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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

As tais pessoas comuns de Kurt Cobain



A diferença está no tom. John Gray produz uma narrativa que tem tudo para integrar uma epopeia sobre ingenuidades sinceras e erros bestiais centenários com consequências as mais terríveis ou singelas, e o faz narrando fatos que, em sua maioria, são por demais conhecidos, mas que a desencantada candura da voz empregada em A busca pela imortalidade faz com que o leitor reaja como se os estivesse ouvindo pela primeira vez. Um amigo me disse sobre esse livro, com o olhar tomado pelo assombro de orfandade que a leitura de Gray provoca: "Mas por que coisas assim nunca são nos ensinadas na escola?" Não pude deixar de sorrir com ternura por um professor de história com um nível cultural bem acima dos índices mais generosos expressar uma indignação que beira a primeira desilusão da juventude com as dores do mundo, mas eu entendi o que ele sentia. Gray nos informa, por exemplo, que o bolchevismo matou mais pessoas em seus primeiros quatro anos que a dinastia Romanov matou em 300 anos, e uma eletricidade ronrona em seu silêncio confortável no estômago do leitor. Gray nos revela que a União Soviética não foi somente um regime político, mas um projeto esotérico perpetrado para extirpar todos os homens pueris, incultos e pobres para o benefício recompensador de formar a longo prazo uma sociedade de homens superiores, uma eugenia para a qual a história herdou documentos do próprio punho de Lênin vaticinando os benefícios de se matar inocentes para fundamentar o temor reverente na mentalidade dos povos, e o leitor sente o espanto com toda a sua roupagem de ineditismo. Nessas mais de 200 páginas, o tom de voz de Gray se assemelha à clareza estoica das melhores páginas de Camus, um tom muito distante dos artifícios que os eventuais parceiros apontados do autor na escola de atuais divulgadores do ateísmo científico usam para autenticar suas posições de filósofos populares. A solidão de Gray paira com elegância e sem nenhuma estridência acima das propagandas em prol do ateísmo nos ônibus de Londres e das comunidades da internet que celebram a memória de Christopher Hitchens com garrafas de uísque. E a beleza da prosa de Gray após a descrição de tantas estultícies cometidas pelo homem em suas tentativas de vencer a mortalidade nos traz o inusitado consolo de que a morte é a conclusão mais justa para zerar uma matemática que tem provado a mais vazia e inútil presença terrena.

