Há alguns meses nós frequentadores do blog do Milton Ribeiro, tivemos uma pequena querela por lá. Dividimo-nos entre os que admiram Niemeyer, e os que, trocando em miúdos e sem firulas, o abominam. Faço parte dessa última categoria. Citei Marshall Berman , o antológico prefácio e o capítulo referente de Tudo que É Sólido Desmancha no ar. Talvez porque Brasília faça parte dos meus pesadelos, e tudo relacionado a ela, das formas mais materiais às puras abstrações mais horríveis. Eu jamais conseguiria morar lá, assim como quando tenho que visitá-la (uma vez por semestre), o faço o mais rápido possível. É uma representação associada por demais à história monocórdia e inerte do país, carregada por demais de peso metafórico, para que consiga respirar com alívio. O texto abaixo foi recortado da parte final do último de dois artigos do Luiz Schwarcz, publicados no Blog da Companhia das Letras. Vale a pena lê-los na íntegra.
" Berman dialogou com intelectuais como Marilena Chaui, Nicolau Sevcenko, Francisco Foot Hardman, entre outros. As críticas, no entanto, não tardaram a aparecer. Lina Bo Bardi foi uma das primeiras a se manifestar, defendendo Niemeyer. Numa palestra super lotada no auditório da USP, o pensador norte-americano foi aplaudido e apupado, enquanto a arquiteta Regina Meyer, professora da FAU, pedia respeito em relação à obra do grande arquiteto brasileiro, sugerindo que Berman se aprofundasse mais antes de opinar.
Fiquei muito impressionado com a forma com que Marshall falava, sempre de olhos fechados, e com sua expressão sempre triste e soturna. Sua presença física lembrava um hippie dos anos sessenta. Um amigo meu, com ironia, disse que Berman parecia estar voltando a pé de Woodstook. Ele ia a todos os eventos com jeans surrados, sandália franciscana, a mesma camiseta e os cabelos desgrenhados. Trouxera poucas mudas de roupa para o Brasil e pouco se importava com isso. Sua presença, enorme, era antes de mais nada triste. Eu depreendera, a partir da leitura da apresentação de Tudo que é sólido desmancha no ar, que Berman passara por um enorme trauma familiar, mas até então não tivera a coragem de perguntar sobre o assunto.
Aqui no Brasil, e depois em uma longa visita que eu fiz ao escritor em Nova York, Marshall contou-me o seu terrível drama pessoal. Quando Tudo que é solido estava prestes a ser publicado nos Estados Unidos, a então esposa do autor, sofrendo de psicose aguda, atirou Marc, o filho de cinco anos do casal, pela janela, tentando em seguida se suicidar, sem sucesso. Berman se referia a Marc como um anjo. Não chorava ao falar, mas nem era preciso. Seu choro estava presente o tempo todo, ao cerrar os olhos para responder as perguntas do público brasileiro, que o recebeu como um verdadeiro ídolo, e na constante expressão de silêncio que entregava ao mundo. Para Berman, a vida se desmanchara no ar com a morte de Marc."
Parte 1:http://www.blogdacompanhia.com.br/2011/03/brasilia-se-desmancha-no-ar/
Parte 2:http://www.blogdacompanhia.com.br/2011/03/marc-o-anjo/
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