Meu umbigo é uma fábrica de lã.
Algo que nunca corrigi na vida. Não cortei o cordão umbilical por inteiro, é uma sensação de purgatório.
Ele sempre guarda resquícios das camisas e camisetas. Fica tapado com a flufa. Todo o dia preciso efetuar a manutenção.
Antes do sexo, dou uma olhadinha para ver se está tudo bem. Não quero que a minha mulher mexa no meu umbigo durante o calor do vaivém. Ou que diga: só posso continuar quando o seu umbigo estiver limpo. A possibilidade da sentença me atordoa.
A sujeirinha criou uma paranoia desnecessária de limpeza. Como ninguém fala nada sobre o assunto, imagino que sofro uma doença rara, algo tipo flufalência. Jamais toquei no assunto com o meu terapeuta.
O curioso é que descobri que meu iPhone sofre do mesmo mal. Nenhum carregador mais funcionava com o aparelho. Estava cansado de adquirir extensões novas mensalmente, originais e bastardas. Nenhuma vingava. Terminava preso a uma tomada mudando de posição incansavelmente, apertando e afrouxando o cabo.
Disposto a pôr um ponto final no suplício, fui numa assistência autorizada da Apple. O técnico, de cara, desentortou um clipe e alertou: é sujeira no umbigo. Como assim? Nem sabia que o meu telefone tinha umbigo. E retirou um novelo de poeira do contato por onde entra o fio.
Voltei para casa disposto a fazer uma atualização do meu sistema.
Não me elogiar não quer dizer que ela não está me enxergando. Na hora em que precisar, surgirá batendo à porta e oferecerá o seu colo. Não sofro do desespero de perdê-la, estou eternamente em seus traços e manias.
Identifico o seu esforço de lutar contra a saudade, e reconheço o seu mérito.
Você só tenta escapar daquilo que é importante. Ela procura construir a sua personalidade longe de minha influência.
Eu compreendo: realizei semelhante oposição aos meus pais, escritores.
A beleza do conflito é que não existe bajulação, a relação é profundamente mais sincera.
Publicado em O Globo em 28/12/2017
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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018
O ROSTO DESAPARECIDO
Já tive a tristeza de olhar alguns amigos queridos no caixão, pálidos, cobertos de flores. Eu não reconheci nenhum deles. Sempre levei um susto, como se eu tivesse entrado no velório errado.
A morte modifica o rosto, a ponto dele ficar irreconhecível. O rosto do morto não é o rosto de quem dorme. A face adormecida ainda é bonita, com a respiração bombeando a tez da pele. Durante o sono, nossos traços têm o contorno do lápis e a tridimensionalidade da luz.
O rosto do morto é impessoal, uma máscara de gesso, uma moldura barroca numa tela em branco, uma dor sem grito e sem socorro.
Antes acreditava que não havia olhado bem o meu amigo em nossos encontros, não gravei as suas nuances, pois ele me parecia distinto. Depois fui aceitando a ideia de que o fim transfigura a identidade. Aquele não era mais o meu amigo. Nem um gêmeo extraviado de meu amigo. Meu amigo não estava mais ali como eu o conhecia dentro da alegria. Toda morte troca o corpo. Nascemos e morremos em corpos diferentes.
Havia um estranho em seu lugar: feição sugada, queixo contraído, lábios menores do que o hábito da fala.
O choro vem porque nunca mais o verei, é a prova de que não mais o verei.
Até o morto não está em seu enterro - concluo, assoberbado. Chora-se pela sua lembrança mais do que pela referência presente daquele lugar sombrio de castiçais.
A impressão é que estou diante de um berço de madeira e ele se apequenou, regrediu de tamanho, tornou-se um bebê adulto, de colo. Na morte, somos pequenos e encolhidos, longe da imponência do movimento.
O que me confere a certeza de que temos um espírito nos aquecendo pelo interior dos músculos, temos um sopro milagroso e extraordinário dentro da gente, um vento divino de sentido.
A diferença entre o vivo e o morto é a alma. Quando a alma sobe, não resta mais nada. Por mais que a saudade procure forçar os olhos.
Publicado em O Globo em 20/12/2017
A morte modifica o rosto, a ponto dele ficar irreconhecível. O rosto do morto não é o rosto de quem dorme. A face adormecida ainda é bonita, com a respiração bombeando a tez da pele. Durante o sono, nossos traços têm o contorno do lápis e a tridimensionalidade da luz.
O rosto do morto é impessoal, uma máscara de gesso, uma moldura barroca numa tela em branco, uma dor sem grito e sem socorro.
Antes acreditava que não havia olhado bem o meu amigo em nossos encontros, não gravei as suas nuances, pois ele me parecia distinto. Depois fui aceitando a ideia de que o fim transfigura a identidade. Aquele não era mais o meu amigo. Nem um gêmeo extraviado de meu amigo. Meu amigo não estava mais ali como eu o conhecia dentro da alegria. Toda morte troca o corpo. Nascemos e morremos em corpos diferentes.
Havia um estranho em seu lugar: feição sugada, queixo contraído, lábios menores do que o hábito da fala.
O choro vem porque nunca mais o verei, é a prova de que não mais o verei.
Até o morto não está em seu enterro - concluo, assoberbado. Chora-se pela sua lembrança mais do que pela referência presente daquele lugar sombrio de castiçais.
A impressão é que estou diante de um berço de madeira e ele se apequenou, regrediu de tamanho, tornou-se um bebê adulto, de colo. Na morte, somos pequenos e encolhidos, longe da imponência do movimento.
O que me confere a certeza de que temos um espírito nos aquecendo pelo interior dos músculos, temos um sopro milagroso e extraordinário dentro da gente, um vento divino de sentido.
A diferença entre o vivo e o morto é a alma. Quando a alma sobe, não resta mais nada. Por mais que a saudade procure forçar os olhos.
Publicado em O Globo em 20/12/2017
A VIDA NÃO MAIS NOS PERTENCE
Os encontros deveriam ser marcados na última hora. Pena que não funcionam.
Agendamos compromissos quando estamos dispostos de manhã e não nos damos conta da exaustão do final do dia. Planejamos um cinema, um show, uma balada com amigos no momento de tranquilidade, e não percebemos que ainda teremos que atravessar um percurso inteiro de preocupações. Não há como ter conhecimento prévio do estresse que nos espera. Programamos o lazer noturno como se desfrutássemos do mesmo fôlego do despertar. Persiste o desejo de se divertir, porém o corpo não responde aos comandos da euforia.
Sempre ocorre um desgaste mental, um jogo de nervos, um dilema moral: será que vou ou não vou?
O contentamento vai desaparecendo lentamente, devido às atribulações da rotina.
No anoitecer, aquilo que foi anotado na agenda com ânimo e entusiasmo logo cedo já não parece tão agradável. Pelo contrário, a vontade é de cancelar sumariamente e achar as desculpas mais loucas para deitar na cama, colocar roupas confortáveis e procrastinar na frente da televisão.