Para quem escreve esse filósofo solitário que é o único entre seus pares com a estampa memorial de Kant andando de mãos cruzadas às costas pelas ruas do tranquilo povoado? Esse espanto de meu amigo diante o que funciona como um soco de descoberta do livro de Gray transcende a simples análise sobre o valor educacional da verdade bem empostada. No mesmo dia em que falei com esse amigo, um outro conhecido me mostrou pelo celular uma cena de sexo coletivo que viralizou o ambiente virtual da cidade, mostrando uma menina com cinco rapazes no banheiro para deficientes físicos do colégio onde esse amigo dá aula. Eu não tenho a mínima energia para ver esse tipo de vídeo, e a questão aqui me parece ser realmente energia e não estômago ou paciência, pois qualquer simbolismo entre o mais evidente e o mais recôndito que tais cenas possam provocar só me causa um enorme cansaço. O máximo a que pudesse chegar de sentir um furor contestatório diante a bestialidade humana, a selvageria adolescente, a total inocuidade do sistema de educação nacional, era de saborear a velha hipocrisia da moral infestada de testosterona desse conhecido que me mostrou o vídeo, sublinhando ao mostrar a velha cartilha de indignação superficial de aonde vamos parar, Charlles? Talvez eu tenha chegado à idade enfim de um estoicismo imune à coligação perceptiva da literatura, um desencanto que não se adorna mais com galhardia da pose de senhor distinto sentado com um livro aberto nas mãos: uma noção de algo sério e irretocável que sempre esteve aqui mas que só agora eu o vejo sem nenhum filtro de amaneiramento, e que não depende de minha posição em relação a ele. Nada que eu pudesse fazer, nem nada que um conjunto de pessoas supostamente detidas das mesmas intenções de mudança diante a inocuidade humana pudesse fazer, teria algum efeito. A diferença está no tom. O tom de Gray expressa a única concordância possível de acontecer entre pessoas bem intencionadas em um mundo onde as fantasias de redenção nunca tiveram vez. A única utopia possível é a auto-consciência, uma humildade potente e libertária diante a verdade do ser combalido que somos. Esses dias assisti a um documentário produzido com as fitas de áudio contendo as tantas horas de gravação dos testemunhos e opiniões de Kurt Cobain, chamado Retrato de uma ausência. O filme tem a intenção de causar certo peso dissipativo, certa nostalgia triste de uma ruína que se transformou, mostrando cenas de escombros, hotéis vagabundos de beira de estrada, muros da cidade com fragmentos de cartazes que convida a algum evento popular acontecido há muito tempo, exaustores de ar de indústrias que esperam pela demolição, céus de entardeceres que nada prometem, como se fosse a visão de um adolescente que não vê nenhum espaço possível que o integre à sociedade, um mendigo cujo conhecimento genético da exclusão que relegou seus progenitores em longa linha pregressa depõe contra a reação poética possível, restando apenas o ódio mais concentrado. O adolescente Cobain que sentia o mundo devastado dessas imagens sabe que não lhe resta o lenitivo de ser o herdeiro dos românticos escritores da tuberculose, ou o alcoólatra beatnik de uma era em que o apogeu do desespero podia adotar a figura de uma América primordial subliminar ainda passível de ser alcançada, ou o homossexual culto reacionário cujo limite visível da linha da vida cortado pela AIDS justificava a nobreza de seu despojamento. Cobain tinha o enorme azar de ter nascido famélico em uma época pós-suicídio distintivo, de estar em um interstício cujo esgotamento provocado pelos excessos passados mutilava o período histórico com uma absoluta falta de imaginação. Só restava a Cobain visualizar a morte precoce que era a única realidade que tinha pela frente sem uma roupa apropriada para se encontrar com ela, sem mensagens as mais pueris de adeus cínico para os que deixava para trás, sem direito a um epitáfio histriônico que fosse seu testemunho relativamente ruidoso contra a barbárie do mundo. Em uma das gravações, Cobain fala do emprego que teve em um hotel na beira da praia, um emprego que foi o inferno para ele porque as pessoas comuns que eram seus colegas de trabalho sempre lhe foram intoleráveis, pessoas as quais ele não conseguia se manter indiferente e contra as quais ele tinha que dizer as mais terríveis verdades. Muito provavelmente deveria ser um tanto irritante ficar próximo de Cobain, principalmente para os que expressassem as mais mínimas diferenças de educação e idade. O que seria pessoa comum para Cobain? Dificilmente seria a mais proximal à estirpe do Homem comum da biografia que Anthony Burguess escreveu sobre James Joyce, claro; seriam as tais pessoas desinteressantes que Eric Hobsbawm falou em seu discurso para uma classe de história em uma respeitada universidade, pessoas das quais ele afirmou que seus ouvintes não desejariam conversar com elas e nem que fossem suas alunas, a não ser que as amassem. Ao contrário de Hobsbawm, que cita a importância de que tais pessoas sejam protegidas da patrola da história, Cobain fala abertamente de seu repúdio a elas, de seu ódio, de seu nojo_ ao menos nas fitas de áudio que fazem o fundo às imagens do filme. Quando vi essa parte do filme, pensei, desalocando para a superfície meu eu de homem comum, latino-americano de um país à beira da falência: quem era Kurt Cobain? Um artista do rock que, como disse Pete Townshend, estava se tornando cada vez mais um adolescente descerebrado, oco e fútil. Sua arte, a melhor e mais relevante parte dela, se ampara na catarse pura, uma música virtuosística que perde o propósito assim que os hormônios provocados por ela se dissipam. Ele talvez fosse o mais crasso homem comum que teve o revés da sorte de se encaixar na raquítica exigência fonográfica de uma década de total pobreza musical, o que seu suicídio sem o mínimo sentido heroico de seus antepassados do gênero que morreram com os mesmos 27 anos confirmava. Kurt Cobain, pensei, se limitava a uma parca comédia sem graça de uma época que não tinha capacidade de oferecer nada, e por isso sua história fulgurante teve a auto-implosão e auto-digestão de um buraco negro. Não sei situar Cobain nos extremos da situação do vídeo pornô que meu conhecido me mostrou: se ele estaria no lugar hipócrita do meu conhecido, cuja permanência de um vídeo assim em seu celular não condiz com nenhum posicionamento moral válido; se ele seria um dos integrantes do vídeo; ou se ele, vivo com 48 anos, estaria tão esvaziado de energia para assistir tal vídeo.

Kurt Cobain tem relação com o livro de John Gray porque um dos resumos possíveis deste livro é a eterna tentativa eugenista de classes em diversas esferas da dominância em ganhar distinção com base no extermínio das classes que estão embaixo. O livro de Gray mostra o quanto a teoria da evolução de Darwin destruiu a imagem condescendente festiva que o homem tinha de si mesmo e de seu lugar de destaque no universo. E o livro é devastador em mostrar de maneira progressiva como o homem em desespero diante a verdade inexorável de sua insignificância procurou uma série de caminhos alternativos. A primeira parte narra sobre os movimentos do psiquismo acontecidos na Inglaterra, de como foram as tentativas de firmar o propósito da existência em um projeto reencarnacionista que parecia fadado ao sucesso pois além de obter provas em malabarismos entusiásticos da parapsicologia, atendia também a uma versão do evolucionismo para o progresso do espírito. Não era uma religião, mas uma nova outorga de uma Providência divina com propósitos meritocráticos para um ramo da alta sociedade que necessitava de uma legitimidade esotérica de seus privilégios de bom nascimento. E tinha o aval de se arvorar como sendo uma ciência ainda não reconhecida. Quando tudo isso fracassou, ou porque as atitudes circenses das sessões espíritas tinham a graça com prazo de validade, ou porque aumentou os níveis de ceticismo nas gerações sucessoras, vem o projeto de conferir nova distinção à existência do homem da segunda parte do livro. Projetos firmados agora em uma ultra-realidade que se imunizara da necessidade de um deus. E Gray se ocupa largamente do maior e mais terrível projeto religioso dos últimos séculos da história: a efetivação do bolchevismo em boa parte do mundo. Ele inicia com a sintomática e mais que simbólica visita de H. G. Wells a Lênin, em 1920, com a intenção do escritor em trazer Lênin para seu plano de emancipação humana conferindo os postos de poder das sociedades a intelectuais humanistas. Claro que o leitor pode sentir o impacto do presságio da estrutura oca da ingenuidade do sonho de Wells, e de como Wells vai se entregando à lucidez do morticínio quando todas as suas matemáticas sociais sucumbem a um mero caso amoroso com uma das personagens mais enigmáticas e fascinantes apresentadas por Gray, Moura Budberg (uma aristocrata da época dos Romanov que, para sobreviver, tinha que se incluir à única condição de prostituta de luxo que sobrava para as moças de seu meio).

