Por onde começar?
Já disse em algum outro texto sobre a sobrevida de meu sogro. O médico dele o liberou para comer e fazer de tudo, à maneira daquele filme com o Morgan Freeman e o Jack Nicholson, visto que o prognóstico que veio junto a esse destrambelho radiante era que não lhe restava mais que uns três meses de vida, e por isso seria bom que ele se apressasse se pretendesse escalar o Everest, beber leite de lhama ou caçar tubarões no mar da Tailândia, ao que o meu sogro preferiu esperar por seu desaparecimento absoluto com a muito mais modesta opção de ficar em casa e sair para visitar os parentes e amigos de vez em quando. Nisso foram-se 4 anos. Minha esposa me perguntou sobre minha opinião se eu recomendava que meu sogro passasse pelas sessões de quimioterapia, e eu lhe respondi que meu pai suportara apenas oito meses quando se prontificou a agarrar o milagre por essa porta dos fundos da convencional resignação médica. De seus 70 kg quando entrou para a sala de quimio do Hospital das Clínicas, com a face corada e os cabelos de topete da jovem guarda intactos e negros, meu pai continuava apenas com 30 deles e a aparência mumificada que desnuda qualquer esperança humana meses depois do tratamento, em um coma semi-acordado de total insanidade e sem um pelo no corpo. Pois meu sogro veio nos visitar nesse domingo; fizemos um churrasco e doces para a sobremesa, e não havia nenhum vestígio de doença ao menos em nenhum canto de seu porte físico e seu pleno humor para com a vida. Meses depois que lhe foi dado a notícia da infalibilidade de sua morte, minha sogra desmaiou enquanto comprava pães, e o médico, como num sketch sem graça dos antigos programas televisivos em que o doutor de jaleco branco, com cara de louco e agarrado nas cinturas do casal de sentenciados de sorrisinho triste, solta o bordão grudento "desgraça pouca é bobagem", recebendo as palmas e gargalhadas frenéticas da craque entusiasmada, diz à minha sogra que o enfisema de trinta anos de fumante já lhe tomara conta de 90% dos pulmões. Era capaz que ela venceria essa súbita última disputa do casamento sobre quem seria enterrado pelo outro.
Ambos haviam ganho peso e faltavam dançar na sala, o que, aliás, fizeram. Nesse domingo parecia mesmo um último capítulo de novela, com toda a sua felicidade ilustrada, e se faltou um casamento, para compensar foi anunciado pela minha cunhada e seu esposo que o bebê que esperam no quinto mês, é menino e é perfeito. A doença ainda está lá, como veio selado nos novos exames de averiguação. Mas a impressão é que o milagre, paradoxalmente, também acontecera.
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Essa quebra no texto é para suavizar o humor involuntário da informação de que essa mesma cunhada também está doente. Ano passado, ela sofreu um ataque com todos os sinais de epilepsia em seu local de trabalho. Seus colegas ficaram profundamente chocados ao verem aquela moça cordial, de fala suave, caída no chão, espumando pela boca, com o corpo em uma convulsão descontrolada e os olhos revirados para cima. Por pouco ela não morreu sufocada pela retração da língua. O neurologista lhe passou uma batelada de remédios de uso controlado para tomar todos os dias. Esses remédios a narcotizavam tanto que, escondida de todos, ela parou de tomá-los após o primeiro mês. No dia seguinte, o ataque foi assustadoramente mais violento que o primeiro, e coincidiu de minha esposa o presenciar em um fim de semana que visitava seus pais. A Dani me contou que nada se assemelha mais a uma possessão demoníaca, pois a Adriele, minha cunhada, pronunciava xingamentos arrepiantes, e ameaçava que iria matar os pais quando estivessem dormindo. Uma nova série de exames foi feita, e mais uma vez o médico não detectara nenhuma anormalidade, mas reduzira a dosagem dos remédios para que a Adriele ao menos pudesse falar ainda que lenta e entorpecidamente. Ela teve que se demitir do trabalho e ficar em casa, sob cuidado da outra irmã e dos pais.
