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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

O Mapa e o Território, de Michel Houellebecq

 



A leitura desse fenômeno de vendas, chamado Michel Houellebecq, suscita muitas cogitações sobre o que vem a ser carisma na literatura contemporânea. Houellebecq é retorcido com certa insistência, pelos seus leitores bem intencionados, para caber no molde de um Jonathan Swift e de um Albert Camus, e mesmo em suas primeiras obras ele tendo demonstrado não ter nenhum propósito de se equivaler a esses modelos, já em seus romances mais recentes vem reagindo passivamente a essa necessidade de entendimento, talvez de forma inconsciente. Em seu romance Plataforma, quando a temática das novas investiduras da dominação global através do turismo sexual dos antigos dominadores nas ex-colônias se junta à repercussão de um polêmica criada e exagerada pelos jornais, o carisma com muitas lacunas do autor sofre uma espécie de eufemização na tentativa de ver sarcasmo sofisticado no que aparentemente é apenas um niilismo grosseiro e uma astuta adequação ao que o público ávido por comprar livros requer. Tudo não passa de uma estratégia mercantil: o mercado encontra um escritor que polemiza dentro do gosto do freguês, e a mídia se apressa a potencializar o escândalo de uma elegante má reputação também ela com olhos raposinos nos lucros. É o par com sintonia perfeita para alimentar a fama e a glória para ambos os lados_ quantos jornalistas e formadores de opinião não passaram a se beneficiar largamente com documentários, reportagens e livros sobre Houellebecq?_: Houellebecq escreve Plataforma, um romance que só com muita credulidade poderia matizar delicadezas pontuais da política moderna como o turismo sexual e o islamismo, e a mídia ecoa com uma sensibilidade simuladamente ultrajada que realmente o autor brutaliza tanto o turismo sexual quanto o islamismo. Talvez o que satisfaz em primeiro plano o leitor nem seja a controversia, mas os mobiliários de cena os quais Houellebecq é pródigo em oferecer_ como paisagens, o tédio dos aeroportos e os apartamentos aquecidos de Paris_, mas a premissa sustentada pela propaganda feita para que as sublimidades de sua escrita passe a dar a impressão ao leitor de que ele está ganhando algo mais profundo do que um simples hedonismo de viagem: há ali uma sarcasmo político, um humanismo às avessas, uma fina experiência filosófica. Quando Houellebecq escreve todo um romance sobre turismo sexual, que qualquer um levemente bem informado sabe ser uma característica de todos os países, algo notório e incapaz de provocar surpresas, o imaginário criado como áurea à sua mensagem secreta é que quando ele aparenta defender a exploração de meninas em países subdesenvolvidos ele está, na verdade, emulando Swift quando este satiriza que a solução para conter a desigualdade social da Irlanda é comer os filhos dos irlandeses pobres. E no seguimento dessa colaboração entre escritor e mídia publicitária, Houellebecq encerra Plataforma com um massacre provocado por islamitas, o que dá à obra uma segunda vertente de incorreção. Se o leitor tiver ânimo para uma segunda leitura de Plataforma, verá que sua primeira impressão é a certa, de que tal romance tem 400 páginas dedicadas a descrições sexuais de uma insensibilização fisiológica (com uma repetição da frase, que é uma assinatura do autor em todos os seus livros: "ejaculei violentamente"), e uma longa e morosa catalogação sobre a burocracia de como funciona uma agencia de turismo internacional. Não que Houellebecq seja mal escritor, mas a questão é que ele parece ter perdido a mão, parece que seu excepcional talento demonstrado nesta que é sua única grande obra, Partículas elementares, se limita agora apenas a um bom cenógrafo. 

Uma recente pesquisa apontou que as crianças mais bem educadas do mundo são as francesas. Elas não fazem bagunça em aviões, elas não gritam, elas não pulam, elas não atravessam os assuntos dos adultos, elas não dão birra: uma criança francesa, pelo que enalteceu as revistas que ensinam as etiquetas do bom comportamento para famílias abastadas, para todos os efeitos do bem público, simplesmente não existe. Elas estão lá como composição do ambiente, mas são esvaziadas desde muito pequenas de qualquer potencial de perturbação. O segredo para se obter uma criança destas, reproduz por nossa terras virtuais o site da revista Veja, é porque os franceses não as tratam como crianças, os franceses deixam bem claro que as vidas dos pais estão desvinculadas das vidas de seus filhos, no tocante a tudo que esteja externo à manutenção financeira de seus estudos, alimentação e saúde. O carinho é algo protocolar, biológico, como deve ser entre bons conviventes de idades diametralmente opostas e que só por um acaso envolve detalhes escatológicos triviais como a gravidez e amamentação. Eu sempre achei que a excepcional assepsia da educação parental dos franceses determinou toda a literatura francesa. Determinou que seja algo impossível para a literatura francesa gerar um escritor como Kafka, por exemplo; e determinou que a atmosfera de abandono cósmico pretendido por Beckett para seus romances tenha levado Beckett a optar escrevê-los em francês. Nenhum escritor francês jamais teria a capacidade idiossincrática de centrar a figura do pai em sua obra, como fez Kafka, nem nas complexas identificações deístas do pai como em O processo e O castelo, nem mesmo no mais pungente debate com a tirania caseira do pai em Carta ao pai. Para um escritor francês, a figura do pai é meramente um assombro muito bem estancado em eras passadas a ponto de se tornar um reminiscente sem nenhum apelo filosófico em seus genes; o pai na literatura francesa tem um peso bovino, de animal associado a ilesas características reprodutoras, de uma figura que aparece nas fotos com uma seca intranscendência que é visto pelo seu filho com a falta de qualquer necessidade de esgotamento racional; o pai poupou o filho de especulações esotéricas, de nostalgias emocionalmente pouco econômicas e desgastantes; o pai oferece ao filho o dever de devolver no final da vida do pai a mesma polidez de ausência de toques desnecessários que este outorgou ao filho, na infância. Mesmo Camus, o menos francês dos escritores em francês, fracassou diante o abismo de tentar escrever uma elegia mais ocidental a seu pai, em O primeiro homem, quando todas as suas pretendidas observações sobre o túmulo do pai se transformam no mesmo ruído proximal e sem fôlego, expirado com pressa. E por isso o mais próximo do afeto paternal que se encontra na expressão francesa seja o da eutanásia do pai: seja no filme As invasões bárbaras, ou no romance de Houellebecq, O mapa e o território. Mas algo tão reativo para a arte como a figura do pai não é extirpado sem sérias consequências estéticas e significantes: a literatura francesa moderna é incapaz de se beneficiar da riqueza do tema da paternidade (temos aqui a mais gritante das exceções à regra na figura de Proust, principalmente na tocante e belíssima relação de paternidade entre o sr. Vinteuil e sua filha, que se acentua e perde todos os atenuantes regidos na educação da filha somente após a morte do pai, e na relação peculiar e terna do narrador com sua mãe).