Gray passa o foco para a vida do escritor soviético Máximo Górki, e de como ele tomou frente em um departamento do regime para promover o extermínio de pessoas comuns (as tais pessoas comuns de Cobain) com intuito de, a longo prazo, produzir a sociedade igualitária perfeita povoada de seres humanos superiores. "O recurso ao terror era acima de tudo um meio de recriar a humanidade", escreve Gray. Górki cultivava a crença de que deus ainda não existia, que o propósito da humanidade era criar deus, que a ordem acreditada estava invertida e o homem que teria de criar deus à sua semelhança e imagem. A supremacia do homem, o Super Homem, fomentado às custas da dizimação total de todas os incultos e pobres de espírito, faria que deus existisse. A esse projeto soviético deu-se o nome A Comissão de Imortalização (The Immortalization Commission, que dá o título do livro no original em inglês). A pragmatização da comissão se deu com amplo sucesso. As descrições de extermínio nas páginas do livro são generosas, como a da construção da Ponte do Mar Branco, na qual milhares ou talvez milhões de presos em escravidão sucumbiram no trabalho, no frio e na fome. O livro trata antes da grande insuficiência da razão humana, que sempre descamba para a selvageria sem limites, o que atesta no final o alívio diante a vacina da morte para um engenho tão fracassado. Mostra o quanto a fronteira entre o intelecto e a psicopatia homicida é tênue, prefigurado por assassinos investidos de propósitos redencionistas como Górki.

E por que tais coisas não são contadas para nós na escola? Como ensinar sutileza de pensamento para um mundo dominado cada vez mais pelo branco-e-preto monolítico? Como fazer com que o cérebro pense ao explicar que o livro preferido de Stalin era Os demônios, sendo que este livro que inspirou a sua matança de 60 milhões de conterrâneos, e que Os demônios foi escrito por Dostoiévski justamente como um aviso para que um Stalin não pudesse vir a existir? E será que pessoas tão obtusas à percepção dessas nuances podem merecer serem protagonistas de uma cosmologia de uma vida eterna? E ensinar que todo relativismo que coloca graus de superioridade relativiza sua própria posição na escala entre algoz e vítima. Um livro como A busca pela imortalidade é um grande presente, um generoso ato de humanismo. Nada se compara a ele, em todas as suas idiossincrasias de grande prosa e lucidez libertária sem qualquer engajamento. Gray não impõe nenhuma verdade, e essa sua obra tem o voluntarismo espontâneo de servir como tijolo para a fundação de um novo sistema de precaução contra as intrujões da história. Não defende nada e não condena nada. Tem a beleza do andar livre de um Omar Khayyãm, que não reconhece sobre si nenhuma religião e nenhuma ciência, sem contudo estufar o peito de orgulho arrogante. Não menos sintomático e simbólico, Gray fecha a obra com um belíssimo texto do poeta húngaro judeu György Faludy, que narra seus dias assim que chegou como refugiado de guerra a uma Casablanca rescendida à morte, e que foi enviado ao campo de concentração de prisioneiros de Recsk por se recusar a escrever um poema em honra ao aniversário de Stalin (na prisão, narra Gray, Faludy confessou que tinha sido recrutado como espião norte-americano pelo capitão Edgar Allan Poe e pelo coronel Walt Whitman), e que, libertado, viveu com um companheiro por mais de 30 anos, casou-se outra vez aos 91 e morreu em 2006, aos 95.

Assim se encerra A busca pela imortalidade:

A vida após a morte é como uma utopia, um lugar onde ninguém quer viver. Sem as estações, nada amadurece e cai ao solo, as cores nunca mudam de cor nem o céu altera seu vago azul. Nada morre, e assim nada nasce. A existência eterna é uma calma perpétua, a paz do túmulo. Os perseguidores da imortalidade procuram um caminho para fora do caos; mas fazem parte desse caos, natural ou divino. A imortalidade é apenas a alma que empalidece, projetada numa tela branca. Há mais luz do sol na queda de uma folha.

domingo, 17 de maio de 2015

Notas espontâneas, apressadas e irresponsáveis sobre Cachorros de palha e um filme de Woody Allen