Somos um ao combinar saídas e outro completamente diferente na véspera de sair. Não é desamor pelas amizades, não é velhice ou depressão, é simplesmente cansaço inesperado. Não possuímos controle do que virá pela frente, dos improvisos e desmandos profissionais. Somos sugados pela carga cada vez maior do emprego, pois não descansamos nem um minuto dos apelos das obrigações, dos e-mails, do WhatsApp e das ligações. Não há trégua e respiro. Morreu o lanche da tarde que animava o serviço e renovava o gás - o recreio e a sirene ficaram enterrados na vida escolar. É uma atenção em tempo integral que não vigorava antes da web. A jornada de 8 horas é folclore - não conheço quem não se dedique mais de 12 horas para a sobrevivência. A CLT está longe da realidade, prevê o que recebemos no salário, nunca o que efetivamente trabalhamos.
Quando um amigo desmarca um encontro, não condeno. Perdoo os furões. Sei que ele também é vítima da insalubridade digital.
Publicado em O Globo em 14/12/2017
Agendamos compromissos quando estamos dispostos de manhã e não nos damos conta da exaustão do final do dia. Planejamos um cinema, um show, uma balada com amigos no momento de tranquilidade, e não percebemos que ainda teremos que atravessar um percurso inteiro de preocupações. Não há como ter conhecimento prévio do estresse que nos espera. Programamos o lazer noturno como se desfrutássemos do mesmo fôlego do despertar. Persiste o desejo de se divertir, porém o corpo não responde aos comandos da euforia.
Sempre ocorre um desgaste mental, um jogo de nervos, um dilema moral: será que vou ou não vou?
O contentamento vai desaparecendo lentamente, devido às atribulações da rotina.
No anoitecer, aquilo que foi anotado na agenda com ânimo e entusiasmo logo cedo já não parece tão agradável. Pelo contrário, a vontade é de cancelar sumariamente e achar as desculpas mais loucas para deitar na cama, colocar roupas confortáveis e procrastinar na frente da televisão.
Somos um ao combinar saídas e outro completamente diferente na véspera de sair. Não é desamor pelas amizades, não é velhice ou depressão, é simplesmente cansaço inesperado. Não possuímos controle do que virá pela frente, dos improvisos e desmandos profissionais. Somos sugados pela carga cada vez maior do emprego, pois não descansamos nem um minuto dos apelos das obrigações, dos e-mails, do WhatsApp e das ligações. Não há trégua e respiro. Morreu o lanche da tarde que animava o serviço e renovava o gás - o recreio e a sirene ficaram enterrados na vida escolar. É uma atenção em tempo integral que não vigorava antes da web. A jornada de 8 horas é folclore - não conheço quem não se dedique mais de 12 horas para a sobrevivência. A CLT está longe da realidade, prevê o que recebemos no salário, nunca o que efetivamente trabalhamos.
Quando um amigo desmarca um encontro, não condeno. Perdoo os furões. Sei que ele também é vítima da insalubridade digital.
Publicado em O Globo em 14/12/2017
UM CHICLETE NO SAPATO
A esposa descobriu que o marido era infiel pelo chiclete. Nem quis discutir. Quando viu o marido mascando sem parar por mais de uma semana, flagrou a traição. Não precisou de prova, de foto, de vídeo, de batom e blush na roupa, de mordida, de arranhão, de celular estranhamente desligado. Ela sumariamente dispensou o homem, sem direito a liminar. Como nos julgamentos sumários de guerra, que se parte direto para execução.
Ela conhecia muito bem o seu cônjuge (ideal é chamar de cônjuge que fica mais fácil se separar). Chegou próxima dele, anunciou e virou as costas:
- Você voltou a mascar chiclete. Desejo o divórcio. Pode arrumar as suas coisas.
Não era uma promessa que ele havia quebrado de nunca mais pôr uma goma na boca. É que o chiclete estava ligado ao período da paixão do casal. Quando começaram o relacionamento, ele inventou de confessar:
- Só tenho vontade de chiclete quando fico apaixonado.
Ela guardou a informação irrelevante por cinco anos. Manteve o áudio vivo na memória, para uso indefinido. Pois mulher não esquece nada nunca, cuidado com o que fala no início do namoro.
Ele revelou, na época, que usava o chiclete como isca dos beijos, para perfumar a boca e insuflar a atração. Jamais cogitou que estava dando um testemunho contra si a ser empregado no futuro.
Logo a esposa concluiu que ele se enrabichou por outra e se aventurava em motéis nas horas vagas. O chiclete não poderia ser uma homenagem ao matrimônio, já que ultimamente a relação se caracterizava pela distância e formalidade na cama.
O homem não muda as suas estratégias de sedução. Não se atualiza. Não faz reciclagem. Sempre será pego pela imensa previsibilidade de suas velhas armas.
Publicado em O Globo em 07/12/2017
Ela conhecia muito bem o seu cônjuge (ideal é chamar de cônjuge que fica mais fácil se separar). Chegou próxima dele, anunciou e virou as costas:
- Você voltou a mascar chiclete. Desejo o divórcio. Pode arrumar as suas coisas.
Não era uma promessa que ele havia quebrado de nunca mais pôr uma goma na boca. É que o chiclete estava ligado ao período da paixão do casal. Quando começaram o relacionamento, ele inventou de confessar:
- Só tenho vontade de chiclete quando fico apaixonado.
Ela guardou a informação irrelevante por cinco anos. Manteve o áudio vivo na memória, para uso indefinido. Pois mulher não esquece nada nunca, cuidado com o que fala no início do namoro.
Ele revelou, na época, que usava o chiclete como isca dos beijos, para perfumar a boca e insuflar a atração. Jamais cogitou que estava dando um testemunho contra si a ser empregado no futuro.
Logo a esposa concluiu que ele se enrabichou por outra e se aventurava em motéis nas horas vagas. O chiclete não poderia ser uma homenagem ao matrimônio, já que ultimamente a relação se caracterizava pela distância e formalidade na cama.
O homem não muda as suas estratégias de sedução. Não se atualiza. Não faz reciclagem. Sempre será pego pela imensa previsibilidade de suas velhas armas.
Publicado em O Globo em 07/12/2017
FAZER GOSTOSO
A feiúra é uma noção secundária para quem faz gostoso.
O sexo prende. O sexo cativa. O sexo caprichado é a moldura para a janela da alma.
É deixar de enxergar no plano unidimensional dos preconceitos e pôr os óculos 3D da fissura.
Tarados não se prendem às fachadas.
Porque fazer gostoso é confiança, é desenvoltura, é merecimento.
Queima a vaidade das selfies, dispensa a futilidade de manter alguém para exibir aos amigos, descarta a insegurança de namorar para impressionar nas redes sociais.
Fazer gostoso é ser inteiro na cama, devoto ao momento e ao monumento, sincero com o gozo, alucinado de tesão, independente do que os demais pensam.
É quando o prazer manda no amor e liberta a sensualidade das aparências.
Fazer gostoso é encontrar o ritmo do outro, o encaixe perfeito, definir o que realmente excita, descobrir as fantasias prediletas e executar as poses favoritas. As palavras sussurradas são as certas, os desaforos são os exatos, a entrega é a ideal.
Nariz grande desaparece com a ginga. Barriguinha some com o rebolado. Estrias não existem com a volúpia.
