Mostrando postagens com marcador Walter Benjamin. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Walter Benjamin. Mostrar todas as postagens

domingo, 25 de agosto de 2013

Meus 20 livros preferidos de não-ficção (I)

Nesta lista entram biografias, livros de divulgação científica, história e ensaios de todos os tipos.

1- Origem, de Thomas Bernhard: 


Na verdade, a edição brasileira é uma compilação de 5 escritos auto-biográficos de Bernhard. É difícil escolher o número 1 desta lista, mas creio que não é de todo injusto que o espaço seja preenchido por este volume. Aqui Bernhard está no ápice de sua arte. Minha sequência de conhecimento do autor passou pela seguinte leitura: li O Náufrago sabendo que Extinção era ainda melhor; depois que li Extinção, eu estava convicto que não acharia nada melhor escrito por ele, até me deparar com Origem. Esta autobiografia é ácida, desencantada, acusadora, dessacralizante, e carregada de um elemento novo que não tem com muita frequência nos outros títulos bernhardianos, que é um lirismo que abre margem para um enternecimento para falar sobre esse grande personagem que é o avô de Bernhard. O livro é delicioso, um dos mais magníficos e fundamentais que li.

2- Trilogia autobiográfica de Elias Canetti:


Ao digitar a frase acima me veio um assomo de culpa: esses livros deveriam estar em primeiro lugar. Como tem outro Canetti mais abaixo, contudo, Bernhard ainda é válido na posição que está, ainda mais se considerar que eu, o autor desta lista, tenho a índole mais propensa ao iconoclastismo segregado de Bernhard, seu lado outsider, que não se compactua com nada e ninguém, sua metralhadora giratória apontada para todos os lados, do que com o elitismo soberbo da escrita de Canetti que conheceu parte dos principais intelectuais do século passado. Essa trilogia tem provocado uma sensação de mágica em muita gente que a leu, e que comprovo pelas resenhas que fizeram ou pelas opiniões de um ou dois amigos pessoais (uma das resenhas encontra-se em um dos posts do site da Cia das Letras da semana passada). Tenho a mesma sensação: li essa trilogia em sequência, sentindo a mesma nostalgia maravilhada de quando me iniciei na leitura e cada livro era um universo do qual eu não desejava sair. Um livro conseguir provocar esse mesmo envolvimento em um homem adulto de mais de 30 anos, é algo raro. Vamos ao que interessa: Canetti é um aristocrata, um escritor que firmou desde criança seu sistema de valorizações e foi fiel a ele até a morte: por exemplo, era avesso ao comércio e todo assunto sobre dinheiro, e vivia exclusivamente para a arte e o intelecto; precisa-se de muita determinação e coragem para isso. Assim, purgou a pobreza por muito tempo, sem nunca reclamar. Vivia invejavelmente em uma estratosfera muito acima da do homem comum. Escreveu um grande romance que só foi editado décadas depois, e passou o período mais conturbado da história do século XX isolado, escrevendo um insuspeito tratado sobre a dominação, o fanatismo e a condução descerebrada das massas. Escreveu como ninguém e era um gênio. Foi, a meu ver, o Beethoven das letras do século XX. Depois de sua imagem consolidada, escreveu esses três livros incríveis que sequestram o leitor para dentro de sua vida e o faz viver toda a intensa liberdade desses anos. A língua absolvida, Uma luz em meu ouvido e O jogo dos olhos não é só literatura, é uma dessas experiências impagáveis que a vida recolhida nos reserva. Um aprendizado e um deleite.

3- Dialética do esclarecimento, de Adorno e Horkheimer:


Eu gostaria de saber alemão para ler esse livro em sua língua original. A linguagem deste livro é um portento, um fenômeno, uma revolução. Essa dupla, e, notavelmente Adorno, são os melhores escritores da filosofia. Eles vão mais longe, estilisticamente, que Nietzsche e qualquer outro. Eles são, primeiramente, mais responsáveis em seu método que Nietzsche e qualquer filósofo do século XX. Eles empregam uma concentradíssima combustão de significados por linha corrida, cada palavra remete a amplos sinais e reflexos da verdade. Eles conduzem a ambiguidade a uma categoria de percepção dialética inédita. Há uma parte aqui em que eles estudam sobre matadouros de animais e concluem que a existência de indústrias do massacre de outras espécies para a provisão de nosso nicho na cadeia alimentar já é uma evidência da capacidade humana para o genocídio nazista. Depois de confrontado o leitor com esse fato ineludível, eles perguntam: mas então devemos comer só verduras e leguminosas?, e respondem, ambiguamente, que a ciência desse mal já é um passo para a evolução que exija uma nova procura, um novo instrumental para a existência. E todo o livro é isso: a proposição de um limite impossível para uma nova forma de vida humana, colocando o homem contra a parede e forçando-o a não aceitar os milênios de adaptação errática e sedimentada. O livro sentencia que o esclarecimento determina a liberdade dos aguilhões que nos aprisionam aos costumes cotidianos, aos rituais suicidas da vida moderna, às nossas tendências contra as quais aprendemos a nunca resistirmos para o assassinato e múltiplas crueldades felizes, e que o estágio último do esclarecimento, quando alcançado, é um cósmico e opressivo niilismo diante o qual se exige um novo combate acirrado. Para margear essa sobreposição massacrante de bonecas russas da verdade existencial que Adorno e Horkheimer inventaram essa nova linguagem, essa nova gramática metafísica de alta poesia. O título dessa obra diz tudo. Adorno disse que sua convicção em escrever de maneira difícil era parte do dogma pessoal de não-coaptação a todo o vício que se estabelece para estancar as engenharias espirituais humanas, era um filtro e uma imunização para tentar passar para o outro lado, para ir a lugares da mente e das possibilidades nunca visitados antes, uma arma ainda mais necessária nessa época em que a sua tão decantada Indústria Cultural estabelecia um amolecimento conformador que transformava o pensamento em um produto vazio e codificado.

4- Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt:


Resenha uns posts abaixo.

5- Magia e técnica, arte e política, de Walter Benjamin:


Já escrevi muito sobre Benjamin e pode ser que eu soe repetitivo. Esse livro é uma compilação de alguns dos mais geniais e importantes textos de Benjamin, lançado pela Editora Brasiliense. Tem textos fundamentais sobre Kafka, Proust, Robert Walser. Tem a primeira versão do ensaio clássico "A obra de arte na era de sua reprodutividade técnica", e os minitextos quase aforísticos do sensacional "Sobre o conceito da História". É impossível não amar Walter Benjamin. Lê-lo é um consolo, um êxtase, uma oração, uma expansão da mente. É um escritor único e inclassificável na história da literatura.

