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sexta-feira, 27 de julho de 2012

Romances-Moradias (Divagações)


Os escritores de língua espanhola atuais nos reservam o grato reconhecimento da mais alta tradição literária em suas obras. Lê-los não é só rememorar constantemente um caminho percorrido da leitura, com suas nostalgias da adolescência e a percepção segura de um aspecto valioso da verdade só conseguida com  o que a maturidade nos antepõe de preparo diante a página aberta, mas também um elogioso afago ao nosso imodesto conhecimento livresco. Então que livros como Seu Rosto Amanhã, que não trata de forma tão explicita da metalinguagem literária como O Mal de Montano (e os demais de Vila-Matas), nos dão a impressão deleitosa de estarmos andando através da margem do Sena onde ficam as bancas de livros usados, ou de sempre estarmos atravessando as escadas que nos levam a um apartamento pequeno mas acolhedor de cuja janela observamos a dama obscura, detentora de alguma auto-revelação infeliz que a torna perigosamente isolada no apartamento de frente, ou vemos na janela mais distante, numa noite de chuva londrina, o bailarino que em altas horas executa seus passos de dança no silêncio junto a uma negra de beleza portentosa e uma loira de vestido vermelho elegante; alguns desses tantos sinais distribuídos generosamente entre as palavras acentuadas com um tom ligeiramente antiquado a propositadamente tangente ao obsoleto, maneira astuta infalível de restituir ao livro seu caráter mobiliário, de coisa que se pode habitar, de conforto físico de seda e veludo, de sapatos retirados ao lado da cadeira, de sonoridade imprecisa intermitente que se repete a um nível subsônico (uma abelha na vidraça do quarto dos fundos, a chuva sobre o telhado, as folhas das árvores revoando singelamente, ou mesmo uma surreal motorneira ou uma força indistinta que simula o som de impacto abrupto arrastado de uma motorneira a três quarteirões de distância na noite escura e vazia), que embala nossa atenção languidamente ao sabor da prosódia descansada e profunda do livro (descansada, tensa e magneticamente profunda quanto A Arte da Fuga que escuto agora pela undécima vez enquanto escrevo, e que é a trilha sonora magnífica para tais leituras). Seu Rosto Amanhã nos restitui, a nós, os leitores insubmissos a fórmulas pequenas de grande sucesso ou apenas às triviais trapaças de mercado que apontam novas modas do romance para ver se pega, o direito de desprovermos de qualquer necessidade de cor para nos declararmos despreocupadamente como velhos leitores, portadores de carteira do clube e com direito a admissão seleta a qualquer hora, com café ou chá à espera, com nossa poltrona pessoal de couro, com a caixa de som de madeira em forma auricular apontada para o lado das cortinas, em que a música se distribui na melhor e mais apropriada acústica. Conhecer Javier Marías ano passado foi equivalente em intensidade ao recolhimento da descoberta de Thomas Mann aos 16 anos, em que Doutor Fausto me abriu as portas do gabinete do clube mesmo eu estando em uma chácara mineira da minha avó, com ganços e fogos-fátuos surgindo no campo de madrugada. Há poucos livros que se permitem morar neles; mesmo Doutor Fausto não é apropriadamente um deles, mas Thomas Mann foi o que mais criou romances-moradias, romances-castelos medievais, romances-asilos europeus (há uma redesignação deles em romances-salões de baile, Tolstói sendo seu representante máximo); há de ver que Montanha Mágica é o maior desse gênero de romances (por vezes ao ano, geralmente no inverno suíço, eu deito sobre  o meu divã e faço os três movimentos virtuoses que aderem plenamente o cobertor de couro de camelo por sobre meu corpo), mas também há a mansão em processo de falência dos Buddenbrooks, e todo o recanto oriental da aldeia de José e seus Irmãos. Javier Marías é o mais eficiente sucessor de Mann, considerando que seu conterrâneo, Vila-Matas, muitas vezes perde a maestria ao evidenciar demais os mobiliários e assoviar em volume impropriadamente alto, ou deixar o fogo da lareira descuidadamente um pouco acima do limite ideal, fazendo que fagulhas pulem para fora e queimem o feltro dos chinelos dos sócios. Só Javier tem a medida correta de acalanto, de rumorejo, de irresistibilidade, de pertencimento, de sossego despreocupado. só ele tem o volume valvar da voz que silencia tudo em torno e nos afunda no mundo. Bolaño conseguiu construir seu romance-moradia em 2666, mas o decorou com cores aberrantes demais (o que não é de se criticar, pois é um dos poderes do livro), que ofuscam as vistas para o enquadrar no cânone dos romances arquitetônicos. Junto a Marías, eu conheço, entre os escritores vivos, apenas um outro com a mesma genialidade estrutural, o italiano Claudio Magris. Mas Danúbio não é propriamente um romance, o que, apenas pelo valor conjuntural, coloca Marías na frente.

