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sábado, 8 de março de 2014

O bom pastor


Uma ovelha encontrou um buraco na cerca. E, por ele, escapou, satisfeita por se ver, afinal, bem soltinha. Caminhou muito tempo e perdeu o caminho de volta p'ra casa. Só então percebeu que um lobo faminto a seguia, de perto. Correu a ovelhinha e correu mais o lobo, até que os pastores chegaram a tempo, salvando-a da fera e levando-a p'ra casa, com muito carinho. E, apesar dos conselhos de amigos que viram isto, o pastor recusava-se a fechar o buraco da cerca por onde a ovelhinha fugira.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Jorge e o dragão


Em certo lugar havia uma pousada chamada Jorge e o Dragão. Ali chegou certo dia um andarilho.  Depois de bater à porta esperou pacientemente. Apareceu-lhe uma mulher e perguntou-lhe:
– Tem, por favor um bocado de pão para a boda de um pobre homem?
– Não, respondeu secamente a mulher. E bateu-lhe com a porta na cara.
Pouco depois o andarilho voltou a bater à porta. A mulher voltou a abrir, e o pobre disse:
– Estou com fome, tem algo de comer para me dar?
A mulher gritou-lhe novamente:
– Vai-te, inútil! E não pense em voltar!
O homem, porém, insistiu. E voltou a bater à porta. E a mulher veio terceira vez abrir a porta. Então disse-lhe o pobre andarilho:
– Por favor, desta vez posso falar com o Jorge?

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Conto de Natal

O nosso menino
nasceu em Belém.
Nasceu tão-somente
para querer bem.

Nasceu sobre as palhas
o nosso menino.
Mas a mãe sabia
que Ele era divino.

Vem para sofrer
a morte na cruz,
o nosso menino.
Seu nome é Jesus.

Por nós ele aceita
o humano destino:
louvemos a glória
de Jesus Menino.

M. Bandeira

Noite de Natal, noite de escândalo!


Comentou um paroquiano com o seu pároco: Eu gosto muito do Natal, mas o que eu gosto mesmo é da noite de Natal.
Então, porquê, perguntou o sacerdote?
Por causa do escândalo, respondeu o paroquiano.
Por causa do escândalo, atreveu-se a perguntar, surpreso, o pároco?
Sim, padre. Se você fosse Deus aceitaria fazer-se humano? Por acaso não seria melhor ser Deus no Céu, seja lá onde o céu fôr que ser homem-Deus na terra? Quem vivendo no céu aceitaria viver a pobreza humana cheia de limitações e fracassos? Não é isso um escândalo?

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Mishna


Chamava-se Mishna. Tinha uns olhos muito vivos e teria uns seis anos.
Quando a educadora contemplou o presépio que ele tinha feito depois da explicação do Natal, ficou surpreendida ao ver não um menino na manjedoira, mas dois.
Maravilhado chamou um tradutor para que perguntasse a razão de haver dois meninos no seu presépio.
Mishna cruzou os braços e observando o seu presépio, começou a repetir a história com muita seriedade, e para ser a primeira vez que a tinha escutado contou-a muito bem.
Terminado o relato, acrescentou: Quando Maria pôs o bébé na manjedoira, Jesus olhou para mim e perguntou-me se eu tinha um lugar onde ficar. Eu disse-lhe que não tinha nem mamã tem papá, e que não tinha lugar para onde ir. Então jesus disse-me que podia ficar ali com Ele.
Eu disse-lhe que não podia, porque não tinha nenhuma prenda para lhe dar. Mas eu queria ficar com Ele. E por isso pus-me a pensar no que poderia eu oferecer ao Menino. Lembrei-me que lhe poderia oferecer um pouco de calor. E perguntei a Jesus: Se eu te der um bocadinho de calor, isso seria uma boa prenda para ti? Jesus disse-me que sim, que essa seria a melhor prenda que poderia receber. E foi por isso que me meti dentro do presépio.
Jesus olhou para mim e disse-me que poderia ficar ali para sempre.

Onde está Deus?