6- Reflexões sobre o exílio, de Edward Said:


Este livro é muito menos aclamado que os clássicos imediatos de Said, Orientalismo e Cultura e imperialismo, mas eu gosto mais dele pela variação de temas apresentados em seus ensaios. Aqui se mostra toda a beleza e versatilidade da escrita de Said, toda a sua erudição. Aqui ele escreve tanto um imprescindível ensaio em que compara Nietzsche e Conrad, textos críticos sobre Naipaul e Hobsbawn, até um surpreendente retrato de uma dançarina do ventre. Mas as cerejas do bolo são dois magníficos ensaios sobre música, no estilo que os leitores de Said já sabem_ que, em se tratando de Said, um ensaio comporta uma profunda averiguação sobre múltiplos temas dentro de um tema previsto_, são eles "Em busca de coisas tocadas: presença e memória na arte do pianista (sobre Glenn Gould)", e o monumental "Do silêncio à música e de volta ao silêncio: música, literatura e história". Este último é realmente uma das coisas mais magníficas que li em toda a minha vida: fala de política, colonialismo, e as paisagens de ruínas da música polifônica. Mas este volume traz muito mais, é de uma riqueza generosa. Lembro-me que eu fui visitar a casa dos pais da minha esposa, quando nós éramos namorados e ela morava com eles, e eu comprei este livro no shopping antes de pegar o ônibus que me levaria até a distante cidade; era a época em que eu estava descobrindo esses dois universos delicados, a obra de Said e a Dani, e a leitura do primeiro no balanço aprazível do ônibus, e o final de semana em companhia do segundo, solidificaram ambos em uma mesma percepção emotiva.

7- Tudo faz sentido, de Saul Bellow:


O livro de ensaios de Saul Bellow. Tem um ensaio clássico chamado "O público distraído". Tem uma seção só com retratos na escrita brilhante de Bellow, de John Cheever, Allan Bloom e outros. Há um ensaio sobre Mozart que me ensinou muito e deliciosas confissões de escritório, além de embates descrevendo convenções de grandes escritores na época que isso ainda acontecia. Para quem gosta de Bellow, se aprende muito sobre o autor e sobre como escrever bem neste livro indispensável.

8- Darwin, de Adrian Desmond & James Moore:


Essa é a melhor biografia que já li. É uma viagem. Pouco depois de tê-la lido, meu pai faleceu. A leitura das angústias do teólogo Darwin diante sua descoberta terrível me deixou deprimido. A depressão elevada, sem prostração, de dividir através de um texto sublime as reviravoltas existenciais de um homem confrontado com sua pequenez cosmológica. Me vi incapacitado de ver qualquer eufemização no desaparecimento de meu pai. O livro narra dores imensas, como a perda da filha de Darwin, que aniquilou de vez sua fé em um deus. Na mesma época li o ditirambo fanfarrão de Deus, um delírio, do qual saí com um acentuado ar de riso diante a rasura dessa comédia de Dawkins. Em contrapartida às paupérrimas modas ateístas, essa biografia é uma dessas leituras fundamentais que provoca, que nos deixa em abandono, que destrói convicções e atitudes movidas pela inércia da falta de pensamento. Casa com o que eu escrevi acima, sobre a obrigação de um novo combate de entendimento quando o esclarecimento é alcançado em seu estágio último, na concepção de Adorno, a procura de novos significados. Ainda sou cristão e a reavaliação que faço em meus estudos sobre as ideias de Darwin me deixou mais ligado a uma apreensão transcendente do universo, mais saudavelmente humilde e disposto a aceitar a beleza disso tudo em que estamos envolvidos. Pela primeira vez, um livro me levou a ter a visão plena de que somos parte do universo, somos um produto que o compõe, de forma inescapável, e que nossos pequenos sistemas de crença, feitos na maioria pelo medo e pela ignorância,  não influem em nada: e isso é libertador de uma maneira que nunca saberia explicar. Me fez recordar de meus estudos universitários em que é dito que as mitocôndrias são organismos de vida própria que, em um determinado estágio da evolução, atacaram as células e as parasitaram. Não há bem e mal na existência, e tudo tem sua importância e sua indispensabilidade. Darwin descobriu isso e naquela época ele não era capaz de se desatrelar do fardo das pre-concepções sociais para ver a enorme alegria libertária de sua teoria. Nossa vida é um mutualismo constante. Entender Darwin é um dever, para acabar com essas falácias estúpidas da apologia a um darwinismo social: a sobrevivência está na harmonia, e não na sobreposição do mais forte sobre o mais fraco. Tudo bem, tudo bem, chega de pregação_ me excedi. O livro, além disso, traz a atmosfera da época, os escritórios, os salões universitários, Galápagos, a visita ao Brasil, e um monte de coisas boas. Masquemos audaciosamente nossos chicletes, cruzemos as pernas por sobre a mesa, e vamos um urra: a vida continua!

9- A gaia ciência, de Fiedrich Nietzsche:



Há de se ter um Nietzsche entre os melhores livros. É uma obrigação e um respeito a esse escritor que, procurando hoje em minhas instâncias espirituais já não parece me dizer nada, não pela ausência, mas porque o eco de suas palavras e seu espectro estão em todos os quartos e em todas as salas, que já penso sobre a base fundadora de minhas leituras dele de maneira inevitável.

10- Massa e poder, de Elias Canetti:


Julgo ter escrito muito sobre este livro ao longo deste blog. É uma vacina. Quem o lê fica imunizado a toda forma de dominação social, política, econômica, partidária, biológica. É um dos livros superiores que na concepção do filósofo do item 9, acima, são escritos com sangue. Impossível falar sobre este livro sem um tom de reverência, embora uma de suas lições seja justamente o fim de toda propensão à idolatria e à reverência.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Experiências de Leitura (III)


Adorno foi severo em excesso com Walter Benjamin. Não consigo desapegar-me da imagem que as fotos de Benjamin oferecem de um cordeiro andando pelas ruas de Berlin, atravessando a Europa em fuga, subindo por descampados em madrugadas atrás da fronteira espanhola, sempre levando a tiracolo uma maleta com os últimos apaixonados originais de um ensaio e os tantos recortes para a grande compilação do pensamento humano, antes que a ceifa inevitável viesse calmamente sangrar-lhe o pescoço. As fotos de Benjamin mostram um homem limítrofe entre a intensa vida cerebral e a nostalgia de ternos recantos infantis desaparecidos. Sua obsessão por brinquedos antigos e pela pedagogia revela a intersecção entre o pensador e a criança, e em toda a sua escrita a observação dos silenciosos e inapreensíveis interstícios da realidade cotidiana denota as tardes e o quarto solitário em que o menino descobria o mundo dos dois lados do olhar. Essa vulnerabilidade vestigial quanto ao mundo dos adultos se revela na forma melancólica em que Benjamin depositara fé em uma carreira universitária ao apresentar a sua tese sobre as origens do drama barroco alemão para Adorno, e a sombra teatral que sempre lhe cobrou a máscara da comédia e da tragédia na própria pele determinou que a dessarroada negativa de Adorno lhe fizesse um pária peripatético que em vida nunca fora aceito pela academia.

