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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Natal com Chesterton - Parte IV e fim


Há por aí algumas contradições sobre o Natal – e, de fato, sobre as tradições cristãs em geral. Elas são aparentes em indivíduos que nos afirmam, em jornais e outros lugares, que se emanciparam de dogmas, e agora se propõem a viver o espírito do cristianismo. A que eu respondo: “Ok. Vá em frente,” ou palavras similares. Mas então sempre me encontro confrontado com este fato extraordinário. Eles começam a viver o espírito do cristianismo, e lançam-se freneticamente a impedir as pessoas pobres de beberem cerveja, impedir as nações oprimidas de se defenderem contra os tiranos (porque isso pode levar à guerra), a tirar crianças deficientes de seus pais e trancá-las em algum tipo de sanatório materialista, etc. E então eles ficam surpresos quanto digo-lhes que eles tem muito menos o espírito do que a letra do cristianismo, do que suas palavras,  do que a terminologia de seus dogmas. De fato, eles mantiveram algumas das palavras e terminologia, palavras como paz, justiça e amor; mas fazem essas palavras significarem uma atmosfera completamente estranha ao cristianismo; eles mantiveram a letra e perderam o espírito.
E tal como acontece com o cristianismo, assim também com o Natal. Se os homens soubessem exatamente o que querem dizer com Natal, e então começassem a criar novos símbolos, novas cerimônias, novas brincadeiras, isso poderia ser uma coisa boa. Algo do tipo pode acontecer, muito provavelmente, naquele mundo dos homens modernos que sabem o que o Natal significa. Mas a maior parte das modificações que são discutidas nas revistas e em outros lugares são o exato reverso disso. Elas são realmente modos por meio dos quais os homens podem manter o nome de Natal, e uns poucos esmaecidos símbolos natalícios, enquanto fazem algo totalmente diferente.

G. K. Chesterton

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Natal com Chesterton - Parte III


A caridade do Natal pode, em certo sentido, cobrir todos os homens, mas não pode, de nenhum modo, cobrir todos os princípios, senão ela cobriria o princípio da falta de caridade. É autoevidente à primeira vista que o Natal é tanto conservador quanto liberal, desde que evitemos letras maiúsculas em ambas as palavras. O Natal não seria nada se não conservasse as tradições de nossos pais; não seria nada se não desse com liberalidade aos nossos irmãos. Conservar o Natal envolve a admissão de que o mundo já possui tradições valorosas e honoráveis de um tipo local e doméstico. Ajudar os pobres no Natal envolve em si mesmo a admissão de que o mundo não possui uma distribuição econômica satisfatória, que nem tudo no mundo está bem, ou próximo do bem. Em outras palavras, o Natal, sendo uma instituição cristã, já contem em si as duas ações alternativas em relação à sociedade: a preservação do que foi bom no passado e a remoção do que é ruim no presente. Em épocas mais simples, essas coisas poderiam ter tomado formas mais simples: a primeira na forma de brinde e a segunda na forma de generosidade. Mas em qualquer forma, ou em qualquer grau, elas envolvem logicamente duas verdades que se equilibram, verdades que se complementam, embora não raro pareçam contraditórias: que, em certo sentido, as coisas devem ser como são, enquanto que em outro sentido elas não são como deveriam ser.

G. K. Chesterton

domingo, 22 de dezembro de 2013

Natal com Chesterton - Parte II


Toda cerimónia depende de um símbolo; e todos os símbolos têm sido vulgarizados e apodrecidos pelas condições comerciais de nosso tempo. Isso é especialmente verdade desde que sentimos a infecção comercial americana, e o progresso tornou Londres uma cidade não superior a si mesma, mas inferior a Nova York. De todos os símbolos falsificados e esmaecidos, o mais melancólico exemplo é o antigo símbolo da chama. Em todas as épocas e países civilizados, foi sempre natural falar de um grande festival em que “a cidade era iluminada.” Não há sentido atualmente em se falar que a cidade foi iluminada. Não há propósito em iluminá-la por qualquer entusiasmo normal ou nobre, tal como o sair-se vencedor numa batalha. Toda a cidade está já iluminada, mas não por coisas nobres. Está iluminada somente com o propósito de se insistir na imensa importância de coisas triviais e materiais, adornadas por motivos inteiramente mercenários. O significado de tais cores e tais luzes foi, portanto, inteiramente aniquilado. Não adianta lançar um foguete dourado ou púrpuro para a glória do Rei ou do País, ou acender uma imensa fogueira vermelha no dia de São George, quando todos estão acostumados a ver o mesmo alfabeto ardente proclamando uma pasta de dentes ou uma goma de mascar. A nova iluminação não fez a pasta de dentes ou a goma de mascar tão importantes quanto São George ou o Rei George; porque nada poderia. Mas ela fez as pessoas se cansarem do modo de proclamar grandes coisas, por seu eterno uso para proclamar pequenas coisas. A nova iluminação não destruiu a diferença entre a luz e a escuridão, mas permitiu a luz menor ofuscar a maior.