Dois irmãos de dez e doze anos eram o terror do bairro. Em todas as travessuras que nele sucediam ali estavam os dois. Os pais, esgotada paciência, não sabiam o que fazer com eles.
Tendo ouvido falar de um padre que trabalhava com rapazes delinquentes a mãe pediu-lhe que falasse com os filhos. O sacerdote aceitou dizendo-lhe que primeiro falaria com o mais novo. E a mãe ali o levou.
O sacerdote mandou-o sentar-se para o fazer entender que Deus está em todo o lugar e tudo vê. Com o dedo apontou para o rapaz e perguntou-lhe: — Onde está Deus?
O miúdo não disse nada.
De novo os sacerdote lhe apontou o dedo e lhe perguntou: — Onde está Deus?
O rapaz nada respondeu.
Pela terceira vez, com voz forte e firme, e de dedo em riste quase a tocar o nariz do moço, perguntou-lhe: — Onde está Deus?
O rapaz assustou-se tanto que saiu a correr e só parou em casa. Ao chegar encontrou-se com o irmão e subiram juntos para o quarto onde planeavam todas as maldades. E disse-lhe: Agora sim! Agora estamos metidos em grandes sarilhos! O irmão mais velho perguntou-lhe em que grandes sarilhos é que se tinham metido. E o pequeno respondeu: Não encontram a Deus e pensam que fomos nós que O escondemos!

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O MIlagre de Mogo

Terminada a ceia a família preparou-se para a Missa do Galo. E um ano mais o patriarca despotricou com costume tão infantil. Quem é que pode acreditar que Deus se faça uma bolinha humana? Isso é absurdo, irracional, uma fábula, repetia Mogo.
E insistia: Estou de acordo que se celebre o solstício de inverno com uma boa ceia e que nos alegremos com os dias que se enchem de luz. Mas jamais acreditar que o Todopoderoso será envolvido em paninhos.
A sua esposa Berta, acostumada à vinagreira anual do marido, respondeu: «Deus faz-se um de nós, para que nós não tenhamos medo e O sigamos até nos salvarmos. Anda, acende o teu cachimbo e fuma, fica à lareira e cuida da casa, que nós vamos adorar o Menino Deus.»
Enquanto Mogo fumava ouviu uma batida na janela, depois outra, e depois muitas mais. Algum engraçadinho, pensou ele, esta a divertir-se a atirar bolas de neve às janelas! Calçou as botas, vestiu um casaco e foi inspeccionar o jeitoso.
A sua surpresa foi grande quando viu um bando de pardais saltando na neve.
Estes pobres animais, disse, desorientaram-se com o frio no seu voo para o sul. Se eu pudesse fazer algo eles não morrerão esta noite…
O bom do Mogo foi então ao estábulo, acendeu as luzes e abriu as portas de par em par. Pensou que se batesse as palmas os desorientados pardais entrariam para se aquecer. Mas os pardais não são como as galinhas e só conseguiu que se assustassem ainda mais e se dispersassem.
Estes pássaros, repetiu entre dentes, estão tão tontos que só se assustam e não percebem que os quero ajudar. Se eu pudesse ao menos converter-me em pardal começaria a voar para o calor do estábulo e eles haveriam de me seguir e evitariam morrer de frio.
Apenas se deu conta dos seus pensamentos, Mogo parou, limpou a neve da cara e caiu de joelhos, gemendo: oh, meu Deus! Meu Deus! Não foi precisamente isso que a Berta me disse: «Deus faz-se um de nós, para que nós não tenhamos medo e O sigamos até nos salvarmos?» Como pude ser tão tolo?
Selou o cavalo e deitou a correr para a igreja, deixando as portas abertas do estábulo e as luzes acesas. Quando chegou cantavam canções. Ele aproximou-se da família e abraçou-os chorando. Regressaram juntos e Mogo contou o que tinha sucedido. Ao chegarem a casa o bando de pássaros dormia nas vigas do celeiro com as cabeças debaixo da asa.
Antes de se deitar Mogo espalhou grão pelo chão. Na manhã seguinte, dia de Natal, toda a família viu que os pássaros e o grão tinham desaparecido.

