Esse livro me foi entregue ontem e eu o li inteiro, deitado na biblioteca (ouvindo Soft Machine). Uma obra imprescindível, visceral, (bastante engraçada, como não deveria de deixar de ser), e muito humana e instrutiva. O relato dos anos de miséria absoluta em que Orwell viveu em Paris e Londres, desempregado ou submetido a sub-empregos devastadores. Claro que me passou pela cabeça como seria o impacto de um livro destes se o brasileiro médio o lesse (e nessa categoria coloco várias pessoas que se acham bem colocadas na sociedade, doutores, professores, funcionários públicos, mas que purgam no mais lancinante atraso). Quem entre essa espécie iludida continuaria a defender as reformas trabalhistas e o resto da destruição de tudo que está a acontecer no Brasil hoje. Quem entre esses cegos lastimáveis, vítimas de si mesmos, continuariam a ter essa visão rasteira sobre manifestações socais e sobre "vandalismos" de se quebrar vitrines de bancos ou janelas de prédio públicos, após ler essa obra-prima de Orwell. Orwell consegue um emprego de auxiliar do auxiliar de garçom em Paris. Trabalha 16 horas por dia, de segunda a segunda. Ganha menos do que seria possível para sobreviver. Trabalha em porões sem ventilação, sob uma temperatura que vai de 40 a 55 graus Celsius (está tudo lá, com amplos detalhes, basta ler), entre outros homens mantidos em tal sub-humanidade que se xingam, são acometidos por várias doenças, levam socos de seus patrões, são chutados para o lixo diariamente pela escala quase infinita de sub-chefes. Mesmo depois de sair dessa situação e conseguir, anos depois, uma certa estabilidade financeira, esses anos cobraram caro do autor: Orwell morreu jovem, aos 47 anos. Na época_ anos 1930_ , a França não tinha salário mínimo e nenhuma espécie de seguridade trabalhista, tanto que nos relatos do livro fica claro que os empregados eram descartáveis, substituídos pelos que vinham na sequência na fila dos famélicos do lado de fora. Que bom seria um pouco só de esclarecimento neste país angustiantemente assolado pela doença dos que se acham melhores do que os outros. Somos todos pobres, todos nós brasileiros. (Eu sei, eu fico com um grande peso de consciência de falar de literatura nesta hora em que se cobram ações imediatas e contundentes. Tudo que não seja a denúncia indignada contra a dilapidação assassina que fazem contra o Brasil, é frivolidade.)
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quarta-feira, 24 de maio de 2017
quinta-feira, 4 de julho de 2013
Relendo 1984
Com as manifestações que tomaram conta do Brasil, me vi com a propensão a me voltar à leitura de tudo que fale sobre opressão social, massas, dominação política, capitalismo/socialismo, lutas de classe, grandes manifestantes da história e congêneres, história oficial e paralela, alienação, indústria cultural. Fui tomado pela intuição feliz de retornar a um grande autor da minha adolescência, o George Orwell, alguém do qual só li 1984 e nada mais. Estou, pois, relendo 1984, na edição generosa da Companhia das Letras, dessas edições caprichadas, que revelam amor, em que desde o trabalho gráfico à revisão do texto se percebe perfeccionismo. Não há nenhum errinho no texto, o layout é modernoso, com páginas iniciais com algo do grafite e da arte pop americana, e, além, claro, do romance em si, o formidável são os três ensaios que vem de bônus, de ninguém menos que Erich Fromm, Ben Pimlott e Thomas Pynchon. Meu volume é a nona reimpressão. Estou na página 202. Li-o quando tinha lá meus 15 anos, e recordo que foi uma experiência impactante. De tudo, me ficara o peso de vidro para papéis com um pedaço de coral dentro, em que descem minúsculas partículas brancas simulando neve no interior, que Winston Smith comprara em um antiquário no mercado negro, e a cena terrível de quando, aos 12 anos, Winston exige para si toda a ração de chocolate da família (três onças, como está no romance), levando a mãe e a irmã famélicas à morte. Essa cena voltou à minha memória assim que a relia hoje, após décadas. A cara "parecendo um macaco" da pequena irmã de Winston, de tão raquítica; a forma como a mãe a abraça, diante o homicida egoísmo de Winston, em uma instintiva desproteção, sabendo que iriam morrer. Me deu a impressão de que é uma das cenas mais terríveis da literatura. E tudo na obra é derivativa, faz pensar, assombra, enternece, aterroriza, emudece. Há tantos conceitos ali que servem a entender os rumos da sociedade, que Orwell atingiu uma posição de um estranho profeta científico. Os termos