Essa recusa de Adorno a apadrinhar uma carreira universitária para Benjamin me parece ser uma das maiores injustiças feitas entre dois intelectuais de peso. Não sei o que passava pela cabeça de Adorno, se ele via em seu pretenso pupilo um pensador grande demais que precisava ser podado das arestas através de uma benemérita crítica sistematicamente imposta, o que tornaria Adorno, em tal hipótese, um ser levianamente crente na longevidade de alguém como Benjamin num século como o século XX. Benjamin precisava ser protegido e Adorno se negou a tal, eis a questão. A vida e a obra de Benjamin se impregnaram, em consequência, de uma séria de suposições e realidades alternativas. Em torno do autor das Teses sobre a História se arvoraram os tão lúdicos e abortadamente impossíveis "e se...". E se Benjamin tivesse sido acolhido pela Escola de Frankfurt, o quanto a sobrevivência e a seguridade lhe teria feito produzir ainda mais sobre o quanto ele já escreveu aventurosamente no exílio. Como seria um texto de Benjamin sobre a obra de seu espécie de gêmeo do conto, Bruno Schulz, se Benjamin vivesse o suficiente para conhecer-lhe a obra.

A verdade é que a obra grandiosa de Benjamin e alguns estudos fundamentais sobre ele é que prevaleceram sobre o paralelismo. Não há como negar que uma das qualidades das coisas que Benjamin produziu deriva inevitavelmente da ciência por parte de quem lê da incompletude e precocidade do autor. A inerência erraticamente romântica e incorrigível de vê-lo como uma espécie de São João na ilha de Patmos diante o anjo da História confere a Benjamin um caráter de profeta às vezes tornado ingênuo pela própria fulgurante lucidez. Assim como Christopher McCandless, no filme Na Natureza Selvagem, que se refugia da sociedade de consumo num ônibus abandonado no Canadá, morre de inanição e frio a alguns metros de uma estrada federal que poderia tê-lo reconectado com o mundo e o salvo, Benjamin, na versão aceita de seu suicídio diante o desespero de não conseguir sua entrada pela fronteira franco-espanhola, um dia depois, se tivesse esperado, estaria com o passaporte em mãos assim como os demais fugitivos que lhe acompanhavam, e protegido de vez das garras da Gestapo. Hannah Arendt, em seu ensaio sobre Benjamin, não consegue poupar-se da ironia diante a essa proximidade centímetra entre a desgraça e o conforto que rondava o personagem de seu estudo.

Benjamin escreveu várias páginas do que há de melhor no pensamento do século passado. Seu estudo sobre Kafka consegue ser tão sublime quanto a obra de Kafka. Sua sensibilidade de leitor era algo tão acima da mais apurada genuinidade que criou um grupo recorrente de saudosistas do como Benjamin teria lido tal autor; ele transformou, enriquecendo, a forma de ler Proust, Baudelaire, Kafka, Brecht, os surrealistas. Uma experiência comparativa válida que revela o coração insurgente de Benjamin no que escreve é a leitura do ensaio de Coetzee sobre ele. Coetzee se demonstra um ensaísta acima da média, mas sua secura e sua senilidade acadêmica o nivelam pela medida da mera elegância conceitual de vaidoso laureado. Coetzee analisa milimetricamente a vida e a obra, sobretudo a inacabada Passagens, de Benjamin, de uma maneira clinicamente asséptica. O que Coetzee oferece ao leitor é um Benjamin morto e enrijecido de frio cadavérico por sobre uma mesa institucional, alguém que esteve em volta com a procura obsessiva de excertos do pensamento para compor seu enorme compêndio mas que nunca evoluiu além da patologia previsível aos observadores que sabem posteriormente de que seu fim foi inexorável. Coetzee tem uma técnica de depuração que tresanda inteligência fina que só pode ser neologizada como uma técnica morgueriana, de quem exuma matéria orgânica cujo fato de um dia ter sido ocupada pelo sinergismo da vida é apenas um apêndice antropológico. Bastante diferente das leituras de Benjamin. Pegue o texto de  Benjamin sobre Proust, por exemplo, exuberante de alegria criativa, sua profunda leitura de Kafka, que transforma para sempre a maneira de ler Kafka. Há uma foto conhecida de Benjamin debruçado sobre livros em uma mesa de biblioteca, tirada de maneira insuspeitável enquanto ele estava envolvido na leitura: assim ele escreve, sendo um comparsa do autor, usando sua genialidade para fazer uma generosa companhia com a genialidade do retratado. Eu poderia copiar aqui uma série de sentenças sublinhadas de Benjamin, para mostrar sua poesia, sua sensibilidade demolidora, seu esclarecimento luminoso. Adorno, que também me é essencial pelo seu Dialética do Esclarecimento e Minima Moralia, talvez estivesse enrijecido demais pela calcificação acadêmica para salvaguardar um nível de independência subversiva tão incivilizável como o de Benjamin. Talvez ele tivesse cogitado sobre as vantagens da marginalidade para Benjamin, sem sopesar sua profunda vulnerabilidade.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Kafka, Benjamin, Tolstói, João do Rio

Acabo de ler um dos melhores ensaios sobre Kafka, o Franz Kafka: a propósito do décimo aniversário de sua morte, escrito por Walter Benjamin. Nele, uma peça magnífica cujo único similar que conheço é uma análise das cartas de Kafka a Felice produzida por Elias Canetti, Benjamin estuda as duas interpretações mais correntes sobre a obra do autor de O Castelo: a familiar e a teológica. Alcançando o melhor que há nessas duas vertentes, Benjamin conclui que o principal personagem em Kafka é o esquecimento. Através de muitos excertos de contos e dos três romances, Benjamin esclarece que Kafka bebia do Talmude, das primitivas fábulas judáicas, dos contos chineses sobre Confúcio, de tal modo que era um caso inédito de filósofo que descartava a filosofia em favor das fábulas, e era um fabulista que descartava a imagética dos animais falantes infantis para ser, involuntariamente, o sucessor direto de Kierkegaard e Pascal. Numa conversa com seu amigo Max Brod, Kafka aventa a possibilidade de existirem várias outras realidades dimensionais acima da nossa, onde os seres ali viventes são passiveis de maior esclarecimento e, por isso, mais felizes, numa antecipação prodigiosa da Teoria das Cordas. Brod, fascinado com essa visão, pergunta ao amigo: "Existiria então esperança, fora desse mundo de aparências que conhecemos?" Ao que Kafka ri e responde: "Há esperança suficiente, esperança infinita _  mas não para nós."

