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domingo, 6 de janeiro de 2013

Largada de touros nocturna - 1972


Tinha 18 anos quando isto aconteceu. Foi numa sexta-feira e creio que por volta das 23/24h, talvez, até mais tarde, porque o Clube, já devia ter fechado. Muitas vezes no verão, costumávamos ficar à conversa no largo do Bairro da Quinta da Calçada, até às tantas, porque no outro dia não íamos trabalhar e uma vez, ouvimos um barulho, primeiro ao longe e depois aproximando-se. Ouvimos uns "cascos" como os dos cavalos e até pensamos que fosse um cavalo fugido do Hipódromo. Depois, foi tudo muito rápido, vindo da rua do campo da bola, por detrás da minha casa, aparece-nos uma vaca enorme a toda a velocidade. Parou uns segundos, olhou para o largo e creio que para nós e desatou a correr passando por trás da escola primária, e indo pela rua da árvores acima. A memória que ficou, foi de uns olhos enormes, de terror?, o tamanho enorme da vaca e uma cor esbranquiçada. Nós ficamos espantados (se calhar de boca aberta) até porque quando a vaca parou, estávamos a uns trinta metros dela, mas logo de seguida começamos a correr atrás da vaca, mas ela corria muito mais que nós. Quando chegamos ao Largo das Fonsecas, já não havia rasto da vaca. Continuamos a conversar por ali a ver se acontecia mais alguma coisa mas só no dia seguinte, soubemos da largada de touros e das "touradas" que houve. Falou-se na altura de muitas mortes, de assaltos, etc. Até que (40 anos depois) encontrei esta reportagem nas minhas buscas a jornais antigos. Leiam que tem graça.

É pena a foto ser péssima mas, à direita dá para ver 
touro a investir contras as pessoas e o carro.
Foto copiada do Jornal A Capital


LISBOETAS VIRAM BICHO NAS RUAS DA CIDADE - 1972
(excerto)

«Andaram touros  à  solta pela  via  Pública. A excitação lia-se nos  rostos da pequena multidão que, a noite passada, fugia a sete pés o mais à frente possível dos doze gordos touros que corriam à desfilada pelo Campo Grande e Avenida  da República. As forças da ordem sorriam no centro do borborinho. A Câmara Municipal de Lisboa não só aprovou o acontecimento, como o  promoveu. Era tudo a brincar. É festa. Festas da Cidade. De Lisboa..

O homem parecia de gesso, tal a cor esbranquiçada, doentia;  respirava ainda a custo quando disse, sem conseguir acertar com a  chama do isqueiro na ponta do cigarro:     
— Um susto como este só me lembro de ter tido quando, há anos, me  caiu o candeeiro aos pés da cama... Mas adiante: ontem à noite, ia eu muito bem a tomar o fresco, na Rua de Entrecampos (eu moro no Bairro de S. Miguel), quando, chegado a uma esquina, oiço uma vozearia infernal e uma multidão a correr, vinda do Campo Grande. Naquele segundo pensei um milhão de coisas! Palavra! Eu comecei também a correr, mas pela Rua de Entrecampos, claro... Quando cheguei ao pé do novo Viaduto para  o caminho de ferro ouvi vozes vindas de cima. O que havia de me vir à cabeça? Só isto: que era o Apocalipse: Depois serenei, e reparei que eram pessoas como eu, que estavam encarrapitadas lá em cima. Continuei a serenar e verifiquei  que aquela gente estava ali para assistir a alguma coisa. Subitamente,  foi como se tivesse visto bicho. E vi! Vi um toiro a correr desenfreadamente pela Avenida da República! Estava eu muito bem a  vê-lo, quando vejo outro a correr mas em direcção a  mim!
Pausa para respirar
— Depois, não sei porquê, não me lembro de quase mais nada, até ao momento em que dei comigo já perto da praça ajardinada do Campo Pequeno. Não sei em quanto tempo percorri aquele quarteirão!... Mas notei que estava com a respiração ofegante. Devo, portanto, ter  corrido muito! Sempre acontece cada coisa a um homem! O meu nome não; não interessa o meu nome. Sou um lisboeta. Isso sou, olá  se sou.»
Sábado, 29 de Julho de 1972
A CAPITAL



terça-feira, 18 de outubro de 2011

Um miúdo na Serralharia Franco

Assim se faz Portugal



Pelo lado esquerdo desta taberna ou casa de pasto, ia-se para O Franco e pela direita para o 
Pátio do Galego (creio que se chamava assim). Esta casa ainda existe actualmente. Foto de 1960. 


