Através da parceria deste blog com a Companhia das Letras, pedi os dois livros da foto aí de cima. Como meu e-mail com a solicitação não foi respondido, e fazia um mês que eu averiguava todos os dias minha caixa postal sem sucesso, comprei Zona de interesse pela Amazon. A Amazon informava que a primeira remessa deste livro estava esgotada, e devido a isso, demoraria um pouco mais para que eles enviassem meu exemplar. Fiquei um pouco decepcionado com a previsão da espera, mas um tanto feliz por um livro de Martin Amis estar esgotado em uma empresa do porte da Amazon. Por uma incrível coincidência, os dois pacotes chegaram no mesmo dia, nesta semana. E foi mais proveitosa a coincidência por ser eu a conferir a caixa postal_ já que, a maior parte das vezes, é a Dani quem o faz, aproveitando da gravidez para exercer o privilégio de enfrentar uma fila bem menor que a usual. Se a Dani tivesse recebido os pacotes, eu estaria com dois exemplares do Amis, porque tanto ela quanto eu não esperávamos mais que os livros pela parceria chegariam (cheguei a cogitar um sorteio no blog, mas as taxas de remessa pelos correios são muito caras, o que passaria do preço pago pelo livro na Amazon). Recusei a entrega da Amazon, e voltei radiante com os livros para casa.
Eu sou um aficionado por Martin Amis. Trata-se de diversão com QI elevado; entretenimento de primeira com alto grau estético. Martin Amis é o mais próximo que as letras conseguiram chegar de um escritor rock-star. Ele é uma mistura de Mick Jagger, Nabokov, William Burroughs e Robert Fripp; sabe dominar com exímia maestria o popular e ser um erudito cerebral convincente. Entre Martin Amis e Ian McEwan, seu páreo rival, eu sou da turma que gosta bem mais de Amis. Seus romances tem toda aquela empáfia do escritor maldito petulante que se acha um gênio_ o que, em boas mãos, é parte indispensável da literatura_, tem frases curtas elétricas cheias de ginga, e mais um tanto. Já disse aqui uma vez que Amis nunca escreveu um grande romance. Eu disse isso em minha resenha a seu último romance lançado no mercado brasileiro, Lionel Asbo, e lembro que percebi a maturidade do escritor ao evidenciar uma auto-crítica descansada de que seu propósito não era mais a de escrever uma obra-prima. Seu propósito passou a ser o de se divertir com seu enorme talento, produzindo uma espécie de corpo único magistral de escrita em que o principal era o virtuosismo da voz de seu autor. Essa inteligência de Amis suplantou de vez Ian McEwan; este último, a cada novo romance, vem se mostrando mais insosso e sem inspiração, em sua ânsia por invadir o cânone da alta literatura pensando que mais vale a grife de seu nome do que o valor real de seus livros chatíssimos. Amis, pelo contrário, abraçou de vez e sem a mínima vergonha sua posição relativa à sombra de Nabokov: em cada livro novo, ele ousa sair de sua zona confortável de autor celebrado (que, à maneira de McEwan, qualquer coisa lançada teria automaticamente uma louvação sintética da mídia) e ir além, sendo contundente, debochado, afiado e astuto, sem dar a mínima se está agradando e sem o mínimo respeito pelo que esperam que ele faça. Um exemplo de seu deboche sofisticado é a escolha de todo um enredo de suspense e crítica social à violência começar, em Lionel Asbo, com o incesto do narrador da trama com sua avó. Por isso, pela sua não-contenção, os últimos livros de Amis continuam sendo ótimos e anarquicamente divertidos, em sua tentativa sincera em impregnar de autenticidade essa nossa época carregada de boçalidades de todos gêneros e tipos, enquanto os últimos lançamentos de McEwan são pastiches triviais de sitcom em que o autor pede respeito à sua posição de senhor acavalado na poltrona de couro de seu escritório.
Tenho um amigo, grande leitor, que tem a para mim incompreensível atitude de ler coisas como Dan Brown e Paulo Coelho (!!!), alegando que é leitura para descansar. Nunca soube o que é isso, pois Hanna Arendt, Saul Bellow e William Faulkner sempre foram extremamente divertidos e adstringentes para mim, enquanto o único livro que consegui ler por inteiro de Coelho foi um tour de force que me custou dois meses de martírio_ e eu nunca consegui ler Dan Brown, apesar de nada ser pior que Coelho, e apesar de eu me dar bem com outros best-sellers. O máximo que suponho chegar próximo do entendimento do que esse amigo quis dizer é com um livro de Martin Amis. Vou terminar A vítima, segundo romance de Bellow, e começar a ler A zona de interesse.
P.S.: sobre A vítima, J. M. Coetzee escreve em um ensaio que é um livro repudiado injustamente por Bellow, talvez, continua Coetzee, por um excesso de modéstia por parte do autor de Herzog. Enquanto para Bellow se tratava apenas de um exercício de aquecimento para saber se um judeu como ele estava apto para conquistar o mundo, para Coetzee é um romance mais coerente e bem engendrado do que Augie March, e um exemplo do quanto Bellow se aproximou da qualidade dos questionamentos morais de Dostoiévski.