Um livro importante, desses que seria bom se as pessoas lessem. Não traz nada de novo. Quase metade é puro exercício excepcional de retórica, o que não passa, trocando em miúdos, de retórica. A outra metade é um estudo mais contundente sobre a obtusidade criminosa e suicida da humanidade. O que mais assusta é que percebo que já se passou o tempo em que os livros terríveis, por mais terríveis que fossem, tinham o consolo de falarem de outro tempo, de um futuro a ser herdado para uns cinquenta a cem anos. Os livros terríveis de hoje falam de tempos terríveis a serem enfrentados agora. E o que Gray fala aqui são de problemas à primeira vista incompatíveis demais em seus gigantismos com a miudeza estúpida do homem. É tão assustador e premente quanto Colapso, de Jared Diamond, embora não ofereça a esperança tímida de Diamond. Para Gray, a julgar por este seu livro, a humanidade construiu um labirinto inescapável em que a extinção é fato a ser consumado. Lembro do curso de História, em que se falava que áreas de estudo como a micro-história, a história das mentalidades e a história oral serviram a tirar o foco da narrativa dos heróis e reis para o homem comum. E agora, todos os livros terríveis só falam de homens comuns. Há uma semana um amigo me disse sobre uma pesquisa que assinala que a era do livro desenvolveu mais inteligência nos homens, e que a era da internet afunda o homem em uma progressiva burrice. Eu percebo isso, de forma assustadora, em meu cotidiano. Esses dias estava ouvindo um colega meu dizer que, se fosse possível, se ele tivesse uma propriedade que valesse um milhão, ele a penhoraria e sumiria com esse milhão. O dito cujo é formado em geografia. Eu o desconcertei com o raciocínio óbvio de que, se ele tivesse uma propriedade no valor de um milhão, um banco a avaliaria por uma tabela de valores bem mais baixo, para depois oferecer de 100 mil a 200 mil de penhora. Constato essa estupidez por todos os lados, parece uma epidemia. Eu vejo claramente que os seres humanos estão cada vez mais estúpidos. Já disse aqui e torno a repetir o quanto de pessoas vem me mostrar um vídeo em seu celular, recebido pelo whatsapp, cujo conteúdo é constrangedoramente infantiloide. E o gosto estético! Ainda me recordo quando, um conhecido meu estando de carona comigo, ao me ver parando num sebo para comprar os três volumes de José e seus irmãos, de Thomas Mann, me dizer, querendo piedosamente me salvar do valor monetário para ele absurdamente alto dos livros: "não faça isso, eu sei dessa história e conto ela para você". O quanto besteiras que deveriam servir apenas a uma efêmera curiosidade de consumo, como Game of Thrones, são tidas como clássicos imediatos, revoluções da narrativa e revoluções estéticas, ainda que não passem do mais do mesmo recalibrado com sexo brutal e encheção de linguiça entediante, referências truncadas à história e filosofia com a profundidade das pesquisas no Google_ e, apesar da superficialidade, ou por causa dela, são tidas como cultura sofisticada. A esperança abortada que se poderia ter do livro de John Gray é que, afinal, todos os terríveis vaticínios já sentidos na pele apontados por ele se referem à bestialidade do homem comum. O homem do qual ele traça um dos mais impactantes retratos: o homo rudens, ultra-violento, ultra-egolátrico e vaidoso, que vive de moralismos sintéticos auto-beneficentes e hipocrisias que cursam atestados pessoais de encontros com a Verdade. É muito importante ler esse livro de Gray, ainda que o ser bestial do qual ele trata acharia que tal livro é uma súmula de elogios à sua supremacia de sobrevivente desapiedado, sentado em seu escritório ou em seu gabinete ou em seu consultório ou detrás da mesa da sala de diretoria de sua empresa. Confesso que meu círculo de amigos se restringiu bastante. Não me sinto superior, me sinto esclarecido. O homem esclarecido, o homem culto, jamais se sentirá superior. Muito pelo contrário, ainda que eu nunca abandonaria o caminho dos livros se em um retrocesso alternativo visse que eu seria alguém muito mais feliz e realizado se abstivesse da leitura. O homem esclarecido não cai na balela da procura pela felicidade. Dentro de valores comparativos, eu sou um homem esclarecido, o que pelo baixo nível geral não se trata enfim de uma conquista muito grandiosa. A sorte minha é que eu sou descansadamente feliz na solidão. Um dia desses veio aqui em casa um de meus poucos verdadeiros grandes amigos, um historiador cuja providência impôs a distância de mil quilômetros entre nós, agora que ele é chefe do departamento de cultura de outro estado, de forma que nossas conversas longas e agradabilíssimas às cinco da tarde entremeadas na degustação da camomila ficaram resumidas a uma vez a cada dois meses, quando ele pega seu carro e vem passar alguns dias aqui na casa de seus pais. (Esse amigo pegou a moto e atravessou trezentos quilômetros de puro gesto de amizade para assistir a meu casamento, há 5 anos.) Nesse dia em que ele veio, ele se confessou tonto de solidão. Ele disse que estava sozinho em sua casa, e teve que se sentar no sofá pois sentia que as forças se lhe esvaiam pela pressão de dias inteiros sem falar com ninguém. Ele também se dá bem com a solidão, por isso estranhei que me confessasse isso. Eu também não sei, se não fosse minha esposa e filhos, eu teria me mandado, não estaria aqui em uma casa estabelecida, nem sei o que seria de mim. A família me ensinou que se deve suportar o nível paupérrimo a que a grande maioria das pessoas se limita voluntariamente, e procurar com veemência fazer com que seus filhos se tornem cultos por sua vez e esclarecidos para se deleitarem com o segredo de que são mais que números a serviço de um jogo. Ele me deu um livro do Braudel, e eu lhe dei o Notas do Subsolo. Ele me ligou dizendo que acabara de ler Cem anos de solidão, e estava extasiado, e agora entendia porque eu insistia tanto que ele lesse o Subsolo, estando já na metade dele. A pobreza compulsória de espírito da humanidade aponta para um futuro terrível, mas temos que manter a esperança.