O nome era Ferraria Franco-Portuguesa e ficava no Campo Grande, mas era mais conhecida como Serralharia Franco ou O Franco. Acreditem ou não trabalhei lá com cerca de 11/12 anos, durante um ano e meio mais coisa menos coisa, e antes disso já tinha trabalhado numa farmácia, uns meses quando saí da escola aos dez anos, e de onde fui despedido por comer as pastilhas Rennie e numa fábrica no Bairro de Alvalade (também uns meses) que fazia, que eu me lembre, entre outras coisas, os botões (vermelhos para o autocarro parar) de plástico para os autocarros de dois pisos da Carris e isto sem contar o tempo entre os 8 e os 10 anos que apanhava bola de ténis no CIF, nas horas em que não havia escola.

Na 1ª foto (dos anos 60) está o meu cunhado Carlos (ainda novo mas já casado coma minha irmã Emilia), nos seus tempos de soldador na Ferraria Franco (há data soldador era um trabalho especializado) e a 2ª foto é de um anuncio da Ferraria Franco encontrado numa revista da CML, não sei de que data, mas talvez dos anos 40 ou 50. (foto de Emília Grave) 


Lembro-me que foi o meu cunhado Carlos que me arranjou este emprego, ele trabalhava lá como soldador e trabalhava lá mais gente da Quinta da Calçada e de Telheiras. Os putos como eu trabalhavam como o caraças, tenho algumas memórias de ir buscar ferro com 6 metros á zona do Arco-Cego e vir a pé até ao Campo Grande. Os mais velhos nem sempre nos tratavam muito bem, os putos eram explorados tanto pelos patrões, (creio que ganhava 13 escudos á quinzena) como pelos mais velhos, (os mais antigos eram tratados por Mestre e os outros por Senhor) fazíamos recados, aquecíamos a comida deles, fazíamos braseiras no inverno, ajudáva-mos em tudo e mais alguma coisa, ainda lembro a sensação que entrava nas unhas quando tínhamos de pegar no ferro logo de manhã (entrávamos ás 8h). Tenho também ainda na memória, um choque eléctrico que apanhei e que fiquei com a ideia de que até voei.  

Na 1ª foto, ao fundo vê-se o portão de entrada e saída de materiais com o guindaste para as coisas 
pesadas. Na 2ª foto vê-se alguns dos barracões que faziam parte da Serralharia Franco. Fotos de 1962.


Aquilo que me dava mais gozo fazer, era duas ou três vezes por ano ir á rua de São Nicolau na Baixa, a uma Farmácia, buscar os remédios para a serralharia (álcool, algodão, iodo, ligaduras, etc), ás vezes levava mais que meio dia a fazer isso e depois tinha que aturar o encarregado, já que ia a pé uma parte do caminho, o que me permitia poupar dinheiro que eles davam para o eléctrico ou autocarro e comprar umas revistas (Mundo de Aventuras, O Condor, o Falcão e outras) e ver os cartazes dos filmes dos vários cinemas da baixa, e olhar para tudo e mais alguma coisa porque para mim a Baixa era outro mundo. Aos sábados trabalhávamos até ás 13h e era dia de limpeza da oficina e quem a fazia eramos nós, os aprendizes, e tínhamos que nos despachar senão ficávamos lá depois da hora. Já não me recordo de como saí de lá, se fui despedido ou não porque (isso naquela altura era o pão nosso de cada dia), estávamos sempre a saltar de um trabalho para outro. Só sei é que aos 13 anos já trabalhava na Rua da Prata numa loja de tecidos, mas isso agora não interessa nada.


Fotos minhas de 2011: na 1ª vê-se ainda parte da Serralharia Franco, zona da Quinagem. 
Na 2ª foto, a entrada para a Serralharia Franco com o Chafariz em primeiro plano.


