O vermelho e o negro, de Stendhal
Romance magnífico que passou ignorado quase por completo em sua época, mas que seu autor vaticinou com estoica tranquilidade que só seria entendido pela posteridade. O livro inaugura seguramente a maturidade sobre o estudo escatológico do ser humano, e imagino o espanto que deveria ter causado em sua época pelas estarrecedoras coisas que conta. Quando o li pela primeira vez em minha adolescência o abandonei, com grave hostilidade, na página 279 (tem meus comentários, meus sublinhamentos e meu marca página enterrado nessa página na minha antiga edição de banca, de quando eu tinha menos que 20 anos); recordo que o livro me pareceu como a mais terrível história de terror, de tão opressiva, desaerada, soturna e desumana que era. Não é para menos que o romancista mais diabólico que existiu, Elias Canetti, reverenciava Stendhal (o capítulo sobre a imortalidade que Canetti escreve em seu insuperável Massa e poder é uma ode a Stendhal). E isso tudo apenas porque Stendhal descreve a sociedade e a alma humana como ela é, e de uma maneira sem espanto, perfeitamente equilibrada. Há corrupção e ânsia de assassinato por toda parte, e o amor é uma impostura da fraqueza ou da ambição. Há a pobreza atroz e a adaptação animalesca a ela, quando o pobre Julien Sorel é internado em um seminário, como último recurso para sua ascensão social, e seus companheiros cujo estado de espírito transita entre a indiferença e a crueldade se revelam com o propósito de existirem apenas para suprirem diariamente a paixão de seus estômagos. Quem ainda cultiva algum respeito pelas religiões, esse livro é uma destruidora libertação. Nenhum escritor escreve tão bem em francês quanto Stendhal; ele reina absoluto sobre a língua. Como esteta, é inigualável, assim como psicólogo e frio denunciador da empáfia da política e da sagração; é também um arauto de unívoca lucidez sobre o poder do tédio, e se tivesse que resumir todo seu tema em uma única palavra, seria essa: tédio. Não sei quem foi quem falou com precisa assertividade que o único páreo para ele é Dostoiévski.
Morte em Veneza, de Thomas Mann
A maioria dos grandes romances purga títulos canhestros. Esse não foge à regra. É como se Agatha Christie tivesse optado para um de seus romances pelo título de O detetive é o assassino, ou Nabokov para seu grande romance O narrador enlouquece. Até quase a metade dessa curta novela fiquei em suspense se Mann conseguiria erguer e encerrar toda a conhecida trama que ela comporta, porque até então a obra cai em uma divagação solta sobre a estética e a preparação do escritor para seu ofício. É como se Mann tivesse programado um de seus caudalosos fôlegos de 600 páginas mas, na última hora, determinasse que a coisa se encerrasse rapidamente. Isso não exclui o fato de que esse livrinhos seja uma obra-prima, e mais ainda que tais páginas pré-trama estejam entre as melhores que já li sobre o ofício de escrever. A tal morte em Veneza é descrita com uma singularidade que ressalta a genialidade do autor pela delicadeza com que ele equilibra o foco da narrativa do amor do velho escritor pelo jovem fisicamente perfeito sem que se entreveja qualquer traço de vulgaridade ou de pre-conceitos formalizados. É tão bonito esse livro que, na ânsia de que a história se inicie, ele acaba sem que o leitor deseje outra coisa senão que as páginas se prolongassem pelas centenas. É precioso também ler as antecipações de Doutor Fausto nesse livrinho.
As sementes da revolta e Os anos de provação, de Joseph Frank
Essas duas primeiras partes da biografia de Dostoiévski são puro deleite. Interessante ver que os dois últimos volumes tiveram o dobro da tiragem do restante, 3000 exemplares, como se o interesse se limitasse ao Dostoiévski do período de seus cinco grandes romances. Pois perdem bastante os apressados em não saberem como é ótimo seguir Dostoiévski em sua infância e juventude, em sua paixão pelas ideias humanistas (centrada na extinção da servidão na Rússia), a publicação de seu primeiro romance, Pobre gente, e como isso foi ao mesmo tempo a glória e a perdição para um jovem escritor que não soube conviver com a fama e se indispôs com todo mundo por sua terrível prepotência. A cena que inicia o segundo volume é a de Dostoiévski, mais seus 20 companheiros do círculo de Petrachévski, que conspirara contra o czar Nicolau I, sendo retirados após 8 meses trancados na fortaleza Pedro e Paulo e levados até a praça Semenóvski para serem executados pelo pelotão de fuzilamento. Creio que a escrita de Frank nessa parte se ombreie com as melhores páginas da literatura do século XX (ou ao menos assim parece para esse leitor apaixonado pelo tema, pela atmosfera e pelo escritor russo). Dostoiévski é encapuzado e amarrado em um poste, mas antes ele se vira para seu amigo Spechniev, também nas mesmas condições, e diz: "Estaremos em Cristo", ao que o colega niilista lhe responde: "Um punhado de pó". A pena se revela uma encenação e é convertida, para o autor de Crime e Castigo, em 4 anos de trabalhos forçados na Sibéria, mais a obrigação em servir após esse tempo como cabo no exército russo. E os anos na Sibéria nunca foram contados com tanto provimento de detalhes e com tanta profundidade como nessa biografia. A paixão enlouquecida de Dostoiévski por María Dmitriévna, sua solidão dos centros culturais do país, sua fé nunca perdida de que seria um grande escritor. Estou iniciando o terceiro volume hoje.