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Louis Gabriel Eugène Isabey- "Interior of an Alchemist`s Study"


Não à toa esses escritores_ os dois espanhóis, o castelhano e o italiano_ devem muito a Borges, o construtor por natureza de clubes de recolhimento nos quais se entra pelo fisicamente reduzido portal de um conto. A diferença do conto-moradia de Borges é que mal se senta em sua poltrona e distrai-se a olhar para as luminárias a meia luz do teto, já se tem que pegar seu bilhete carimbado de volta do mordomo perfeitamente cavalheiresco da entrada, e se dirigir para um outro ambiente com outra luz e canção atmosférica subliminar, pois um conto pode ser infinito mas materialmente mais curto que a biologia determinada do leitor por feixes neuronais que só se aquietam com uma longa e mimada constância. Mas em Borges, esse excepcional arquiteto, esses autores não bebem apenas a sua riquíssima criação autoral, mas também os outros arquitetos milenares da escrita que a erudição gigantesca de Borges surrupia e os usurpa como sendo seus. Borges tem tanto para ensinar a esses erguidores de palácios, que mesmo um outro autor de romances-moradias (um tanto sombrias e rumorejantes, mas ainda assim, ou talvez em razão disso, insuportavelmente sedutoras), Franz Kafka, recebe um olhar carregado de ineditismo, aponta marquises e ângulos de canto que o simples pernoite na obra original não nos deixa ver. Borges tem as lentes certas e os candelabros raros de luzes mais sofisticadas para nos guiar pelos clubes de construtores como H. P. Lovecraft, Arthur Machen, Sheridan Le Fanu; e é tanto maior o charme do recolhimento ao vermos que são mansões e casarões espaçosos cujo interior aquecido em nada adverte contra as charnecas cercantes e a aparência externa geral de total esquecimento e abandono. Borges reforça com tanto brilho os tons de malta do interior dessas moradias que nos torna improvável acreditar que um dia elas poderiam estar esquecidas. Magris tem a mesma dívida que Vila-Matas tem a Borges: o imaginário literário que o argentino guarda na maçonaria de seus conhecimentos históricos sobre o universo dos livros. Borges dá a cada página a esses escritores os marcos na paisagem em que eles devem se deter e observar, e Magris deve-o mais por escrever com semelhante requinte borgeano de insinuar espaços e tramas maiores que o poderiam comportar o parágrafo de um autor menos capaz e de menor talento. Em Magris constantemente vemos o movimento da paleta de Borges, sua forma de apreender uma verdade inalcançável através de gestos estudados de enfado altaneiro, como quem diz que sabe muito mais que anuncia, que vê mais que a fisiologia dos olhos ou a cegueira capacita (por isso a mim parece que entre as maiores páginas de Borges estão suas resenhas e prólogos minimalistas que cobrem meia página ou tão somente uma página inteira: como o dilema resolvido de Borges partisse de que tudo o que escreveu repete o ponto concêntrico no porão de onde se vê todo o universo, no O Aleph). 

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Em uma das partes mais magistrais de Seu Rosto Amanhã, o narrador conversa com um colecionador de livros, e ambos dividem o apreço que sentem por um dos autores borgeanos que nunca ouviu falar de Borges, o escritor galês de contos de terror Arthur Machen. O colecionador de livros, que é manco e sempre está na presença de seu cão com três patas, diz que a narrativa de terror surge pela união de elementos estranhos e incompatíveis, que de outro modo que não fosse o propósito de confeccionar o implausível aterrorizante jamais a providência dos fatos deixaria que se encontrassem. Assim, ele explica, apontando pela janela do apartamento londrino do narrador a bela vendedora de flores da esquina, se juntarmos o meu cão de três patas e aquela moça das flores, já temos ambiente mais que suficiente para o desdobramento de um passado escuro que transverte a singeleza da moça em crimes escondidos e monstruosidade. O colecionador diz que seu cão perdeu a perna ao serem ambos atacados por uma turma de delinquentes, que, ao verem-nos saírem de um pub, o espancou e prendeu seu cãozinho nos trilhos diante o trem que se aproximava. Isso aconteceu, conclui, por eu ter levado uma vida desregrada que me permitia frequentar lugares perigosos, em horários impróprios, de forma que levar pela vida toda a minha manqueira e meu cão se suster em três pernas em vez de quatro não é tão uma fatalidade quanto parece, mas uma consequência matematicamente plausível de que em algum momento o pior iria acontecer. Mas se víssemos aquela doce florista com um cão de três pernas, aí sim teríamos muito o que pensar e temer. A moça jamais deve frequentar ambientes reclusos e suspeitos, deve sair de sua barraca de flores e voltar cordatamente para a casa da mãe; sua vida é tão frugal e previsível, que a companhia de um cão de três patas revelaria a necessidade de que um desvio padrão acontecera em sua calma instância espiritual, um surto de loucura, em que ela teve por um momento em mãos uma faca, a chamada de intensa fúria reprimida pelo cãozinho que se esconde por debaixo da estante da cozinha...