Aqui entra o veterinário da família. Eu solicitei à Dani que indicasse à Adriele fazer o exame específico de cisticercose. Deu positivo. Eu mesmo não sabia que o desconhecimento dos médicos sobre a incidência da cisticercose fosse tão grande, a ponto de ter que se pedir um exame diferenciado. Pois dois ovos da tênia haviam se instalado em um local do cérebro da Adriele, e o organismo os matara, formando calcificações que atrapalhavam o fluxo de interações elétricas de vários neurônios, daí os ataques severos. A Adriele, para se adequar à estética combalida da família, ficou raquítica a um ponto próximo da deformação, mas os remédios foram trocados por outros bem menos ofensivos. A última vez que a vi, há 4 meses, fiquei um tanto depressivo pelo que achei que fosse a perda sem retorno de sua beleza. Ela me pareceu ter tantos pelos no rosto que foi difícil suportar as comparações involuntárias da minha imaginação pérfida com a irmã e a mãe hansenianas do Ben-Hur.
Há coisa de três meses, o irmão de um colega meu de trabalho teve que ser levado algemado para a internação em uma clínica. De sua prevalência habitual de calma e ponderação, subitamente ele se revelou possuído pelo demônio. Quebrou os moveis da casa, avançou contra a mulher e as crianças. Eu estava de férias e disse à amiga que me comunicou do fato a já tautológica recomendação de que pedissem exames para ovos de solitária na cabeça. Mais uma vez Satanás foi inocentado, e descobriu-se que o criminoso era o porco caipira. Recordo que, recém formado, tive a intenção de começar uma pesquisa independente sobre a cisticercose, no que eu via como provável epidemia sub-clínica em diversas regiões brasileiras_ incluso aqui onde moro. Mas deixei de lado. Uma vez, enquanto frequentava o curso universitário, passei uma férias em Catanduva, e, junto a uma equipe de pesquisa, necropsiamos diversos porcos da região do interior de São Paulo, e todos, sem exceção, haviam apresentado a tênia no intestino.
Mas o propósito deste post é a feliz resiliência que vi neste domingo. A Adriele está grávida, linda, gorda, falando as tantas deliciosas besteiras que ela tanto tem talento para falar_ à semelhança da princesinha Bolkonsky. Mais uma vez eu repito a máxima verdadeira do velho Tagore: "É preciso muita coisa para se matar um homem".
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Sobre o velho assunto da literatura:
Estou lendo dois livros deliciosos. O Contos reunidos, do Nabokov, e o Todo aquele jazz, de Geoff Dyer. Caramba, que maravilha! O Nabokov me fez lembrar de uma das portas do gosto da leitura, promovido em mim por meu pai quando ele me presenteou, lá pelos meus dez anos, com alguns livros em quadrinhos do Tarzan. Nem era o Tarzan do Burroughs desenhado pelo Hal Foster, o clássico dos clássicos, mas uns gibis de longas páginas horizontais que falavam sobre um Tarzan que era miniaturizado para salvar o povo das formigas em um volume, e lutava contra uma seita religiosa de gorilas terríveis que veneravam determinado demônio da guerra em outro volume. Recordo que esse foi um daqueles momentos de felicidade extrema da minha vida. Meu pai me disse: "Isso aqui é muito melhor que cinema". Eu os li e reli e me transmutei para dentro desses livros. Como os macacos fanatizados, eu comecei a reverenciar esses livros. Em uma extensão freudiana, é bem possível que toda a minha vida de leitor_ olha só os relâmpagos súbitos da auto-revelação_ se resume na busca pela repetição da mesma felicidade que senti com esses livros do Tarzan. Não tem exagero: talvez a intensidade tenha se alterado nos vários momentos que se seguiram, mas essa felicidade foi recuperada com Thomas Mann, Faulkner, etc, etc. E esses contos do Nabokov me fazem tão plenamente feliz, tão próximo àquela sensação de meus dez anos, que não me passa desapercebido a hipótese de uma pré-senilidade que anuncia em meus 40 anos o velho abobado de alegre infantilismo que eu serei se chegar aos 80.