Isso é amplamente visto nos romances de Houellebecq. Para nós, leitores sul-americanos, a assepsia da importância do pai é ainda mais implacável, nós que sempre fomos muito mau criados em nossos mimos de compensações supersticiosas e nossas balanças de afeto católicas, o que para o leitor francês de Houellebcq não passa de pedantismo circunstancial. Essa ausência de esoterismo afeta muito a qualidade da mais ambiciosa obra de Houellebecq, O mapa e o território. Esse romance é a prova de força do que sobra do carisma do autor quando ele tenta dar-se autonomia de escritor relevante negando-se a manter um contrato tão evidente de recíprocas garantias com a mídia polemista. Neste romance Houllebecq abre mão do sexo (há poucas cenas, e a usual frase "ejaculou violentamente"), não o colocando como um dos pés da obra; e aqui ele não recorre ao escândalo ou à maledicência. Sua tentativa de autonomia é respeitável, mas o que ele pretende ser a aproximação ao patamar sério de um Camus, acaba mostrando vários defeitos na obra. O defeito recorrente é o unidimensionalismo dos personagens: o herói da trama é bonzinho demais, racional demais, se permitindo um arroubo de violência moderada no final para ganhar legitimidade. As mulheres ainda são as sacerdotisas agradecidas dos desejos dos machos, que muito tem colaborado para as feministas verem no autor a encarnação do demônio, mas com menos disposição ao sacerdócio do que aparecem nos outros romances: elas arvoram uma inédita independência, sendo que a namorada do herói o deixa pela carreira profissional_ aqui, pela primeira vez, Houllebecq permite que uma de suas mulheres tenha humor, na figura da promotora de exposições do herói. O segundo e mais grave erro foi a técnica mal sucedida do próprio autor se pôr como um personagem no livo: na verdade é o que o livro tem de melhor, um Houellebecq pouco higiênico e com abstrusões de humor, mas o sentido da coisa fica incompreensível e a brutalidade da resolução dada ao artifício dá a impressão de uma mera comicidade gratuita.

A parte genuína da obra, a que parece capaz de alçar Houellebecq para um novo patamar, é a relação entre o pintor e herói da narrativa, Jed Martin, com seu pai. Martin é um recente milionário das artes, e seu pai é um profissional do ramo da arquitetura que está prestes a enfrentar o vazio de uma aposentadoria sem os vícios urbanos do excesso benemérito de trabalho. A convivência entre os dois, como não haveria de deixar de ser, é fria, distanciada, monologal, mecânica. Todo o peso da excepcional educação pragmática é visto na vida de Martin: seu determinismo ao sucesso, seu apartamento de alto luxo sem mobília em que ele dorme em um colchonete suportando o ronco do aquecedor sempre estragado, seus meses em que fica trancado em casa pintando, sem falar com ninguém, ao ponto de um simples pedido em uma padaria ser um esforço de desatrofiamento das cordas vocais. Martin vive a angústia de sua mãe ter suicidado antes que sua memória infantil pudesse perpetuar uma imagem dela. Martin é muito francês em seu polimento e suas reservas, em seu humanismo embutido aquém da racionalização. É o mais humano dos personagens de Houllebecq, em uma bibliografia recheada de personagens que estão situados além do bem e do mal, o mais próximo a um desentronamento de seu casulo para ser aquecido por uma impressão de alteridade. Uma vez, sem motivo algum, ele desce de seu apartamento e vai até o escritório do pai, apenas para estar diante dele, sabendo que a mesma inexorável falta de assunto vai abater sobre eles. O pai o recebe esbaforido, em pleno meio de um dia hipertensivo, e o repreende por assustá-lo e pelo nonsense da visita. Tempos depois, o próprio pai o visita, e eles bebem junto, num clima de intimidade desconcertante de uma primeira vez, e com o laconismo de sempre o pai lhe diz que vai recorrer à eutanásia em uma clínica suíça, porque se nega suportar o tratamento de um câncer de reto. É a última vez que se veem. Martin, em um novo arroubo, parte para procurar a clínica suíça para saber sobre os últimos momentos do pai, e encontra um prédio branco límpido e com a pureza sem exaltação dos muito ricos e muito civilizados. Lá, ele é atendido por uma mulher insípida e crua, avessa sem a mínima paciência a atender à vontade de Martin de saber o que seu pai viu e falou em seus momentos finais. Ele a soca e a espanca violentamente, a deixando atirada em evidente coma no chão, e sai diligentemente até o aeroporto, contando ser preso a qualquer hora. Neste momento, se fosse um filme, a plateia do cinema com certeza teria se regozijado em gritos e batido palmas. Martin vê que uma clínica destinada a multi-milionários jamais iria procurar os noticiários com uma denúncia de espancamento, e ele chega de volta a Paris. Quando ele estava procurando a clínica, um erro de interpretação idiomática faz com que o taxista o leve a um bordel de luxo. Houellebcq faz um novo esforço em adstringir o peso da vida com comparações do quanto seria melhor se o pai de Martin tivesse recorrido ao hedonismo do braço daquelas moças, no final da vida, em vez da solução da clínica. Inconscientemente ele acabou transformando todo o bem engendrado mobiliário de cena apto para reflexões mais profundas no mesmo clichê dessa vez sexualmente ponderado de seus outros livros. O único alcance obtido foi esse: a figura do pai fracassa em produzir algo substancial e vira uma decantada comédia. O que é revelado como mais diagnóstico desse fracasso é que o pai de Martin, na juventude, sonhou ser também um artista.

O vazio da paternidade é o tema de O mapa e o território. O personagem mais interessante, um chefe de polícia que é lamentavelmente aposentado da narrativa sem qualquer explicação próximo ao término do romance, é um pai fracassado por causa de sua oligoespermia, a quase nula produção de esperma. Isso que ele considera a maior dor da sua vida é contornada com o lenitivo da criação de um cachorrinho e de uma vida de atenções sanitárias recíprocas com a sua esposa. O próprio Houellebecq que aparece no livro é um órfão sedimentado, um órfão insofismável. O órfão padrão francês, com selo de qualidade. E tudo passa. A vida deles todos passa e é descrita até o fim a decomposição rumo à velhice e à morte de Martin. E o romance termina com a tristeza cada vez mais plástica e vazia de Houellebecq, que o conclui com o carisma típico de um escritor famoso que se sustenta pelo comedimento chique e pela competência de mobiliar bem a narrativa. Há uma tentativa de criticar a sociedade de consumo num novo coisismo em que Houllebecq faz de seu livro uma repetição da obra consumida, descrevendo manuais de funcionamento de carros e outros utensílios do desejo do homem moderno comum.