Eu estou com esse livro de Gray na cabeça desde que o li no começo da semana, em dois dias. É um livro de um negror violento, mas, ao mesmo tempo, libertador. E hoje de manhã, enquanto a turma dormia (manhã fria), assisto o filme do Woody Allen que botei para gravar. Certa vez eu teci uma diatribe falando mal de Allen, mas é pura mentira. Eu adoro Woody Allen_ a adoro um tanto mais estranhamente seus filmes medianos. O de hoje foi um que nem sequer sabia que existia: Tudo pode dar certo. Um filme mediano, mas absolutamente encantador para mim. Talvez os que o viram vão pensar: o Charlles virou um sentimental de gosto decadente mesmo, ou coisa que o valha. O filme responde ao livro de Gray, o que talvez possa até ter sido intencional da parte de Allen (Cachorros é de 2002, Tudo pode dar certo de 2009). O filme trata sobre um ex-professor de física, altamente inteligente, que tentou o suicídio após a esposa lhe deixar, e que agora mora em uma espécie de sótão despojado, sozinho, cultivando uma visão niilista sobre a existência. O ator é fenomenal_ um dos poucos filmes que não traz Allen no cast do elenco_, e a gente é levado a ver Allen nele. Um certo dia, voltando de uma conversa de bar com os amigos, o herói se depara com uma garota que fugira de casa aportada na escada de seu apartamento. Ele a recebe em casa, e não existem duas pessoas menos condizentes uma com a outra. Ele é um loquaz misantropo com réstias de exuberância simpática que beira os 60 anos, ela uma garota recém saída da menoridade com nenhuma ideia substancial na cabeça e bastante ingênua. Os dois acabam se casando. O filme tem aquele didatismo incorrigível de Allen, cheio de arestas cinzeladas bem redondinhas (que funcionam sempre por Allen ser astuto o suficiente para justificar a falha artística na leveza de mostrar continuamente que não se leva a sério), e os diálogos mantem o ponto forte de Allen. Tá, tá, tá. Vamos em frente antes que eu me perca ainda mais. A mãe da garota aparece no apartamento; é uma mulher tipicamente WASP, branca e exsudando moralismos religiosos enraivecidos e descerebrados, que desmaia ao ver que a filha se casou com um velho ranzinza. Lá pelo final do filme, aparece o pai da garota, o marido exímio modelo republicano, sócio do Clube do Tiro, macho dominante e da mesma forma exsudando domínio sobre um deus cristão servil a seus propósitos ascensionistas. E aqui vai um spoiler filho da puta, ou um spoiler, filho da puta. A mãe caipira infinitamente limitada da garota é descoberta por um dos amigos do herói, e se torna uma talentosa fotógrafa; o pai caipira infinitamente limitado da garota assume sua homossexualidade em um bar, e se casa com outro homem. Essa é a resposta de Allen para Gray, e é justamente a resposta que Gray intui e quer ouvir de um leitor atento. Allen diz que a salvação para a humanidade é o homem deixar de ser comum. A certa altura, a garota simplória que se casa com o professor gênio da física o critica pela primeira vez, dizendo que ele tinha que deixar de ser ranzinza, tal qual uma criança emburrada, e ver que as pessoas não são má, apenas tem medo. O professor fica embasbacado e, na mesma diretriz sincera que o destaca, diz admirado que jamais esperava uma avaliação tão inteligente vinda de uma cabecinha tão fútil. Está aí, pensei. Allen em seu didatismo, em sua redondez límpida, atinge uma profundidade única em suas formas de concisão rendidas às exigências de atendimento às massas da indústria cinematográfica americana. Gray fala dos homens comuns, que, infelizmente, se tornam ainda mais comuns graças à tecnologia atender estritamente ao comércio. O homem comum que, finalmente, no cúmulo de milhares de anos de história cultural, tem toda a grande música, a grande literatura, o grande conhecimento substancial, ao alcance de um clique, como se diz, de graça, mas sua simploriedade visceral torna toda essa fonte de esclarecimento inacessível, optando pelo escatologismo da merda estúpida do zapzap. Os personagens desse filme de Allen se tornam livres, se revelam, perdem o medo, são paridos em plena maturidade quando o destino ou as convenções do bom roteiro os exorcizam e os fazem deixar de ser homens e mulheres comuns. Eles passam a usar o cérebro e pensar não por clichês e pelo titerismo dos inúmeros poderes instituídos da alienação e do comportamento de rebanho.