sábado, 16 de junho de 2012

Dublinesca





Um dos álibis que se pode alegar contra os sinais anunciados da tão aclamada morte do romance é que mesmo seu definhamento consegue servir de tema para toda a obra de um dos mais relevantes romancistas da atualidade. Praticamente todos os livros do espanhol Enrique Vila-Matas tratam da morte do romance, utilizando-se para evidenciá-la de uma série de personagens cuja reação ao avanço de uma era de iletralidade é a da abstinência criativa ou a recusa pura e simples de escrever. Vila-Matas tece um jogo curioso de referências diretas aos mais importantes escritores da literatura, de forma a fazer produzir no leitor a “doença da literatura” que incapacita espiritualmente seus heróis, mas tem o cuidado mercadológico de não incorrer em modelos muito herméticos, abrindo as janelas de suas narrativas para que o ar de dias ensolarados tenha livre acesso. Vila-Matas, pois, se presta ao que grandes escritores que se recusaram a ser objeto de fetiche de uma minoria de apreciadores especialistas fizeram para alcançar o grande público: administraram suas caixinhas de truques e surpresas de forma a serem bastante permeáveis às vendas exponenciais, e com isso, mais uma vez, reforça a duração do romance. Recheia seus enredos de sombras, chuvas, sonhos, personagens misteriosos, equivalências que supõem a mágica, viagens para aprazíveis cidades históricas européias, micro-ensaios bem estruturados sobre livros, fofocas atuais ou muito antigas sobre escritores; além de servir-se da internet para propagar os personagens cuja face impressa jura que existem mas que as consultas pelo Google revelam inventados. A astúcia desse procedimento é que o leitor, na consulta, cai na rede de fãs que o autor arrebanha pelo mundo, à semelhança dos que se descabelam na escavação de códigos nas páginas de Thomas Pynchon.

Mas engana-se quem achar que Vila-Matas é apenas um leitor cuja leitura de todos os livros não deixou outra opção que fazer-se ele mesmo um funcionário de sua memorialística literária. Como na comprovação da excelência das costureiras, pode-se perceber o grande calo profissional que Vila-Matas tem na mão em seu recente romance, Dublinesca. Trata-se das aventuras de Samuel Riba, um editor aposentado que vive para ruminar os dias gloriosos do romance, dos quais participou ativamente, mesmo sem nunca ter encontrado o jovem gênio das letras que sempre procurara, e que, como ato ritual ao que ele vê como “o fim da Galáxia de Gutenberg” e a consagração decisiva da era digital, encena com um grupo de amigos o enterro do romance indo para Dublin no Bloomsday. Desde a primeira página vemos que só sobra a Riba o encerramento tortuoso no qual sucumbem os pacientes terminais; a cada passagem de seus dias na Espanha, à espera que chegue a data prevista para a viagem, intrudam-se elementos de pesadelos tomados da literatura que não lhe possibilita saber onde prossegue a realidade e onde se irrompe o sonho. Mesmo as visitas habituais a seus velhos pais, todas as quartas-feiras, que no mais não passam de tediosas obrigações cumpridas à risca, são contaminadas pelo onírico que escapa dessas frestas do cotidiano.