É impossível não se questionar por que Houellebecq é um dos escritores que mais se vendem no panorama atual das letras. Seus leitores são como ele? Ele fala o que pensa? Ele é uma forma ultra-moderna de sátiro? O que eu acho é que Houellebecq expressa muito mais sobre o que realmente é em seus livros, e o fato de ser brutalmente assassinado em O mapa e o território revela uma catarse auto-crítica que talvez aponta para uma nova exploração pessoal nas próximas obras. Ele se fez morrer talvez como forma de mea culpa. O que eu acho é que sua intranscendência é um espelho da mesma característica do homem consumidor de cultura do alto desse século XXI, bem localizado em sua falta de necessidade do autêntico e refestelado com o que a bijuteria fina da aparência do autêntico lhe dá de garantias de sofisticação e conteúdo. Uma leitura rarefeita e dentro de certos parâmetros válida, com a precisão de oferecer a matéria hercúlea de 400 páginas com a fluidez de leituras de revista. Uma leitura, no final das contas, inofensiva em toda sua comburência de coisa perigosa, fechada em seu círculo de validade ao ter como polo receptor um consumidor exatamente igual a ela.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Da abdução celestial em quartos vagabundos escuros



Sempre que pego Proust para ler, reler as passagens sublinhadas, ou me preparar para enfrentar os volumes do romance que me esperam, lembro-me da informação um tanto surpreendente de que Kerouac foi um de seus ardorosos leitores. Li, acho, On the road umas três ou quatro vezes, ou talvez mais, não sei, não fico contando. Lembro que uma das leituras, a primeira, foi na adolescência, movido pelo rock´n´roll, Jim Morrison, as modas colegiais que incentivavam tanta coisa bombástica que tinha a qualidade de se exaurir com o mesmo potencial de escândalo (coisas como Sartre, que nunca mais li e nem tenho em minha biblioteca, ou a literatura juvenil contestadora que se fazia no Brasil da época), e, com esse arsenal, o livro me pareceu extremamente bom, extremamente enérgico, mas perigoso. Talvez pelo sexo, pelas drogas, pela homossexualidade_ o cara que eu era, como seria bem natural, se espantava com essas coisas_, o livro tinha um empecilho que impedia com que me lançasse deliberadamente a ele. Esse medo da leitura era recorrente em minha primeira juventude, às vezes motivado pela incompetência dos professores de literatura, o que me levou a só entender o satânico, imperial, raivoso, ateu extremista do Nietzsche anos depois (começou em uma tarde suave em uma biblioteca pública em que Nietzsche se descortinou com toda sua beleza desprotegida e combativa na frase do Zaratustra, algo como "só estamos nessa vida por um motivo: pelo amor"). A segunda vez que li Kerouac, que me lembro, foi quando readquiri On the road, que eu havia perdido nas minhas andanças, ou doado, ou aceito a vilania irremediável de trocar dois livros por um em um sebo, na edição de bolso, e o reli religiosamente nas noites sequenciadas de uma mesma semana, religiosamente acompanhado por duas doses de uísque. Era uma semana de frio intenso, e eu colocava a cadeira na varanda, talvez inconscientemente atendendo à recomendação de mais um dos símbolos em torno de Kerouac, o Raul Seixas, me cobria com um cobertor, e deixava tocando uma seleção de álbuns do Grateful Dead. Assim, me parece de uma vivência sinestésica única a viagem de Kerouac na carroceria sem escoras de proteção, junto a um índio, a um negro, e a outras pessoas de olhares introspectivos e sonhadores, dirigida por dois irmãos malucos que quase matam todo mundo e que sempre arvoram um enternecedor sorriso de santa inconsequência quando param nos postos de gasolina da estrada para abastecerem e comerem um engasga-gato.

É estranho, num primeiro momento, que a companhia dessas viagens para Kerouac seja o grande romance de Proust. Nenhum autor parece estar no outro extremo de influências para Kerouac que Proust, e nenhum estilo mais distante do de Kerouac que do francês. Mas a gente vai percebendo, fascinado, que a mesma fluidez, a mesma paixão visceral absoluta pela literatura, perpassa com igual veemência Proust e Kerouac. Imagino a felicidade de Kerouac, nas beiras da estrada, debaixo de uma sombra de árvore, nas margens tranquilas de rios, nos quartos vagabundos das grandes cidades, em que esteve sempre de passagem no momento em que vivia as andanças de On the road, retornar para a língua de Proust, para o universo abundante, generoso, infinitamente humano, contestador e sensível, e deixar-se transpassar pelo jorro de humor inteligente, a corrente metafísica de Proust. Imagino como a miséria ficava constrangedoramente invisível para o Kerouac estancado nas paragens espirituais de Em busca do tempo perdido, o quanto as filas de espera dos banheiros tenham sido indiferentes para o adrenergisado íntimo do viado mais genial e livre entre a maioria opaca e sensaborica da humanidade. O quanto Kerouac ficava incendiado de felicidade por estar à mesa da erudição onipotente de Proust. (Algo me vem também à memória quando penso nisso, no único leitor da minha família, o único erudito roceiro que não pertencia às castas burras dos diplomados que só leem manchetes de jornais do restante de meus tios e primos, meu pai, que no meio da floresta retirava Cem anos de solidão do alforje, após um dia glorioso de trabalho suado, e se punha a ler, enquanto lhe acalentava o som da chuva torrencial amazônica batendo contra o teto da pequena e isolada marcenaria. O dia que o reencontrei nesse seu ambiente, após ver na estante de sua casa de madeira uma pequena coleção que ia de Thoreau, Tolstói a miscelâneas de passatempos como William Peter Blatty, ele estendeu os braços para as árvores e me disse, sem que eu o tivesse consultado verbalmente: "Deus também está aqui!".)

