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22 de set. de 2013

EXCERTO DE "Desenho"



"Aprendi com as primaveras a 
deixar-me cortar e a 
voltar sempre inteira."
 
- Cecília Meireles,
 in "Mar absoluto".
 



DESENHO


 
Fui morena e magrinha como qualquer polinésia,
e comia mamão, e mirava a flor da goiaba. 
E as lágrimas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras,
e as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam

Isso era um lugar de sol e nuvens brancas,
onde as rolas, à tarde, soluçavam mui saudosas...
O eco, burlão, de pedra, ia saltando,
entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas.

Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho, 
e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas,
que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas,
pois a vida completa e bela e terna ali já estava. 

Com a chuva caía das grossas nuvens, perfumosa! 
E o papagaio como ficava sonolento! 
O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmáticos 
fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo. 

Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros,
e os grandes cães ladravam como nas noites do Império. 
Mariposas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes
moravam nos jardins sussurrantes e eternos. 

E minha avó cantava e cosia. Cantava
canções de mar e de arvoredo, em língua antiga. 
E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos 
e palavras de amor em minha roupa escritas. 

Minha vida começa num vergel colorido, 
por onde as noites eram só de luar e estrelas. 
Levai-me aonde quiserdes! - APRENDI COM AS PRIMAVERAS
A DEIXAR-ME CORTAR E VOLTAR SEMPRE INTEIRA.


Cecília Meireles
In Mar Absoluto 

18 de mai. de 2010

O VENTO

(Foto by Fernanado Campanella)

O cipreste inclina-se em fina reverência
e as margaridas estremecem, sobressaltadas.

A grande amendoeira consente que balancem
suas largas folhas transparentes ao sol.

Misturam-se uns aos outros, rápidos e frágeis,
os longos fios da relva, lustrosos, lisos cílios verdes.

Frondes rendadas de acácias palpitam inquietantemente
com o mesmo tremor das samambaias
debruçadas nos vasos.

Fremem os bambus sem sossego,
num insistente ritmo breve.

O vento é o mesmo:
mas sua resposta é diferente, em cada folha.

Somente a árvore seca fica imóvel,
entre borboletas e pássaros.

Como a escada e as colunas de pedra,
ela pertence agora a outro reino.
Se movimento secou também, num desenho inerte.
Jaz perfeita, em sua escultura de cinza densa.

O vento que percorre o jardim
pode subir e descer por seus galhos inúmeros:

ela não responderá mais nada,
hirta e surda, naquele verde mundo sussurrante.


Cecília Meireles
in Mar Absoluto

10 de nov. de 2009

O VENTO



O cipreste inclina-se em fina reverência
e as margaridas estremecem, sobressaltadas.

A grande amendoeira consente que balancem
suas largas folhas transparentes ao sol.

Misturam-se uns aos outros, rápidos e frágeis,
os longos fios da relva, lustrosos, lisos cílios verdes.

Frondes rendadas de acácias palpitam inquietantemente
com o mesmo tremor das samambaias
debruçadas nos vasos.

Fremem os bambus sem sossego,
num insistente ritmo breve.

O vento é o mesmo:
mas sua resposta é diferente, em cada folha.

Somente a árvore seca fica imóvel,
entre borboletas e pássaros.

Como a escada e as colunas de pedra,
ela pertence agora a outro reino.
Se movimento secou também, num desenho inerte.
Jaz perfeita, em sua escultura de cinza densa.

O vento que percorre o jardim
pode subir e descer por seus galhos inúmeros:

ela não responderá mais nada,
hirta e surda, naquele verde mundo sussurrante.


Cecília Meireles
in Mar Absoluto

12 de ago. de 2009

Trânsito




Tal qual me vês,
há séculos em mim:
números, nomes, o lugar dos mundos
e o poder do sem fim.

Inútil perguntar
por palavras que disse:
histórias vãs de circunstância,
coisas de desespero ou meiguice.

(Mísera concessão,
no trajeto que faço:
postal de viagem, endereço efêmero,
álibi para a sombra do meu passo…)

Começo mais além:
onde tudo isso acaba, e é solidão.
Onde se abraçam terra e céu, caladamente,
e nada mais precisa explicação.


Cecília Meireles
in Mar Absoluto

Evidência



Nunca mais cantaremos
Com o antigo vigor:
o entusiasmo era inútil,
e desnecessário, o amor.