Paul H. Dunn

sábado, 2 de novembro de 2013

O judeu errante


O tumulto levou as pessoas às ruas de Jerusalém. Jesus, filho de José, entrara triunfante na cidade, desafiara os comerciantes e os guardiões do templo, presidira a ceia com os seus apóstolos, transmitira a sua mensagem definitiva no Monte das Oliveiras, para cair, tragicamente nas mãos de soldados, sendo julgado, açoitado, humilhado e condenado a ser crucificado.
As festas da Páscoa em Jerusalém foram interrompidas para que se acompanhasse o martírio daquele que se dizia o Messias, que viera para elevar o seu povo, acabar com os sofrimentos dos judeus. Pelas ruas da cidade, o Profeta caminhava humilhado, a levar a cruz nas costas, a mesma que serviria como suplício final. Caminhando enfraquecido, quando se deixava cair, era obrigado a levantar através dos açoites impiedosos dos soldados romanos.
Alheio ao tumulto da cerimónia que precedia à crucificação, Ahasverus trabalhava dentro da sua casa, a preparar o couro que usava para fazer os sapatos que vendia. Era um homem calado, frio e alheio aos dramas e às pessoas à volta. Sua barba espessa escondia as marcas que lhe ia esculpindo o tempo. Não havia Páscoa ou tradições que o arrebatasse do cheiro do couro curtido, trabalhado artesanalmente. Fechar um acerto de casamento com uma jovem estava longe de qualquer plano que fizera. A sua solidão latente era o prémio maior que já adquirira. A sua arte com o couro a realização da alma.
À medida que o supliciado se aproximava da rua onde Ahasverus morava, o tumulto tornava-se insuportável. Pessoas gritavam, algumas pediam a morte do suposto Messias, outras pediam misericórdia por sua vida. O sapateiro procurou ignorar o barulho. Continuou a recortar o couro curtido. De repente um estrondo bateu-lhe na porta, fazendo com que ela se abrisse. Parte de uma cruz entrou pela sala. Ahasverus viu um homem atormentado, caído na sua porta, com uma coroa de espinhos na cabeça, o rosto coberto de sangue e as costas em carne viva. Ahasverus irritou-se com aquela imagem. Sentiu-se profundamente incomodado, como se aquele homem ensanguentando, a descansar por um momento na sua porta, fizesse com que todos os males da sua alma se lhe fosse revelado. Tomou-se de cólera quando viu gotas de sangue a sujar a sua porta. Deixou os afazeres e aproximou-se do supliciado, que caído no chão, lhe pediu ajuda para se erguer. Mas Ahasverus não se deixou comover, com o pé direito, empurrou o Nazareno, vociferando com arroubo:
- Sai da minha porta! Anda, põe-te a andar! Vá, logo!
Naquele momento Simão, o Cireneu, apiedando-se de Jesus, ofereceu-se para ajudá-lo a reerguer-se do chão com a cruz. Antes de continuar o caminho para o martírio, o Nazareno olhou profundamente Ahasverus, falando-lhe mansamente:
- Eu vou, mas tu ficarás... Caminharás errante e sem descanso pelo mundo até a minha volta...
O olhar que Jesus, filho de José, lançou para o sapateiro, fez com que ele estremecesse a alma. Sentiu-se paralisado, ao ver aquele homem caminhar para a morte, afastando-se da sua tenda, deixando-o com uma maldição eterna. Ainda no fim da tarde daquela sexta-feira, quando o céu escureceu e o Nazareno morreu na cruz, Ahasverus viu a barba do seu rosto ficar branca, as mãos envelheceram, sem que tivessem mais habilidade para trabalhar o couro. Ahasverus perdera a juventude e a sua arte. A solidão passou a queimar-lhe o peito.
Lentamente Ahasverus viu o tempo passar, os seus contemporâneos sugados pela morte. Sua alma tornou-se inconstante, peregrina. Uma grande nuvem de poeira bateu-lhe na porta, arrebatando-o e levando-o para as estradas do mundo. Quanto mais envelhecia, mais se distanciava da morte. Ahasverus passou a percorrer cidades com ruas sem fim. Por onde passava, era conhecido como o Judeu Errante, o eterno estrangeiro, sem pátria, sem raízes.
Nas vilas, nas aldeias, nas terras mais distantes, o povo era surpreendido por um redemoinho de poeira, era o Judeu Errante que vinha dentro dele, numa peregrinação permanente, a carregar consigo a maldição por ter sido cruel com o Nazareno. Todos, quando viam o redemoinho, fechavam as suas portas e janelas, até que passasse o amaldiçoado, evitando que o agouro entrasse pela casa. O Judeu Errante vaga no meio da poeira, atormentado e solitário, na esperança do dia em que Jesus, filho de José, retorne ao mundo e anuncie o fim da sua maldição e dos tempos.

sábado, 14 de novembro de 2009

Para este Domingo

Era uma vez um rei que estava quase a morrer. Mandou então chamar o bobo da corte que mais o fazia rir com as suas piadas. Mas nem o melhor humor lhe arrancou um sorriso.
— Porque estais tão triste, Majestade?, perguntou.
— Porque vou fazer uma grande viagem, respondeu o rei.
— Mas como ides fazer um longa viagem se não estais preparado? Onde estão as vossas malas? E as vossas roupas? Onde estão os cavalos?
— É esse o problema, respondeu o rei. Descuidei-me! Estive sempre tão ocupado com outras coisas e agora tenho pouco tempo para me preparar.
— Tomai, pois, a minha gorrra, respondeu-lhe o bobo, ficai com o meu apito e as minhas campainhas, pois sois mais tonto que eu. Ides fazer a viagem mais longa da vossa vida e a única coisa que ocorer é chamar-me!