A última vez que li Kerouac foi a edição definitiva, sem cortes e com os nomes reais dos personagens de On the road, e também desta vez estava ali o fascínio, e a deliberada presença alternante de Proust. Há muito, como deve ser óbvio, eu já alcançara a maturidade ao menos suficiente para ler o americano sem filtros e sem preconceitos. Me parece agora, de forma muito intima, bastante semelhantes esses dois escritores, ressalvadas as grandezas da ortodoxia. Me parece que uma frase como essa, "meu pai dedicava a meu gênero de inteligência um desprezo suficientemente corrigido pela ternura, de modo que tinha afinal uma cega indulgência por tudo quanto eu fazia", tem o mesmo grau de concentração e beleza para ser outorgada a qualquer um dos dois, ainda que a intuição diga que é de Proust. E os vagabundos iluminados me parecem muito próximos e indistinguíveis de Proust...

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A Filha do Sr. Vinteuil, em Casa



Republico estes dois textos meus sobre Em Busca do Tempo Perdido, no blog. Planejo retornar ao ciclo de Proust esse ano, lendo esses sete livros que compõe _cada vez acredito mais_ o maior romance de todos os tempos. 

Há um momento em No Caminho de Swann em que Swann, seguindo num passeio junto à família do narrador do romance, debanda-se do grupo para ir apertar a mão do velho sr. Vinteuil, um homem caído em desgraça na sociedade local. É uma das lembranças que fazem parte da infância do narrador; a típica ingenuidade em lenta aproximação de Proust, o seu maravilhoso senso de estranhamento que guarda as verdadeiras revelações para núcleos insuspeitos da narração futura, vê essa inusitada atitude de Swann através de concepções temporais que se bifurcam na admiração infantil pela esporádica presença elegante de Swann nos jantares promovidos por seus pais, e no quase onisciente conhecimento que irá demonstrar ter de um Swann mais complexamente real antes do narrador nascer, período o qual centra toda a longa segunda parte do romance. E o narrador, que de imediato não conhece quem era aquele outro senhor assustado e erradio, que parecia pedir desculpas a Swann por ter sido flagrado transitando por suas terras, fica sabendo que esse sr. Vinteuil era um homem tratado com um cautelosa indiferença pela cidadezinha de Combray, mácula que o narrador percebe na impavidez estampada no rosto de seus pais por Swann tê-los deixado ali afim de tratar com tal sujeito.

O sr. Vinteuil era um fracassado, alguém sob o qual pesava uma condenação de pária já há tanto tempo que a sociedade se fechara de modo decisivo a qualquer chance de reavaliação moral, a ponto de esquecê-lo, e a atitude de Swann_ cuja admiração tornando-se progressivamente consciente e crítica do narrador permitia saber que era um gentleman milionário que sempre transgrediu a etiqueta de postura imposta pela classe social de seus iguais_ despertava as desagradáveis sensações de que esse fantasma resgatado do reino dos mortos, naquele efêmero momento, estava destinado a desaparecer de vez e não incomodá-los mais só quando morresse definitivamente de corpo inteiro. E é isso que ocorre mais tarde no livro: o sr. Vinteuil livra-se de sua sina de deserdado, desnuda-se de sua imensa cara de derrotado, e livra a sociedade de ter-se que às vezes deparar-se com ele, morrendo. Até então nada nos é revelado sobre o sr. Vinteuil, além da cena incógnita em que um reverencioso Swann comete a falta de delicadeza de interromper pessoas respeitadas para ir apertar-lhe a mão e provavelmente aliviar seu constrangimento afirmando que suas terras estariam sempre à disposição para que ele passeasse por elas. No anoitecer em que o sr. Vinteuil é enterrado, o narrador, em sua fase criança, por um jogo aleatório, encontra-se deitado atrás de uma árvore, ao lado da janela da casa do sr. Vinteuil, e vê quando a filha única do finado retorna para casa do cemitério. E aí começamos a saber uma das causas da marca humana do sr. Vinteuil: uma outra moça entra na casa, e segue um diálogo deslumbrante, um desses procedimentos que tornam Proust indispensável_ que se espalham pela prosa transbordante de Proust como inserções do sublime. Tal moça é a amante da filha do sr. Vinteuil; ela pega a foto do finado que está por sobre o console da lareira, cospe nela, e faz a outra_ a filha_ repetir o gesto, que se encerra com as duas se beijando pelo chão. Estavam livres, a amante diz; livres! Não haveria mais o julgamento do sr. Vinteuil sobre a homossexualidade da filha, seu amor excessivo, sua dedicação obsessiva pela filha. Enquanto a amante fala, e a filha teatralmente simula estar acima da tristeza pela perda do pai, o narrador _ já com a onisciência vinda do foco de luz que quase esmagava Proust em seu quarto inviolável em que sondava esse arsenal fictício-memorialista nos anos tardios de sua breve vida_ suprime o senso comum do leitor avisando para que não se repudiasse tão apressadamente a ingratidão da filha; era só dessa forma que ela poderia expressar seu amor pelo pai, a sua verdadeira dor. Era só através da máscara que ela poderia confeccionar o pai genuíno com o qual repartira todos os momentos de felicidade e desapontamento, de excesso de vigilância amorosa e solidão insondável, as brincadeiras dadas ao jeito idiossincrático do pai quando ela era criança, as forças de readaptação à contingência da maturidade que seu assustado pai se submetia enquanto ela necessariamente ia se desapegando de seu quarto de bonecas e se tornava uma adulta. A atitude de cuspir na foto, de transgredir a memória do pai com o coito tão condenado por ele, de irreverência diante sua morte, é a mesma que subjaz não só pela obra de Proust, mas por toda a sua vida. Não sendo espiritualmente um dândi, Proust era assíduo nos salões da alta sociedade, mas sua atitude do esnobe, nas palavras de Benjamin, "não é outra coisa que a contemplação da vida, coerente, organizada e militante, do ponto de vista, quimicamente puro, do consumidor".

A heresia a qual o narrador alerta o leitor para que não caia acriticamente em seu dedo apontado à filha, é o gesto sacramentado mais profundo em que a filha se imuniza do mundo das aparências para poder salvaguardar o seu amor pelo pai_ é sua postura assumida de "consumidora", de partícipe superficial, de reação ativa diante a coreografia que se espera que ela faça com os movimentos simetrizados das danças do esteriótipo social. Nessa conivência externa, na verdade, se expressa a mais pura indiferença às banalidades do cotidiano, pois nela se firma a sua falta de fé na revolta contra a "vida que se exibe", sendo que tudo que realmente importa e tem valor torna a ser a existência das memórias paternas. A exuberância exaustiva do exterior, na qual ela tem que se manter atenta, se esvai em sua rendição à riqueza que se conserva de sua vida com o pai. É como se nesse momento ela ganhasse o direito de envelhecer, que é o que de mais elevado resta a se cumprir com dignidade no destino de pessoas aprisionadas ao ciclo vazio das emulações da rotina. E aqui encontramos a interpretação de Walter Benjamin sobre o procedimento de Proust, de que este não se ampara na reflexão,"e sim na consciência. Proust está convencido da verdade de que não temos tempo de viver os verdadeiros dramas da existência que nos é destinada. É isso que nos faz envelhecer, e nada mais. As rugas e dobras do rosto são as inscrições deixadas pelas grandes paixões, pelos vícios, pelas intuições que nos falaram, sem que nada percebêssemos, porque nós, os proprietários, não estávamos em casa."

