Mostrar mensagens com a etiqueta Fernando Lopes-Graça. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fernando Lopes-Graça. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

P&R [pergunta e resposta] - Pedro Burmester

Porque é que depois, no meio de um programa clássico, incluis Fernando Lopes-Graça, que nunca tinhas tocado, e Gyorgy Ligeti, dois compositores mais contemporâneos?  Lopes-Graça é um compositor extraordinário. Um dos mais importantes vultos da cultura portuguesa do século XX, a par de um Pessoa, ou de um Saramago. Não é um compositor fácil, nem para tocar, nem para ouvir. Não cede nunca a facilitismos, muito coerente, muito sério no seu trabalho, com um conhecimento da escrita incrível, e que vai beber quase sempre à grande riqueza da música tradicional portuguesa. Simbolicamente, esta é a primiera obra que escreve para piano, em 1923. Portanto, é uma obra já com quase 100 anos. Mas já lá está tudo. É uma variação sobre um tema tradicional português, que ele não explica qual é. Espero que esta seja a primeira de mais obras de Lopes-Graça que gostaria de tocar no futuro.
Entrevista a Valdemar Cruz, Expersso / Actual #2145, 7.XII.2013.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Fernando Lopes-Graça (Tomar, 1906 - Parede, 1994), INTRODUÇÃO À MÚSICA MODERNA (1942)

ADVERTÊNCIA PRELIMINAR

De maneira nenhuma este ensaio pode ser, nem pretende ser, um estudo exaustivo dos problemas que levantou, e levanta ainda, a música destas quatro primeiras décadas de século XX. Não pode sê-lo porque a índole desta biblioteca o não permite; e ainda que o permitisse, quem não poderia pretender levara tarefa a cabo é o seu autor, porque ela estava fora das suas preocupações dominantes. E aqui teme ele mais uma vez de fazer a declaração de não ser musicólogo -- palavra que o assusta, pelas reponsabilidades que o impõe a quem se adorna com ela. Os problemas musicais interessam-no na medida em que, satisfazendo uma das curiosidades do seu espírito, o ajudam a compreender e a resolver os seus próprios problemas de músico sobretudo prático que é. Se escreve, se especula ou teoriza acerca da música (e, contra a sua íntima vontade, bastantes vezes o tem que fazer), é isso devido, antes de mais nada, a razões puramente circunstanciais: umas, não têm aqui que ser invocadas; outras são as que advêm da falta de coragem que muitas vezes há em opor um não a solicitações que são feitas, já em nome da amizade, já em nome dos princípios morais e culturais que defendemos; outras, ainda, -- e estas são as razões que mais desejaríamos não constituíssem uma razão -- residem no impulso irreprimível que frequentemente nos assalta de saírmos com a pena a defender a música das mentiras, tranquibérnias e despautérios com que constantemente a aviltam os próprios que se dizem seus servidores, seus sacerdotes, seus entendedores feros e esclarecidos.

Fernando Lopes-Graça, Introdução à Música Moderna, 2.ª edição, Lisboa, Cosmos, 1946, pp. 5-6.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Fernando Lopes-Graça (Tomar, 1906 - Parede, 1994), SOBRE A EVOLUÇÃO DAS FORMAS MUSICAIS (1940)