Mesmo Riba sendo o que ele vê como uma versão mais velha e culta de um hikikomori, nome que se dá aos jovens japoneses que já se alienaram do mundo trancando-se nos quartos das casas dos pais e não saindo de frente do computador, pois ele mesmo sucumbe às horas pesadas de exposição ao Google, não lhe escapa a verdade de que a cada dia vai se tornando mais e mais obsoleto. Sua esposa se converte ao budismo, e, numa determinada cena em que Riba a observa dormindo, está mais jovem e possuída de uma beleza plena. Sua viagem a Dublin, a qual era a última chance de integrá-lo a algum significado de pertença_ mesmo que fosse de pertencer a um grupo que se enterrava sob um réquiem de resignação à modernidade_ se mostra, apesar da beleza da paisagem em que Riba se identifica como pertencendo ao mar da Irlanda, um completo fracasso na comunicação com os amigos.

A bela editoração da CosacNaify complementa a alusão de que Vila-Matas trata de temas profundos com uma leveza que não se corrompe por nenhuma das duas opções (deixar de ser leveza aniquilando-se na imanência das matérias tratadas, ou tornando-se superficialidade pura): a ilustração da capa, as letras grandes, a feição corporal de objeto perfeitamente comestível e um quê do requinte de ornamento de mesa de catálogos fotográficos. Mas Vila-Matas prescinde desses artifícios, ainda que eles complementem a sua arte. O livro vale por suas reflexões requintadas sobre a modernidade, sua ironia fina sobre a geração de cultores virtuais em que a maioria da humanidade está se tornando, sua prosa que não é permissiva e não faz concessões, seus resvalos gratificantes numa premonição de níveis mais profundos do discurso. Mesmo as partes que cairiam na ineficiência e no desgaste, Vila-Matas as convertem em agilidade perfeitamente convincente.

terça-feira, 6 de março de 2012

Capando Gatos


Estou numa velocidade lentíssima para concluir Bartleby e companhia, de Enrique Vila-Matas. Agora não se trata de provocação: esse livro vai entrar para minha lista de piores livros de todos os tempos. Eu me julgo um excelente leitor, desprovido de preconceitos e adepto de não me deixar levar pelas opiniões institucionalizadas sobre escritores e livros, mas minha própria preguiça em demorar para chegar até o final de cada página de Bartleby é um sinal unívoco da minha opinião já formalizada sobre essa obra. Receio que o Doutor Pasavento  ficará longo tempo me esperando na estante.

Não sei, acho que o que me inquieta mais em Bartleby é Vila-Matas levar até consequências arriscadas sua teoria mistificadora sobre o papel do escritor. O escritor para Vila-Matas é um ser predestinado, não um simples ser humano qualquer, o que, de certa forma ligada à vontade de procura por distinção espiritual, eu concordaria; mas Vila-Matas não pega essa estrela na testa com a mesma ótica do sofrimento da busca de sentido de um Dostoiévski ou de um Camus; ele a deriva para uma imagética puramente instrumental. O escritor, para Vila-Matas, é um ser que tem a relevância dos animais perturbados, pela simples inconveniência de que põe-se  a executar os movimentos da escrita ou abstêm-se de fazê-lo, e nessas hipóteses o que realmente interessa é somente a própria perturbação. A prova de que o fetiche do escritor se resume ao ato físico insofismável da escrita se revela por sua admiração se centrar justo naqueles que se negaram a executar tal gesto. O que impressiona Vila-Matas é a quietura da mão, não a sugestão do que essa mão inflamada pela Chama poderia criar. E Vila-Matas fica tão estacionado nesse espanto carregado do mobiliário de sua ortodoxia, que não vê que está a escrever um romance policial, já que, como a gênese desses romances se sustem no jogo de regras programadas para descobrir-se um mistério oculto,seus livros também exigem que os motivos patológicos da afasia de seus personagens sejam revelados no final de um extenso atirar e recolher de dados. O grande pecado de Vila-Matas é, se percebe isso, não desenvolver os passos seguintes da confecção do policialesco, e se recusar a fazê-lo não sei por quais melindres de uma auto-consciência que se julga acima do que não seja a exposição erudita de segredos mais elevados, não simplesmente mundanos.

Essa obsessão pelo ato mecânico da escrita, que se espalha generosamente em Bartleby, pode levar seus seguidores a cometer o equívoco de acreditar que escrever é somente escrever. Mera datilografia, como Truman Capote definiu para o descarte definitivo da escrita de Jack Kerouac. Escrever e escrever até que a mágica aconteça, ou a escrita se instale de vez numa categoria empregatícia formalizada de carteira assinada e a quantidade de laudas estipulada por dia para contar na aposentadoria e no direito das férias anuais remuneradas. Preencher maniacamente todas as superfícies brancas até que uma floresta inteira justifique a atividade motora mais infundadamente nobre da espécie humana. Isso me fez lembrar de quando eu era aluno do último ano de veterinária e eu e um amigo participamos de uma campanha para erradicar a gestação em gatas de rua. Era-nos entregue sacos e sacos de gatas vivas e em questão de minutos, as anestesiávamos, abríamos, retirávamos seus ovários, costurávamos, e as atirávamos delicadamente para uma sala de recuperação. Fazíamos isso de modo tão mecânico, que contávamos piadas e ríamos durante toda a noite. Uma certa gata deu-nos trabalho: procuramos onde estava seus ovários, revirávamos ela de alto a baixo e nada. Profundamente espantados, olhamos mais uma vez e descobrimos a causa do mistério: era um gato.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Desabafo (ou, Um Viagra para Ler Vila-Matas)