A Sonata do Sr. Vinteuil




O longo capítulo de No Caminho de Swann, intitulado Um Amor de Swann, seria um estudo psicológico e anamnésico integral das relações entre um homem e uma mulher? Quero entender que esse texto seja o que há de melhor sobre as mais profundas complexidades da paulatina construção do amor e da paixão de um homem por uma mulher, desde seu caráter irracional e deletério, até suas mais indeléveis intersecções sociais e seus variados acenos metafísicos. Mas como Proust exige uma guarda ilimitada de suspeita por parte do leitor quanto  às suas astúcias conceituais (em que determinado entendimento sofre uma reviravolta completa, não de forma a se dizer súbita, mas perfazendo um lento grau de descongestionamento das certezas a tal ponto que se põe o livro de lado por um momento e se cogita se terá que começá-lo de novo, afim de identificar onde, em qual página, pôs-se a nascer o engano), fica-se com a impressão que só depois de transcorridas as mais de 3000 páginas da obra completa que se poderá dar um diagnóstico seguro, dizer na verdade quais eram as subliminares e sublimes intenções de Proust. Uma das chaves para Proust, ao menos para mim (sendo o que me conduziu de vez e numa atração inexorável), está no entendimento de Walter Benjamin de que Proust, em sua luta contra a morte, que na verdade se organiza em torno de uma enorme indiferença a ela e num desmedido esforço de tagarelar e falar mais uma vez, essa luta repousada, "determinou também o convívio de Proust com os contemporâneos: uma alternância tão dura e cortante entre o sarcasmo e a ternura, que seu objeto, exausto, corre o risco de ser aniquilado."

Essa extraordinária percepção de Benjamin resume como nenhuma outra a visão em alternância do grande romance de Proust. Essa alternância permeia o capítulo Um Amor de Swann de forma acachapante; trata-se de um capítulo em jorro de sensações sumárias atordoantes, que mexe em regiões neuro-físicas do leitor, que promove um sentimento de lucidez entorpecida através da intencional tagarelice do autor em nos iludir sobre o objeto a ser alcançado, sua intensidade quase ofensiva (na medida em que uma tamanha intensidade não se acopla mais nos moldes sensoriais de leitura hoje em dia) nos inquieta sobre nossa real capacidade de adultos treinados e gabaritados pelas impressões da experiência em avizinharmos do quanto de força emana dessas páginas, do quanto seremos capazes de suportar o que ele tem a nos dizer, o que subjaz de genuíno e autêntico por debaixo das torrentes de sonoridade e suposto acomodamento espiritual nas oferendas do trivial e das superfícies burlescas. E esse capítulo segue ao capítulo idílico das lembranças infantis do narrador, numa maquinação ardilosa e nefasta: pega-nos numa surpresa progressiva após relaxar nossas almas devotadas nas noites em que o narrador espera o imprescindível beijo da mãe, na incrível visão de um aleph no gesto de uma tia em molhar uma madalena na xícara de chá, na hilaridade das reuniões de família para os almoços aos sábados, nas fofocas da velha tia encamada e sua convivência com a empregada companheira de longa data, nas audições de um Swann já amortecido dos dramas de sua juventude pela idade e pelo acoplamento sem muitas arestas na aceitação social. E daqui Proust nos insere no perigoso capítulo Um Amor de Swann, para que desse campo de suaves plenitudes domésticas retornemos ao passado, antes da existência do narrador, para que vejamos às custas do quê as nuances da sociedade são confeccionadas, como a flacidez do que antes era determinado pelo retumbante escândalo destila as condenações até a consciência da equidade de erros comuns de uma sucessão inevitável de velhos à espera do desaparecimento. O narrador mostra porque a famosa esposa de Swann, a mulher que ocupa o núcleo de sofrimentos que atormenta Swann, ainda não era devidamente digerida pela sociedade, de forma que, mesmo na distância temporal de todos os eventos, Swann não a levava nos jantares na casa dos pais do narrador. O segundo grandioso capítulo (uma sequência de umas das maiores páginas da extensa obra), mostra a estruturação do amor obsessivo de Swann por Odette, a quem ele cultivava um leve desprezo por não achá-la um mulher bonita, mas que, sendo pego por suas divagações fetichistas, começa um devotado culto a  ela ao associá-la a uma das figuras de Botticcelli. 

Swann, um desgarrado das etiquetas sociais de sua classe de solteirão rico, que se nega a deixar sua casa de subúrbio parisiense para se mudar para algum bairro nobre, transverte sua bonomia e sua paixão pelas aventuras sexuais com empregadas de hotel, após se apaixonar por Odette. Swann passa a ser um escravo submisso às exigências dos Verdurin para que possa fazer parte do esnobe e restrito círculo deles, no qual Odette é um dos alicerces. Acompanhamos o inferno que se torna a vida de Swann, pois Odette é uma mulher independente em todos os aspectos, revelando-se ainda mais no âmbito sexual, o que lança Swann numa rede quase psicótica de ciúmes. Não fica claro o que Odette faz para viver, ou se ela se embrenha mesmo em variados casos sexuais tanto com homens quanto com mulheres, mas o que temos é a ótica de uma infinita e sufocante insinuação por parte do narrador, que parece deter um conhecimento supraciente sobre todos os crimes, mas que não os revela sob sua voz ainda investida pelo maravilhamento do tom infantil e de um subliminar sarcasmo refinado. 