Se você não entende como que o amigo namora uma mulher nada bonita, até acima do peso, sem nenhum atributo suntuoso, saiba que ela transa bem, muito bem, fora do normal. Nunca terá condições de competir com a sua sabedoria secreta.
Publicado em O Globo em 30/11/2017
O sexo prende. O sexo cativa. O sexo caprichado é a moldura para a janela da alma.
É deixar de enxergar no plano unidimensional dos preconceitos e pôr os óculos 3D da fissura.
Tarados não se prendem às fachadas.
Porque fazer gostoso é confiança, é desenvoltura, é merecimento.
Queima a vaidade das selfies, dispensa a futilidade de manter alguém para exibir aos amigos, descarta a insegurança de namorar para impressionar nas redes sociais.
Fazer gostoso é ser inteiro na cama, devoto ao momento e ao monumento, sincero com o gozo, alucinado de tesão, independente do que os demais pensam.
É quando o prazer manda no amor e liberta a sensualidade das aparências.
Fazer gostoso é encontrar o ritmo do outro, o encaixe perfeito, definir o que realmente excita, descobrir as fantasias prediletas e executar as poses favoritas. As palavras sussurradas são as certas, os desaforos são os exatos, a entrega é a ideal.
Nariz grande desaparece com a ginga. Barriguinha some com o rebolado. Estrias não existem com a volúpia.
Se você não entende como que o amigo namora uma mulher nada bonita, até acima do peso, sem nenhum atributo suntuoso, saiba que ela transa bem, muito bem, fora do normal. Nunca terá condições de competir com a sua sabedoria secreta.
Publicado em O Globo em 30/11/2017
CUPIDO NÃO TEM SEXO
Uma das desculpas prediletas femininas para prevenir o ciúme era a de dizer que o amigo era gay.
Sempre que nada surtia efeito para acalmar a cisma do namorado ou do marido com alguém próximo no trabalho ou nos grupos de convívio, a mulher encontrava um jeito de denunciar a orientação e afastar a chance de envolvimento. O afeto e o carinho passavam a ser justificados como mera espontaneidade de um confidente incomum.
O recurso surgia como um escudo, um álibi, para não configurar traição. Assim ela poderia sair livremente com um outro homem para tomar café e conversar, sem risco do celular tocando a cada quinze minutos. Enganava a paranoia dele, livrava-se da prestação de contas.
- Não tem sentido a desconfiança porque ele é gay.
A sentença abafava qualquer rumor de discussão de relacionamento, desarmava qualquer ameaça de fim e chantagem de malas na porta.
Como se o gay não demonstrasse perigo. Como se o gay fosse uma melhor amiga. Como se o gay fosse uma carta fora do baralho e houvesse uma ditadura heteronormativo em vigor.
Isso perdeu a validade atualmente, onde o amor não segue símbolos de porta de banheiro. Ama-se uma pessoa independente do gênero. A atração não mais obedece tabus e restrições antes de acontecer. A paixão é livre para desejar e experimentar, ainda que seja para contrariar um passado de predileções e as tendências de uma vida.
O ciúme não tem mais nenhuma barreira. É ecumênico e democrático. Os homens estão liberados para temer mulheres e homens, olhar para todos os lados e não afrouxar a dedicação. Não há exceção diante do reinado absoluto do sentimento.
Na verdade, raciocinando historicamente, apartado dos medos e dos preconceitos, não é uma novidade. Desde o princípio, os cupidos avisavam que não tinham sexo.
Publicado em O Globo em 23/11/2017
Sempre que nada surtia efeito para acalmar a cisma do namorado ou do marido com alguém próximo no trabalho ou nos grupos de convívio, a mulher encontrava um jeito de denunciar a orientação e afastar a chance de envolvimento. O afeto e o carinho passavam a ser justificados como mera espontaneidade de um confidente incomum.
O recurso surgia como um escudo, um álibi, para não configurar traição. Assim ela poderia sair livremente com um outro homem para tomar café e conversar, sem risco do celular tocando a cada quinze minutos. Enganava a paranoia dele, livrava-se da prestação de contas.
- Não tem sentido a desconfiança porque ele é gay.
A sentença abafava qualquer rumor de discussão de relacionamento, desarmava qualquer ameaça de fim e chantagem de malas na porta.
Como se o gay não demonstrasse perigo. Como se o gay fosse uma melhor amiga. Como se o gay fosse uma carta fora do baralho e houvesse uma ditadura heteronormativo em vigor.
Isso perdeu a validade atualmente, onde o amor não segue símbolos de porta de banheiro. Ama-se uma pessoa independente do gênero. A atração não mais obedece tabus e restrições antes de acontecer. A paixão é livre para desejar e experimentar, ainda que seja para contrariar um passado de predileções e as tendências de uma vida.
O ciúme não tem mais nenhuma barreira. É ecumênico e democrático. Os homens estão liberados para temer mulheres e homens, olhar para todos os lados e não afrouxar a dedicação. Não há exceção diante do reinado absoluto do sentimento.
Na verdade, raciocinando historicamente, apartado dos medos e dos preconceitos, não é uma novidade. Desde o princípio, os cupidos avisavam que não tinham sexo.
Publicado em O Globo em 23/11/2017
DEDO PODRE LEVA ALIANÇA
O dedo podre faz com que perca a mão cheia de bons relacionamentos. Quando você se envolve com uma louca ou louco, um obsessor ou uma obsessora, não estraga apenas uma relação, mas também as relações futuras. Não cria unicamente trauma em sua história, prolonga-se em conflitos e crises em, pelo menos, dois romances futuros.
Pois não tem como terminar o envolvimento com alguém fora de si. É impossível. A pessoa jamais aceitará o desenlace, jamais acolherá a negativa, jamais admitirá o fim e o abandono, seguirá como um zumbi desgovernado perseguindo os seus passos e multiplicando os cadáveres com as suas mordidas. Vai criar contas fakes e avatares fantasmas para infernizar a sua vida e a de possíveis pretendentes.
Assim você não terá descanso. Provará do mais constrangedor dos arrependimentos, sonhando em mudar o passado e apagar certas lembranças. Sofrerá uma avalanche de fotos, insinuações e segredos para desestabilizar a sua alegria.
Não existe modo seguro para se isolar da ofensiva. Haverá descrição de detalhes de sua sexualidade e de suas manias, a ex ou o ex pretende disseminar a crença de que ainda são amantes e continuam se encontrando.
Suportará a ira e a vingança apocalíptica de um hacker do amor. Enfrentará um inimigo poderoso com conhecimento de causa de seus defeitos e fraquezas.
Todos os seus domínios serão contaminados por distorções e inverdades. Não terá descanso, trégua, até que a xiita ou o xiita liquide com as novas possibilidades de namoro. A sentença que move a alma atormentada é própria do camicase, lixando-se para as censuras morais: “já que não ficou comigo, então não ficará com mais ninguém”.
Como os começos são frágeis e a paixão é quebradiça, os ataques são vitoriosos e convincentes, despertando ciúme e desconfiança. Dificilmente a vítima desfrutará de tempo para se explicar. A ideia é espalhar a incerteza nos acontecimentos mais corriqueiros, transformando a intimidade antiga em suspeita e ameaça onipresentes.