Nesse diálogo, na visão lúcida de Benjamin, se esconde toda a tese de Kafka sobre o esquecimento, sua concepção religiosa da deposição dos fardos dessa vida, de que tudo é inútil, toda preocupação e toda luta é vã. E, contrariando a superficialidade das primeiras impressões, isso constitui-se no mais puro otimismo kafkiano. Na mesma linha vai o texto que a professora Rachel Nunes postou em seu blog hoje, uma crônica de João do Rio em que um mendigo professa a teoria kafkiana da eterna inutilidade. E com isso, Benjamin corrobora com as teses de Tolstói de que só existe arte quando nela existe o elemento moral, mesmo que intrinsecamente subjacente. Há moral mais fina que nos microcontos de Kafka, em que Bucéfalo abandona seu dono, Napoleão, e senta-se numa paisagem tranquila, à sombra de uma árvore, a ler antigos livros sobre batalhas? Ou o conto aforístico do índio, em que Kafka diz que gostaria de ser um índio rumando velozmente sobre um cavalo em direção ao horizonte, e que, progressivamente, lhe sumiam debaixo as celas, os arreios e, por fim, o cavalo? E não é uma curiosa intersecção desses dois autores ambos verem que na origem da escrita descança a necessidade sagrada do resgate de um deus? Mas entre o moralismo de Kafka e o de Tolstói interrompe-se uma encruzilhada. Tolstói, mesmo absolutamente descrédulo, ainda se esforçava por apostar na mudança deste mundo. Quem tem razão?



Hoje, no jornal da Globo da manhã, noticiou-se que 3.426 servidores do Judiciário e magistrados movimentaram, de forma suspeita, cerca de 855 milhões de reais de 2000 a 2010. Com tais informações, vamos dar uma olhadinha no tópicos mais comentados da revista de maior difusão do país:

Comportamento: beber cerveja todo dia faz bem à saúde.
Reality Show: conheça, um a um, todos os participantes do BBB12
Televisão: BBB12 começa com histeria, incitação ao sexo, e campanha contra evangélica
Automóvel: o Fusca, agora em versão elétrica
Afeganistão: soldados que urinaram em corpos deverão se explicar
Gente: corre bem o transplante de Reynaldo Gianecchini
Crime: Bruno treina para voltar ao Flamengo, diz advogado
Cultura: similar a sigla de droga, título de novo disco de Madonna rende marketing muito antes do lançamento
Neurociência: internet pode afetar o cérebro assim como álcool e cocaína
Televisão: BBB12: ex-namorado de Renata se diverte com assédio a estudante.



Há salvação?

"Sancho Pança, que aliás nunca se vangloriou disso, conseguiu no decorrer dos anos afastar de si o seu demônio, que ele mais tarde chamou de Dom Quixote, fornecendo-lhe, para ler de noite e de madrugada, inúmeros romances de cavalaria e de aventura. Em consequência, esse demônio foi levado a praticar as proezas mais delirantes, mas que não faziam mal a ninguém, por falta do seu objeto predeterminado, que deveria ter sido o próprio Sancho Pança. Sancho Pança, um homem livre, seguia Dom Quixote em suas cruzadas com paciência, talvez por um certo sentimento de responsabilidade, daí derivando até o fim de sua vida um grande e útil entretenimento." (Franz Kafka)


sábado, 31 de dezembro de 2011

A Mais Terrível de Todas as Drogas



O homem que lê, que pensa, que espera, que se dedica à flânerie, pertence, do mesmo modo que o fumador de ópio, o sonhador e o ébrio, à galeria dos iluminados. E são iluminados mais profanos. Para não falar da mais terrível de todas as drogas_ nós mesmos_ que tomamos quando estamos sós. (Walter Benjamin, Magia e Técnica, Arte e Política, p.33)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A Lucidez Excessiva

Nada me assustou mais no campo literário dos últimos anos que o suicídio de David Foster Wallace. Sobreveio-me o mix de emoções e concepções incertas que faz parte dos sentimentos despertados pelo suicídio e que são cansativos clichês: o susto, o vazio, a busca pelos sinais pregressos que justificassem o ato, e... a certeza de que se é impossível entender. Todo suicida está além das forças da eufemização. Daí que mesmo os mais torpes e infames suicídios_ e a história está cheia deles_ deixa o suicida no equilíbrio inalcançável daquele sobre o qual não se pode cair a condenação; está além do bem e do mal. Li há pouco num romance de Sebald, a história de como Assia Wevill_  a belíssima judia morena, que foi a segunda mulher de Ted Hughes_ repetiu milimétricamente os passos da morte de Silvia Plath, acendendo o gás, fechando as portas e as janelas da casa, deitando-se na cama, até que deixasse a marca severa no espírito de Hughes de que a sina de uma esposa suicida era um dos círculos que o cosmos iria repetir infinitamente para aprisioná-lo em seu inferno particular. A extrema maldade de Assia Wevill, seu toque de originalidade calculado para diferenciá-la de Silvia, foi que fez com que permanecesse junto a ela a filhinha de 4 anos que teve com o poeta. Conceber esses gestos de egolatrismo assassino é algo insuficientemente possível quando as causas pendem para a paixão extrema. Mas um caso como o de Foster Wallace oferece o paradoxo da falta de simetria entre o martírio auto-imposto e a sua profunda personalidade artística, mostrada em livros que não oferecem um indicativo de sua derradeira ação, e o de sua estampa consumível de garotão ultra-culto de cabelos compridos que era uma das promessas das letras estadunidenses.