que ele inventou podem soar com um eco ingênuo hoje, diante aos descalabros muito mais complexos da alienação atual (que dominam pelo ardiloso estratagema do prazer, e não da privação, como supunham Orwell e Huxley, o que é particularmente tão cruel e mais indefensável), mas em sua concisão vemos que Orwell criou uma parte importante tanto do imaginário do século XX, quanto de um novo gênero da escrita_ a distopia. Termos como despessoa, com sua burocracia seca, rigidamente limitada, ainda conservam uma intuição maléfica de força, principalmente quando vemos que a NovaLingua orwelliana tem em si uma miríade de informações sobre a retórica coercitiva do poder: uma linguagem plástica, despersonalizada, asséptica, que mutila as nuances da inteligência para tornar a dominação absoluta. Despessoa é, simplesmente, o indivíduo que, pela mínima suspeita que lhe caia em cima, é eliminado pelo Partido. Uma eliminação que apaga sistematicamente qualquer menção de seu nome dos registros oficiais e mesmo do direito de que seja lembrado. Claro, vivemos em um mundo melhor, a internet é uma revolução sem igual para a democracia, mas mesmo assim me fica algo de desconfortavelmente premonitório e atual nesse livro de Orwell, ele estando a dizer que a mente da supressão da personalidade para a serialização do homem está sempre trabalhando. Vou concluir 1984 e vou passar aos outros dois Orwell que tenho em casa, A revolução dos bichos, e O caminho para Wigan Pier.
quarta-feira, 26 de junho de 2013
O sorriso
"Há uma fotografia, tirada por volta de 1945 em Islington, de Orwell com seu filho adotado, Richard Horatio Blair. O garotinho, que devia ter uns dois anos na época, está radiante, repleto de felicidade. Orwell segura-o gentilmente, com as duas mãos, também sorridente, satisfeito, mas não eufórico_ é mais complexo que isso, como se tivesse descoberto algo ainda mais valioso que a raiva_, com a cabeça um pouco inclinada, um olhar prudente que pode trazer aos cinéfilos a lembrança de um personagem de Robert Duvall, em cuja história pregressa havia visto muito mais do que alguém poderia desejar. Winston Smith "acreditava ter nascido em 1944 ou 1945...". Richard Blair nasceu em 14 de maio de 1944. Não é difícil adivinhar que, em 1984, Orwell estava imaginando um futuro para a geração de seu filho_ não um mundo que desejava para ele, mas um contra o qual queria alertá-lo. Ele não tinha paciência para previsões do inevitável e permanecia confiante na habilidade das pessoas comuns de mudar as coisas, se quisessem. Em todo caso, é para o sorriso do garoto que retornamos, um sorriso direto e radiante, saído da fé inabalável de que o mundo é bom, no fim das contas, e de que podemos sempre confiar na decência humana, assim como no amor paterno_ uma fé tão honrada que quase podemos imaginar Orwell, e talvez nós mesmos, por um instante que seja, jurando fazer tudo o que deve ser feito para mantê-la livre de traição." (Thomas Pynchon)
terça-feira, 25 de junho de 2013
George Orwell
25 de junho de 2013, cento e dez anos do nascimento de George Orwell.
A política de Orwell não apenas era de esquerda, mas à esquerda da esquerda. Ele fora à Espanha em 1937 para lutar contra Franco e seus fascistas simpáticos ao nazismo, e lá aprendeu rapidamente a diferença entre o antifascismo real e o falso. "A guerra espanhola e outros eventos de 1936-37", escreveu dez anos mais tarde, "fizeram a balança pender, e depois disso eu sabia onde estava. Cada linha de trabalho sério que redigi desde 1936 foi escrita, direta ou indiretamente, contra o totalitarismo e a favor do socialismo democrático, tal como o conheço."
Orwell via a si mesmo como um membro da "esquerda dissidente", distinta da "esquerda oficial", que significava basicamente o Partido Trabalhista Britânico, do qual boa parte ele passara a enxergar, bem antes da Segunda Guerra Mundial, como potencialmente, senão já fascista. Mais ou menos de forma consciente, fez uma analogia entre o Partido Trabalhista e o Partido Comunista sob o domínio de Stalin, os quais, sentia, eram movimentos que professavam a luta das classes trabalhistas contra o capitalismo, mas que na verdade estavam preocupados apenas em estabelecer e perpetuar seu próprio poder. As massas só existem para ser manobradas: por seu idealismo, seus ressentimentos de classe, sua disposição para trabalhar em troca de pouco_ e para ser vendidas repetidas vezes. (Do ensaio de Thomas Pynchon, na edição de 1984 da Companhia das Letras)
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