Proust traça a narrativa em um tríptico onde os dois ângulos da base são o sarcasmo e a ternura, e o ângulo de cima, suspenso sobre os demais e só percebido em surdina, é o ângulo do sublime, das inserções inesperadas de beleza que ao mesmo tempo cala e dá vazão aos outros dois. O ângulo do sublime se condensa no fator decisivo do amor de Swann por Odette: a frase musical que Swann escuta de uma sonata composta pelo sr. Vinteuil, ouvida em um dos jantares na casa dos Verdurin. Swan é imediatamente arrebatado pela estupenda beleza da música, e pergunta ao pianista quem era o compositor. O pianista responde ser um tal de Vinteuil, e todos na sala se debandam em leves cogitações de quem seria essa personalidade, ao que Swann diz conhecer um Vinteuil, mas que não poderia ser o autor daquelas notas maravilhosas_ o Vinteuil que julga conhecer, ele reflete, tem uma aparência ignóbil e derrotada para ser aquela antena portentosa de uma verdade dimensional além da nossa transpassada para esse lado de cá através da música. Há uma dulcíssima armadilha de Proust aqui quando o oculto sr. Vinteuil se liga de forma indissociável ao amor de Swann por Odette. Em páginas de beleza extrema, já pelo final do capítulo, o narrador descreve a sonata de Vinteuil, mais precisamente a frase que abduziu Swann da realidade e o transportou para chaves da revelação de uma Verdade intocável, e essa descrição se adjunta na definição acima de Benjamin, a extraterrenidade, o arrebatamento oferecido por Proust que aniquila o romance de cenários sociais e nos dá algo maior, algo que vai além de nossa imediata capacidade de assimilação, algo que resvala nas fronteiras do que Kafka mencionou como as possíveis infinitas dimensões acima da nossa seladas de nossa intrusão pela exigência de um entendimento superior, algo que nossa faixa evolutiva ainda não autoriza. E isso se conjuga na armadilha proustiana de o sr. Vinteuil ser uma simetria de Odette, pois contornamos com as mãos a forma do Inominável e só podemos entendê-lo na concepção de Odette, a pecadora Odette, como sendo uma especie de entidade cuja distintiva riqueza intrínseca, insolúvel aos julgamentos da sociedade, só poderia ser alcançada através das reviravoltas do amor de Swann; só Swann_ e o narrador, nas páginas finais do capítulo_ poderiam vê-la em toda sua tranquila superioridade, como a única mulher entre as outras excêntricas figuras da fauna social feminina, como a mais elegante, a mais naturalmente soberba, a mais despegada e dona de si mesmo. Assim também o sr. Vinteuil, o velho condenado pelo tribunal imaginário da sociedade, que Swann deixa um grupo de pessoas distintas para ir apertar-lhe reverenciadamente a mão e oferecer suas terras para quando lhe aprouver passear por elas. Uma das grandezas e astúcias de Proust em forçar o que nos limita nesse grau de percepção para além.


segunda-feira, 5 de março de 2012

A Sonata do Sr. Vinteuil ( II )


O longo capítulo de No Caminho de Swann, intitulado Um Amor de Swann, seria um estudo psicológico e anamnésico integral das relações entre um homem e uma mulher? Quero entender que esse texto seja o que há de melhor sobre as mais profundas complexidades da paulatina construção do amor e da paixão de um homem por uma mulher, desde seu caráter irracional e deletério, até suas mais indeléveis intersecções sociais e seus variados acenos metafísicos. Mas como Proust exige uma guarda ilimitada de suspeita por parte do leitor quanto  às suas astúcias conceituais (em que determinado entendimento sofre uma reviravolta completa, não de forma a se dizer súbita, mas perfazendo um lento grau de descongestionamento das certezas a tal ponto que se põe o livro de lado por um momento e se cogita se terá que começá-lo de novo, afim de identificar onde, em qual página, pôs-se a nascer o engano), fica-se com a impressão que só depois de transcorridas as mais de 3000 páginas da obra completa que se poderá dar um diagnóstico seguro, dizer na verdade quais eram as subliminares e sublimes intenções de Proust. Uma das chaves para Proust, ao menos para mim (sendo o que me conduziu de vez e numa atração inexorável), está no entendimento de Walter Benjamin de que Proust, em sua luta contra a morte, que na verdade se organiza em torno de uma enorme indiferença a ela e num desmedido esforço de tagarelar e falar mais uma vez, essa luta repousada, "determinou também o convívio de Proust com os contemporâneos: uma alternância tão dura e cortante entre o sarcasmo e a ternura, que seu objeto, exausto, corre o risco de ser aniquilado."

Essa extraordinária percepção de Benjamin resume como nenhuma outra a visão em alternância do grande romance de Proust. Essa alternância permeia o capítulo Um Amor de Swann de forma acachapante; trata-se de um capítulo em jorro de sensações sumárias atordoantes, que mexe em regiões neuro-físicas do leitor, que promove um sentimento de lucidez entorpecida através da intencional tagarelice do autor em nos iludir sobre o objeto a ser alcançado, sua intensidade quase ofensiva (na medida em que uma tamanha intensidade não se acopla mais nos moldes sensoriais de leitura hoje em dia) nos inquieta sobre nossa real capacidade de adultos treinados e gabaritados pelas impressões da experiência em avizinharmos do quanto de força emana dessas páginas, do quanto seremos capazes de suportar o que ele tem a nos dizer, o que subjaz de genuíno e autêntico por debaixo das torrentes de sonoridade e suposto acomodamento espiritual nas oferendas do trivial e das superfícies burlescas. E esse capítulo segue ao capítulo idílico das lembranças infantis do narrador, numa maquinação ardilosa e nefasta: pega-nos numa surpresa progressiva após relaxar nossas almas devotadas nas noites em que o narrador espera o imprescindível beijo da mãe, na incrível visão de um aleph no gesto de uma tia em molhar uma madalena na xícara de chá, na hilaridade das reuniões de família para os almoços aos sábados, nas fofocas da velha tia encamada e sua convivência com a empregada companheira de longa data, nas audições de um Swann já amortecido dos dramas de sua juventude pela idade e pelo acoplamento sem muitas arestas na aceitação social. E daqui Proust nos insere no perigoso capítulo Um Amor de Swann, para que desse campo de suaves plenitudes domésticas retornemos ao passado, antes da existência do narrador, para que vejamos às custas do quê as nuances da sociedade são confeccionadas, como a flacidez do que antes era determinado pelo retumbante escândalo destila as condenações até a consciência da equidade de erros comuns de uma sucessão inevitável de velhos à espera do desaparecimento. O narrador mostra porque a famosa esposa de Swann, a mulher que ocupa o núcleo de sofrimentos que atormenta Swann, ainda não era devidamente digerida pela sociedade, de forma que, mesmo na distância temporal de todos os eventos, Swann não a levava nos jantares na casa dos pais do narrador. O segundo grandioso capítulo (uma sequência de umas das maiores páginas da extensa obra), mostra a estruturação do amor obsessivo de Swann por Odette, a quem ele cultivava um leve desprezo por não achá-la um mulher bonita, mas que, sendo pego por suas divagações fetichistas, começa um devotado culto a  ela ao associá-la a uma das figuras de Botticcelli. 