Colocando de lado o apreciador crítico doutrinado de literatura, deixando-o descansar (sem que me ouça), e dando livre expressão ao meu mais íntimo desabafo, pergunto: por que a literatura atual é tão chata? Passa-me pela cabeça essa noção de que um ranço de falta de tesão domina a escrita dos últimos 20 anos, enquanto leio, nessa tarde de calor silenciosa de domingo, o escritor espanhol Enrique Vila-Matas. Já li vários livros de Vila-Matas, e esse agora, Bartleby e Companhia, saquei-o da estante com a impressão de que seria um intermezzo divertido e rápido à leitura mais séria que venho tendo com meu ciclo de Proust. Não posso dizer que Vila-Matas me decepcionara. Dos cinco ou seis livros que li dele, gostei de Dublinesca (há uma resenha dele por aqui), mas esse, como todo o restante desse autor, agrada a uma parte de meu ego de leitor que nada tem a ver com o prazer da leitura, mas tem a ver com_ e aqui, ofereço-me em penitência, pois trata-se de uma coisa da qual nutro profundo desprezo_ do vestígio de seguidor de modas acadêmicas que infere em meu lado de consumidor de ideias. Vila-Matas é um porre, diga-se de uma vez. Esse Bartleby, 47 páginas que li, é muito chato, com seu insight de ser um compêndio de notas de rodapé, e não um romance propriamente dito. Eu vim de uma geração de leitores que se satisfazia com uma leitura onde estética e movimento se equilibravam sem que uma sobrepujasse a outra, uma geração de leitores que adora a literatura sanguínea norte-americana, os grandes cowboys da literatura latino-americana, e de tudo aquilo que rondasse a rede de coalizões de paixões humanas registradas pelos russos pré-revolucionários. Por isso, para cada Vila-Matas imberbe, fascinado apenas por seu talento oracular de pregar a um bando de pretensos escritores de universidades, anteponho um Richard Ford, um Cormac McCarthy, um bom Turgeniev, um desses Günter Grass com o qual nem o cinema pode com ele, ou um Cândida Erêndira ou qualquer conto de Àngel Astúrias que faça sentir de novo a pulsação. Depus de lado o Bartleby, sentindo uma súbita saudade de um romancinho de 100 páginas que li há anos, Vida Selvagem, de Richard Ford, que me faz até hoje sentir a delícia daquela história onde não se falava de livros, ou da morte de livros, ou da porra do manual que o escritor blassé deve seguir para ser um francês pendurado nas portas internas dos armários de um tipo muito específico e inútil de nerd das letras, mas se falava da vida e de seres humanos. Lembrei-me de Todos os Belos Cavalos, um romancinho de cento e poucas páginas de Cormac McCarthy, que ainda hoje me faz idealizar o quanto perdi em não ser um adestrador de cavalos caído por força do mais atroz destino na fronteira entre México e Estados Unidos, o quanto seria feliz com isso.