Li apenas um volume de contos e insights humorados publicado pela Cia das Letras, de Wallace. Fiquei entusiasmado diante a visão de um filósofo com amplos domínios da escrita ficcional, sentado no centro de sua lucidez controladamente demencial, e que prometia que estava para sair da auto-indulgência para mostrar sua efetiva força criadora. Todos os prognósticos apontavam para um novo Pynchon. As lentes ultra-realistas, que beiravam o lisérgico, jamais poderiam diagnosticar uma desistência futura_ afinal, Cortázar mostrou-se assim, e mais uma cambada de outros escritores. Porém, o que mais me impressionou foi um ensaio, que me chegou às mãos após a morte de Wallace, em que ele fala de uma maneira positiva, solar, radiante mesmo, sobre as efluências da alma. Tal ensaio falava sobre a televisão, internet, a fragilidade de se observar o ser-humano em supermercados (e detectar que, por debaixo da flâmula de ódio impessoal que havia por detrás dos rostos, podia-se amá-lo). Era uma palestra para estudantes de não sei qual curso, e Wallace estava alí em toda sua portentosa juventude, exsudando carisma. Parecia Bernard Shaw falando aos segundoanistas irlandeses, mas havia também algo de Churchill convocando para a batalha, e algo de uma versão metropolitana de Whitman. Como me acontece com as grandes páginas que leio pela internet, perdi-a em definitivo, esqueci de sua fonte e de suas circunstâncias principais_ apeguei-me apenas ao que interessa nessa forma filtrante de mídia: a sua energia, a sua música arcangélica, o seu eco. Afinal, o texto, em seu âmbito mais profundo, que só poderia ser entendido depois que o suicídio de Wallace lhe limpava de todas as demais interpretações equivocadas, maldizia a distração perpétua da televisão e da internet.

Se tivesse lido tal ensaio enquanto Wallace estivesse vivo, tal iluminismo de contramão não teria me indicado nem distantemente a morte do autor; mas sua leitura póstuma só confirmava a certeza inexorável de que ele não aguentava mais. No momento em que depositava o último ponto final no texto, Wallace já sabia o que tinha que fazer. Na certa ele tinha tudo muito terapeuticamente controlado, a depressão, a fé de que, afinal, o caminho geral para a destruição por qual anda a espécie não é uma certeza; acima de seu subconsciente que havia decretado em segredo a sentença incontornável, boiava todos os singelos brinquedinhos da resistência que simulavam ter vencido.

Wallace não foi um artista qualquer. Seu romance de mil páginas está programado para ser lançado no Brasil ano que vem. Não há histórico de drogas, como o que levou ao suicídio um outro ícone norte-americano como Kurt Cobain. Não há a possibilidade de um erro de dosagens de antidepressivos, como o que levou à morte o magnífico Nick Drake. Sofria de depressão desde muito cedo, e, ao que tudo indica, tal depressão foi levado a graus exacerbados pelo seu primor cerebral. Lacan dizia que devemos evitar o excesso de informações. Penso aqui com meus botões que foi o excesso de informações que levou alguém brilhante como Wallace ao suicídio. Se eu sofresse de depressão, jamais procuraria auxílio nos livros. Também não procuraria refúgio no dinheiro_ um irmão de uma antiga namorada se matou quando sumiu de suas contas o último centavo. Viveria sob o conforto de um amor envelhecido, que dispusesse a ver meus desabafos sobre dores articulares como homilias religiosas, e me cobrisse gentilmente os pés quando fosse se deitar na cama ao meu lado. Nada mais instrutivo contra o suicídio que os filmes dos irmãos Coen. Excesso de lucidez não significa profecia. Maiacovski se matou por excesso de lucidez; Benjamin idem; e, ironia das ironias, a História iminente provou que ambos estavam constrangedoramente errados. Se tivessem persistidos um dia (Benjamin), ou anos (Maiacóvski), veriam que a aleatoriedade dos acontecimentos serve muito mais para manter a homeostase da existência do que para destruí-la, e que o horror é uma enganosa e ingênua miopia quanto às demais prerrogativas. Do alto da erudição e conhecimento, o melhor para a sobrevivência é deixar de lado as Grandes Verdades e dar ouvidos à vox populi mais banal: nada melhor que um dia após o outro. 

Penso que Wallace sucumbiu às distorções alucinadas da exuberante vida americana, como precaviu Bellow, e não foi forte o suficiente para perceber que tudo não passava de alucinações. Posso estar sendo injusto, mas essa é a forma de otimismo mais acentuado a que eu posso chegar. Isso pode estar sendo provocado pela leitura de Tolstoi, pela indignação que vejo crescendo pelo mundo... Talvez haja um derivado da hipótese de Gaia para a antropologia e estejamos destinados à salvação através daquilo em que menos apostávamos que ela veria: o acaso indiferente.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

As Corcundas


Franz Kafka
Leio num ensaio de Hannah Arendt esse trecho escrito por Walter Benjamin: um entendimento da produção [de Kafka] envolve, entre outras coisas, o simples reconhecimento de que ele foi um fracassado. Tal declaração, vinda de um dos que melhor entenderam a importância da obra do autor de A Metamorfose para visualizar a derrocada humana promovida pelo século passado, faz coro à insistência do destino pessoal de Benjamin em mantê-lo numa vida regida por um azar tão intenso que era quase uma força espiritual. Azar que Arendt reconhece personificado na figura popular do folclore alemão como “o corcundinha” (símbolo da poesia infantil para o infortúnio). Os que lêem Arendt sabem que seu texto tem a marca vertiginosa de passar do retrato para longas reflexões de filosofia abstrata, revelando os matizes atentos de uma erudição abalizada em autores tão adversos como Kant e Santo Agostinho, de forma que não é uma simples impressão enxergar entre suas sutilezas um toque de sarcasmo em desvendar o infeliz combalido, o palhaço contumaz que sempre leva a pior, por detrás do pensador profundo que foi Walter Benjamin. O curto período de vida de Benjamin, amaldiçoado pela adversidade, comprova isso. Arendt não deixa ao leitor a opção de suavizar o impacto das constantes desgraças pelas quais passou Benjamin num texto mais polido; sua linguagem afiada não poupa o riso espontâneo que vem sem que seja possível contê-lo ao ler essas palavras sobre os últimos dias de Benjamin:


