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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Realismo fantástico


Echeveria "Blue Bird"

(...) numa sexta-feira, às duas da tarde, iluminou-se o mundo com um sol bobo, vermelho e áspero como poeira de tijolo e quase tão fresco como a água, e não voltou a chover durante dez anos.

García Márquez .  "Cem anos de Solidão"



domingo, 3 de julho de 2011

Realismo fantástico

Dahlia

Com cerca de 30 espécies e qualquer coisa como 20 000 cultivares,  a Dália, flor nacional do México, parece-me a flor ideal para corroborar esta minha teoria.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Tempestade silenciosa



"viram pela janela que estava caindo uma chuvinha de minúsculas flores amarelas. Caíram por toda a noite sobre o povoado, numa tempestade silenciosa, e cobriram os tectos e taparam as portas, e sufocaram os animais que dormiam ao relento.

Tantas flores caíram do céu que as ruas amanheceram atapetadas por uma colcha compacta, e eles tiveram que abrir caminho com pás e ancinhos para que o enterro pudesse passar."

Gabriel Garcia Marques . "Cem anos de solidão"

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Sálvia de veludo

Salvia leucantha

Mais uma Sálvia, esta é Mexicana e - nem que seja só por isso - com qualidades para entrar directamente na minha lista das plantas inspiradoras do Realismo Fantástico. Claro que a vizinha Salvia divinorum, essa sim, encabeçaria a lista sem grande dificuldade, mas Sálvias dessas nunca encontrei por cá.

O nome em latim Salvia (salvar ou curar) refere as suas qualidades medicinais. O Epíteto Leucantha (com flores brancas) chama a atenção para as flores brancas, a parte roxa é apenas o cálice. É curioso o nome em Inglês para a Sálvia - Sage (sábio)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Judia Errante

Tradescantia pallida

Quem souber, que me diga, como é que esta - mais uma - Mexicana estapafúrdia, que tem as folhas totalmente roxas, consegue fazer uma fotossíntese em condições. 
Ou então expliquem-me o porquê do nome comum "Wandering jew".
O melhor é não explicarem nada. É mais um surpreendente exemplo do Realismo fantástico e mais nada!

domingo, 18 de novembro de 2007

Estrelas


Euphorbia pulcherrima


A Literatura Latino Americana e o seu impetuoso universo fantástico devem com toda a certeza muito às plantas nativas da América central. Facilmente nos apercebemos que alguns dos exemplares mais exuberantes e inspiradores da Botânica têm a sua origem nesta zona do Planeta. Os próprios cientistas transformam-se quando deparam com esta natureza fantástica e são exemplificativos desta atitude os nomes escolhidos para estas plantas. Já aqui falei da paixão do Sr. L. pela Mexicana noctívaga, Mirabilis jalapa, da natureza surpreendente da Justicia brandegeana, podia ainda referir entre muitas outras, as universais - mas de origem no México- Dálias, as deliciosas Tropaeolum majus... Mas a Mexicana do momento é só "A Mais Bela das Eufórbias" é este, literalmente, o significado do nome científico dado a esta planta, em 1843 no jardim Botânico de Berlim por dois cientistas Alemães - Carl Ludwig Willdenow e Johann Friedrich Klotzsch- que a quiseram imortalizar com o epíteto pulcherrima (a mais bela de todas) que é coisa de que muito poucas belas se podem orgulhar.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Realismo fantástico

Justicia brandegeana . Acanthaceae
México
"Foi Aureliano quem concebeu a fórmula que havia de defendê-los, durante vários meses, das evasões da memória. Descobriu-a por acaso. Insone experimentado, por ter sido um dos primeiros, tinha aprendido com perfeição a arte da ourivesaria. Um dia, estava procurando a pequena bigorna que utilizava para laminar os metais, e não se lembrou do seu nome. Seu pai lhe disse: “tás”. Aureliano escreveu o nome num papel que pregou com cola na base da bigorninha: tás. Assim, ficou certo de não esquecê-lo no futuro. Não lhe ocorreu que fosse aquela a primeira manifestação do esquecimento, porque o objeto tinha um nome difícil de lembrar. Mas poucos dias depois, descobriu que tinha dificuldade de se lembrar de quase todas as coisas do laboratório. Então, marcou-as com o nome respectivo, de modo que bastava ler a inscrição para identificá-las. Quando seu pai lhe comunicou o seu pavor por ter-se esquecido até dos fatos mais impressionantes da sua infância, Aureliano lhe explicou o seu método, e José Arcadio Buendía o pôs em prática para toda a casa e mais tarde o impôs a todo o povoado. Com um pincel cheio de tinta, marcou cada coisa com o seu nome: mesa, cadeira, relógio, porta, parede, cama, panela. Foi ao curral e marcou os animais e as plantas: vaca, cabrito, porco, galinha, aipim, taioba, bananeira. Pouco a pouco, estudando as infinitas possibilidades do esquecimento, percebeu que podia chegar um dia em que se reconhecessem as coisas pelas suas inscrições, mas não se recordasse a sua utilidade. Então foi mais explícito. O letreiro que pendurou no cachaço da vaca era uma amostra exemplar da forma pela qual os habitantes de Macondo estavam dispostos a lutar contra o esquecimento: Esta é a vaca, tem-se ordenhá-la todas as manhãs para que produza o leite e preciso ferver para misturá-lo com o café e fazer café com leite. Assim, continuaram vivendo numa realidade escorregadia momentaneamente capturada pelas palavras, mas que de fugir sem remédio quando esquecessem os valores da letra escrita."

Gabriel Garcia Marques . "Cem anos de solidão" »

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

De amor


Mirabilis jalapa L.

Calculo que o Sr. L. não nomeou todas as plantas com o mesmo estado de espírito, suponho que teria as suas favoritas e que por vezes se deixava fascinar pelo perfume, pelo reflexo do sol numa pétala ou por outra qualquer trivialidade que as flores tão bem sabem utilizar para confundir os humanos, porque o Sr. L. apesar de ter em mãos a tarefa divina de nomear todos os seres vivos era humano. Quando, a esta flor que só desvenda a sua beleza a determinadas horas do dia, decide chamar Mirabilis jalapa, o Sr. L. estava com toda a certeza apaixonado por ela, só assim se justifica este nome inesquecível, digno de uma heroína numa obra do Realismo Fantástico Latino-americano.




"Não te amo como se fosse rosa de sal, topázio
Ou flecha de cravos que propagam fogo;
Te amo como se amam certas coisas obscuras,
Secretamente, entre a sombra e a alma.
Te amo como a planta que não floresce e
Leva dentro de si, oculta, a luz daquelas flores.
E graças a teu amor, vive oculto em meu
Corpo o apertado aroma que ascende da terra.
Te amo sem saber como, nem quando, nem onde.
Te amo diretamente sem problemas nem orgulho;
Assim te amo porque não sei amar de outra maneira,
Senão assim, deste modo, em que não sou nem és.
Tão perto de tua mão sobre meu peito é minha,
Tão perto que se fecham teus olhos com
Meu sonho..."

Pablo Neruda . Cem Sonetos de Amor (1959)