A escolha errada de um parceiro ou de uma parceira, sem nenhuma base razoável, grangrena a esperança. Traz um preço muito alto a pagar, comprometendo o orçamento afetivo com parcelas infinitas. É o mesmo que continuar pagando prestações de um carro roubado.
O maluco e a maluca não largarão de seu pé até amputar inteiramente a sua mão. Só estarão satisfeitos quando não sobrar dedo nenhum para a aliança.
Publicado em O Globo em 16/11/2017
Pois não tem como terminar o envolvimento com alguém fora de si. É impossível. A pessoa jamais aceitará o desenlace, jamais acolherá a negativa, jamais admitirá o fim e o abandono, seguirá como um zumbi desgovernado perseguindo os seus passos e multiplicando os cadáveres com as suas mordidas. Vai criar contas fakes e avatares fantasmas para infernizar a sua vida e a de possíveis pretendentes.
Assim você não terá descanso. Provará do mais constrangedor dos arrependimentos, sonhando em mudar o passado e apagar certas lembranças. Sofrerá uma avalanche de fotos, insinuações e segredos para desestabilizar a sua alegria.
Não existe modo seguro para se isolar da ofensiva. Haverá descrição de detalhes de sua sexualidade e de suas manias, a ex ou o ex pretende disseminar a crença de que ainda são amantes e continuam se encontrando.
Suportará a ira e a vingança apocalíptica de um hacker do amor. Enfrentará um inimigo poderoso com conhecimento de causa de seus defeitos e fraquezas.
Todos os seus domínios serão contaminados por distorções e inverdades. Não terá descanso, trégua, até que a xiita ou o xiita liquide com as novas possibilidades de namoro. A sentença que move a alma atormentada é própria do camicase, lixando-se para as censuras morais: “já que não ficou comigo, então não ficará com mais ninguém”.
Como os começos são frágeis e a paixão é quebradiça, os ataques são vitoriosos e convincentes, despertando ciúme e desconfiança. Dificilmente a vítima desfrutará de tempo para se explicar. A ideia é espalhar a incerteza nos acontecimentos mais corriqueiros, transformando a intimidade antiga em suspeita e ameaça onipresentes.
A escolha errada de um parceiro ou de uma parceira, sem nenhuma base razoável, grangrena a esperança. Traz um preço muito alto a pagar, comprometendo o orçamento afetivo com parcelas infinitas. É o mesmo que continuar pagando prestações de um carro roubado.
O maluco e a maluca não largarão de seu pé até amputar inteiramente a sua mão. Só estarão satisfeitos quando não sobrar dedo nenhum para a aliança.
Publicado em O Globo em 16/11/2017
O PAI NO HOSPITAL
Estranhamente eu me vi contente quando o meu pai baixou hospital. É um sentimento feio para se confessar, mas foi o que aconteceu comigo. Não consigo definir se era felicidade ou alívio.
O meu pai sempre foi rigoroso comigo, de meias e duras palavras, sério, distante, inacessível. Demonstrava afeto e importância falando de dinheiro, se eu precisava de alguma coisa, mais nada, nunca descobri o que pensava e o que desejava, jamais expôs uma outra preocupação carinhosa.
O máximo de contato que tivemos se resumiu a seu aceno uma vez na rodoviária quando segui viagem para estudar na capital. O pássaro de sua mão voando tornou-se nossa recordação mais próxima. Quisera ter fotografado.
Já no hospital, pela primeira vez, eu poderia tocar em sua pele, sem medo, sem susto, sem que ele virasse o rosto, sem ser ofendido. Fiquei perto da cama o observando: uma rocha no mar que recebe a superfície afofada do líquen.
Ele, indefeso, apresentava uma nova autoridade. A autoridade do amor. A sabedoria da fragilidade: nem tudo passa, a amizade dos filhos, surpreendente e incompreensível, grudava-se na pedra.
Fiz questão de cuidá-lo. Ele que nunca me beijava, nunca segurava a minha mão, nunca me abraçava, nunca pedia um favor. E eu o beijei, eu o abracei, eu entrelacei os meus dedos em seus dedos enquanto dormia, eu segurei o copo d’água perto da boca, com a calma sôfrega do canudo.
Recuperei todo o nosso tempo perdido nas três noites de vigília.
Quando ele se recuperou, voltou a ser o que era antes, fechado e distante. Mas eu não voltei a ser a mesma pessoa.
Publicado em O Globo em 09/11/2017
O meu pai sempre foi rigoroso comigo, de meias e duras palavras, sério, distante, inacessível. Demonstrava afeto e importância falando de dinheiro, se eu precisava de alguma coisa, mais nada, nunca descobri o que pensava e o que desejava, jamais expôs uma outra preocupação carinhosa.
O máximo de contato que tivemos se resumiu a seu aceno uma vez na rodoviária quando segui viagem para estudar na capital. O pássaro de sua mão voando tornou-se nossa recordação mais próxima. Quisera ter fotografado.
Já no hospital, pela primeira vez, eu poderia tocar em sua pele, sem medo, sem susto, sem que ele virasse o rosto, sem ser ofendido. Fiquei perto da cama o observando: uma rocha no mar que recebe a superfície afofada do líquen.
Ele, indefeso, apresentava uma nova autoridade. A autoridade do amor. A sabedoria da fragilidade: nem tudo passa, a amizade dos filhos, surpreendente e incompreensível, grudava-se na pedra.
Fiz questão de cuidá-lo. Ele que nunca me beijava, nunca segurava a minha mão, nunca me abraçava, nunca pedia um favor. E eu o beijei, eu o abracei, eu entrelacei os meus dedos em seus dedos enquanto dormia, eu segurei o copo d’água perto da boca, com a calma sôfrega do canudo.
Recuperei todo o nosso tempo perdido nas três noites de vigília.
Quando ele se recuperou, voltou a ser o que era antes, fechado e distante. Mas eu não voltei a ser a mesma pessoa.
Publicado em O Globo em 09/11/2017
ALGEMADOS PARA A ETERNIDADE
Você talvez não tenha observado.
Seu pai velhinho e a sua mãe velhinha andam com as mãos nas costas. As mãos em concha nas costas. As mãos entrelaçadas na espinha dorsal.
É para manter a postura ereta. Não permitir o ombro vergar com os passos. Eles ficam com um terço imaginário dedilhando os nós dos dedos enquanto caminham. Alguns roçam a aliança grossa, outros se divertem com a textura dos calos.
Atingiram um ponto da existência em que passeiam sempre com os braços para trás, como uma alavanca, eles mesmo se empurrando para frente.
Meus olhos umedecem, meus olhos são copos d’água quando os vejo. Pois meu pai velhinho e minha mãe velhinha se algemaram para a eternidade. Prenderam-se a Deus. Já se entregaram para os seus limites, aceitaram as fronteiras do corpo.
De modo voluntário, perdoaram os desafetos e confessaram a sua honestidade - não são só os crimes que devem ser confessados
Depuseram as armas e a violência dos gestos, apaziguados com a soma de sucessos e de fracassos.
Não se debatem contra a vida, não correm pela ansiedade de ser feliz, não se protegem com os punhos.
Eles estão fartos de brigas e empurrões, não apontam o dedo na cara de ninguém. Andam sem escudo, com o peito de pombos estufados, abertos, sem necessidade de voar para algum lugar.