A Serralharia Franco fazia todo o tipo de trabalhos em ferro, tanto simples, como os mais elaborados. Este exemplo de um portão da Avenida da Liberdade, 191, serve para ilustrar o que disse. Lembro-me que este portão foi feito na Serralharia Franco entre 1965/66, porque fui um dos aprendizes que foram ajudar (ajudar é como quem diz; passava-lhes as ferramentas, etc) os oficiais a montar o portão. Foto feita a partir do Google Maps with Street View em 2011.


Chafariz do Campo Grande em frente á Serralharia Franco. 1961. 


(Fotos do Arquivo Fotográfico da CML)

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Futebol no Campo Grande em Lisboa

Estádios do Campo Grande


Lembro-me de em miudo ter visto alguns jogos neste campo cujas bancadas eram todas em madeira e se bem me lembro de ter assistido aqui à estreia do irmão do Eusébio pelas reservas do Benfica. Havia ainda um outro campo de futebol construido nos anos  50, o do CIF (Clube Internacional de Futebol) mas, essa história fica para outra altura.

Em primeiro plano os campos de futebol do Benfica (na altura). Ao fundo
o Estádio de Alvalade ainda em construção nos inícios dos anos 50.
Foto encontrada no jornal da praceta. 


O Campo Grande foi desde finais do século XIX, o principal local da cidade Lisboa onde se realizavam importantes competições desportivas de automóveis, atletismo, ciclismo, motociclismo, hipismo, tiro, futebol e até provas de aviação.

Corrida de automóveis organizada pela Fiat nos inicios do século XX. 


Entre 1906-1917, o clube dos "leões" fixou-se no sítio das Mouras (Alameda). O local era propriedade do Visconde de Alvalade. De 1917 a 1937, o Sporting alojou-se no Campo Grande com contrato de arrendamento. Em 1937, o Sporting passa então para o Stadium de Lisboa, onde permaneceu até 1947.

Antigo estádio do Sporting Clube de Portugal.  Este 
foi o primeiro campo e a sede do SCP em 1907. 


A história do Sporting está ligada ao Campo Grande. Na sua origem está o "Campo Grande Football Club", criado em 1904, cuja sede ficava justamente no topo norte do Campo Grande. É deste Clube que em 1906 irá surgir o SCP. Foi nesta zona que em 1912, foi construído o estádio do Lisboa Futebol Clube. Este recinto foi ampliado em 1914, sendo então alugado ao SCP que após grandes melhorias o voltou a inaugurar em 1917. Apesar de ser um dos raros estádios de Lisboa, as condições estavam longe de serem satisfatórias. Em 1937 SCP acaba por abandoná-lo, alugando um outro  um pouco mais a norte (o Stadium de Lisboa) que mais tarde se tornaria o estádio José de Alvalade.

Entrada para o campo do Sporting Club de Portugal e 
restaurante do Campo Grande (actual Churrasqueira), 1939.


O estádio abandonado pelo SCP em 1937 é alugado pelo SLB em 1940. Este Clube realiza no mesmo importantes melhoramentos. No dia 5 de Outubro de 1941, o Benfica inaugurava o seu magnífico estádio de futebol conhecido por estádio do "Campo Grande".

Entrada para o campo de futebol do Sport Lisboa e Benfica, 1965. 


Em 1946 o SLB constrói neste local uma Pista de Atletismo e um outro campo para a prática de diversas modalidades, para além de um Campo de Basquetebol, um Court de Ténis e um Campo de Tiro. Uma obra gigantesca em terrenos alugados.

Caminho para o campo de futebol depois da entrada e ao fundo o estádio de Alvalade. 1969. 


Em 1954 mudou-se do Campo Grande para Benfica (Luz) onde construíu um imponente estádio, o maior de Portugal. Só em 1971 é que o SLB abandonou definitivamente o seu parque desportivo no Campo Grande, junto à actual estação do metropolitano.
(fontes: jornal da praceta e hemeroteca de lisboa. 

 Entrada principal e laterais do Antigo Campo do Sport Lisboa e Benfica (anos 60).

Estrada de Telheiras à esquerda A Sanzala, o muro branco dava 
para o Antigo Campo do Sport Lisboa e Benfica (anos 60).



(Fotos do Arquivo Fotográfico da CML)