Um dos pesos de consciência que tenho como leitor é jamais conseguir ler de cabo a rabo uma revista. Tentei várias vezes, mas sou incapaz desse exercício severo de disciplina. Sou um leitor bastante indisciplinado e, convenhamos, nessa altura da vida tenho que me resignar com alegria a esse traço irretocável de caráter. Meus amigos leitores da vida real, por ironia do destino, são patologicamente dogmáticos. Estava caminhando com um deles ontem e ele recuou um passo diante o susto ao me ouvir dizer que estava lendo cinco livros de uma vez. "Eu jamais faço isso", ele disse, "pego um livro apenas e vou nele até o final". E tem a questão dos sublinhamentos, que sempre pensei em fazer um texto específico sobre isso; nenhum desses meus amigos sublinham seus livros, enquanto eu risco, sem dó, usando uma régua e uma caneta respeitosas, todas as partes que me tocam e que, se eu não as individualizasse entre as milhares de páginas que tenho na biblioteca, jamais tornaria a rever a maior parte delas, ficariam perdidas para sempre. O que é que faz com que tais amigos não sublinhem seus livros? Um temor de que algum dia tenha que vendê-los? De que, se os emprestar, a pessoa portadora vai se incomodar com os riscos? Pois eu jamais venderei o menor e menos amado de meus livros, assim como raríssimas vezes empresto algum deles (também tenho uma opinião misógina sobre empréstimo de livros; trata-se de uma questão delicadíssima, na qual me vi muitas vezes vilipendiado pelo costume do vulgo em não dispender o mínimo respeito a livros, como se livros fossem sacolas de pão que não exigem melhores tratos do que jogá-los por sobre a mesa e consumi-los dentro de um prazo de validade; não empresto e não tomo emprestado livros, visto que sempre que tomo emprestado sinto a compulsão de adquirir o volume).
Mas esse texto solto e irresponsável de sábado, que escrevo não para o deleite dos esporádicos frequentadores do blog mas para retardar um pouco mais a inglória tarefa que tenho pela frente em limpar sozinho a casa (a patota chega de volta amanhã; qual música ouvir durante a limpeza?, tendente a Crosby, Stills & Nash, ou Crosby, Stills, Nash & Young, e mais um The Jayhawks que se casam bem com o ar chuvoso desse começo de sábado). Então vamos lá. Uma vez me propus enfim a ler toda uma revista Piauí. A começar pelo início_ sempre leio de trás para diante. Mas me detive diante um artigo sobre futebol, o que atrapalhou definitivamente o processo. Eu não leio nada sobre futebol, essa é uma das poucas certezas insofismáveis e bem resolvidas da minha vida.
Ontem me detive novamente diante um conto curto de Bernardo Carvalho, na edição da Piauí desse mês. Leitor sistemático da Piauí, mesmo pulando páginas, sei que há arranjos nessa revista para se fazer de interessante e cool que me causam bastante suspeita. E ver um texto do Bernardo Carvalho, curto, intitulado "Deus é burro?", me fez puxar mais uma vez o laço do cavalo. Não perderia tempo com um texto astucioso, colocado ali por obrigações compulsórias de ambas as partes, do autor e da revista (afinal, para o padrão da Piauí, que publica textos infindáveis, ter um de apenas duas páginas como aquele afirmava sua função de tamponamento de espaço sobrante). Mas eis que começo a lê-lo, o acho a princípio fraco, mas logo, lá pelo final, Bernardo (que é, mesmo na opinião desse insuficiente leitor de literatura brasileira que sou eu, o melhor de nossos autores, disparado) solta aquilo que já foi definido por um importante ficcionista metalinguístico, a "estocada repentina que o autor dá em seu leitor", aquilo que faz os cabelos da nuca arrepiarem e a mensagem ser entregue com catarse satisfatória e imprevisível. E o que ele disse, consubstanciava-se ao romance de Saramago que eu estava lendo, "O homem duplicado". Carvalho, das poucas coisas que li dele, sempre se me mostrou um autor profundo. Ele sempre tem algo para dizer, tocante, relevante, sério. Daí que foi essa fé de meu inconsciente que fez com que eu lesse o conto dele até o fim. O texto é mais uma narrativa em forma de prólogo a uma suposta obra de Blaise Pascal esquecida e recém descoberta pelo papa Francisco. É um exercício temático borgeano, (embora o autor se restrinja a não copiar o estilo de Borges), em