Éramos muito amigos, quando resolvemos estragar tudo iniciando um namoro. O namoro durou cinco ou seis meses, na imprecisão de poder contar a partir de quando realmente tudo começou, e dali por diante, como na maioria dos casos do gênero, já não conversávamos. Ela empinava discretamente o nariz quando me via, e atravessava para o outro lado da rua. Eu lamentava; por muitas noites senti a saudade atordoante de nossas conversas, de como ríamos fácil de tudo, de como um sinal antecipava o entendimento cujas palavras só testavam depois hipóteses disparatadas. A minima coisa _ como ela ter dito, certo dia, que amava a voz do Bono Vox por ela ter uns pedregulhos ao fundo _ me enchia de remorsos. O remorso de não ter controlado a libido de uma noite de bebedeira e ter alegremente confundido tudo.
Passaram-se três anos. Por esses acasos perigosos, participamos de um mesmo amigo secreto de fim de ano. Ela, já emaciada pelo esquecimento e por outros namoros sofridos, se aproximou de mim , devagarinho, para não ficar estranho na hora de ter de dar o disco do Radiohead, fazê-lo para alguém contra o qual alimentara anos de mágoa. Voltamos a uma amizade fresca e felicíssima. Foi a única mulher com quem trocava massagens nas costas sem falsos pudores. Não iríamos mais falhar um com o outro. Daí, surge uma profusão de mensagens por celular de uma "pretendente secreta". Bem escritas e inteligentes para serem de qualquer uma, mas só fui saber que era dela quando, em sua casa, confessou irritada que não tinha superado o amor que sentia por mim. Eu via com clareza que ela não havia superado, na verdade, a época em que lhe diagnosticaram um câncer de útero, e o calhorda do namorado dela terminara tudo por telefone após ficar sabendo. Ela estava profundamente triste e se sentindo rejeitada. Seu pai, uma advogado amigo meu, fôra até em casa pedir a misericórdia de que eu não lhe oferecesse bebidas alcoólicas. Não respondi que ela que estava com o freezer cheio de cerveja, e bebia para retratar a repulsa que lhe despertava a inchação de seu corpo pelos medicamentos, e a vida amarga em geral.
E foi justo num bar, à noite, quando a sombra era evidente demais por detrás das suas heróicas tentativas de simpatia, que, do nada, ativando a tecla "palhaço", eu começei a lhe contar de como havia lido em um livro sobre como os gagos sempre foram alvo de preconceito. Como um desvairado, não me importei de que ninguém mais dos outros cinco na mesa não conseguiam mais me acompanhar, enfadados, e só prestei atenção em seus súbitos olhos embevecidos e de suas abruptas gargalhadas das minhas histórias. Moisés era gago, como está nas escrituras, Machado lia discursos longuíssimos tropeçando nas palavras, mas não estava nem aí. Na Idade Média, os gagos eram colocados em gaiolas e apresentados pendurados em praça pública, onde os populares os incitavam com varas a falar. Quando falavam, todos caíam na mais selvagem gargalhada.
Ela se curou. Um de meus melhores amigos, que sempre fôra apaixonado por ela, pediu que lhes apresentassem, e os dois se casaram. Minha esposa, quando éramos namorados, morria de ciúmes dela. Depois que se falaram, a Dani e ela, num jantar, a Dani nunca mais sentiu um pingo de ciúmes dela. "Não sei ao certo, é como se vocês dois fossem muito parecidos, muito iguais, e ela é idônea demais para que eu continue a sentir ciúmes." Após meses sem nos vêrmos, eles dois aparecem aqui em casa para conhecer a Júlia. Eu e meu amigo reativamos o ensejo antigo de abrirmos um bar temático, com boa música e bebida, ao lado de uma pracinha sossegada, cujo nome será "Dig a Pony". Ela, no final da noite, com os olhos claros da estabelecida felicidade, me enche de orgulho: "Sabe quando iniciou-se minha cura completa? Na noite em que você, como um bêbado descontrolado, pouco se importando em falar alto para as outras mesas ouvir, gaguejando sem parar, me matou de rir ao contar sobre os gagos na gaiola." Mais tarde, na cama, a Dani passa a mão sobre minha cabeça, e me beija ternamente as lágrimas, sabendo.