terça-feira, 7 de abril de 2015

As tais pessoas comuns de Kurt Cobain



A diferença está no tom. John Gray produz uma narrativa que tem tudo para integrar um romance epopeia sobre ingenuidades sinceras e erros bestiais centenários com consequências as mais terríveis ou singelas, e o faz narrando fatos que, em sua maioria, são por demais conhecidos, mas que a desencantada candura da voz empregada em A busca pela imortalidade faz com que o leitor reaja como se os estivesse ouvindo pela primeira vez. Um amigo meu me disse sobre esse livro, com o olhar tomado pelo assombro de orfandade que a leitura de Gray provoca: "Mas por que coisas assim nunca são nos ensinadas na escola?" Não pude deixar de sorrir com certa ternura por um professor de história com um nível cultural bem acima dos índices mais generosos expressar uma indignação que beira a primeira desilusão da juventude com as dores do mundo, mas eu entendi inteiramente o que esse meu amigo sentia. Gray nos informa, por exemplo, que o bolchevismo matou mais pessoas em seus primeiros quatro anos que a dinastia Romanov matou em 300 anos, e uma certa eletricidade fria ronrona em seu silêncio confortável no estômago do leitor. Gray nos revela que a União Soviética não foi somente um regime político, mas um projeto esotérico perpetrado para extirpar todos os homens pueris e incultos e pobres para o benefício recompensador de formar a longo prazo uma sociedade de homens superiores, uma eugenia para a qual a história herdou documentos do próprio punho de Lênin em que este vaticina os benefícios de se matar inocentes para fundamentar o temor reverente na mentalidade dos povos, e o leitor sente o espanto com toda a sua roupagem de ineditismo. Nessas mais de 200 páginas, o tom de voz de Gray se assemelha à clareza estoica das melhores páginas de Camus, um tom muito distante dos artifícios que os eventuais parceiros apontados do autor na escola de atuais divulgadores do ateísmo científico esclarecido usam para autenticarem suas posições de filósofos populares. A solidão de Gray paira com elegância e sem nenhuma estridência acima das propagandas em prol do ateísmo nos ônibus de Londres e das comunidades da internet que celebram a memória de Christopher Hitchens com garrafas de uísque. E a beleza da prosa de Gray após a descrição de tantas estultícies cometidas pelo homem em suas tentativas de vencer a mortalidade nos traz o inusitado consolo de que a morte é a conclusão mais justa para zerar uma matemática que tem provado a mais vazia e inútil presença terrena.