Nos rostos que mirávamos,
derreteu nosso olhar
máscaras tão antigas
que se espantavam de acabar.

Nesse mundo que erguíamos,
deixamos presa a nossa mão.
E os companheiros, nestes muros?
Quando os terminam, e onde estão?

Puros e tristes ficamos,
puros e tristes e sós.
O coração é vaga nuvem.
E vaga areia, a voz.


Cecília Meireles
in Mar Absoluto

4 de jul. de 2009

SURDINA



Quem toca piano sob a chuva,
na tarde turva e despovoada?
De que antiga, límpida música
recebo a lembrança apagada?

Minha vida, numa poltrona
jaz, diante da janela aberta.
Vejo árvores, nuvens, - e a longa
rota do tempo, descoberto.

Entre os meus olhos descansados
e os meus descansados ouvidos,
alguém colhe com dedos calmos
ramos de som, descoloridos.

A chuva interfere na música.
Tocam tão longe! O turvo dia
mistura piano, árvore, nuvens,
séculos de melancolia ...


Cecília Meireles
in Mar Absoluto

29 de jun. de 2009

VIOLA



Minha cantiga servia
para dizer coisas densas
que apenas eu mesmo ouvia.

Foi a palavra quebrada
por muito encontro guerreiro:
ferozes golpes de espada
na tênue virtude alada
de um coração prisioneiro.

Cantar não adianta nada.

Explicar-se não se explica.

Por entre coisas imensas,
torto e ignorado se fica.

Com pensativos vagares,
de fundos poços me abeiro:
chorar é muito mais fácil
e talvez mais verdadeiro.

Cecília Meireles
in Mar Absoluto

DOMINGO NA PRAÇA



Em três altas ondas a fonte desata
na negra bacia
suas longas madeixas de prata.

Entre o lago e as flores, desliza alegria
nas areias quietas:
cantos de ciranda, sapatinhos brancos,
aros velozes de bicicletas.

Depois dos canteiros, dois a dois, sentados,
falando em sonho, sonhando acordados,
os namorados enamorados
dizem loucuras, pelos bancos.

Ah, Deus, - e a grande lua antiga,
que volta de viagens, saindo do oceano,
ouve a alegria, ouve a cantiga,
ouve a linguagem de puro engano,

ouve a fonte que desata
na negra bacia
novas madeixas de prata ...

As águas não eram estas,
há um ano, há um mês, há um dia ...
Nem as crianças, nem as flores,
nem o rosto dos amores ...

onde estão águas e festas
anteriores ?

E a imagem da praça, agora,
que será, daqui a um ano,
a um mês, a um dia, a uma hora ? ...


Cecília Meireles
in Mar Absoluto

SENSITIVA



No cedro e na rosa,
o gesto da brisa.
De joelhos, na noite,
colhíamos juntos
a sensitiva.

Teu lábio formava
uma lua fina.
Mas tua figura,
na sombra, a – a folhagem
muda bebia.

Junto à áspera terra,
tua mão e a minha
se encontraram sob
o pânico súbito
da sensitiva.

Que espasmo de nácar
pela seiva aflita!
Nem rosa nem cedro
souberam da ausência
da sensitiva.

Aonde levaremos
esta dolorida
planta frágil, se
tua mão se apaga
em lírio e cinza?

Se teu rosto esparso
já não se adivinha,
e teu lábio é, agora,
na manhã que chega,
puro enigma?

Voa dos meus olhos
a noite vivida.
Na areia dos sonhos,
somente o desenho
da sensitiva.


Cecília Meireles
in Mar Absoluto

PEDIDO



Armem rede entre as estrelas,
para um descanso secular!
Os conhecidos – esquecê-los.
E os outros, nem imaginar.
Armem a rede!

Chamem o vento, um grande vento
aéreo leão, para amarrar
sua juba de esquecimento
a esta rede, entre Deus e o mar.
Chamem o vento!

Não falem nunca mais daquela
que oscila, invisível, pelo ar.
Não digam se foi triste ou bela
sua vocação de cantar!
Não falem nela.

Cecília Meireles
in Mar Absoluto

OS MORTOS



Creio que o morto ainda tinha chorado, depois da morte:
enquanto os pensamentos se desagregavam,
depois do coração se acostumar a ter parado.