Graças aos esforços do Instituto em Nova York, Benjamin estava entre os primeiros a receber o visto [o visto de emergência para refugiados da Alemanha nazista, que dava direito a entrarem nos Estados Unidos] em Marselha. Também obteve rapidamente um visto de trânsito espanhol, que lhe permitia ir até Lisboa e lá tomar um navio. Contudo, não tinha um visto de saída francês, ainda exigido na época, o qual o governo francês, ansioso para agradar à Gestapo, invariavelmente recusava aos refugiados alemães. Em geral, isso não apresentava grandes dificuldades, pois havia um caminho bem conhecido, que não era vigiado pela polícia francesa de fronteira, relativamente curto e de modo algum muito árduo, que tinha de ser feito a pé pelas montanhas até Port Bou. Contudo, para Benjamin, que aparentemente tinha problemas cardíacos, mesmo o passeio mais curto significava um grande esforço, e deve ter chegado num estado de grave exaustão. O pequeno grupo de refugiados a que ele se juntara alcançou a cidade da fronteira, para ali saber que a Espanha fechara suas fronteiras naquele mesmo dia e que os oficiais não aceitavam vistos expedidos em Marselha. Supostamente os refugiados teriam de voltar à França no dia seguinte, pelo mesmo caminho. Durante a noite, Benjamin se matou, com o que os oficiais da fronteira, impressionados com o suicídio, permitiram que seus companheiros seguissem até Portugal. Poucas semanas depois suspendeu-se novamente o embargo dos vistos. Um dia antes, Benjamin teria passado sem nenhum problema; um dia depois, as pessoas em Marselha saberiam que, de momento, era impossível passar pela Espanha. Apenas naquele dia particular foi possível a catástrofe. (Homens em Tempos Sombrios, Hannah Arendt, pp.184-5, grifo meu)


Por sobre todo grande fracassado paira uma áurea de humor que acentua que eles são representantes de maior peso da erraticidade e desabrigo da nossa espécie. É difícil saber qual foi o maior fracassado: Benjamin ou Kafka, dois judeus cujo reconhecimento póstumo só foi possível por uma série de acasos fortuitos que quase se perdeu, o que ao menos Kafka permeia sua obra com o que o humor judaico antevê com lucidez a inerência inescapável de seu próprio fracasso. Kafka e Benjamin, como homens comuns situados fora do âmbito de criadores, podem ser enquadrados na definição do riso pilhérico dada por Elias Canetti, de que se ri de quem leva um tombo em público pelo que tal acidente puxa pela memória primitiva da queda da caça abatida (como não se pode mais literalmente comer quem cai, a dissolução do impulso residual se faz pelo riso).


A condição de fracasso de Benjamin e Kafka torna-se uma realidade condicionada a fatores materiais quando se vê em retrospecto o que o século tinha para torná-los incompatíveis. Nesse aspecto, Kafka foi mais poupado que Benjamin. Sua vida de funcionário pacato, inepto pelo isolamento social não só no campo familiar como no amoroso, obteve a absolvição procurada em sua toca subterrânea onde externava seus pesadelos, mesmo antes dos eventos que determinaram a personalidade do século XX. A tuberculose o poupou de tudo o mais que se avolumava no horizonte da história a fim de transferi-lo da cômoda constituição de fracassado para a de vítima potencial, possivelmente canalizada para um dos tantos desvãos oferecidos em que lhe esperava o extermínio. O século só lhe confrontou na sua realidade provinciana através da figura totêmica do totalitarismo paterno, e na fragmentação das tradições românticas e humanistas através de seus incuráveis e efêmeros casos amorosos (todos não passando de platonismo asséptico unilateral que beirava a neurose infantil). Já Benjamin, perseguido por seu fiel e inseparável corcundinha, teve uma sorte muito mais grotesca. Foi atropelado pelo terror de sua inclemente condição de refugiado sem pátria e sem lar, dando-se o lenitivo do único caminho que se lhe apresentava lógico como absolvição.


Algumas décadas à frente e os dois teriam sobrevivido, teriam sido desenfardados da obrigação de serem exemplos relativos aos olhos de quem vê sobre as cargas de ironia e os sintomas de radicais mudanças globais. Mas, restringidos à sua época, limitados em seus aguilhões de fracassados irredutíveis, hoje os homens por detrás desses pensadores estão numa esfera tão desatualizada de penúria que mesmo o humor não mais sobrevive. Não só o humor, como os dois portadores de intelectos potentes foram resumidos no triste domínio sem transcendência de suas fotos em preto e branco de homens muito magros, muito assustados, muito dependentes da burocracia mundana para que fossem suavizados da mesmice de mortais condenados à sensaboria e vistos como os “homens bons” de Hemingway (“os bons morrem cedo”). Os dois não foram homens bons, no entendimento de destemidos confrontadores da injustiça; faziam parte de uma fragmentária categoria de novos representantes da espécie que não tinham o pragmatismo ativo de um André Malraux , Bertrand Russel ou Camus. Suas vozes não eram potentes ou aráuticas, mas voltadas para a região mais profunda de si mesmos. São vozes de quem falam baixinho; vozes nos interstícios das quais a história impera maciçamente para calá-las, para mostrar o quanto tem de antiquadas e de falta de sentido. Não escreviam livros para serem lidos em voz alta. Duas décadas a mais e Kafka não morreria vítima de uma afecção anacrônica do século XIX, meia década a mais e Benjamin teria toda a chance de conseguir uma cátedra acadêmica para escrever sobre uma escrivaninha estável como a de Adorno. Mas isso se não tivessem que cumprir suas obrigações culminantes de fracassados. O fracasso como homens, em todos os sentidos, não só decidiu que morreriam cedo, numa zona intermediária em que o antes e o depois se tornaram colossalmente dessemelhantes, como também é a razão formativa de terem se consolidado no Kafka e no Benjamin que hoje sobrevivem em nosso conhecimento. O fracasso que tornou possível que achassem um tom íntimo e insignificante o suficiente para que o ruído exterior não se importasse em imiscuir-se nele para destruí-lo, e com o qual, livres da imolação, conseguiram enfim empunhar suas armas e investirem dessa esperança peculiar e quase desprovida de acepção etimológica para reagirem às sombras. Assim Benjamin pôde compor seu retrato do Anjo da História, suas amplas análises sobre o minúsculo e o quase invisível, e Kafka pôde mostrar o quanto o homem é uma bomba de angústia e sonhos infrênicos mesmo apertado sob o sapato.


Recordo vagamente de uma interpretação do sentido da obra de Beckett em que se diz que Beckett fora o mais pessimista dos escritores, mas que sob esse pessimismo descobria-se uma broca de escavação para uma opção inominável desconhecida, que tornavam suas palavras infinitamente precoces para o atual estágio humano. Essa precocidade talvez seja a chave para o esforço de tentarmos compreender além de nosso tempo o quanto o fracasso de Kafka e Benjamin serve como presciência, pela exposição reversa, de um período porvindouro em que o homem esteja suficientemente curado pela História de todas as suas cargas deletérias, o passado servindo assim como expurgação. 