Nabokov é um miserável de um grandissíssimo escritor. Ele brinca com os contos que escreve, brinca com o formato perecível dos tantos periódicos e revistas para onde essas condensações de seu gênio vaidoso eram enviadas para a publicação. No meio de contos que ele sabia serem imortais_ como qualquer leitor sabe imediatamente ao ler, por exemplo, o conto La veneziana (que aliás, como o cheque do Nobel de Hamsun que quase se perdeu em um elevador de uma pensão, com a mesma displicência só foi redescoberto décadas após ter sido escrito)_ , ele simula estragar tudo com doses desconcertantes de coloquialismo anti-estético. Durante determinada cena impecável de suspense, em que tudo está xamanisticamente espetando a percepção acentualizada do leitor, ele lança um cumprimento, um oicomovai, que faz pular no sofá. Para quem deseja fazer um test-drive desse livro, sente-se na poltrona de uma Livraria Cultura, abra o volume em um dos tantos conto curtos, e leia, por exemplo, O passageiro. É um conto que não fala sobre nada, um mero exercício, mas está tudo lá: a metalinguagem de primeira, o clima de uma Europa invernal oitocentista acolhedora no que tem de insurgente risco de assassinato, o trem-expresso e seu vagão onde o leitor se instala com agradecimento. Está lá o que está em todos os outros contos e em toda a literatura que se preza por sua absoluta imprescindibilidade: a força de nos arrebatar desse mundo, de nos fazer acreditar nas alternativas muito materiais da abdução. Enquanto estou na companhia de Nabokov_ e, felizmente, me falta ainda mais da metade do livro para ler_, eu divido com ele todas as suas opiniões tolas de grandeza e todas os seus preconceitos estereotipados contra outros escritores: Quixote é o mais brega dos livros e Faulkner é um idiota superestimado.
E o livro de Dyer... Ontem eu tive a oportunidade celestial de lê-lo ouvindo Thelonious Monk e Lester Young, os dois primeiros personagens das primeiras cem páginas. Vou escrever um texto específico sobre Todo aquele jazz assim que terminar de lê-lo (acho que hoje termino, mas escrevo lá pelo sábado). Só posse dizer que Viva e Literatura!, Viva o Jazz!
E Geoff Dyer é um grande escritor. Uma palhinha:
"O período dos anos inexistentes, como Nellie os chamava, chegou ao fim quando o 5-Spot ofereceu a Monk um lugar fixo pelo tempo que quisesse, até quando as pessoas quisessem ouvi-lo. Nellie ia lá quase todas as noites. Se não fosse, ele ficava inquieto, tenso, fazia pausas mais longas que as habituais entre um número e outro. Às vezes, no meio de uma série, telefonava para casa a fim de saber como ela estava, grunhindo, fazendo no fone ruídos que ela interpretava como uma terna melodia de afeição. Deixava o fone fora do gancho e voltava ao piano de forma que Nellie pudesse ouvir o que estava tocando para ela, levantando-se de novo no fim da música, metendo outra moeda na fenda.
_ Está aí ainda, Nellie?
_ Que bonito, Thelonious.
_ Oêê, oêê_ fitava o telefone como se estivesse segurando algo excepcional."
P.S.: Ontem, enquanto passeávamos de carro, eu brinquei com a minha esposa, me referindo ao espólio dos pertences de seus pais que futuramente será repartido: "Que tristeza me deu ao ver seu pai gordo, o rosto corado, e sua mãe com aquele vestido curto mostrando as pernas bronzeadas". Eu continuava no mesmo tom, enquanto a Dani se contorcia de tanto rir. "E tudo isso às custas de meu dinheiro". E dobrei a esquina onde nos esperava o parque do lago e o sol radiante da manhã.