Creio que sim, porque uma gota de choro havia entre a pálpebras,
feita de força já tão precária que nem pudera ir mais além,
que não correra, nem correria,
e que também não secava.

E que ninguém teria tido a coragem desumana de enxugar.

Por que foi que o morto chorou?
Que lembrança de sua vida chegaram até ali, reduzido àquilo?

Sua vida não foi boa nem má:
foi como a dos homens comuns,
a dos que não fizeram nenhum destino: aceitaram qualquer ...
Dentro dele se debateram todas as coisas,
e de dentro dele todas as coisas saíram repercutindo sua incerteza.

Creio que o morto chorou depois da morte.
Chorou por não ter sido outro.
(É só por isso que se chora.)

Mas sobre seus olhos havia uns outros, mais infelizes,
que estavam vendo, e entendendo, e continuavam sem nada.
Sem esperança de lágrima.
Recuados para um mundo sem vibração.
Tão incapazes de sentir que se via o tempo de sua morte.
Antiga morte já entrada em esquecimento.
Já de lágrimas secas.

E no entanto, ali perto, contemplando o morto recente.
Como se ainda fosse vida.

Maternal, porque o precedeu. Apenas, sem poder sofrer,
- de tanto saber e de tanto ter sido.


Cecília Meireles
in Mar Absoluto

19 de jun. de 2009

AMOR PERFEITO



Suas cores são as de outrora,
com muito pouca diferença:
o roxo foi-se quase embora,
o amarelo é vaga presença.
E em cada cor que se evapora
vê-se a luz do jardim suspensa.

Tão fina foi a vida sua,
tão fina é a morte em que descansa!
Mais transparente do que a lua,
mais do que as borboletas mansa!
Tanto o seu perfil atenua
que, em peso, é menos que a lembrança.

Veludo de divinos teares,
hoje seda seca e abolida,
preserva os vestígios solares
de que era feita a sua vida:
frágil coração, capilares
de circulação colorida.

Se o levantar entre meus dedos,
pólen de tardes e sorrisos
cairá com tímidos segredos
de tempos certos e imprecisos.
Ó cinco pétalas, ó enredos
de sentimentais paraísos!

Mas de leve gota pousada
no veludo, - mole diamante
que foi a resposta da amada,
que foi a pergunta do amante –
dela não se verá mais nada:
perdeu-se no vento inconstante.


Cecília Meireles
in Mar Absoluto

15 de jun. de 2009

FUTURO


É preciso que exista, enfim, uma hora clara,
depois que os corpos se resignam sobre as pedras
como máscaras metidas no chão.

Por entre as raízes, talvez se veja, de olhos fechados,
como nunca se pode ver, em pleno mundo,
cegos que andamos de iluminação.

Perguntareis: “Mas era aquilo, o teu silêncio?”
Perguntareis: “Mas era assim, teu coração?”

Ah, seremos apenas imagens inúteis, deitadas no barro,
do mesmo modo solitárias, silenciosas,
com a cabeça encostada à sua própria recordação.


Cecília Meireles
in Mar Absoluto

PÁSSARO AZUL



Tua estirpe habitara alcândoras divinas.
Com os pés de prata e anil desceste antigos tempos.
E em minhas mãos pousaste, e o silêncio explicou-se,
por tua voz, que era de nunca e era de sempre.

Nomes de estrelas vinham sobre as tuas asas,
e era o teu corpo uma ampulheta pressurosa.
Entre as nuvens procuro o último azul que foste ...
Mas, de tanto saber, nada mais se deplora.

Como te penso tanto, e tão longe procuro
tua música além das nuvens, não te esqueças
que posso estar um dia, em lágrima extraviada,
pólen do céu brilhando entre os altos planetas.

Mas não voltes aqui, pois é pesado e triste
o humano clima, para o teu destino aéreo.
Eu mal te posso amar, com o sonho do meu corpo,
condenado a este chão e sem gosto terrestre.


Cecília Meireles
in Mar Absoluto

8 de jun. de 2009

SUSPIRO



Não tenho nada com as pessoas
tenho só contigo, meu Deus.

- Pássaro que pelo ar deslizas,
que pensamentos são os teus?

Minha estrela vai perseguida
e por entre círculos corre.