que se é mostrado um Pascal de uma terceira fase de revelação mística cujo mote surpreendente é uma definição deísta que aponta para um total ateísmo. Até aqui, um texto bem costurado, sem sarcasmos ou humorzinho fútil de diversão, com um tom que beira coisas contundentes ditas por Dellilo e outros autores. Mas o que me provoca a catarse nada tem a ver com as questões religiosas levantadas. Talvez eu seja mesmo um leitor espantosamente lúcido e excepcional, pois adquiro daquele textinho toda a astúcia que Bernardo parece querer passar, usando a superfície inteligente da questão irrisória da contradição pascaliana. Bernardo está a falar sobre literatura e seus poderes em nossa época de boçalidade virtual, eu penso, mas como muito já foi dito sobre isso, muito se critica sobre a geração facebook e tal, ele, grande escritor que é, utilizou um escorço na escrita, caminhou pela senda muito caminhada para então dobrar por um atalho súbito e não visto; usou o tema da religião para falar sobre o quanto a linguagem vem perdendo seus condimentos históricos, suas nuances e suas riquezas. O Pascal de Bernardo é um Dimitri Karamazóv, um profeta niilista absoluto. Não sou adepto a citações, mas seria um crime se eu não colocasse aqui toda o grandioso coração do conto de Bernardo Carvalho:
"Pascal, nostálgico das suas façanhas de jovem inventor, imagina uma máquina de se expressar que leva os homens a tornar tudo imediatamente público, a começar por suas vidas íntimas, seus sentimentos menos elaborados. Os sentimentos mais egoístas, que antes só eram expressos na esfera privada, porque manifestá-los em público significa comprometer-se (uma vez que esses sentimentos também expõem uma burrice e uma truculência que já não disfarçam o objetivo de destruir tudo o que não estiver a seu serviço e a seu favor), passam a ser proferidos simultaneamente, com orgulho e empáfia, em alto e bom som. A vergonha e o pudor moral foram banidos desse mundo e não fazem mais nenhum sentido na distopia imaginada pelo filósofo. E, como em princípio cada um desses indivíduos, além de exprimir seu interesse incompatível com os interesses dos demais, também fala em nome de Deus e o define de um modo incompatível com os demais, sendo o que todos dizem, ao mesmo tempo, acreditar num único e mesmo Deus absoluto, como hoje dizemos da democracia, fica clara, a um só tempo, não apenas a exigência de uma igreja unificadora de sentido, mas que esse Deus simplesmente não existe nem poderia existir. Nunca."
E aqui entra as dificuldades que eu estava tendo para chegar ao fim de "O homem duplicado", de José Saramago. Trata-se de um dos mais elogiados romances de Saramago, convertido em cinema por um cineasta holywoodiano. Li até a metade com deleite, sentindo o quanto retornar à prosa do autor português era uma alegria. Encomendei-o pela livraria local e veio dois, e um de meus amigos leitores o comprou e marcamos de lê-lo em comunhão para futuras conversas. Mas empaquei na metade para o final. Uma pulga saltou-me para trás da orelha e me lançava mensagens sobre se Saramago ali não estava me enrolando. Se Saramago ali não era mais o grande escritor de romances recolhidos como o magnífico "O ano da morte de Ricardo Reis", mas um comerciante nobeliado que aproveitava da grife que se tornou seu nome para fazer mais uns excelentes trocados. Pois o romance parecia estacado em volta de sua própria cauda. E depois da leitura desse conto de Carvalho, volto com afinco para as páginas do romance de Saramago, já desconfiado do leitor de merda e de pouca fé que eu sou. (Aqui entram elementos subjetivos da leitura: o assustador preconceito de alunos portugueses da Universidade de Coimbra contra estudantes brasileiros, aparecido nos jornais nacionais há poucas semanas, e a troca ainda mais assustadora de xingamentos entre brasileiros e portugueses pela internet devido a isso; e um link que o Matheus me mandou por e-mail de um artigo de jornal português falando sobre o passado de possível comunista truculento de Saramago, quando Saramago era diretor do Jornal de Notícias de Portugal; tais notícias me indispondo sem que eu veja e pondere racionalmente o peso de tais questões, me enquadrando no diagnóstico pouco alentador do conto de Carvalho.)