Publicado em O Globo em 02/11/2017
Seu pai velhinho e a sua mãe velhinha andam com as mãos nas costas. As mãos em concha nas costas. As mãos entrelaçadas na espinha dorsal.
É para manter a postura ereta. Não permitir o ombro vergar com os passos. Eles ficam com um terço imaginário dedilhando os nós dos dedos enquanto caminham. Alguns roçam a aliança grossa, outros se divertem com a textura dos calos.
Atingiram um ponto da existência em que passeiam sempre com os braços para trás, como uma alavanca, eles mesmo se empurrando para frente.
Meus olhos umedecem, meus olhos são copos d’água quando os vejo. Pois meu pai velhinho e minha mãe velhinha se algemaram para a eternidade. Prenderam-se a Deus. Já se entregaram para os seus limites, aceitaram as fronteiras do corpo.
De modo voluntário, perdoaram os desafetos e confessaram a sua honestidade - não são só os crimes que devem ser confessados
Depuseram as armas e a violência dos gestos, apaziguados com a soma de sucessos e de fracassos.
Não se debatem contra a vida, não correm pela ansiedade de ser feliz, não se protegem com os punhos.
Eles estão fartos de brigas e empurrões, não apontam o dedo na cara de ninguém. Andam sem escudo, com o peito de pombos estufados, abertos, sem necessidade de voar para algum lugar.
Publicado em O Globo em 02/11/2017
O HOMEM É O SEXO FRÁGIL
Durante almoço em uma cantina em Erechim, cidade gaúcha quase divisa com Santa Catarina, fui surpreendido pela entrada triunfal de um grupo de terceira idade. Mais de 150 mulheres felizes, ruidosas, dançantes. Dediquei um torcicolo para elas - mereciam. Tenho torcicolo a cada quatro anos, raro como uma Copa do Mundo, e pressenti que era o momento. Deveria aproveitar e girar a cabeça com força total para não perder nenhum dos movimentos daquele exército.
Elas desfrutavam de uma alegria fora do comum: desembaraçadas e sinceras nas gargalhadas. Não havia nenhum homem para atrapalhar. E não havia nem mesmo esperando em casa. Noventa por cento da comitiva era viúva. As meninas na faixa dos 70 a 90 anos estavam livres na pista de dança.
No começo, faziam piada de que mataram os seus maridos no cansaço, pouco a pouco. Os senhores foram incapazes de acompanhar a maratona amorosa.
- Tadinhos, exigíamos muito deles na subida e ficaram sem fôlego na descida.
Mas a comédia foi formando um estranho sentido. Elas provavam que a mulher é o sexo forte, e o homem é o sexo frágil. Derrubaram o preconceito com uma acachapante ilustração de vitalidade.
Os homens morrem cedo, é uma verdade absoluta. Os homens são fracos. Os homens não tem resistência. A força física é ilusória: não faz cócegas diante da força espiritual.
E veja só: homens de outras épocas, que não precisavam cuidar de casa, dos filhos, trabalhar ao mesmo tempo em que unificavam a família. Homens com a metade das obrigações femininas. Homens que não passaram por nenhuma gravidez em seu corpo, que não saíram à rua para garantir direito ao voto, igualdade em concursos públicos e salários equivalentes. Homens que não queimaram os sutiãs e não empreenderam revoluções culturais para o livre-arbítrio da mesa e da cama. Homens que não combaterem as leis e não asseguraram o divórcio. Homens que não experimentaram o desgosto da solidão e da incompreensão, homens que não enfrentaram o vexame de esconder as suas fantasias e economias da própria companhia. Homens que não passaram por nenhuma cobrança para se arrumar, para manter as unhas pintadas e a aparência impecável. Homens que não eram condenados a sorrir amarelo em público e chorar azul no quarto. Homens de aceitação social fácil e orgânica. Mesmo assim, com uma carga infinitamente menor de responsabilidade, sucumbiram antes.
Aquelas damas derrubaram todos os reis do xadrez. Aquelas damas comemoravam o casamento delas com elas mesmas. O casamento consigo. O casamento com a guerra. O casamento com a tenacidade. O casamento com a intimidade. Quem se conhece vive mais, vive o dobro, vive os sonhos para além da idade.
Publicado em O Globo em 26/10/2017
Elas desfrutavam de uma alegria fora do comum: desembaraçadas e sinceras nas gargalhadas. Não havia nenhum homem para atrapalhar. E não havia nem mesmo esperando em casa. Noventa por cento da comitiva era viúva. As meninas na faixa dos 70 a 90 anos estavam livres na pista de dança.
No começo, faziam piada de que mataram os seus maridos no cansaço, pouco a pouco. Os senhores foram incapazes de acompanhar a maratona amorosa.
- Tadinhos, exigíamos muito deles na subida e ficaram sem fôlego na descida.
Mas a comédia foi formando um estranho sentido. Elas provavam que a mulher é o sexo forte, e o homem é o sexo frágil. Derrubaram o preconceito com uma acachapante ilustração de vitalidade.
Os homens morrem cedo, é uma verdade absoluta. Os homens são fracos. Os homens não tem resistência. A força física é ilusória: não faz cócegas diante da força espiritual.
E veja só: homens de outras épocas, que não precisavam cuidar de casa, dos filhos, trabalhar ao mesmo tempo em que unificavam a família. Homens com a metade das obrigações femininas. Homens que não passaram por nenhuma gravidez em seu corpo, que não saíram à rua para garantir direito ao voto, igualdade em concursos públicos e salários equivalentes. Homens que não queimaram os sutiãs e não empreenderam revoluções culturais para o livre-arbítrio da mesa e da cama. Homens que não combaterem as leis e não asseguraram o divórcio. Homens que não experimentaram o desgosto da solidão e da incompreensão, homens que não enfrentaram o vexame de esconder as suas fantasias e economias da própria companhia. Homens que não passaram por nenhuma cobrança para se arrumar, para manter as unhas pintadas e a aparência impecável. Homens que não eram condenados a sorrir amarelo em público e chorar azul no quarto. Homens de aceitação social fácil e orgânica. Mesmo assim, com uma carga infinitamente menor de responsabilidade, sucumbiram antes.
Aquelas damas derrubaram todos os reis do xadrez. Aquelas damas comemoravam o casamento delas com elas mesmas. O casamento consigo. O casamento com a guerra. O casamento com a tenacidade. O casamento com a intimidade. Quem se conhece vive mais, vive o dobro, vive os sonhos para além da idade.
Publicado em O Globo em 26/10/2017
SEGREDO É PARA SER CONTADO A UMA SÓ PESSOA
Segredo é destinado a uma pessoa, ninguém mais. É uma confissão exclusiva, um desabafo personalizado. Não inclui grupos de discussão.
O que provoca a fofoca é o segredo contado para vários amigos. Daí deixa de ser segredo para ser uma notícia reservada.
Não há como controlar os círculos da voz na multidão, não há como conter as informações depois - pois todo amigo tem uma namorada que tem uma rede de conhecidos.
A privacidade deve ser protegida já elegendo apenas uma fonte de intimidade.
