ou no Maine (ainda há outras), ou mesmo Angola (Indiana ou Nova Iorque), enche-nos o peito de ufania. Uma simples refeição ao madère num romance de Dumas, ou ao porto numa novela russa; a menção duma personagem cosmopolita de apelido Faria ou Paiva, bastam para nos compensar de infindos amargos de boca patrióticos. Vaidades perdoáveis em quem, como Pedro Sem, já teve e agora não tem. (…) Quando a pequena me serviu a sopa, a fumegar numa funda e portuguesíssima tigela de barro vidrado de Estremoz, o meu assombro cresceu: era a legítima, a insofismável sopinha familiar de feijão branco! Ataquei-a com todo o fervor da minha gastronostalgia, e esqueci por completo o ensaio de bordoada que me preparava para aplicar à nossa culinária.”
(José Rodrigues Miguéis, Uma Aventura Inquietante, 9.ª ed.: 12-14).
(In, www.ilcml.com)


Desenho de José Rodrigues Miguéis, o dos óculos, efetuado 
em 1936, ano em que ocorreu a história aqui representada:


- Migués encontrava-se em Nova Iorque há seis meses. Foi procurado pelo funcionário dos Serviços de Imigração, o obeso, que, não obstante conhecê-lo, perguntou-lhe:
– Por acaso sabe se é aqui que trabalha o Miguéis?
- Miguéis não está! – respondeu-lhe o próprio.
- Eu volto daqui a pouco – disse o funcionário saindo do escritório.
Miguéis aproveitou e saiu pela janela. Permaneceu na América até morrer.

(Texto e desenho em lusografias.wordpress.com)


José Rodrigues Miguéis


José Claudino Rodrigues Miguéis nasceu a 9 de Dezembro de 1901 em Alfama, bairro típico de Lisboa, e veio a falecer em Nova Iorque a 27 de Outubro de 1980. Passou a sua infância e juventude em Lisboa, recordações que marcarão a sua futura obra. Ainda em Lisboa viria a formar-se em Direito em 1924. Todavia, nunca exerceria de forma sistemática profissão nesta área, tendo consagrado a sua vida à Literatura e à Pedagogia. Neste último campo viria a licenciar-se em 1933 em Ciências Pedagógicas na Universidade de Bruxelas. Herdando do pai, um imigrante galego, as ideias republicanas e progressistas, cedo entrou em conflito com o Estado Novo, o que acabaria por o levar ao exílio para os Estados Unidos da América a partir de 1935. Desde essa altura até à sua morte apenas voltaria pontualmente a Portugal, não passando no seu país natal períodos superiores a dois anos. Em 1942 viria a adquirir a nacionalidade americana. A estada de Rodrigues Miguéis nos E.U.A. fez dele um importante agente cultural na divulgação da literatura e cultura americanas quer em Portugal quer no Brasil. Para lá do trabalho, durante quase uma década, como Assistant Editor das Selecções do Reader’s Digest, Miguéis traduziu grandes autores da literatura norte-americana, como Carson McCullers, Erskine Caldwell ou F. Scott Fitzgerald. O reconhecimento institucional – desde a atribuição da Medalha da Ordem Militar de Santiago de Espada (1979) aos Colóquios realizados em Portugal, graças, sobretudo, ao empenho de Onésimo T. de Almeida – ainda não se traduziu, porém, na merecida valorização pública e na redescoberta de um autor que em muito contribuiu para alargar os horizontes culturais dos portugueses no tempo do Estado Novo e para a revitalização da língua portuguesa. Em 1983, na sequência de um trabalho conjunto de Onésimo T. de Almeida, de George Monteiro e de Camilla Miguéis, para reunir os documentos dispersos do escritor, foram criados os "José Rodrigues Miguéis Archives" integrados em "Special Collections" da John Hay Library (Univ. Brown).
(Texto: vários a partir da net)


José Rodrigues Miguéis em 1975.