G. K. Chesterton

Porque é Domingo!


sábado, 21 de dezembro de 2013

Porque é Domingo!


José da Anunciação, o homem a mais na história

São José. A menina Virgem Maria teve a visita de um Anjo; o jovem José também. O Anjo falou em nome de Deus à menina; e a José também. À menina disse-lhe que ia ser mãe, a José que ia ser pai. A menina soube que ia ser por milagre, José soube que o que estava a acontecer era o Milagre. Maria assustou-se com a notícia, José — só podia! — também!
Dificilmente haverá santo mais simpático. Para começar não fala muito e ouve de tudo. Às vezes até penso que é Deus, porque só Deus está à altura de Deus para o educar. Jesus era Deus, e José educou-o. Que grande, que enorme era José! Outras vezes medito no terror que terá sofrido só por lhe ter tocado em sorte a obrigação de acolher a Deus, dar-lhe um nome, apresentá-lo à sociedade, fazer Dele um homem, ensiná-lo a ser bom judeu, ensiná-lo a rezar, dizer-lhe que o Pai era o pai.
Este IV domingo de Advento traz-nos José com as suas dúvidas e a sua fé. Na surpresa da sua anunciação.
Só de pensar nos trabalhos que José houve de passar assusto-me! Ainda bem que era justo; justo e santo. Deus Pai gostava tanto de José que lhe confiou o Filho. Mas não o livrou de uma dificuldade que fosse, não o livrou de medos, nem de surpresas, nem de dúvidas, nem de durezas – as provas da fé.
Trabalhou como carpinteiro. (Se fosse hoje seria – seria, sei lá! –, seria um designer, alguém que com um pouco de magia semeia no cinzento dos dias o calor e a luz de um grande sol!) Alguns dizem que foi operário para toda a obra, uma espécie de sucateiro ou cacharreiro capaz de tudo fazer, de em nada ver o inviável ou só com defeitos, de consertar o inenarrável. Era forte, dedicado, delicado e de quando em vez também ele dava com o mascoto rijo nos dedos e aleijava-se. Mas em mais ninguém como nele os lábios se moviam levemente para se ouvir com ternura e leveza: «Valha-me Deus!». E Ele ali tão perto, tão sereno, sorrindo e brincando com as fitas de madeira e os caracóis ao ar!
Maria disse sim e sim disse José. A Deus.
A história que segue passou-se algures num colégio católico. Era a preparação da festa de Natal e certo menino empenhara-se muito nos ensaios para fazer de São José no teatrinho do presépio. Era o menino perfeito para o papel: sério, sereno, cuidadoso. Pouco antes do teatrinho o menino adoeceu. Não faltou coisa que se fizesse a fim de o menino participar. Na véspera o pai ligou para o colégio informando que o menino não recuperara pelo que não iria à festa e não faria o seu papel. Do lado de lá fez-se ouvir uma resposta: – «Já é muito tarde para encontrar substituto. Vamos tirá-lo da peça e ninguém dará por isso.»
E foi assim que a figura de José foi tirada da representação sem que muitos dessem pela sua falta!
Parece que José conta pouco. Que conta pouco nesta história e em toda a história da salvação. Mas o certo é que o papel do José histórico é fundamental e imprescindível. O papel de José não se pode anular. Sem a sua presença a vida de Jesus seria muito de suspeitar e até inaceitável. E a vida de Maria nem sequer seria possível na comunidade da Nazaré natal.
Para executar o seu plano de salvação da humanidade Deus quis precisar da ajuda de Maria, e não precisou menos da de José.
Para nascer Deus precisou de Maria e de José. Jesus é fruto do Espírito Santo, mas para nascer precisou do consentimento de ambos. Precisou de Maria que era cheia de graça e precisou de José que era justo, silencioso, trabalhador, respeitado, sabia rezar e amar.
Deus precisa sempre de nós. Até para (nos) salvar.
José parece estar a mais na história do Natal, mas de um homem assim é que o natal de Deus precisa: um homem inteiro, franco e aberto, ágil e disponível, disposto a agir e sem medo das consequências, um homem capaz de Deus e de ir entendendo a Deus e os seus planos.
Há histórias de vida que nem Deus imagina, dizemos nós. E existem dias cheios de dramas e de dúvidas, dias em que não entendemos a Deus nem os seus planos, dias em que nos enciumamos por nos crermos esquecidos do seu amor, preteridos por outros.
Mais valia olhássemos para José, o quási-esquecido que o Evangelho logo esquece. Que drama ele viveu! Maria apareceu grávida e ele sem nada ter a ver com o assunto. Alguém pode imaginar os seus ciúmes? a sua preocupação? a sua dor? as suas dúvidas?
Eu imagino-o batendo à porta do Pároco: – E, agora, padre, que devo fazer? E o padre igualmente ferido de aflição rebuscando a solução por entre as letras das Escrituras...
Maria disse sim, e José disse-o também ou foi forçado a dizê-lo? – Não sei. Sei que coisas há que nem os párocos sabem como ajudar e vai daí, antes do divórcio, José, que era justo, pediu ao céu um sinal. E Deus deu-lho. Falou num sonho e disse-lhe: – José, tu não temas!
(Foi com essa candura que ele o contou a Maria antes de chorarem os dois!)
E José aceitou e acreditou no sinal de Deus.
E você é justo?
Chama do Carmo I NS 208 I Dezembro 22 2013