Para quem escreve esse filósofo solitário que é o único entre seus pares que tem a estampa memorial de Kant andando de mãos cruzadas às costas pelas ruas do tranquilo povoado? Esse espanto de meu amigo diante o que funciona como um soco de descoberta do livro de Gray transcende a simples análise sobre o valor educacional da verdade bem empostada. No mesmo dia em que falei com esse amigo, um outro conhecido meu me mostrou pelo celular uma cena de sexo coletivo que viralizou o ambiente virtual da cidade, que mostra uma menina com cinco rapazes no banheiro para deficientes físicos do colégio onde esse amigo dá aula. Eu não tenho a mínima energia para ver esse tipo de vídeo, e a questão aqui me parece ser realmente energia e não estômago ou paciência, pois qualquer simbolismo entre o mais evidente e o mais recôndito que tais cenas possam provocar só me causa um enorme cansaço. O máximo a que pudesse chegar de eu sentir um furor contestatório diante a bestialidade humana, a selvageria adolescente, a total inocuidade do sistema de educação nacional, era de saborear a velha hipocrisia da moral infestada de testosterona desse conhecido que me mostrou o vídeo, sublinhando ao mostrar a velha cartilha de indignação superficial de aonde vamos parar, Charlles? Talvez eu tenha chegado à idade enfim de um estoicismo imune à coligação perceptiva da literatura, um desencanto que não se adorna mais com galhardia da pose de senhor distinto sentado com um livro aberto nas mãos: uma noção de algo sério e irretocável que sempre esteve aqui mas que só agora eu o vejo sem nenhum filtro de amaneiramento, e que não depende de minha posição em relação a ele. Nada que eu pudesse fazer, nem nada que um conjunto de pessoas supostamente detidas das mesmas intenções de mudança que me toma diante a inocuidade humana pudesse fazer, teria algum efeito. A diferença está no tom. O tom de Gray expressa a única concordância possível de acontecer entre pessoas bem intencionadas em um mundo onde as fantasias de redenção nunca tiveram vez. A única utopia possível é a auto-consciência, uma humildade potente e libertária diante a verdade do ser combalido que somos. Esses dias assisti a um documentário produzido com as fitas de áudio contendo as tantas horas de gravação dos testemunhos e opiniões de Kurt Cobain, chamado Retrato de uma ausência. O filme tem a intenção de causar certo peso dissipativo, certa nostalgia triste de uma ruína que se transformou, mostrando cenas de escombros, hotéis vagabundos de beira de estrada, muros da cidade com fragmentos de cartazes que convida a algum evento popular acontecido há muito tempo, exaustores de ar de indústrias que esperam pela demolição, céus de entardeceres que nada prometem, como se fosse a visão de um adolescente que não vê nenhum espaço possível que o integre à sociedade, um mendigo cujo conhecimento genético da exclusão que relegou seus progenitores em longa linha pregressa depõe contra a reação poética possível, restando apenas o ódio mais concentrado. O adolescente Cobain que sentia o mundo devastado dessas imagens sabe que não lhe resta o lenitivo de ser o herdeiro dos românticos escritores da tuberculose, ou o alcoólatra beatnik de uma era em que o apogeu do desespero podia adotar a figura de uma América primordial subliminar ainda passível de ser alcançada, ou o homossexual culto reacionário cujo limite visível da linha da vida cortado pela AIDS justificava a nobreza de seu despojamento. Cobain tinha o enorme azar de ter nascido famélico em uma época pós-suicídio distintivo, de estar em um interstício cujo esgotamento provocado pelos excessos passados mutilava o período histórico com uma absoluta falta de imaginação. Só restava a Cobain visualizar a morte precoce que era a única realidade que tinha pela frente sem uma roupa apropriada para se encontrar com ela, sem mensagens as mais pueris de adeus cínico para os que deixava para trás, sem direito a um epitáfio histriônico que fosse seu testemunho relativamente ruidoso contra a barbárie do mundo. Em uma das gravações, Cobain fala do emprego que teve em um hotel na beira da praia, um emprego que foi o inferno para ele porque as pessoas comuns que eram seus colegas de trabalho sempre lhe foram intoleráveis, pessoas as quais ele não conseguia se manter indiferente e contra as quais ele tinha que dizer as mais terríveis verdades. Muito provavelmente deveria ser um tanto irritante ficar próximo de Cobain, principalmente para os que expressassem as mais mínimas diferenças de educação e idade. O que seria pessoa comum para Cobain? Dificilmente seria a mais proximal à estirpe do Homem comum da biografia que Anthony Burguess escreveu sobre James Joyce, claro; seriam as tais pessoas desinteressantes que Eric Hobsbawm falou em seu discurso para uma classe de história em uma respeitada universidade, pessoas das quais ele afirmou que seus ouvintes não desejariam conversar com elas e nem que fossem suas alunas, a não ser que as amassem. Ao contrário de Hobsbawm, que cita a importância de que tais pessoas sejam protegidas da patrola da história, Cobain fala abertamente de seu repúdio a elas, de seu ódio, de seu nojo_ ao menos nas fitas de áudio que fazem o fundo às imagens do filme. Quando vi essa parte do filme, pensei, desalocando para a superfície meu eu de homem comum, latino-americano de um país à beira da falência: quem era Kurt Cobain? Um artista do rock que, como disse Pete Townshend, estava se tornando cada vez mais um adolescente descerebrado, oco e fútil. Sua arte, a melhor e mais relevante parte dela, se ampara na catarse pura, uma música virtuosística que perde o propósito assim que os hormônios provocados por ela se dissipam. Ele talvez fosse o mais crasso homem comum que teve o revés da sorte de se encaixar na raquítica exigência fonográfica de uma década de total pobreza musical, o que seu suicídio sem o mínimo sentido heroico de seus antepassados do gênero que morreram com os mesmos 27 anos confirmava. Kurt Cobain, pensei, se limitava a uma parca comédia sem graça de uma época que não tinha capacidade de oferecer nada, e por isso sua história fulgurante teve a auto-implosão e auto-digestão de um buraco negro. Não sei situar Cobain nos extremos da situação do vídeo pornô que meu conhecido me mostrou: se ele estaria no lugar hipócrita do meu conhecido, cuja permanência de um vídeo assim em seu celular não condiz com nenhum posicionamento moral válido; se ele seria um dos integrantes do vídeo; ou se ele, vivo com 48 anos, estaria tão esvaziado de energia para assistir tal vídeo.

Kurt Cobain tem relação com o livro de John Gray porque um dos resumos possíveis deste livro é a eterna tentativa eugenista de classes em diversas esferas da dominância em ganhar distinção com base no extermínio das classes que estão embaixo. O livro de Gray mostra o quanto a teoria da evolução de Darwin destruiu a imagem condescendente festiva que o homem tinha de si mesmo e de seu lugar de destaque no universo. E o livro é devastador em mostrar de maneira progressiva como o homem em desespero diante a verdade inexorável de sua insignificância procurou uma série de caminhos alternativos. A primeira parte narra sobre os movimentos do psiquismo acontecidos na Inglaterra, de como foram as tentativas de firmar o propósito da existência em um projeto reencarnacionista que parecia fadado ao sucesso pois além de obter provas em malabarismos entusiásticos da parapsicologia, atendia também a uma versão do evolucionismo para o progresso do espírito. Não era uma religião, mas uma nova outorga de uma Providência divina com propósitos meritocráticos para um ramo da alta sociedade que necessitava de uma legitimidade esotérica de seus privilégios de bom nascimento. E tinha o aval de se arvorar como sendo uma ciência ainda não reconhecida. Quando tudo isso fracassou, ou porque as atitudes circenses das sessões espíritas tinham a graça com prazo de validade, ou porque aumentou os níveis de ceticismo nas gerações sucessoras, vem o projeto de conferir nova distinção à existência do homem da segunda parte do livro. Projetos firmados agora em uma ultra-realidade que se imunizara da necessidade de um deus. E Gray se ocupa largamente do maior e mais terrível projeto religioso dos últimos séculos da história: a efetivação do bolchevismo em boa parte do mundo. Ele inicia com a sintomática e mais que simbólica visita de H. G. Wells a Lênin, em 1920, com a intenção do escritor em trazer Lênin para seu plano de emancipação humana conferindo os postos de poder das sociedades a intelectuais humanistas. Claro que o leitor pode sentir o impacto do presságio da estrutura oca da ingenuidade do sonho de Wells, e de como Wells vai se entregando à lucidez do morticínio quando todas as suas matemáticas sociais sucumbem a um mero caso amoroso com uma das personagens mais enigmáticas e fascinantes apresentadas por Gray, Moura Budberg (uma aristocrata da época dos Romanov que, para sobreviver, tinha que se incluir à única condição de prostituta de luxo que sobrava para as moças de seu meio).