Agora que falo com minhas angústias mais sinceras de leitor, declaro em alto e bom som: Vila-Matas é um escritor frouxo para leitores frouxos. Assim como grande parte da literatura de Bolaño é pura esculhambação à literatura, não chegando nem aos pés de várias coisas que Garcia Marquéz, Vargas Llosa e Cortázar escreveram. Vamos pegar o Mal de Montano, aquelas 300 páginas que fala... fala do quê, mesmo?... de absolutamente NADA. Resumo de O Mal de Montano: (tento lembrar, pois os 3 meses que me separam da leitura já quase a apagou por completo) um narrador, que é escritor, sofre de uma doença que é a compulsão  para os livros, o anulando por completo para qualquer outro assunto humano, e daí vai; a narrativa passa por clínica freudiana que tenta desbaratar o leitor do que está lendo, passa a diário de viagem, para, então, acabar. Lê-se o livro, e do livro nada sobra na memória. Estamos mal com os escritores ibéricos. Gonçalo Tavares também é um chute no saco. Para quem gosta de arquiteturas, desde que não seja exigente. A literatura atual emula da pior forma aquelas escolas de início do século passado que já passam de mortas: a morte do personagem, do enredo, de sentido. Pensam estar à altura de Kafka ou Joyce, e só são a mais descartável das literaturas. Seus livros só sobrevivem por transverterem o ditado popular e venderem pelas capas. Eu mesmo comprei Vila-Matas pelas belas capas da Cosacnaify. E eu confessei ter gostado de Dublinesca? Pois bem, desenvolve-se uma certa relação de consideração sentimental ao primeiro livro. Esse foi meu primeiro Vila-Matas, e me deixei levar pelo bloomsday, por aquelas reflexões sobre a Galáxia de Gutemberg sendo suplantada pela Galáxia do Google, os amigos exóticos do herói, sua recaída alcoólica num bar da Irlanda, seus conflitos com a esposa. Nada que corresponda aos livros que sempre me ficarão na memória; nada como O Leilão do Lote 49, Ratos e Homens, ou Ninguém Escreve ao Coronel.

Alguma análise freudiana desvendaria o objeto oculto por detrás de Vila-Matas, seu recalque por não ser um ensaísta ou crítico, e ter se aventurado na seara do romance. Vila-Matas está no meio termo de um fracassado seguidor de Harold Bloom e Jorge Luis Borges. Não é nem uma coisa nem outra, mas tentou fundir essas influências fazendo trabalhar seu conteúdo erudito de (para servirmos de uma expressão cara a ele) alguém que leu todos os livros. Dessa forma, as referências veladas a Borges são grandes em seus livros, como em Bartleby vemos a menção humorada do copista Pierre Menard. Na verdade, Vila-Matas realizou sua pretensão de ser um autor cult e admirado por uma classe seleta de literatos. Lembra-me aquela cena final de Amadeus, onde um Salieri moribundo sai empurrado em sua cadeira de rodas abençoando aos alienados do hospício onde estava internado: "Bem-aventurado sejamos nós, os medíocres!". Pois é essa escola que autores como Vila-Matas pretendem fundar, a escola dos medianamente capacitados, dos que nunca teriam voz em momentos substanciais de crise política, dos que invadem a impressão de substância pelas portas dos fundos, ajudados em muito pela escassez histórica de grandes ideias, de grandes enredos, de grandes vozes. A ausência de tempos interessantes, na expressão chinesa tomada de empréstimo por Hannah Arendt, esses autores sobejam na desimportância flácida do longo momento. O que seria de Vila-Matas se tivesse tido o azar de nascer na Checoslováquia da terceira década do século passado? Se o destino tivesse-lhe lançado em mãos a chama do conteúdo legítimo? Teria a capacidade de tornar-se um Kundera? Ou sofreria a antecipação pragmatizada de seus infinitamente repetitivos personagens que abstem-se de escrever?

Mas não podemos culpar Vila-Matas de ser uma fraude. É um escritor de talento, um manejador de certo poder da capacidade mercadológica da frase, e, o que é objeto de intensa procura minha em seus textos e, vez ou outra, sinto ter apreendido: detentor de uma fina auto-consciência irônica da flacidez acomodada desse inglório início de século. Vila-Matas encorpora, com competência, a liderança inspiradora a um sem número de pessoas sequiosas para ganhar a vida com o intelecto e que são suas cópias de bom nascimento e vaidades estéticas, aqueles que procedem de bons colégios, de boas universidades, com títulos de altas graduações em letras, e que, cientes de serem apenas emuladores eruditos do sofrimento humano, repetem os movimentos de mãos zelosos que os reais escritores que trabalhavam com esse sofrimento faziam. Esses catedráticos sentem um profundo agradecimento por escritores famosos como Vila-Matas existirem, pois legitimam que, não podendo ser Dostoiévski, Hemingway, Saul Bellow ou Faulkner, podem se espelhar na mesma insonsidez elegantemente histriônica e não exigidora de forças desses metalinguísticos. Que boa sorte a única capacitação para ser um Vila-Matas é ter lido todos os livros!