domingo, 15 de dezembro de 2013

Terceiro domingo do Advento

 
Senhor, este não é ainda o claro dia,
mas a luz do farol já anuncia
que o teu Natal está perto!
 
Senhor, na paciência do deserto,
frutifica, na espera, a fé e a alegria,
fervilha em nós o teu amor!
 
Senhor, um feixe da Tua luz,
irradie o calor desta casa,
como um luzeiro de paz e harmonia!
 
A tua Senhor, alegria nos arda em brasa!
És Tu a Boa Nova, o doce presente,
que levaremos a toda a gente!

Porque é Domingo!


sábado, 14 de dezembro de 2013

Retiro de Advento

 
 
Hoje é dia de Retiro de Advento. Já lá diz o Salmo que quem não para pensar é porque é muito de ouvido, ou pior. Um pequenino grupo parou e já está na Salinha, a caminho do mais profundo centro.
Vamos construir o presépio é o mote. O engenheiro é o P. Vasco. Obrigado, sr. Engenheiro. Obrigado a todos.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Coroa de Adevento (I)

«Eu sou a luz do mundo.
Quem me segue não andará nas trevas,
mas terá a luz da vida»
– diz o Senhor. (Jo 8,12)


Senhor,
acendemos hoje esta luz,
como aquele que acende a sua lâmpada
para sair, durante a noite,
ao encontro do amigo que vem.

Nesta primeira semana do Advento,
queremos levantar-nos
para Vos esperar de coração preparado
e para Vos acolher com alegria.

Queremos estar despertos e vigilantes,
porque só Vós nos trazeis a luz mais clara,
a paz mais profunda,
a alegria verdadeira.

Vinde, Senhor Jesus!
Marana tha!
Vinde, Senhor Jesus!

A alegria, o fim e as palmas


Certo dia, durante um espectáculo, ateou-se o fogo nos bastidores do teatro. O palhaço apareceu no palco para alertar o público. Todos pensaram que fosse uma brincadeira e começaram a rir e a aplaudir. O coitado insistiu, mas as palmas só aumentaram. Assim – concluiu ele – acabará o mundo: com a alegria das pessoas de bem pensando que tudo não passa de uma farsa.

Sören Kierkegaard

Oração da noite


Deus,
Escolheste fazer-te esperar todo o  tempo do Advento.
E eu que não gosto de esperar!

Não gosto das filas de espera
Não gosto de esperar a minha vez
Não gosto de esperar o autocarro e o metro
Não gosto de esperar para emitir um juízo
Não gosto de esperar o momento adequado
Não gosto de esperar mais um dia...