Quando Benjamin reconhece o fracasso em Kafka (“As circunstâncias do seu fracasso são multifacetadas. Fica-se tentado a dizer: uma vez certo do fracasso final, tudo se resolvia para ele en route como num sonho”. Citado em Homens em Tempos Sombrios, p. 183), reconhece a incorporiedade de sua única relevância em renegar a existência enquanto homem e estar sensivelmente à frente de seu tempo. O que pode acontecer de pior é essa frágil significância se romper diante a prova implacável do determinismo da história.
Walter Benjamin

segunda-feira, 21 de março de 2011

Mecanismos Internos, de J. M. Coetzee



As Aventuras de Augie March  deveria ter um personagem central menos quedado na idiotia, e uma trama menos dispersa e inofensiva; o relacionamento de Florentino Ariza com a adolescente de 14 anos América, no romance O Amor nos Tempos do Cólera, carece de uma explicação moral, limitando-se a ser apenas uma apologia truncada da pedofilia (com "ecos arcanos de Lolita"); o escritor moçambicano Mia Couto é influenciado demais pelo realismo mágico"para merecer confiança como cronista do passado do seu país"; Walter Benjamin expressa uma deslocada ingenuidade ao centrar o seu grande tratado de colagens sobre o capitalismo nos grands magasins de Paris e não nas lojas de departamentos de Nova York e Chicago, da mesma forma que Walt Whitman desconhece os rumos contemporâneos da história norte-americana ao cantar o clima fraterno dos artesãos e pequenos proprietários num Estados Unidos em que  uma fase febril do capitalismo industrial acirrava a busca individual pelo lucro.

Essas são algumas observações feitas por Coetzee ao longo de seu mais recente volume de ensaios, lançado  no Brasil pela Companhia das Letras no mês passado com  o título Mecanismos Internos- Ensaios sobre literatura (2000-2005). Sem tocar de imediato no mérito de se concorda ou não com essas opiniões, esses ensaios dão ao leitor ao menos três certezas indiscutíveis sobre o ficcionista:  1. Coetzee explora os autores escolhidos com uma amplitude extrema, demonstrando ter lido não apenas toda a obra, como biografias e traduções principais, com uma acuidade investigativa que se aproxima da vertente acadêmica de um ensaísta que leva muito a sério o seu tema, distanciando-se ou quase não remetendo-se ao Coetzee romancista; 2. Coetzee, ao menos nesses ensaios de sua produção tardia, demonstra grande preocupação com a questão moral do escritor frente a um  mundo fragmentário e absurdo, perspassando a validez da produção intelectual pela capacidade de seu criador em reagir ao meio através da construção de um mundo exilado da bestialidade dos tempos históricos, mas acirradamente conectado à realidade de forma denunciadora e não conivente. (Daí ser representativo que parte dos escritores analisados sofreu a perseguição nazista, muitos destes sucumbindo ao suicídio ou à execução). 3. Como esses ensaios, numa percepção indireta, contribui para uma maior compreensão dos romances de Coetzee.

São 21 ensaios, a maioria publicada na New York Review of Books, que apresentam um Coetzee surpreendentemente diferente para os que só tinham lido, até então, a obra de ficção do autor. Aqui ele está mais prolixo (não palavroso), e um tanto mais caloroso e entusiasta que a voz lacônica e desapaixonada de romances como Desonra e O Mestre de Petersburgo. Pelo menos 7 desses ensaios são fundamentais, não tendo temor em dizer que foram escritos num padrão mesmo superior a de críticos literários de formação, como Harold Bloom e James Wood, mas em todos os outros o autor nos regala com sua inteligência, a elegância da escrita, e uma devoção à literatura que o leitor às vezes se sente culpado por suspeitar se Coetzee não está sendo anacrônico.

Coetzee mostra a sua mestria na composição ensaística ao assinalar que não só ao romance os tempos atuais impõe a necessidade de renovação, mas também aos outros gêneros que derivam do romance, como o ensaio literário, as narrativas de viagem, os mini-textos aforísticos, as memórias. Sua contribuição para o ensaio é mais que substancial, chega a desarmar possíveis debatedores pelo efeito desencorajador de falta de conhecimento suficiente, ou de ter-se que encetar a releitura para captar o que Coetzee demonstra ter passado batido. Coetzee contorna  por todos os lados o texto analisado, a vida do autor, e as opiniões correntes do mundo sobre ele, explora as contradições, as fraquezas, mergulha na direção menos laudatória que a ambiguidade criou, esclarece aspectos históricos sobre o tempo no qual está imergido o autor, que se mostram impactantemente essenciais mas que, contudo, foram desconsiderados pela crítica. A exemplo desse último, no ensaio arrebatador sobre Walt Whitman, Coetzee não cai na repetição da fórmula maçante de relacionar o poeta à democracia e às comunidades alternativas como a dos quackers, mas explora o homoerotismo de Whitman de maneira desassombrada, interagindo com seu talento cenográfico de romancista em mostrar um velho Whitman transitando pelos hospitais de Washington, abraçando os belos soldados à beira da morte e dizendo-lhes palavras de amor fraterno. "Entre 1862 e 1865", escreve Coetzee, "Whitman prestou cuidados a cerca de 100 mil homens." E revela que, a proibição de Folhas da Relva na América de finais do século XIX, se deveu ao erotismo expresso entre homens e mulheres, que ofendeu a classe média puritana, e não às descrições de relações sexuais homem com homem, pois estas últimas, para o pasmo do leitor que pensava que o liberalismo sexual é criação dos anos 1960, era comum e aceita sem nenhum traço de polêmica pela sociedade daquela época.