(Fotos do espólio de José Rodrigues Miguéis na Brown University Library, EUA)


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Hermínia Silva e o Fado


"Anda Pacheco"
(Frase com que Hermínia iniciava alguns fados, dirigida ao seu guitarrista António Pacheco)

Coisas boas em Jornais


"Desde que me entendo que gostei de cantar. E o fado, cantava­‑o a todo o mo­mento, e por toda a parte: na rua, em casa, na escola, desde que aos seis anos comecei a frequentar a escola, que ficava ali na Rua da Madalena, mesmo em frente da igreja.
Ora lá na escola, por vezes, havia umas festas nas quais tomavam parte algumas meninas que sabiam cantar. Eu deixava­‑me ficar muito caladinha quanto aos meus «méritos», pois tinha vergonha de os reve­lar. Até que um dia, quando se preparava uma dessas festas, uma das minhas colegas dirigiu-se à mestra e, apontando-me, revelou:
— Minha Senhora, esta menina canta muito bem!
Claro está que a professora quis, imediatamente, avaliar as minhas possibilidades e mandou-me cantar uma música que eu soubesse bem. E eu «desatei» logo a cantar um fado, daqueles bem fadistas.
A professora ao ouvir-me cantar o fado levou as mãos à cabeça e, fazendo um gesto negativo, declarou:
—  Ai. Esta menina! Não… Fado não!
Depois, talvez por ver a decepção estampada na minha cara, incitou-me a cantar outra «moda» que eu soubesse. Cantei, ou melhor, comecei a cantar uma canção que sabia também, mas o pior é que mesmo a canção, na forma como eu cantava e na minha voz, soava como fado. E, de novo, a senhora me interrompeu, repetindo, um tanto ou quanto escandalizada:
—  Não, fado não… Esta menina não pode cantar na festa! As meninas não cantam fado!
Escusado será dizer que fiquei com uma grande «pinha», pois cantar já era para mim uma paixão.
E começava também já a despontar em mim o desejo de representar. E chorei que me fartei.
Mas a vida continuou e eu sempre cada vez mais possuída por aquela verdadeira paixão que era para mim o cantar. E sempre que podia lá estava eu de «boca aberta» quer fosse em casa, quer fosse nas casas de pessoas amigas que me convidavam, de vez em quando, a cantar um «fadinho», quer fosse em festas particulares, onde me chamavam de propósito para eu «botar» cantiga, porque achavam que eu tinha «jeitinho».E eu ia sempre cantando e sempre a pensar no Teatro, pois nesse tempo não havia casas típicas e eu para as tabernas não ia… claro que não ia. (...) Chegou a altura em que tive necessidade de ir aprender um ofício e empreguei­‑me como aprendiza de modista. No en­tanto, o meu pensamento estava sem­pre no Teatro e no Fado. E continuei a cantar, quer pelos bailaricos, quer em festas particulares, para as quais estava sempre a ser chamada. E eu ia sempre, pois o que eu queria era cantar…"
(Palavras de  Hermínia Silva em lisboanoguiness.blogs.sapo.pt) Ler Mais Aqui



Hermínia Silva canta "Sou Miúda" da autoria de Luís Ribeiro e João Fernandes.
Gravação de 1958. Carregado por TiMariaBenta em 19/12/2009


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Portugal na década de 30 - Fotos


Assim se faz Portugal



Sala de aula em uma prisão em Portugal, local não identificado. 1931

«Na década de 30, do século XX, o Estado Novo acabava de se implantar. A nível político vivia-se ainda, sobretudo nas cidades, o rescaldo das lutas dos últimos tempos da República, embora de uma forma muito interiorizada, pois, dada a existência de polícia política, era pouco prudente expressar certas opiniões. Portugal era um país pobre, com cerca de 50% da população vivendo da agricultura, com um índice de analfabetismo de mais de 75% para as mulheres e 70% para os homens, que assim se viam privados do direito de votar. A mortalidade infantil era grande. Sendo as famílias numerosas, era usual ouvir-se "tive seis filhos mas morreu-me um".

Prisão em Portugal, 1931. Local não identificado mas, talvez 
seja o Limoeiro entre o bairro de Alfama e o Castelo.


As comunicações faziam-se sobretudo verbalmente, pois os telefones e rádios eram escassos e a televisão inexistente. Nas cidades, porém, havia o cinema, que atingiu, aliás, grande esplendor nessa época. A vida dos campos - sem eletricidade, água canalizada (a água era trazida em cântaros da fonte) ou esgotos, aparelhagens elétricas ou outras máquinas - muito se devia assemelhar à vida de há centenas de anos. O ritmo de vida era marcado pelo Sol, a terra cultivada pela força braçal e dos animais, a maioria dos produtos feitos pelos próprios agricultores e suas famílias. 