Eu não gosto de esperar
Porque não tenho tempo p’ra isso
E não vivo senão o instante...

Tu, aliás, bem sabes que tudo me leva a evitar a espera:
Cartões de crédito, autosserviços (ou self-services...)
máquinas automáticas de venda
Telefonemas pelo telemóvel e fotos digitais, instantâneos!
Emails e torpedos pedindo resposta imediata
Cópias, fotocópias e smartphones,
A TV, o noticiário nas rádios (até ouço quando conduzo...)
Aliás, nem preciso de esperar pelas notícias: elas chegam antes.

Mas tu, Deus,
escolheste fazer-te esperar o tempo do tamanho de um Advento.
Porque fizeste da espera um espaço para o retorno e a conversão
O face a face com algo que estava oculto,
o desgaste que não se gasta
A espera, somente a espera
A espera da espera
A intimidade com a espera que está dentro de nós.

Porque só a espera revela a atenção
E só a atenção é capaz de amar.

Tudo já foi dado, na espera.
E para ti, Deus,
Esperar se conjuga amar ou orar.

Advento

Acordai!
ADVENTO

As nações e os povos


Virão todas as nações e muitos povos acorrerão.
PROFETA ISAÍAS

Porque é Domingo!


sábado, 30 de novembro de 2013

Começou o Advento


Escapulário em Família


A Família Ramos, de Maria do Carmo e José, de Serreleis, veio hoje ao Carmo para receber a imposição do Escapulário da Senhora do Carmo. Era a véspera do Advento, esse tempo de preparação para o Natal, quando a Virgem Mãe envolveu o Menino com amor e com paninhos. Aqui fica a notícia, pela mão da filha Marisa:

Boa noite, Frei João:
Antes de mais permita-me agradecer-lhe a amabilidade com que me recebeu na Quinta-feira.
Senti-me acolhida, senti que realmente um irmão me recebia em sua casa, muito obrigada!

Muito obrigada também por ter expandido o convite a toda a família: foi uma celebração muito bonita e mais um  belo momento que todos guardaremos em nossos corações!
Quando iniciei a minha pesquisa sobre o Escapulário a primeira coisa que li foi: "Escapulário (do latim scapula, escápula) é um pedaço de pano que envolve integralmente os ombros de quem o veste". Pois para mim receber o Escapulário da Nossa Senhora do Carmo foi sentir que a Grande Mãe pousou sobre a minha alma o mais belo dos panos. Era mesmo esta protecção que buscava para o Camilinho, um manto bem quentinho que o proteja perante todas as adversidades que a vida tenha reservado para nós.
Bem sei que continuarão a soprar ventos lá fora, mas agora temos outra força! Agora estamos envolvidos nos panos que a nossa Mãe Celeste escolheu para nós!

Mais uma vez manifesto a minha gratidão em nome de toda a família; e como mãe, como filha, esposa e irmã sei que nunca na minha vida serei capaz de o compensar pelo que fez por nós! Muito grata mesmo!!!
Conforme prometido seguem em anexo algumas fotografias, envio-lhe o resto das fotos nos e-mails que se seguirão.
Que Deus o abençoe irmão!!!
Obrigada pelo abraço:

