Mostrar mensagens com a etiqueta Jorge de Sena. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jorge de Sena. Mostrar todas as mensagens

domingo, 31 de maio de 2009

poesia de cascais #16 - Jorge de Sena


«SOPHIA DA MONARQUIA...»

Sophia da monarquia,
sofia republicana,
recebi a antologia,
corrigida e ampliada,
com sua dedicatória
de antiga amizade grada,
em que me anotas a história
e para a História registas
que em Creta tu te banhaste
no esplendor da maresia,
com o meu velho Minotauro..
Em Creta, com o Minotauro,
por onde andamos, Sophia!
Que outros poetas se banhem
em Estorises e Cascáises
de água turva lusitana.
A nós as ilhas da Grécia!
A nós a fonte do dia!
A nós o leite que mana
de ser-se sofia e Sophia!

13/10/1970

sábado, 5 de janeiro de 2008

Sob o signo do «Dragão da Crítica»: romancistas, poetas, ensaístas e historiadores em Cascais (7)

A Casa do «Dragão da Crítica»
Romancista, ensaísta, memorialista e dramaturgo, João Gaspar Simões (1903-1987) é o crítico por antonomásia, pelas décadas de escrita em que pontificou nos principais jornais do país: Diário de Lisboa, Diário Popular e Diário de Notícias, além de muitas outras publicações periódicas. Autor de uma obra vastíssima em que avultam as biografias de Eça de Queirós (1945) e Fernando Pessoa (1950), Simões é também um dos pais fundadores do chamado segundo modernismo português, tendo dirigido com José Régio e Branquinho da Fonseca uma das principais revistas literárias do século XX - a presença.




[a Casa do Dragão em construção, 1942/43]




O novelista de Elói ou Romance numa Cabeça mandou erigir uma magnífica moradia -- encomendando o projecto a um arquitecto local, Joaquim Ferreira (1911-1966) -- situada na Avenida Emídio Navarro. Nela residiu entre 1943 e 1957, período a que respeitam e onde foram redigidas (parcialmente, a primeira) as já referidas biografias marcantes de Eça e Pessoa. É nesta última que se publica pela primeira vez o célebre requerimento de 1932, com que o poeta se candidatou ao lugar de conservador do Museu Condes de Castro Guimarães (26), documentação que lhe foi facultada por Branquinho da Fonseca, então director da instituição. (27)

[.ª edição de Eça de Queiroz -- O Homem e o Artista]
A «Casa do Dragão» foi assim crismada pelo arquitecto, uma vez que a fama de condicionar percursos de livros e autores, mediante uma sua crítica, positiva ou desfavorável, já estava perfeitamente adquirida. O tradicional galo do catavento foi assim substituído por um dragão, pois, segundo Joaquim Ferreira, Gaspar Simões era um autêntico «Dragão da Crítica». (28)


[o catavento do Dragão. Foto de Guilherme Cardoso]






Do muito a que se assistiu dentro daquelas quatro paredes, as memórias e correspondências, entre outras fontes, farão algumas revelações. Para já, registemos uma das primeiras leituras que ali tiveram lugar da peça de Jorge de Sena (1919-1978), O Indesejado (António, Rei) -- um dos grandes textos da dramaturgia portuguesa de novecentos -- em 30 de Dezembro de 1944, na presença da actriz Manuela Porto (1908-1950). (29). Leitura de que, dias mais tarde, a 7 de Janeiro, dará notícia ao ensaísta Guilherme de Castilho (1912-1987) -- também com fortes ligações ao concelho de Cascais, de que tratarei noutra oportunidade: «Dos dois actos prontos, fiz três audições privadíssimas (uma na «Casa do Dragão», em Cascais -- bela casa, está-se lá admiravelmente![)]». (30)