Swann, um desgarrado das etiquetas sociais de sua classe de solteirão rico, que se nega a deixar sua casa de subúrbio parisiense para se mudar para algum bairro nobre, transverte sua bonomia e sua paixão pelas aventuras sexuais com empregadas de hotel, após se apaixonar por Odette. Swann passa a ser um escravo submisso às exigências dos Verdurin para que possa fazer parte do esnobe e restrito círculo deles, no qual Odette é um dos alicerces. Acompanhamos o inferno que se torna a vida de Swann, pois Odette é uma mulher independente em todos os aspectos, revelando-se ainda mais no âmbito sexual, o que lança Swann numa rede quase psicótica de ciúmes. Não fica claro o que Odette faz para viver, ou se ela se embrenha mesmo em variados casos sexuais tanto com homens quanto com mulheres, mas o que temos é a ótica de uma infinita e sufocante insinuação por parte do narrador, que parece deter um conhecimento supraciente sobre todos os crimes, mas que não os revela sob sua voz ainda investida pelo maravilhamento do tom infantil e de um subliminar sarcasmo refinado. 

Proust traça a narrativa em um tríptico onde os dois ângulos da base são o sarcasmo e a ternura, e o ângulo de cima, suspenso sobre os demais e só percebido em surdina, é o ângulo do sublime, das inserções inesperadas de beleza que ao mesmo tempo cala e dá vazão aos outros dois. O ângulo do sublime se condensa no fator decisivo do amor de Swann por Odette: a frase musical que Swann escuta de uma sonata composta pelo sr. Vinteuil, ouvida em um dos jantares na casa dos Verdurin. Swan é imediatamente arrebatado pela estupenda beleza da música, e pergunta ao pianista quem era o compositor. O pianista responde ser um tal de Vinteuil, e todos na sala se debandam em leves cogitações de quem seria essa personalidade, ao que Swann diz conhecer um Vinteuil, mas que não poderia ser o autor daquelas notas maravilhosas_ o Vinteuil que julga conhecer, ele reflete, tem uma aparência ignóbil e derrotada para ser aquela antena portentosa de uma verdade dimensional além da nossa transpassada para esse lado de cá através da música. Há uma dulcíssima armadilha de Proust aqui quando o oculto sr. Vinteuil se liga de forma indissociável ao amor de Swann por Odette. Em páginas de beleza extrema, já pelo final do capítulo, o narrador descreve a sonata de Vinteuil, mais precisamente a frase que abduziu Swann da realidade e o transportou para chaves da revelação de uma Verdade intocável, e essa descrição se adjunta na definição acima de Benjamin, a extraterrenidade, o arrebatamento oferecido por Proust que aniquila o romance de cenários sociais e nos dá algo maior, algo que vai além de nossa imediata capacidade de assimilação, algo que resvala nas fronteiras do que Kafka mencionou como as possíveis infinitas dimensões acima da nossa seladas de nossa intrusão pela exigência de um entendimento superior, algo que nossa faixa evolutiva ainda não autoriza. E isso se conjuga na armadilha proustiana de o sr. Vinteuil ser uma simetria de Odette, pois contornamos com as mãos a forma do Inominável e só podemos entendê-lo na concepção de Odette, a pecadora Odette, como sendo uma especie de entidade cuja distintiva riqueza intrínseca, insolúvel aos julgamentos da sociedade, só poderia ser alcançada através das reviravoltas do amor de Swann; só Swann_ e o narrador, nas páginas finais do capítulo_ poderiam vê-la em toda sua tranquila superioridade, como a única mulher entre as outras excêntricas figuras da fauna social feminina, como a mais elegante, a mais naturalmente soberba, a mais despegada e dona de si mesmo. Assim também o sr. Vinteuil, o velho condenado pelo tribunal imaginário da sociedade, que Swann deixa um grupo de pessoas distintas para ir apertar-lhe reverenciadamente a mão e oferecer suas terras para quando lhe aprouver passear por elas. Uma das grandezas e astúcias de Proust em forçar o que nos limita nesse grau de percepção para além.


sábado, 3 de março de 2012

A Filha do Sr. Vinteuil, em Casa ( I )


Há um momento em No Caminho de Swann em que Swann, seguindo num passeio junto à família do narrador do romance, debanda-se do grupo para ir apertar a mão do velho sr. Vinteuil, um homem caído em desgraça na sociedade local. É uma das lembranças que fazem parte da infância do narrador; a típica ingenuidade em lenta aproximação de Proust, o seu maravilhoso senso de estranhamento que guarda as verdadeiras revelações para núcleos insuspeitos da narração futura, vê essa inusitada atitude de Swann através de uma cópula de concepções temporais que se bifurcam na admiração infantil pela esporádica presença elegante de Swann nos jantares promovidos por seus pais, e no quase onisciente conhecimento que irá demonstrar ter de um Swann mais complexamente real antes do narrador nascer, período o qual centra toda a longa segunda parte do romance. E o narrador, que de imediato não conhece quem era aquele outro senhor assustado e erradio, que parecia pedir desculpas miseráveis a Swann por ter sido flagrado transitando por suas terras, fica sabendo que esse sr. Vinteuil era uma espécie deplorável de homem tratado com um cautelosa indiferença pela cidadezinha de Combray, mácula que o narrador percebe na impavidez estampada no rosto de seus pais por Swann tê-los deixado ali afim de tratar com tal sujeito.