Procure estabelecer um definitivo paradeiro para a história. Evitará julgamentos emocionais, impressões apressadas e distorções. Telefonar para diferentes confidentes enfraquecerá a importância do relato e aumentará as chances de ruído. Até porque um terminará sabendo que o outro sabe. E não cabem duas exceções. Duas exceções formam o boato.
Segredo será vazado quando ocorre o desejo de agradar o círculo inteiro de amizades. A unanimidade não combina com a exposição das fragilidades. O equívoco é perseguir a aprovação no lugar da compreensão. Abrir um defeito ou uma falha é coisa séria e requer sigilo para a reparação. Mais fácil manter algo guardado em uma relação de confiança do que em muitas de duvidoso e complicado consenso.
Mesmo que desfrute de grandes parcerias do peito, é necessário escolher uma para cada segredo, sob o risco de transformar o silêncio do túmulo em choradeira de berçário.
O que é dito ao pé de um único ouvido é mantido de pé pelo resto da vida.
Publicado em O Globo em 19/10/2017
O que provoca a fofoca é o segredo contado para vários amigos. Daí deixa de ser segredo para ser uma notícia reservada.
Não há como controlar os círculos da voz na multidão, não há como conter as informações depois - pois todo amigo tem uma namorada que tem uma rede de conhecidos.
A privacidade deve ser protegida já elegendo apenas uma fonte de intimidade.
Procure estabelecer um definitivo paradeiro para a história. Evitará julgamentos emocionais, impressões apressadas e distorções. Telefonar para diferentes confidentes enfraquecerá a importância do relato e aumentará as chances de ruído. Até porque um terminará sabendo que o outro sabe. E não cabem duas exceções. Duas exceções formam o boato.
Segredo será vazado quando ocorre o desejo de agradar o círculo inteiro de amizades. A unanimidade não combina com a exposição das fragilidades. O equívoco é perseguir a aprovação no lugar da compreensão. Abrir um defeito ou uma falha é coisa séria e requer sigilo para a reparação. Mais fácil manter algo guardado em uma relação de confiança do que em muitas de duvidoso e complicado consenso.
Mesmo que desfrute de grandes parcerias do peito, é necessário escolher uma para cada segredo, sob o risco de transformar o silêncio do túmulo em choradeira de berçário.
O que é dito ao pé de um único ouvido é mantido de pé pelo resto da vida.
Publicado em O Globo em 19/10/2017
DIGA-ME O QUE TEM NA GELADEIRA
A geladeira é a saúde dos laços, a paz da intimidade.
Ela acusa se o casal anda feliz e cuida um do outro.
Como não há mais necessidade de descongelá-la para fazer a limpeza, pede a revisão semanal do que há dentro.
Desesperador quando ela passa a cheirar mal e nenhum dos dois descobre o que está estragado.
Quem diz que a lealdade não está vencida?
Perderam a noção do que é consumido. E também do que a família deseja ou come. Pois a fome e o amor estão intimamente ligados.
A alegria está em abrir a geladeira a todo momento para verificar possibilidades de convivência e interação. Espiar a geladeira com frequência é renovar os pensamentos e a vontade de estar junto, é preparar surpresas e se preocupar com o próximo passo da boca - o beijo demorado vem na carona de uma garfada deliciosa.
A geladeira é o espelho escondido, é a câmera oculta do povoamento do espaço e das gentilezas.
Casal que não se vê e não conversa não tem mais o controle dos mantimentos guardados. Compra e não usa. Adquire e não vê. Não explora a solidariedade do café da manhã e a solidão do fim da noite. Assim como comete o desperdício dos alimentos, vai dispensando a troca de olhares e as brincadeiras na cozinha.
Quer algo mais triste do que um pote de margarina abandonado? Um pote de margarina ao fundo dos hábitos, com a sua gramatura creme endurecida pelo desuso, onde nem mais a faca perfura a sua superfície?
Os andares das geladeiras representam o edifício de nossos gestos. Um congelador abarrotado e a parte baixa da refrigeração vazia mostram o quanto adiamos os planos e projetos. Denota que a relação também vive um purgatório, de estremecida esperança. Não existe a preocupação em aproveitar o dia, e sim a mania de postergá-lo para mais adiante, a um futuro incerto no gelo. Sinaliza almoços e jantares que nunca acontecerão, presos eternamente na lista de mercado.
Quem não para um momento no lar desconhece a validade dos sonhos e produtos. Não usa o que foi comprado, não joga fora o que não presta.
A geladeira revela a higiene mental do par amoroso. É uma porta secreta, uma porta dos fundos das emoções, com acesso direto ao coração das pessoas.
Publicado em O Globo em 12/10/2017
Ela acusa se o casal anda feliz e cuida um do outro.
Como não há mais necessidade de descongelá-la para fazer a limpeza, pede a revisão semanal do que há dentro.
Desesperador quando ela passa a cheirar mal e nenhum dos dois descobre o que está estragado.
Quem diz que a lealdade não está vencida?
Perderam a noção do que é consumido. E também do que a família deseja ou come. Pois a fome e o amor estão intimamente ligados.
A alegria está em abrir a geladeira a todo momento para verificar possibilidades de convivência e interação. Espiar a geladeira com frequência é renovar os pensamentos e a vontade de estar junto, é preparar surpresas e se preocupar com o próximo passo da boca - o beijo demorado vem na carona de uma garfada deliciosa.
A geladeira é o espelho escondido, é a câmera oculta do povoamento do espaço e das gentilezas.
Casal que não se vê e não conversa não tem mais o controle dos mantimentos guardados. Compra e não usa. Adquire e não vê. Não explora a solidariedade do café da manhã e a solidão do fim da noite. Assim como comete o desperdício dos alimentos, vai dispensando a troca de olhares e as brincadeiras na cozinha.
Quer algo mais triste do que um pote de margarina abandonado? Um pote de margarina ao fundo dos hábitos, com a sua gramatura creme endurecida pelo desuso, onde nem mais a faca perfura a sua superfície?
Os andares das geladeiras representam o edifício de nossos gestos. Um congelador abarrotado e a parte baixa da refrigeração vazia mostram o quanto adiamos os planos e projetos. Denota que a relação também vive um purgatório, de estremecida esperança. Não existe a preocupação em aproveitar o dia, e sim a mania de postergá-lo para mais adiante, a um futuro incerto no gelo. Sinaliza almoços e jantares que nunca acontecerão, presos eternamente na lista de mercado.
Quem não para um momento no lar desconhece a validade dos sonhos e produtos. Não usa o que foi comprado, não joga fora o que não presta.
A geladeira revela a higiene mental do par amoroso. É uma porta secreta, uma porta dos fundos das emoções, com acesso direto ao coração das pessoas.
Publicado em O Globo em 12/10/2017
quarta-feira, 27 de dezembro de 2017
DIGITANDO...
Quando estamos furiosos, escrevemos rápido. Nem pensamos. Empilhamos mortos no caminho da digitação: palavras trocadas, erros de concordância. Não há capricho. A língua portuguesa é a primeira a adoecer com o ataque de nervos. O ímpeto é dar o golpe derradeiro para calar a boca do afeto que agora veste a carapuça de adversário.