Fábrica de sardinhas em Setúbal. 1931


Assim, uma dona de casa (que também trabalhava nos campos) semeava o linho, cultivava-o, colhia-o, espadava-o, fiava-o, tecia-o e com ele fazia camisas que os filhos levavam orgulhosos à missa. As crianças das aldeias ajudavam a família logo a partir dos 6 ou 7 anos nos trabalhos do campo, ou, no caso das famílias mais pobres, migravam para vilas e cidades - as raparigas muitas vezes para servir de criadas na casa de pessoas ricas ou abastadas, enquanto que os rapazes ajudavam nas mercearias, dormindo sobre sacos de carvão, esperando amiúde por uma oportunidade de emigrar para o Brasil, arranjar um emprego nas obras, na Carris, na Guarda Republicana ou de se estabelecerem por conta própria.»
(In, infopédia) Ler Aqui


 Praça Marques de Pombal em Lisboa. 1930

Vista panorâmica de Lisboa, ao fundo o Palácio da Ajuda. 1935

Costa do Estoril, antes de ser feita a marginal. 1935


(fotos gahetna.nl)



sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Toni Frissell Portugal 1946

Assim se faz Portugal


Toni Frissell ou Antoinette Frissell Bacon, (1907 - 1988) foi uma fotógrafa norte americana , que ficou conhecida por fotografias de moda , de sensíveis fotos da Segunda Guerra Mundial  e de retratos de famosos americanos e europeus. Em trabalhos posteriores, ela se concentrou em fotografar as mulheres e crianças de todas as condições sociais, muitas vezes, com um comentário sobre a condição humana. Em 1946 passou por Portugal e "encenou" estas fotos que descobri por aí na net.

Toni Frissell: Rua Medieval em Alfama, Lisboa, Portugal. 1946 (foto em flickr.com)

Toni Frissell: Portugal, 1946 (foto em faciepopuli.com)

Toni Frissell: fadista em night-club português , Lisboa, 1946. (foto em flickr.com)

Toni Frissell: Turista americana, Gertrude Legendre, a fotografar barcos em Lisboa. 1946 
(foto em Library of Congress.gov) 



Imagem da espia em Lisboa
por Fernando Madaíl
Diário de Noticias, 22 Dezembro 2007


"(...) ao contrário do que se possa imaginar, a silhueta feminina que apontava a sua própria objectiva para os barcos de pesca na capital portuguesa não era uma modelo da Vogue ou da Harper's Bazaar; era uma espia do Office of Strategic Services, a estrutura americana antecessora da CIA. Gertrude Legendre (1902-1999), filha do magnate de tapetes John Sanford, foi a primeira Mata Hari americana capturada pelos alemães em França. Durante os interrogatórios da Gestapo - lembraria mais tarde nas suas memórias -, sustentou sempre que não passava de uma mera dactilógrafa, interiorizando as figuras de outras mulheres que via a trabalhar nas embaixadas. Depois, escapou-se da prisão, dirigiu-se de comboio para a neutral Suíça e, na fronteira, gritou: "Passaporte americano!", ignorando a ameaça do guarda germânico e vendo a barreira aberta pelo guarda helvético. Em 1946, quando esta imagem foi captada, provavelmente já a Alemanha tinha assinado o armistício e Toni já não andaria preocupada com as suas imagens para a Women's Army Corps (de que Legendre fazia parte), sempre com o objectivo de mostrar corajosos soldados, abnegadas enfermeiras ou órfãos das bombas para explicar o esforço de guerra aos americanos que liam os jornais nas suas casas tranquilas. Lisboa também já não teria o ambiente de filme de espionagem dos meses anteriores. E esta espia elegante iria tornar-se uma grande turista, mas, em vez de capturar o pitoresco das cidades, gostava mesmo era de caça grossa. O mais curioso da foto é tentar perceber como seria, em 1946, Lisboa."


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Lisboa à beira do Tejo

Assim se faz Portugal

Varinas, Tejo e Alfama.









Fotos da Galeria de Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian,
feitas pelo Estúdio Mário Novais entre os anos 30 e 50 no Cais da Ribeira e Alfama.