PREFÁCIO DA 2.ª EDIÇÃO
Publicado pela primeira vez faz dezanove anos, este livrinho teve a fortuna de ser bem acolhido tanto em Portugal como no Brasil, e há muito se achava esgotado. A ideia do seu editor de o reiprimir corresponde a uma penhorante solicitação do público. O autor achou conveniente fazer, não uma refundição, mas uma revisão do seu trabalho, expurgando-o de alguns erros, de certas imprecisões na exposição, e acrescentando-lhe, por outro lado, meia dúzia de linhas sobre os novíssimos aspectos que a matéria versada reveste. Uma sumária e talvez útil Bibliografia completa o ensaio -- título porventura ambicioso para um escrito que não pretende à originalidade, mas visa sobretudo um fim pedagógico.
Lisboa, Maio de 1959
F.L.G.
INTRODUÇÃO:
CONSIDERAÇÕES GERAIS
De todas as ideias filosóficas modernas, uma das mais espalhadas, mas também das mais perigosas, pelo seu abusivo emprego, é sem dúvida a de progresso. Justa e plenamente aceitável quando se trate das conquistas materiais e mesmo das relações sociais do homem, é todavia de melindrosíssimo uso quando aplicada às coisas do espírito e, mormente, à Arte.
Fernando Lopes-Graça, Sobre a Evolução das Formas Musicias, 2.ª edição, Lisboa, Editorial Inquérito, 1959, pp. 9/11.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Sob o signo do «Dragão da Crítica» - Romancistas, Poetas, Ensaístas e Historiadores em Cascais (3)

Aquilino Ribeiro (1885-1963), grande mestre da língua portuguesa, um dos maiores escritores portugueses do século XX, comentava desta forma aquilinianamente degustativa, para o Guia de Portugal, coordenado por Raul Proença, o nosso «Carcavelos»: «saborosa jeropiga de tão grande consumo em todo o país sob o nome de Vinho de Carcavelos, e em Inglaterra, sob o de Lisbon Wine.» (10)
Ferreira de Castro (1898-1984), que viveu e escreveu no Estoril na década de 30 (11), num dos seus livros da primeira fase (eliminada da sua bibliografia), tem este apontamento lúgubre e belo: «Cascais, adormecida, vergastada pelo mar, dir-se-ia uma dessas povoações de pescadores que, vistas de noite, parecem cemitérios devastados.» (12)
Fernando Lopes-Graça (Tomar, 1906 -- Parede, 1994), não só um dos principais compositores portugueses como o mais proficiente musicólogo e ensaísta de música do seu tempo -- e, enquanto tal, autor de uma vasta bibliografia onde se espelha o estilo finíssimo de escritor --, em entrevista a Baptista-Bastos para o semanário Ponto, em 1981: «O meu país é a Parede». (13)

Nem sempre as evocações são agradáveis, não deixando, obviamente, por isso, de ter significado. Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), o imortal autor de Voo Nocturno e de O Principezinho, quando, em 1940, escalou em Lisboa, rumo a Nova Iorque, regista, na Carta a um Refém (1944), aquela consabida expressão de Lisboa como «uma espécie de paraíso claro e triste.» (14) Hospedado no Hotel Palácio, Saint-Ex registou a atmosfera geral, «irreal», dos frequentadores do Casino, como que alheados da carnificina europeia que, não muito longe dali, se desenrolava, dia e noite. «Ia respirar à beira-mar. E aquele mar do Estoril, mar de cidade termal, mar domesticado, parecia-me entrar também naquele jogo. Impelia para dentro da baía uma única vaga mole, toda luzidia de luar, como um vestido de cauda fora da estação.» (15)

NOTAS:

(10) In Raul PROENÇA (dir.), Guia de Portugal I. Generalidades, Lisboa e Arredores [924] Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1991 : 612.
(11) Ricardo António ALVES, «Três escritores em tempo de catástrofe: Castro, Zweig e Eliade», Boca do Inferno, n.º 3, Cascais, Câmara Municipal, 1998 : 91-125.
(12) Eduardo FRIAS e Ferreira de CASTRO, A Boca da Esfinge, Lisboa, Livrarias Aillaud & Bertrand, 1924 : Apesar de se tratar duma parceria, não me oferece dúvida o que saiu da pena de um e de outro.
(13) A. BAPTISTA-BASTOS, Um Homem em Ponto. Entrevistas, Lisboa, Relógio d'Água, 1984 : 59.
(14) A. de SAINT-EXUPERY, Carta a um Refém, tradução de Francisco G. Ofir, Lisboa, Grifo, 1995 : 7.
(continua)
 
Golf
Golf