O que falta a esses metalinguísticos é uma noção mais aprofundada da história, para terem base de fundamentação da fé em que esses tempos de marasmo e boçalidade não venham a ser interrompidos por nenhuma conflagração de crises econômicas e embates internacionais, por fome e supressão das leis, por desestabilidade das crenças idiossincráticas do que sejam os valores da humanidade hoje. Pois quando essa flacidez é interrompida, tais pensadores de gabinete costumam ser severamente esquecidos nos desvãos dessa história, os Robbe-Grillet são tragados pela chama e o único personagem com uma certa lucidez justificável nos romances de Vila-Matas acaba sendo o Juan do Bartleby, que afirmava que o último escritor que tinha algo a dizer era Musil.

Agora me resta esperar que eu recobra a razão e volte a ler Bartleby com agradecimento.

(Isso é que dá ler Tolstói durante 4 meses, e estar-se a ler Proust.)

sábado, 27 de agosto de 2011

Algo Cintila no Tecido Esgarçado_ Vila-Matas escrevendo sobre Sebald

W. G. Sebald

Passa uma gaivota e sigo-a, e lembro certos comentários de W.G.Sebald acerca do mistério e da incidência do gênero fantástico no excêntrico, certos comentários também sobre supostas casualidades e coincidências que poderiam não ser o que são se contássemos com melhores meios de percepção, não sê-lo porque, na noite dos séculos, ficamos, um dia, depois que se ouviram disparos no paraíso, muito limitados mentalmente: "Prefiro escrever sobre pessoas bastante excêntricas e o excêntrico tem algo de fantástico. Esse tipo de coisa, além do mais, também nos sucede. A mim, por exemplo, aconteceu recentemente de estar num museu de Londres para ver dois quadros. Atrás de mim estava um casal que, creio, conversava em polonês. Um cavalheiro e uma dama, de aspecto muito estranho, não pareciam de nosso tempo. Depois, à tarde, precisei ir à estação de metrô mais periférica de Londres, uma cidade de quinze milhões de habitantes. Não havia ninguém. Salvo esses dois do museu. Ali estavam."

Sebald é um grande leitor de Borges, a quem sempre elogiava por compreender muito cedo o erro que supôs expulsar a metafísica da filosofia. Porque de fato, diz Sebald, há coisas que não podemos explicar facilmente, e porque, para além do social, faz parte de nossa condição humana, antes mais que agora, manter certa relação com os que nos antecederam. Recordar os mortos é algo que nos distingue da animalidade.

Sou um espião e constante leitor de Sebald, de suas longas caminhadas à Robert Walser, de sua exploração do mundo dos mortos, de suas incursões fantásicas no espaço dos excêntricos. Comentando o caso raro dos poloneses da estação periférica, disse Sebald: "Não são casualidades, mas em alguma parte há uma relação que de quando em quando cintila através de um tecido esgarçado."
                                             (O mal de Montano, Enrique Vila-Matas)

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Dublinesca




Um dos álibis contra os sinais anunciados da tão aclamada morte do romance é que mesmo seu definhamento consegue servir de tema para toda a obra de um dos mais relevantes romancistas da atualidade. Praticamente todos os livros do espanhol Enrique Vila-Matas tratam da morte do romance, utilizando-se de uma série de personagens cuja reação ao avanço de uma era de iletralidade é a da abstinência criativa ou a recusa pura e simples de escrever. Vila-Matas tece um jogo curioso de referências aos mais importantes escritores, de forma a produzir no leitor a “doença da literatura” que incapacita espiritualmente seus heróis, mas tem o cuidado mercadológico de não incorrer em modelos muito herméticos, abrindo as janelas de suas narrativas para que o ar de dias ensolarados tenha livre acesso. Vila-Matas, pois, se presta ao que grandes escritores que se recusaram a ser objeto de fetiche de uma minoria de apreciadores especialistas fizeram para alcançar o grande público: administraram suas caixinhas de truques e surpresas de forma a serem bastante permeáveis às vendas exponenciais, e com isso, mais uma vez, reforça a duração do romance. Recheia seus enredos de sombras, chuvas, sonhos, personagens misteriosos, equivalências que supõem a mágica, viagens para aprazíveis cidades históricas européias, micro-ensaios bem estruturados sobre livros, fofocas atuais ou muito antigas sobre escritores; além de servir-se da internet para propagar os personagens cuja face impressa jura que existem mas que as consultas pelo Google revelam inventados. A astúcia desse procedimento é que o leitor, na consulta, cai na rede de fãs que o autor arrebanha pelo mundo, à semelhança dos que se descabelam na escavação de códigos nas páginas de Thomas Pynchon.