- Ó pássaros que vais morrendo
saberás que também se morre?

A que dorme vai caminhando,
a outra, desperta e imóvel jaz.

- Aonde te disseram que voasses?
Segue teu rumo e canta em paz.


Cecília Meireles
in Mar Absoluto

INSTRUMENTO

(Gary Benfield)



A cana agreste ou a harpa de ouro
permitem que alguém acorde
com brando pulso ou leve sopro.

Têm memória de água e vento
e – além dos mundos desvairados –
do silêncio, o etéreo silêncio!

Seus poderes de eternidade
tornam imenso e inesquecível
o som mais transitório e suave.

Chega-te concentrado e cauto,
que o universo inteiro te escuta!
Frase inútil, suspiro falso

vibram tão poderosamente
que a mão pára, o lábio emudece,
com medo do seu próprio engano.

E o eco sem perdões o repete
para um ouvinte sobre humano.


Cecília Meireles
in Mar Absoluto

CONVITE MELANCÓLICO

(John Atkinson Grimshaw)


Vinde todos, e contemplai-nos:
que somos os da terra fatigados,
de cabelos hirsutos
e de joelhos sem força,
com palavras, paisagens, figuras humanas
pregadas para sempre em nossa memória.

Já nem queremos nada,
tanto estamos desgostosos:
nem água nem ouro nem beijo.
Para nunca mais – o horizonte e a sua flor!

Podeis vir, que já se extinguiram as revelações.
Nada vos custa o espetáculo.
Rasgou-se o traçado em que nós gastamos em sonho,
e a arquitetura que trazíamos
voa de novo, em números celestes.

Vinde e contemplai-nos, que entardece.
Nossas sombras caminham para o reino da Sombra.
Nunca mais sabereis como foram os nossos olhos:
vinde vê-los para (se isto ainda se repetir)
vossos filhos reconheceram prontamente
os modos e o destino dos que apenas amaram,
e passaram,
amarrados,

eles, que tinham vindo
mostrar apenas o divino dinamismo!


Cecília Meireles
in Mar Absoluto

Os Homens Gloriosos

(John Atkinson Grimshaw)


Sentei-me sem perguntas à beira da terra,
e ouvi narrarem-se casualmente os que passavam.
Tenho a garganta amarga e os olhos doloridos:
deixai-me esquecer o tempo,
inclinar nas mãos a testa desencantada,
e de mim mesma desaparecer,
— que o clamor dos homens gloriosos
cortou-me o coração de lado a lado.

Pois era um clamor de espadas bravias,
de espadas enlouquecidas e sem relâmpagos,
ah, sem relâmpagos...
pegajosas de lodo e sangue denso.

Como ficaram meus dias, e as flores claras que pensava!
Nuvens brandas, construindo mundos,
como se apagaram de repente!

Ah, o clamor dos homens gloriosos
atravessando ébriamente os mapas!

Antes o murmúrio da dor, esse murmúrio triste e simples
de lágrima interminável, com sua centelha ardente e eterna.

Senhor da Vida, leva-me para longe!
Quero retroceder aos aléns de mim mesma!
Converter-me em animal tranqüilo,
em planta incomunicável,
em pedra sem respiração.

Quebra-me no giro dos ventos e das águas!
Reduze-me ao pó que fui!
Reduze a pó minha memória!

Reduze a pó
a memória dos homens, escutada e vivida...


Cecília Meireles,
in 'Mar Absoluto'

‘NATUREZA MORTA’

(Sir Lawrence Alma-Tadema)


Tinha uma carne de malmequeres, fina e translúcida,
com tênues veios de ametista, como o desenho sutil dos rios.
E ainda ficava mais branco, naquela varanda cheia de luar.

Os outros peixes nadavam gloriosos por dentro das ondas,
subiam, baixavam, corriam, brilhavam trêmulos de lua,
sem saberem daquele que não pertencia mais ao mar.

Deitado de perfil, em crespos verdes sossegados,
ia sendo servido, entre vinhos claros de altos copos,
envoltos numa gelada penugem de ar.

Seu olho de pérola baça, olho de gesso, consentia
que lhe fossem levando, pouco a pouco, todo o corpo...
E à luz do céu findava, e ao murmúrio do mar.


Cecília Meireles
in Mar Absoluto
Seja bem-vindo. Hoje é