Marisa Ramos Gonçalves


Os presos são quem bem sabem


Feliz Ano Novo. Rei morto, rei posto; ou dito de uma maneira outra: depois de encerrado um ano cristão, eis-nos de rosto aberto para a novidade de um outro. Com toda a afabilidade só podemos desejar: Feliz ano, feliz ano novo cristão! Eia, pois. Eis-nos de novo em Advento, o tempo de preparação para a celebração do Nascimento do Salvador. Era noite e fez-se luz. E nós não podemos ver bem a Luz sem levemente lhe abrirmos o coração.
Não podemos recebê-lA bem sem A esperarmos, sem ficarmos de vela desejando-A ansiosamente. Por estes dias somos convidados para a alegria. A sério, que somos; e até pode dizer-se que ela se treina, que sem preparação não conseguiremos alegrar-nos convenientemente. Bem-vindos aos treinos até ao dia 24 de Dezembro!
Você pode dizer sem medo de errar que Advento é conversa de padres. Diga-o sem medo, que você acerta. E também se engana. Mas cuidado: As palavras gastam-se e de tanto repeti-las ficam xéxés. Ou, nós por elas.
Advento não é conversa de padres que mais não sabem dizer no mês anterior ao Natal. Não, não é conversa de padres, não. Sim, longe muito longe de ser conversa fiada de padres.
Advento é um estado de alma, de ânimo. Não é conversa de sacristia, é conversa de vida. É conversa para os cansados e resignados, para os que agora dizem: «É tudo tão inseguro, por isso vivamos o dia! Vivamos o dia que já nada permanece, já nada resiste!».
O Advento tem a força dos símbolos porque não tem outra se não a das sementes: a espera, a eterna espera, a força da renovação!
Encurralados por tamanhas ânsias de saída tantas vezes não sabemos que esperar, e de tanto cansarmos perdemos o norte (e o tino) e desistimos, ou o que é pior: dá igual esperar ou não. Porém, durante o tempo do Advento, nós, católicos, submetemo-nos, sobretudo, a um treino de contenção. Despertamos do letargo que nos ata e contemo-nos em tensão, como quem se agacha para se projectar num salto o mais para adiante possível.
Quando os peregrinos partem é sabido que deixam todo o cómodo e não levam muito — sem lhes faltar o cajado, porque a todo o peregrino falta sempre uma parte do caminho e a todo o católico Algo que lhe preencha a tensão da espera. No Advento vamos pela via da contenção e austeridade, pela da conversão e sobriedade, a fim de que quando tivermos o Senhor no meio de nós possamos explodir toda a alegria que nos arde no forno interior das almas.
Advento é o por fazer, e é o impróprio e atulhado que urge esmerar, sem cuja preparação e cuidado jamais o caminho a percorrer é verdadeiramente caminho que traz até nós o Senhor.
Tem ele duas partes: até ao dia 16 de Dezembro somos convidados a acordar para o encontro do Senhor que vem; de 16 ao dia 24 olhamos para a Virgem Mãe, na penumbra, prestes a dar à luz. Como ela se soube preparar que não há ninguém como ela que nos ensine a esperar!
É assim que o Advento é convite para a mesa da espera do Filho de Deus que entra na história. Ali só temos um fito: manter viva a ilusão da espera! Convenhamos que não é este um desafio sedutor. Quem é que hoje quer acordar, sair do torpor, enfrentar o frio das responsabilidades, sair para as ruas e dar testemunho? (Por falar nisso: Quantos da nossa comunidade, compreendendo ou não, responderão ao inquérito do Papa Francisco sobre a família?)
Quem aceita desinstalar-se das suas crenças e das suas rotinas? Quem ousa questionar a sua fé, dizer presente quando há necessidade de defender o Evangelho, os pobres, os sem poder, sem palavra e sem voto? — E olhe que os há, olhe que os há e são mais do que pensa!
A fé não é como ir ao chá das cinco. Mas lá que obriga a acordar da sesta e sair de casa, lá isso obriga! Por que Deus vem, vem sem ser viral no Youtube, sem se anunciar na TV, nem no blog da Chama do Carmo, nem nas grandes pancartas publicitárias. Deus vem, mesmo que tu não acordes nem nenhum dos nossos contemporâneos se erga da cela em que tão a gosto nos enclausuramos! Deus vem mesmo que não julguemos necessário que venha, vem mesmo que a palavra < Deus > já não signifique nada ou já nem seja esperado. Deus vem, mesmo que toda a pressa que corremos nos impeça de ver que Ele já veio, e de que, afinal, seja a pressa da vida um atilho mais que nos ata e enclausura.
E, sim, Deus vem para os crentes que O esperam! Deus vem para os que esperam o Novo!
Eu me confesso míope, o mesmo é que preso no cinzento semi-frio e semi-vazio da vida. Sim, preso. Eu sou preso, mas ainda assim um preso é do tamanho daquilo que espera. E do meu cárcere eu espero este Advento como uma espera confiada. E no meu cárcere eu dou voltas e voltas, e voltas volto a dar ao contrário. Mas espero confiado. Eu confio que Ele virá independentemente do número de voltas que eu dê ora para a direita, ora para a esquerda. Ele virá: é nisso que eu confio. E já sinto os passos dele rua abaixo. A porta está bem fechada, mas eu sei Quem traz a chave que a abre por fora!

Chama do Carmo I NS 205 I Dezembro 01 2013

Porque é Domingo!