Gray passa o foco para a vida do escritor soviético Máximo Górki, e de como ele tomou frente em um departamento do regime para promover o extermínio de pessoas comuns (as tais pessoas comuns de Cobain) com intuito de, a longo prazo, produzir a sociedade igualitária perfeita povoada de seres humanos superiores. "O recurso ao terror era acima de tudo um meio de recriar a humanidade", escreve Gray. Górki cultivava a crença de que deus ainda não existia, que o propósito da humanidade era criar deus, que a ordem acreditada estava invertida e o homem que teria de criar deus à sua semelhança e imagem. A supremacia do homem, o Super Homem, fomentado às custas da dizimação total de todas os incultos e pobres de espírito, faria que deus existisse. A esse projeto soviético deu-se o nome A Comissão de Imortalização (The Immortalization Commission, que dá o título do livro no original em inglês). A pragmatização da comissão se deu com amplo sucesso. As descrições de extermínio nas páginas do livro são generosas, como a da construção da Ponte do Mar Branco, na qual milhares ou talvez milhões de presos em escravidão sucumbiram no trabalho, no frio e na fome. O livro trata antes da grande insuficiência da razão humana, que sempre descamba para a selvageria sem limites, o que atesta no final o alívio diante a vacina da morte para um engenho tão fracassado. Mostra o quanto a fronteira entre o intelecto e a psicopatia homicida é tênue, prefigurado por assassinos investidos de propósitos redencionistas como Górki.

E por que tais coisas não são contadas para nós na escola? Como ensinar sutileza de pensamento para um mundo dominado cada vez mais pelo branco-e-preto monolítico? Como fazer com que o cérebro pense ao explicar que o livro preferido de Stalin era Os demônios, sendo que este livro que inspirou a sua matança de 60 milhões de conterrâneos, e que Os demônios foi escrito por Dostoiévski justamente como um aviso para que um Stalin não pudesse vir a existir? E será que pessoas tão obtusas à percepção dessas nuances podem merecer serem protagonistas de uma cosmologia de uma vida eterna? E ensinar que todo relativismo que coloca graus de superioridade relativiza sua própria posição na escala entre algoz e vítima. Um livro como A busca pela imortalidade é um grande presente, um generoso ato de humanismo. Nada se compara a ele, em todas as suas idiossincrasias de grande prosa e lucidez libertária sem qualquer engajamento. Gray não impõe nenhuma verdade, e essa sua obra tem o voluntarismo espontâneo de servir como tijolo para a fundação de um novo sistema de precaução contra as intrujões da história. Não defende nada e não condena nada. Tem a beleza do andar livre de um Omar Khayyãm, que não reconhece sobre si nenhuma religião e nenhuma ciência, sem contudo estufar o peito de orgulho arrogante. Não menos sintomático e simbólico, Gray fecha a obra com um belíssimo texto do poeta húngaro judeu György Faludy, que narra seus dias assim que chegou como refugiado de guerra a uma Casablanca rescendida à morte, e que foi enviado ao campo de concentração de prisioneiros de Recsk por se recusar a escrever um poema em honra ao aniversário de Stalin (na prisão, narra Gray, Faludy confessou que tinha sido recrutado como espião norte-americano pelo capitão Edgar Allan Poe e pelo coronel Walt Whitman), e que, libertado, viveu com um companheiro por mais de 30 anos, casou-se outra vez aos 91 e morreu em 2006, aos 95.

Assim encerra A busca pela imortalidade:

A vida após a morte é como uma utopia, um lugar onde ninguém quer viver. Sem as estações, nada amadurece e cai ao solo, as cores nunca mudam de cor nem o céu altera seu vago azul. Nada morre, e assim nada nasce. A existência eterna é uma calma perpétua, a paz do túmulo. Os perseguidores da imortalidade procuram um caminho para fora do caos; mas fazem parte desse caos, natural ou divino. A imortalidade é apenas a alma que empalidece, projetada numa tela branca. Há mais luz do sol na queda de uma folha.