Mostrar mensagens com a etiqueta Almada Negreiros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Almada Negreiros. Mostrar todas as mensagens

sábado, 31 de julho de 2010

linhas de Cascais - José-Augusto França

Ler e a Personalidade de Homero, datado de 1943 [...] . São 60 000 palavras e gráficos de um ensaio dedicado à memória de Sá-Carneiro, Ângelo de Lima, Pessoa e Raul Leal, de Santa Rita, Amadeo e Viana, a Sara Afonso, sua mulher, e aos pintores cubistas e a Matisse, num sítio de Portugal, na sua casa de Bicesse, o Fim-do-Mundo mais perto de Lisboa, cidade de Ulisses, junto à Serra da Lua...
José-Augusto França, O Essencial sobre Almada Negreiros, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2003, pp. 64-65.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Almada Negreiros, MATERNIDADE (1948)

-- Nos desenhos da Maternidade, o menino transforma-se num pássaro, num mosquito, numa coisa, desfeito em brinquedo nas mãos da mãe. No fim já é só um frangalho.
-- Onde é que foram feitos os desenhos da Maternidade?
-- Os desenhos da Maternidade foram feitos em Bicesse, num dia entre as 10 da manhã e as 8 da noite.
Para mim foi uma coisa maravilhosa!
Desceu a rir a escada do quarto que vem a dar à sala. Vinha muito bem-disposto, com uma resma de papel debaixo do braço: «Olha, diz, para me trazerem o pequeno-almoço e que mo ponham na mesa de pedra.» Era ali, naquela mesa de mó de moinho que ele gostava de tomar o pequeno-almoço no Verão. Tomou o pequeno-almoço, pôs de lado o tabuleiro e começou a desenhar.
Era maravilhoso!
Depois veio o almoço. Voltou-se a tirar os papéis, comemos, acabámos e voltou ao desenho.
Depois veio o lanche e voltou até à noite.
Não assinou, pôs só 48, foi em Agosto.

Maria José Almada Negreiros, Conversas com Sarah Affonso, 2.ª edição, Lisboa, o jornal, 1985, pp. 150-151.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Pessoa em Bicesse

-- O quadro do Fernando Pessoa foi feito aqui em Bicesse, no atelier do pinhal, não foi?

-- Foi.

Maria José Almada Negreiros, Conversas com Sarah Affonso, 2.ª edição, Lisboa, O Jornal, 1985, p. 82.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

poesia de cascais #11 - Vasco Graça Moura



lavadeiras

na estrada velha, perto de minha casa,
há um lavadouro de arcadas azuis. vejo,
às vezes, as mulheres lavando a roupa,
uma ou duas, não mais, pela manhã, de

jeans e camisola, raramente de lenço
na cabeça, raramente olhando para
os carros que passam. como o almada
negreiros tinha casa ali perto, pergunto-

-me se não será ainda uma representação do tipo
gare marítima de alcântara, como a nau catrineta,
o conde ninho, outra coisa qualquer do romanceiro,
esfregada entre água fria e detergente, apenas

para a cor local do sítio de bicesse, enquanto, de
certeza, as mulheres ouvem a lambada, o rap, alguma
rumba antiga ou cantarolam os indicativos dos
anúncios radiofónicos mais estúpidos do mundo,

e os carros passam e repassam, apertando a curva.
alguns desenhos do alamada poderiam explicá-las,
no ritmo íntimo do corpo, mas já sem arabesco integrador
de uma sucessão de gestos na memória colectiva,

mas já sem colorido, já sem alegria ou tristeza,
apenas como banalidade pobre do sítio de bicesse,
atafulhando sacos de plástico com a roupa, e faça sol
ou chuva, para alguém continuar de mãos gretadas.

domingo, 7 de outubro de 2007

Uma evocação de João Vasco

Em Maio de 1966, o TEC (Teatro Experimental de Cascais) levou à cena a peça Mar, de Miguel Torga. Carlos Avilez convidara o autor para a estreia, mas este recusara: «a um ensaio-geral gostaria de assistir» -- recordou João Vasco -- evitando «tudo o que fosse "mundanice"».
Mirita Casimiro como "Maria Papolia"
«Nesse início de tarde, estando eu no [Hotel] Baía com a D. Mirita, vimos passar Torga, que momentaneamente parou para perguntar onde ficava o Teatro Gil Vicente. Uma das pessoas informou aquele senhor que, subindo na direcção daquele beco, lá iria ter, mas que vinha ali a D. Mirita que, certamente, ia para o Teatro.

Torga retratado por Pomar
Ao nosso encontro vem Torga, no seu passo apressado, com um rosto granítico, estendendo o seu enorme braço, que diz para Mirita: "Muito prazer em conhecê-la pessoalmente, minha senhora." Mirita olhou-o com aqueles grandes olhos, e contempla, da sua pequena altura, a figura imponente de Torga. Depois apresentou o rapazito que iria representar a sua peça... Encaminhámo-nos pelos becos, direitos ao Teatro Gil Vicente. Limitei-me a ouvir a conversa de Mirita e Torga. Falaram de Viseu, da dinastia dos Casimiros, de S. Martinho de Anta, do sol radiante que estava nessa tarde, etc. Torga fazia umas paragens, contemplando a parte antiga de Cascais, nessa altura ainda não destruída como hoje. [...]
Almada Negreiros
Ao chegarmos ao largo do Gil Vicente, surge o velho "carocha" Volkswagen acinzentado, com a figura simpática, extrovertida, simpática, sei lá... de Mestre Almada Negreiros [...] Torga deu o braço a Almada e entraram, na maior das boas disposições, no teatro.
João Vasco
Na sala de entrada do teatro havia uma certa desarrumação, pois todo o guarda-roupa, concebido por Almada, tinha ali sido concebido. Em cima de uma mesa estava a maqueta, construída pelo próprio Almada. Torga ficou deslumbrado e examinou com pormenorizada atenção, aquilo que viria, passados cerca de 15 minutos, a ver no palco.
Assisitram juntos a todo o ensaio. [...] Torga, no final, teve palavras muito simpáticas para todo o elenco e para o deslumbrante cenário do Mestre Almada. [..]
Teatro Gil Vicente
No dia seguinte, perguntei a Paula Almada Negreiros (filha do Mestre e de Sarah Affonso) por Torga: "Entrou no nosso carro, mal acomodado, e quis ficar junto da estação do Estoril, pois queria apreciar a paisagem até Lisboa ["]. Almada Negreiros seguiu para a sua casa de Bicesse. [..]»
João VASCO, «A propósito de Almada Negreiros e Miguel Torga em Cascais», Exposição Conjunta de Sarah Affonso e José de Alamada Negreiros em Cascais [catálogo], Cascais, Cãmara Municipal, 1996, pp. 21-22.
 
Golf
Golf