Leio até o final "O homem duplicado", com ira, tentando enfim tardiamente me inserir nas fileiras dos leitores de correção militar e me ensinar à marra um pouco de ortodoxia. Dispenso os afazeres comprometidos do dia, coloco para tocar as sublimes sonatas para piano executadas por Ronald Brautigam, e me assumo em férias diante o romance de Saramago. E Saramago aqui me surpreende mais uma vez. Se durante a leitura venho medindo forças entre ele e Javier Marías para ver quem é o melhor, Saramago faz aqui o mesmo nível de mestria que Marías faz em "Os enamoramentos". Abandonar Saramago pela metade seria um erro enorme. O homem duplicado é uma obra fechada, seleta, minuciosamente construída, e que só revela seu sentido e coesão quando chegamos às belíssimas últimas páginas, assim como acontece com o romance de Marías. Ali a força da escrita renovada, o acontecimento gratificante da palavra, e uma das formas de levar os melhores genes adiante da humanidade, de confrontar sossegadamente a bestialidade do que jaz lá fora. Tudo o que Saramago ia fazendo que a mim parecia excessiva dedicação aos movimentos cotidianos de seus personagens, não era outra coisa que reafirmar conscientemente em sua arte o papel de individualidade em um mundo em que, nas palavras de Carvalho, força-se para imperar a "burrice e a truculência". Por isso eu, um leitor tão auto-arvoradamente primoroso, deixei escapar por elementos discriminativos vagos e vazios, o que Saramago estava a dizer, deixei que me faltasse a perspectiva certa para apreender o quanto profundamente significantes eram os movimentos de Tertuliano Máximo Afonso, o personagem do livro, em seu apartamento, em sua sala de aula como professor de história. É muito bom sentir o ensejo e a paixão da literatura legítima em tais exemplos com equívoca e maquiavélica roupagem trivialesca nessas duas obras.
E aqui entra as dificuldades que eu estava tendo para chegar ao fim de "O homem duplicado", de José Saramago. Trata-se de um dos mais elogiados romances de Saramago, convertido em cinema por um cineasta holywoodiano. Li até a metade com deleite, sentindo o quanto retornar à prosa do autor português era uma alegria. Encomendei-o pela livraria local e veio dois, e um de meus amigos leitores o comprou e marcamos de lê-lo em comunhão para futuras conversas. Mas empaquei na metade para o final. Uma pulga saltou-me para trás da orelha e me lançava mensagens sobre se Saramago ali não estava me enrolando. Se Saramago ali não era mais o grande escritor de romances recolhidos como o magnífico "O ano da morte de Ricardo Reis", mas um comerciante nobeliado que aproveitava da grife que se tornou seu nome para fazer mais uns excelentes trocados. Pois o romance parecia estacado em volta de sua própria cauda. E depois da leitura desse conto de Carvalho, volto com afinco para as páginas do romance de Saramago, já desconfiado do leitor de merda e de pouca fé que eu sou. (Aqui entram elementos subjetivos da leitura: o assustador preconceito de alunos portugueses da Universidade de Coimbra contra estudantes brasileiros, aparecido nos jornais nacionais há poucas semanas, e a troca ainda mais assustadora de xingamentos entre brasileiros e portugueses pela internet devido a isso; e um link que o Matheus me mandou por e-mail de um artigo de jornal português falando sobre o passado de possível comunista truculento de Saramago, quando Saramago era diretor do Jornal de Notícias de Portugal; tais notícias me indispondo sem que eu veja e pondere racionalmente o peso de tais questões, me enquadrando no diagnóstico pouco alentador do conto de Carvalho.)
Leio até o final "O homem duplicado", com ira, tentando enfim tardiamente me inserir nas fileiras dos leitores de correção militar e me ensinar à marra um pouco de ortodoxia. Dispenso os afazeres comprometidos do dia, coloco para tocar as sublimes sonatas para piano executadas por Ronald Brautigam, e me assumo em férias diante o romance de Saramago. E Saramago aqui me surpreende mais uma vez. Se durante a leitura venho medindo forças entre ele e Javier Marías para ver quem é o melhor, Saramago faz aqui o mesmo nível de mestria que Marías faz em "Os enamoramentos". Abandonar Saramago pela metade seria um erro enorme. O homem duplicado é uma obra fechada, seleta, minuciosamente construída, e que só revela seu sentido e coesão quando chegamos às belíssimas últimas páginas, assim como acontece com o romance de Marías. Ali a força da escrita renovada, o acontecimento gratificante da palavra, e uma das formas de levar os melhores genes adiante da humanidade, de confrontar sossegadamente a bestialidade do que jaz lá fora. Tudo o que Saramago ia fazendo que a mim parecia excessiva dedicação aos movimentos cotidianos de seus personagens, não era outra coisa que reafirmar conscientemente em sua arte o papel de individualidade em um mundo em que, nas palavras de Carvalho, força-se para imperar a "burrice e a truculência". Por isso eu, um leitor tão auto-arvoradamente primoroso, deixei escapar por elementos discriminativos vagos e vazios, o que Saramago estava a dizer, deixei que me faltasse a perspectiva certa para apreender o quanto profundamente significantes eram os movimentos de Tertuliano Máximo Afonso, o personagem do livro, em seu apartamento, em sua sala de aula como professor de história. É muito bom sentir o ensejo e a paixão da literatura legítima em tais exemplos com equívoca e maquiavélica roupagem trivialesca nessas duas obras.