Frases são socos, são jabs, são tapas. Digitar é puxar o cabelo, é empurrar contra a parede.
Você que entrou no bate-boca dos dedos, que está parado em algum lugar batucando o celular freneticamente, alheio às pessoas ao seu redor, não mais deseja a pacificação, o apaziguamento, o acerto. Algo explodiu em você e não consegue calar. Fugiram as rédeas do pensamento, apenas tem a ambição de entrar cada vez mais fundo na lama. Não sabe se acredita naquilo que diz ou diz para persuadir e parecer pleno de razão.
Perdeu a pose de civilizado, sem pontos na carteira de habilitação, atropela o bom senso com fúria assassina. Traça um percurso perigoso de ofensa, que talvez não tenha volta. Faz o retorno à briga de rua, à marginalidade por debaixo dos traumas.
Casais discutindo formam longos livros no WhatsApp. O irônico é que o primeiro nem tem tempo de ler o que o segundo escreveu. Se alguém pede perdão, o outro é capaz de passar reto e continuar xingando e reiniciar o ódio sem querer. Tudo poderia terminar ali, mas a trégua da gentileza e a bandeira branca não são vistas tremulando entre tantas caixas altas e desaforos.
Quem redige não aguarda a resposta, já vai empilhando blocos e blocos de texto e cimento para enterrar viva a sua companhia. Não oferece uma segunda chance, o direito à dívida, não realiza uma repescagem das incertezas, não vacila e não treme a mão. Se parasse um pouco e saísse um instante de perto da tela, respiraria novos ares e veria uma solução.
O par não está mais conversando, e sim se destruindo em monólogos descontextualizados, destacadamente avulsos e arbitrários. Não se respondem, respondem somente aos seus impulsos. São duas solidões se matando.
Escrever com o coração fervendo é ainda pior do que escrever com a cabeça quente.
Publicado em O Globo em 05/10/2017
Frases são socos, são jabs, são tapas. Digitar é puxar o cabelo, é empurrar contra a parede.
Você que entrou no bate-boca dos dedos, que está parado em algum lugar batucando o celular freneticamente, alheio às pessoas ao seu redor, não mais deseja a pacificação, o apaziguamento, o acerto. Algo explodiu em você e não consegue calar. Fugiram as rédeas do pensamento, apenas tem a ambição de entrar cada vez mais fundo na lama. Não sabe se acredita naquilo que diz ou diz para persuadir e parecer pleno de razão.
Perdeu a pose de civilizado, sem pontos na carteira de habilitação, atropela o bom senso com fúria assassina. Traça um percurso perigoso de ofensa, que talvez não tenha volta. Faz o retorno à briga de rua, à marginalidade por debaixo dos traumas.
Casais discutindo formam longos livros no WhatsApp. O irônico é que o primeiro nem tem tempo de ler o que o segundo escreveu. Se alguém pede perdão, o outro é capaz de passar reto e continuar xingando e reiniciar o ódio sem querer. Tudo poderia terminar ali, mas a trégua da gentileza e a bandeira branca não são vistas tremulando entre tantas caixas altas e desaforos.
Quem redige não aguarda a resposta, já vai empilhando blocos e blocos de texto e cimento para enterrar viva a sua companhia. Não oferece uma segunda chance, o direito à dívida, não realiza uma repescagem das incertezas, não vacila e não treme a mão. Se parasse um pouco e saísse um instante de perto da tela, respiraria novos ares e veria uma solução.
O par não está mais conversando, e sim se destruindo em monólogos descontextualizados, destacadamente avulsos e arbitrários. Não se respondem, respondem somente aos seus impulsos. São duas solidões se matando.
Escrever com o coração fervendo é ainda pior do que escrever com a cabeça quente.
Publicado em O Globo em 05/10/2017
FABRÍCIO SAIU DO GRUPO...
Nenhuma tentativa de suicídio surte tanto efeito como sair do grupo de amigos ou da família do WhatsApp. É um suicídio virtual. Se quer chamar atenção, não há maior manobra da carência.
Não precisa barbear os pulsos ou fazer selfies cadavéricas.
Quando todos visualizarem você saindo, começará imediatamente uma torrente de fofocas: o que aconteceu? Algo foi dito de errado?
Um mal estar cobrirá o resto das 248 mensagens posteriores, num misto de constrangimento, espanto e pesar.
A maior parte dos participantes vai lhe procurar privadamente para descobrir o motivo da saída. Seu telefone não vai mais parar de tocar. Não duvide se alguém aparecer apertando o seu interfone. Ou receber um buquê de rosas com alguma frase de Augusto Cury.
Experimentamos um fanatismo nas redes sociais. O abandono de um simples grupo é visto como uma desistência dos laços. Não existe mais saída à francesa. Entrará no rol dos desaparecidos, receberá a pecha de procurado, amargará a fama de anti-social, assumirá o papel de ingrato.
Ninguém supõe que a pessoa apenas cansou de fotos e vídeos engraçadinhos abarrotando o seu canal de contato com o mundo. Ninguém admite a hipótese de que o outro se fartou da chatice das mesmas ladainhas e respostas otimistas. Até porque um meme de um grupo corre para o seguinte e você termina recebendo a mesma mensagens várias vezes ao dia. No WhatsApp, nada se cria, tudo se copia.
E não se encontra um único perfil mal humorado, nervoso, irritado, todos se mostram incansáveis piadistas. É Prozac em excesso na camada de ozônio.
Os grupos são uma seleção do que há de pior na web. Tudo o que foge de olhar aparece em seu telefone: gente caindo, gente explodindo, gente bêbada, gente cometendo bobagens. Ou cachorros bocejando, cachorros cantando, cachorros pulando de sofás. Ou crianças se fingindo de adultas, ou adultos se fingindo de crianças. E gatos, muitos gatos fofos.
As palavras são raras, os emojis invadiram a Terra. Ainda seremos devorados por emojis, os novos alienígenas com seus discos voadores de corações.
Suicídio para quê? Já vivemos uma total abdução.
Publicado em O Globo em 28/9/2017
Não precisa barbear os pulsos ou fazer selfies cadavéricas.
Quando todos visualizarem você saindo, começará imediatamente uma torrente de fofocas: o que aconteceu? Algo foi dito de errado?
Um mal estar cobrirá o resto das 248 mensagens posteriores, num misto de constrangimento, espanto e pesar.
A maior parte dos participantes vai lhe procurar privadamente para descobrir o motivo da saída. Seu telefone não vai mais parar de tocar. Não duvide se alguém aparecer apertando o seu interfone. Ou receber um buquê de rosas com alguma frase de Augusto Cury.
Experimentamos um fanatismo nas redes sociais. O abandono de um simples grupo é visto como uma desistência dos laços. Não existe mais saída à francesa. Entrará no rol dos desaparecidos, receberá a pecha de procurado, amargará a fama de anti-social, assumirá o papel de ingrato.
Ninguém supõe que a pessoa apenas cansou de fotos e vídeos engraçadinhos abarrotando o seu canal de contato com o mundo. Ninguém admite a hipótese de que o outro se fartou da chatice das mesmas ladainhas e respostas otimistas. Até porque um meme de um grupo corre para o seguinte e você termina recebendo a mesma mensagens várias vezes ao dia. No WhatsApp, nada se cria, tudo se copia.