No ensaio sobre Faulkner, que também é um dos que indicam que Coetzee já teria seu espaço garantido no mundo das letras se tivesse sido apenas ensaísta, vemos o retrato de um escritor misto de um enorme talento  natural destinado a criar algo que nunca havia sido feito antes (uma nova corrente literária), e um aprendiz restringido à leitura de Balzac, Dickens, Conrad, ao Antigo Testamento, Shakespeare e Moby-Dick. Coetzee nos apresenta um Faulkner limitado em sua vida cotidiana a um casamento infeliz, ao alcoolismo degenerador, a uma espécie de desconhecimento espontâneo do mundo tanto geográfico quanto político, que tinha grande apego à alienação para tudo que exorbitasse a estrita região sulista que ele recolheu da realidade para criar seu espaço ficcional próprio no Condado de Yoknapatawpha. Coetzee revela o quanto Faulkner era um homem comum desprovido de graça _que ficava violento a ponto da esposa e filha terem que se esconder de suas inúmeras crises alcoólicas _, quando era convocado a sair de sua zona de precisão para se apresentar a um público pouco convencido de suas ideias políticas desarroadas e suas concepções raciais e escavocratas inconsistentes. Mas como ele foi profundo estudioso da alma humana em seus romances, e o rico cenário por ele erigido dá margem a avaliações políticas que transcendem a obtusidade de faixada.

Aliás esse é um dos pontos principais desses ensaios: a dicotomia entre o homem trivial e o grande criador que se esconde dentro dele. As formas usadas para que esse criador se exteriorize, ainda mais em tempos difíceis e sombrios como foi o século passado, e se mostre, de diversos ângulos contrapontistas, reativo ao caráter eventual que quer lhe abater e restringí-lo ao mero número participativo, ao mero cidadão colaborador. Assim, no também magnífico ensaio sobre Walter Benjamin, Coetzee inicia com uma técnica policial narrando os últimos instantes do escritor, antes que ele tomasse uma dose letal de morfina, ao se ver barrado na sua fuga dos nazistas pela fronteira espanhola. Benjamin levava uma mala desnecessariamente pesada para um fugitivo, e, quando questionado por uma das outras fugitivas o por que não abandonava a mala, ele responde: "Não posso correr o risco de perdê-lo. Precisa ser salvo...É bem mais importante do que eu." E no ensaio sobre Bruno Schulz, o romancista e pintor polonês que, tendo levado uma vida de refugiado atento e em iminente deslocamento, se deixa executar quase por acaso "durante um dia de anarquia promovido pela Gestapo" em Drohobycz, e que repetia na escrita o sinergismo kafkiano de transformar as vítimas da opressão em insetos abomináveis. Esse motivo do escritor que busca um reduto representativo em que possa alimentar uma indeterminada lógica reflexa do mundo que o cerca, também aparece no ensaio sobre os contos de Samuel Beckett, que "era um artista possuído por uma visão da vida sem consolo nem dignidade ou promessa de graça, em face da nosso único dever_ inexplicável e de finalidade fútil, mas ainda assim um dever_ é não mentirmos para nós mesmos."

Esses ensaios, como foi assinalado acima, servem para uma maior compreensão da obra ficcional de Coetzee, principalmente quanto à moral subliminar que vemos em romances como Vida e Época de Michael K., A Idade do Ferro e, de forma mais sutil, em Desonra. Coetzee não se mostra desconfortável ou preocupado em ser acusado de funcionalismo ao exigir, muitas vezes sutilmente, que a literatura seja socialmente enquadrada, positivamente construtiva, ainda mais nas sociedades em que imperam os conflitos étnicos e políticos, como as descritas nos ensaios sobre Nadine Gordimer, V. S. Naipaul, Günter Grass, e, um pouco menos significativo, Garcia Marquez. A inteligência e cognição multitudinária que recheiam estes ensaios realmente sublimes parece dar a Coetzee o álibe de que seja até uma necessidade mais que formal a sua defesa por uma literatura engajada, livre da impunidade da fantasia pela fantasia, inserida nos contextos urgentes da hora; que as parábolas sejam interseccionadas com a denúncia contra a opressão, e as imagens mais distorcidas não sejam meros arroubos artisticos, mas uma exploração dialética do momento.

Essa visão é coerente com toda a obra ficcional de Coetzee, que sempre teve pé no realismo revisionista da culpa histórica do europeu (Desonra); da exclusão econômica dos não-assimiláveis do capitalismo (A Idade do Ferro, Michael K.); da inerente e inconsciente propensão do homem branco ao domínio das "raças" oriundas da mal digerida ruptura colonial (À Espera dos Bárbaros, Homem Lento). Assim, Coetzee não está oferecendo nenhum ingrediente novo ao amparar um dos valores literários na diretriz causa e efeito moral, mas, assim exposto, sem a roupagem ficcional, isso tanto dá novas opções de debate sobre seus romances, como revela que a régua usada por Coetzee ao discriminar algumas obras não é a mais adequada. Se ele repudia_ com toda a elegância e respeito que tem por Bellow_ Augie March, por sua "idiotia" em não ter uma estatura de esclarecimento reacionário ao momento histórico de múltiplas transformações em que os E.U.A. passavam na metade do século XX, e se ele condena o famoso capítulo 16 desse romance por ser uma gratuita e desnecessária narrativa sobre adestramento de uma águia, demonstra que, apesar do enorme talento perceptivo artístico que tem, lhe escapa muito facilmente os propósitos que Bellow destinou a esse romance picaresco. O ensaio sobre Bellow desconsidera, então, um dos mais ricos e grandes romances americanos do século passado, para se ocupar com um outro romance menor e quase esquecido de Bellow, A Vítima, "a poucos centímetros de Billy Budd na primeira fila das novelas americanas", porque este, com sua temática pós-existencialista em que um bancário analisa a futilidade de sua vida, cercada por um cotidiano que lhe veda a acepção das grandes ideias da humanidade, condiz mais a um conteúdo formativo.

Da mesma forma, lhe escapa o potencial da prosa sinérgica de Mia Couto, o que soa irônico (ou até discriminativo por outras razões, já que uma simples sentença demonstra que um ensaísta de fôlego ilimitado como Coetzee desconhece a obra de Mia Couto não por preguiça), visto que dedica ao moçambicano apenas uma observação passageira, descartando-o pelo que ele não é: adepto do realismo mágico (p. 334, segundo parágrafo). E também, Coetzee mostra não ter percebido que Walter Benjamin é significativo e original justo por ter composto uma análise do capitalismo a partir dos objetos espúrios e invisíveis, o que lhe assentava mais as lojinhas parisienses e não os shoppings de Manhattan.

Para uma nova análise da obra ficcional de Coetzee, que não será desenvolvida neste texto, surgem as perguntas: o médico que narra a parte final de Michael K. soa mesmo despropositadamente didático, em prejuízo da obra? Na linha de delimitação da moral, que vemos nos ensaios, uma releitura de Desonra o transforma ainda mais em um romance espantoso, de propostas que tanto pode envolver um cristianismo de níveis esotéricos sobre-naturais, quanto um sarcasmo desproporcional.