A Júlia adora música. É uma personalidade extremamente musical. Vive executando passos de danças pela casa. Prefere Black Sabbath a Led Zeppelin, o que destoa de mim. Adora música minimalista: declara com franqueza tocante a beleza despertada nela pelas músicas de Steve Reich e Philip Glass. Até bem pouco tempo, assistíamos Powaqqatsi no mínimo duas vezes por semana, logo após 2001_ hoje restringimos para uma vez por mês. Ela adora as sinfonias de Beethoven, os concertos para violino de Mozart assinados pela Anne-Sophie Mutter, as sonatas para flauta de Bach. Quando coloco para tocar alguma música que me toca profundamente, sei que ela surgirá do quarto, escorará o queixo em meu ombro e dirá: que música linda, papai! Ela puxou de mim, como dizem, essa felicidade para a música, essa introspecção acolhedora que torna a solidão a melhor amiga. Por vezes fica sentada diante o quintal de casa, comendo uma fatia de pão, enquanto escuta a música vindo da sala (pois constantemente e quase sem interrupção, estamos a ouvir música), enlevada, e eu lhe pergunto o que essa música lhe traz à cabeça. Suas respostas sempre são surpreendentes e de elevado grau poético. A derradeira vez que me respondeu, ouvindo To the unknow man, do Vangelis, disse lhe vir a cena de crianças brincando em um parque. Antes de ontem, no ciclo de músicas brasileiras que estamos a escutar, ouvimos juntos pela primeira vez Meus caros amigos e Construção, do Chico Buarque. Foi só uma vez. Passeamos à tarde de carro, e ela de ora em ora cantava "O que será, que será", indo bem à frente na letra antes de se perder na emulação não-verbal do ritmo. O banho da noite fazemos sempre juntos, eu a ensaboo e ela me ensaboa de volta e passa shampoo em meus cabelos. Depois ela pede para que eu faça a roda, em que se senta no espaço das minhas pernas fechadas em círculo no chão. Então, para minha surpresa, do nada, ela passa a me perguntar coisas sobre a música Construção, recitando estrofes inteiras com uma correção espantosa. Remete a outra música do álbum ao perguntar como é possível existir beijo de café e beijo de feijão. E o que era aquilo de morrer na contramão atrapalhando o tráfego, e atrapalhando o sábado, que isso não se faz não é papai?, que como era possível que a música criticasse a ação do homem quando o que o homem havia feito era morrer, o que é muito mais sério do que apenas atrapalhar o tráfego. Eu me desmancho de admiração e dou grandes gargalhadas, o que a aflige porque eu demoro a lhe explicar. Minha filha de 5 anos debatendo sobre uma música de um dos maiores compositores do mundo. Então é assim, Chico, eu penso, que eu vou paulatinamente aprendendo a gostar de você?