Mas engana-se quem achar que Vila-Matas é apenas um leitor cuja leitura de todos os livros não deixou outra opção que fazer-se ele mesmo um funcionário de sua memorialística literária. Como na comprovação da excelência das costureiras, pode-se perceber o grande calo profissional que Vila-Matas tem na mão em seu recente romance, Dublinesca. Trata-se das aventuras de Samuel Riba, um editor aposentado que vive para ruminar os dias gloriosos do romance, dos quais participou ativamente, mesmo sem nunca ter encontrado o jovem gênio das letras que sempre procurara, e que, como ato ritual ao que ele vê como “o fim da Galáxia de Gutenberg” e a consagração decisiva da era digital, encena com um grupo de amigos o enterro do romance indo para Dublin no Bloomsday. Desde a primeira página vemos que só sobra a Riba o encerramento tortuoso no qual sucumbem os pacientes terminais; a cada passagem de seus dias na Espanha, à espera que chegue a data prevista para a viagem, intrudam-se elementos de pesadelos tomados da literatura que não lhe possibilita saber onde prossegue a realidade e onde se irrompe o sonho. Mesmo as visitas habituais a seus velhos pais, todas as quartas-feiras, que no mais não passam de tediosas obrigações cumpridas à risca, são contaminadas pelo onírico que escapa dessas frestas do cotidiano.

Mesmo Riba sendo o que ele vê como uma versão mais velha e culta de um hikikomori, nome que se dá aos jovens japoneses que já se alienaram do mundo trancando-se nos quartos das casas dos pais e não saindo de frente do computador, pois ele mesmo sucumbe às horas pesadas de exposição ao Google, não lhe escapa a verdade de que a cada dia vai se tornando mais e mais obsoleto. Sua esposa se converte ao budismo, e, numa determinada cena em que Riba a observa dormindo, está mais jovem e possuída de uma beleza plena. Sua viagem a Dublin, a qual era a última chance de integrá-lo a algum significado de pertença_ mesmo que fosse de pertencer a um grupo que se enterrava sob um réquiem de resignação à modernidade_ se mostra, apesar da beleza da paisagem em que Riba se identifica como pertencendo ao mar da Irlanda, um completo fracasso na comunicação com os amigos.

A bela editoração da CosacNaify complementa a alusão de que Vila-Matas trata de temas profundos com uma leveza que não se corrompe por nenhuma das duas opções (deixar de ser leveza aniquilando-se na imanência das matérias tratadas, ou tornando-se superficialidade pura): a ilustração da capa, as letras grandes, a feição corporal de objeto perfeitamente comestível e um quê do requinte de ornamento de mesa de catálogos fotográficos. Mas Vila-Matas prescinde desses artifícios, ainda que eles complementem a sua arte. O livro vale por suas reflexões requintadas sobre a modernidade, sua ironia fina sobre a geração de cultores virtuais em que a maioria da humanidade está se tornando, sua prosa que não é permissiva e não faz concessões, seus resvalos gratificantes numa premonição de níveis mais profundos do discurso. Mesmo as partes que cairiam na ineficiência e no desgaste, Vila-Matas as convertem em agilidade perfeitamente convincente.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Enrique Vila-Matas



"Considera-se tão leitor como editor. A edição lhe roubou basicamente a saúde, mas parece que em parte roubou também o bezerro de ouro do romance gótico, que forjou a lenda idiota do leitor passivo. Sonha com o dia em que o fim do feitiço do best-seller dê lugar à reaparição do leitor com talento e se recoloquem os termos do contrato moral entre autor e público. Sonha com o dia em que os editores literários possam respirar de novo, aqueles editores que se desdobram por um leitor ativo, por um leitor suficientemente aberto a ponto de comprar um livro e permitir em sua mente o desenho de uma consciência radicalmente diferente da sua própria. Acredita que, se é exigido talento de um editor de literatura ou de um escritor, deve se exigir talento também do leitor. Porque é preciso não se enganar: a viagem da leitura passa muitas vezes por terrenos difíceis que exigem capacidade de emoção inteligente, desejos de compreender o outro e se aproximar de uma linguagem distinta de nossas tiranias cotidianas. Como diz Vilém Vok, não é tão simples sentir o mundo como Kafka o sentiu, um mundo no qual se nega o movimento e em que se torna impossível sequer ir de um povoado a outro. As mesmas habilidades necessárias para escrever são necessárias para ler. Os escritores decepcionam os leitores, mas também acontece o contrário e os leitores decepcionam os escritores quando só buscam nestes a confirmação de que o mundo é como eles o veem..." (Dublinesca, tradução José Rubens Siqueira, editora CosacNaify, p. 69)