O sr. Vinteuil era um fracassado, alguém sob o qual pesava uma peremptória condenação de pária já há tanto tempo que a sociedade se fechara de modo decisivo a qualquer chance de reavaliação moral, a ponto de esquecê-lo, e a atitude de Swann_ cuja admiração tornando-se progressivamente consciente e crítica do narrador permitia saber que era um gentleman milionário que sempre transgrediu a etiqueta de postura imposta pela classe social de seus iguais_ despertava as desagradáveis sensações de que esse fantasma resgatado do reino dos mortos, naquele efêmero momento, estava destinado a desaparecer de vez e não incomodá-los mais só quando morresse definitivamente de corpo inteiro. E é isso que ocorre mais tarde no livro: o sr. Vinteuil livra-se de sua sina de deserdado, desnuda-se de sua imensa cara de derrotado, e livra a sociedade de ter-se que às vezes deparar-se com ele, morrendo. Até então nada nos é revelado sobre o sr. Vinteuil, além da cena incógnita em que um reverencioso Swann comete a falta de delicadeza de interromper pessoas respeitadas para ir apertar-lhe a mão e provavelmente aliviar seu constrangimento afirmando que suas terras estariam sempre à disposição para que ele passeasse por elas. No anoitecer em que o sr. Vinteuil é enterrado, o narrador, em sua fase criança, por um jogo aleatório, encontra-se deitado atrás de uma árvore, ao lado da janela da casa do sr. Vinteuil, e vê quando a filha única do finado retorna para casa do cemitério. E aí começamos a saber uma das causas da marca humana do sr. Vinteuil: uma outra moça entra na casa, e segue um diálogo deslumbrante, um desses procedimentos que tornam Proust indispensável_ que se espalham pela prosa transbordante de Proust como inserções do sublime. Tal moça é a amante da filha do sr. Vinteuil; ela pega a foto do finado que está por sobre o console da lareira, cospe nela, e faz a outra_ a filha_ repetir o gesto, que se encerra com as duas se beijando pelo chão. Estavam livres, a amante diz; livres! Não haveria mais o julgamento do sr. Vinteuil sobre a homossexualidade da filha, seu amor excessivo, sua dedicação obsessiva pela filha. Enquanto a amante fala, e a filha teatralmente simula estar acima da tristeza pela perda do pai, o narrador _ já com a onisciência vinda do foco de luz que quase esmagava Proust em seu quarto inviolável em que sondava esse arsenal fictício-memorialista nos anos tardios de sua breve vida_ suprime o senso comum do leitor avisando para que não se repudiasse tão apressadamente a ingratidão da filha; era só dessa forma que ela poderia expressar seu amor pelo pai, a sua verdadeira dor. Era só através da máscara que ela poderia confeccionar o pai genuíno com o qual repartira todos os momentos de felicidade e desapontamento, de excesso de vigilância amorosa e solidão insondável, as brincadeiras dadas ao jeito idiossincrático do pai quando ela era criança, as forças de readaptação à contingência da maturidade que seu assustado pai se submetia enquanto ela necessariamente ia se desapegando de seu quarto de bonecas e se tornava uma adulta. A atitude de cuspir na foto, de transgredir a memória do pai com o coito tão condenado por ele, de irreverência diante sua morte, é a mesma que subjaz ativamente não só pela obra de Proust, mas por toda a sua vida. Não sendo espiritualmente um dândi, Proust era assíduo nos salões da alta sociedade, mas sua atitude do esnobe, nas palavras de Benjamin, "não é outra coisa que a contemplação da vida, coerente, organizada e militante, do ponto de vista, quimicamente puro, do consumidor".

A heresia a qual o narrador alerta o leitor para que não caia acriticamente em seu dedo apontado à filha, é o gesto sacramentado mais profundo em que a filha se imuniza do mundo das aparências para poder salvaguardar o seu amor pelo pai_ é sua postura assumida de "consumidora", de partícipe superficial, de reação ativa diante a coreografia que se espera que ela faça com os movimentos simetrizados das danças do esteriótipo social. Nessa  conivência externa, na verdade, se expressa a mais pura indiferença às banalidades do cotidiano, pois nela se firma a sua falta de fé na revolta contra a "vida que se exibe", sendo que tudo que realmente importa e tem valor torna a ser a existência das memórias paternas. A exuberância exaustiva do exterior, na qual ela tem que se manter atenta, se esvai em sua rendição à riqueza que se conserva de sua vida com o pai. É como se nesse momento ela ganhasse o direito de envelhecer, que é o que de mais elevado resta a se cumprir com dignidade no destino de pessoas aprisionadas ao ciclo vazio das emulações da rotina. E aqui encontramos a interpretação de Walter Benjamin sobre o procedimento de Proust, de que este não se ampara na reflexão,"e sim na consciência. Proust está convencido da verdade de que não temos tempo de viver os verdadeiros dramas da existência que nos é destinada. É isso que nos faz envelhecer, e nada mais. As rugas e dobras do rosto são as inscrições deixadas pelas grandes paixões, pelos vícios, pelas intuições que nos falaram, sem que nada percebêssemos, porque nós, os proprietários, não estávamos em casa."



quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Começando a Ler Proust Hoje


Estava decidido a esperar a edição de Em Busca do Tempo Perdido da Companhia das Letras, a ser lançada esse ano, mas o período de abençoadas férias prolongadas me fez comprar o volume 1 da editora Globo. Li as primeiras 50 páginas, na elogiadíssima tradução de Mario Quintana, e de imediato vi a necessidade de me desatmosferizar das leituras de Tolstói com as quais estava ocupado desde novembro do ano passado. Como intervalo, li O Cemitério de Praga, o magnífico entretenimento em alto estilo de Umberto Eco (do qual pretendo escrever uma resenha). Proust me reativou a tecla de slow motion de profunda tensão poética da época em que eu devorava Faulkner, e o tempo de frio e chuvas intensas desse início de ano parecem justificar como um acerto eu ter esperado tanto tempo para me apresentar ao Grande Romance. O único empecilho que vejo na leitura, vem justamente da carga inamovível de consciência de tratar-se do Grande Romance, que a edição da Globo faz questão de não deixar o leitor esquecer em quase cada página do livro. Na capa, vem o anúncio de ser "uma nova edição, revista e acrescida de prefácio, resumo, notas, cronologia e posfácio", e esse encalhe de informações excessivas atende apenas à enorme vaidade acadêmica dos editores e não sei mais quem que se pendurou no nome de Proust. Deixe-me ver: ah, sim!, o culpado é um tal de Jeanne-Marie Gagnebin, que não faço a mínima ideia de quem seja, mas que enche as primeiras 50 páginas de notas de rodapé desnecessárias e, até mesmo, ridículas. Algumas desmerecem claramente a inteligência do leitor, ao explicar que a sequência de quartos descritos corresponde à sequência de quartos nos quais o narrador dormira durante a vida; ou que "o livro começa a alçar vôo com a mistura entre lembranças pessoais do narrador e uma série de frases que formulam o conteúdo comum de nossas experiências". E assim vai: além de obstruir o ritmo narrativo, o autor (ou autora, não vou ao Google) não tem o bom-senso de cogitar que quem se predispõe a ler Proust deve ter ao menos uma pequena proficiência no entendimento da leitura, ainda mais que Proust pode ser tudo, menos complicado: denso, mas longe das idiossincrasias de múltiplas interpretações de um James Joyce. Melhor seria se eu houvesse adquirido esse volume por preços módicos, sem capa e quase esfrangalhado, o que me apraz como cartão para a intimidade descompromissada com o autor. O recurso, do qual sou incapacitado, seria pular essas notas de rodapé, mas vamos em frente. Preparando um chocolate quente a voltando à viagem.