NOTAS

(26) Fernando Pessoa -- A Biblioteca Impossível, com prefácio de Teresa Rita Lopes, Cascais, Câmara Municipal, 1995.
(27) João Gaspar SIMÕES, Vida e Obra de Fernando Pessoa, 5.ª edição, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987 : 592, n.14.
(28) Informação que me foi dada pela filha do escritor, Maria Joana Gaspar Simões Alpuy.
(29) Jorge de SENA, O Indesejado (António, Rei), 3,ª edição, Lisboa, Edições 70, 1986 : 177.
(30) Jorge de SENA e Guilherme de CASTILHO, Correspondência, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1981 : 49-50.

sábado, 4 de agosto de 2007

Cascaliana #2 - João Sarmento Pimentel

BREVE REFERÊNCIA AO MAR DE CASCAIS
NAS MEMÓRIAS DO CAPITÃO

João Maria Ferreira Sarmento Pimentel (Eixes, Mirandela, 1888 -- São Paulo, 1987).

Oficial do Exército, escritor memorialista, fidalgo republicano, Sarmento Pimentel é uma das mais apaixonantes figuras do século XX português. Oriundo da velha aristocracia nortenha, participou em alguns dos mais importantes lances da história de novecentos, com um papel de grande destaque. Não ainda na Rotunda, em 5 de Outubro de 1910, jovem cadete subordinado. Mas em 1915, na guerra de África contra os alemães, teve intervenção importante na reconquista de Naulila, sul de Angola, em 1915, comandando um destacamento luso-boer, e passa pelo inferno das trincheiras da Flandres. Em Portugal, tendo colaborado com Sidónio Pais, será o chefe das forças que põem fim à Monarquia do Norte, em Fevereiro de 1919. Membro da direcção da Seara Nova, será chefe de gabinete de Ezequiel de Campos no governo de Álvaro de Castro (1923-24). Após o 28 de Maio de 1926, está implicado no golpe do 3/7 de Fevereiro do ano seguinte, que lhe valerá o exílio, estando na origem do seu exílio no Brasil, onde deixará descendência.

Para além dos aspectos de vida intensamente vivida, Sarmento Pimentel foi um extraordinário escritor, como revelam as suas Memórias do Capitão, cuja primeira edição veio a lume no Brasil pelas mãos do então também exilado Victor Cunha Rego, em 1962. São páginas de grande riqueza estilística, saborosamente evocativas, de travo camiliano.

Num dos poemas que lhe dedicou, Jorge de Sena escreveu: «[...] / Assim, senhor, eu vos saúdo e digo / de como em vida me vivi honrado / com conhecer-vos e por vós ser tido / por digno de amigo e camarada / nas horas duras de se amar a pátria / com amor infeliz, como naquelas / em que de convivência ela renasce / tão pura qual nenhuma pátria humana: / é uma grã-cruz que vossa senhoria / colocou no meu peito e que mais vale / que quantas de vaidade só refulgem. / E pesa como séculos de História / qual em vossas memórias revive. / [...]» 40 Anos de Servidão, 2.ª ed., Lisboa, Moraes Editores, 1982, p. 180.

Dessas Memórias retiro um breve parágrafo em que, a bordo, o jovem alferes de cavalaria ruma a Angola, após o desastre de Naulila de 1914:

«Madrugamos para um último adeus à terra metropolitana, e a brisa do mar refrescou o convés ainda quente daquela noite de Junho, quando chegamos a Cascais.

Rompeu o "Cabo Verde" pelo mar fora, tão calmo e vagaroso como velho andarilho que já soubesse de cor e salteado o caminho a percorrer. Naquele dia perdemos de vista a costa e embicamos ao sul rumo da África, havendo apenas de anormal o barulho dos cascos dos solípedes no assoalho dos porões, muito aumentado quando o clarim tocou para a ração.»

Memórias do Capitão, Porto, Editorial Inova, 1974, p. 143.

Na net:Brasil/Portugal - Testemunhos/Encontros; Câmara Municipal de Mirandela

 
Golf
Golf