E não se encontra um único perfil mal humorado, nervoso, irritado, todos se mostram incansáveis piadistas. É Prozac em excesso na camada de ozônio.
Os grupos são uma seleção do que há de pior na web. Tudo o que foge de olhar aparece em seu telefone: gente caindo, gente explodindo, gente bêbada, gente cometendo bobagens. Ou cachorros bocejando, cachorros cantando, cachorros pulando de sofás. Ou crianças se fingindo de adultas, ou adultos se fingindo de crianças. E gatos, muitos gatos fofos.
As palavras são raras, os emojis invadiram a Terra. Ainda seremos devorados por emojis, os novos alienígenas com seus discos voadores de corações.
Suicídio para quê? Já vivemos uma total abdução.
Publicado em O Globo em 28/9/2017
OS DEFEITOS SÃO CONSEQUÊNCIAS DAS VIRTUDES
As cobranças de um relacionamento não são para corrigir defeitos. Na maior parte das vezes, são para controlar efeitos colaterais das virtudes.
Se o casal perceber que aquilo que pede para mudar é uma consequência da virtude, o trajeto da conversa será mais calmo e pacífico e adotará a crítica construtiva no lugar da terra arrasada.
O erro é a redundância do acerto. Por exemplo, uma pessoa persistente é virtuosa, já uma pessoa teimosa é defeituosa. No final, são a mesma pessoa. A teimosia é um excedente de uma característica benéfica, os danos de um dom. Você não deseja que a pessoa deixe de ser persistente, mas somente deixe de ser teimosa. Ninguém precisa deixar de ser, mas ser menos. Porque o lado ruim de um temperamento vem do lado bom. O lado ruim é um excesso natural do lado bom de cada um.
Tudo depende de moderação, de equilíbrio, e, de modo nenhum, requer a extinção radical de uma personalidade.
As falhas representam um extravasamento dos pontos positivos. Ou seja, resultados tortos de um cálculo correto.
O ciúme é efeito colateral do interesse e da atração. Não é apenas ciúme, é importância excessiva dada ao outro.
Se alguém é uma boa mãe ou um bom pai, a superproteção é uma decorrência da dedicação. Não deve representar uma ameaça para convivência, porém sinaliza antes o quanto a educação é feita com seriedade.
Se alguém é metódico, sofrerá com o perfeccionismo, implicação direta do capricho.
Se alguém é capaz de fazer render as suas economias, terá o prejuízo familiar de ser compreendido como egoísta. Talvez exacerbe a sua preocupação e controle nos momentos de diversão e alegria.
Se alguém é sonhador, certamente arcará com os frutos da sua distração.
Se alguém é corajoso, pode não compreender a fragilidade diferenciada dos outros e impor tarefas como se fossem absolutamente fáceis e banais. A coragem costuma desembocar no autoritarismo.
Não é o caso de nossa companhia abandonar uma ação, mas de dosá-la. O que nos incomoda parte também daquilo que nos agrada.
Publicado em O Globo em 21/9/2017
Se o casal perceber que aquilo que pede para mudar é uma consequência da virtude, o trajeto da conversa será mais calmo e pacífico e adotará a crítica construtiva no lugar da terra arrasada.
O erro é a redundância do acerto. Por exemplo, uma pessoa persistente é virtuosa, já uma pessoa teimosa é defeituosa. No final, são a mesma pessoa. A teimosia é um excedente de uma característica benéfica, os danos de um dom. Você não deseja que a pessoa deixe de ser persistente, mas somente deixe de ser teimosa. Ninguém precisa deixar de ser, mas ser menos. Porque o lado ruim de um temperamento vem do lado bom. O lado ruim é um excesso natural do lado bom de cada um.
Tudo depende de moderação, de equilíbrio, e, de modo nenhum, requer a extinção radical de uma personalidade.
As falhas representam um extravasamento dos pontos positivos. Ou seja, resultados tortos de um cálculo correto.
O ciúme é efeito colateral do interesse e da atração. Não é apenas ciúme, é importância excessiva dada ao outro.
Se alguém é uma boa mãe ou um bom pai, a superproteção é uma decorrência da dedicação. Não deve representar uma ameaça para convivência, porém sinaliza antes o quanto a educação é feita com seriedade.
Se alguém é metódico, sofrerá com o perfeccionismo, implicação direta do capricho.
Se alguém é capaz de fazer render as suas economias, terá o prejuízo familiar de ser compreendido como egoísta. Talvez exacerbe a sua preocupação e controle nos momentos de diversão e alegria.
Se alguém é sonhador, certamente arcará com os frutos da sua distração.
Se alguém é corajoso, pode não compreender a fragilidade diferenciada dos outros e impor tarefas como se fossem absolutamente fáceis e banais. A coragem costuma desembocar no autoritarismo.
Não é o caso de nossa companhia abandonar uma ação, mas de dosá-la. O que nos incomoda parte também daquilo que nos agrada.
Publicado em O Globo em 21/9/2017
quarta-feira, 30 de agosto de 2017
NEM NO LADO ESQUERDO, NEM NO LADO DIREITO
Foto: Gilberto Perin
O amor nos tira o lugar do sono.
Você nunca dormirá do mesmo jeito depois de casar. Nunca voltará a descansar num lado certo da cama, num canto fixo. Não será mais no lado direito ou esquerdo, será atravessado. Ocupará as linhas verticais e horizontais progressivamente.
Toda a cama estará desarrumada ao despertar. Na adolescência, você se restringia a uma metade. Podia acordar e a segunda metade resistia intocada. Era fácil arrumar as cobertas, bastava ajeitar o montinho.
O amor perturbou a sua bússola. Depois de casado, jamais terá paz. Dormir é também se desesperar por um abraço, uma conchinha, um toque. Dormir é correr por dentro dos lençóis. É o constante medo de perder alguém e o habitual resgate.
Buscará os pés de quem ama no decorrer da madrugada, aceitará a confusão do espaço, não determinará mais o que é seu, enroscará as pernas nas pernas do outro. Não mais dormirá parado como antes. Estático. Estará, pouco a pouco, migrando para o cheiro vizinho. Escorregando para mais além.
Pode se separar, pode pousar longe num hotel, pode ter a cama somente para si, não importa, o seu corpo se encontrará cruzado. A cabeça na esquerda e o tronco na direita. Qualquer que seja a noite, qualquer que seja a manhã. O ninho se espalhou pela árvore inteira. A árvore se espalhou pelo céu.
Acostumou-se a se mexer de modo incessante, a cumprir uma ginástica involuntária, a completar uma coreografia inconsciente. Afasta-se e se aproxima sem parar, vira-se para ficar sozinho mas se sente logo culpado e procura estar junto de novo.
Nunca retornará à uma posição definitiva e calma, de usar apenas uma parte necessária do todo. Enfrentará a sina igual, divorciado ou casado: um crucifixo em movimento, revirando o norte e o sul, o leste e o oeste do quarto. Trata-se de uma herança irreversível da vida de casado.
O amor amputa a tranquilidade da cama. É dormir dobrando o corpo e se amontoando com a companhia.
Publicado em O Globo em 24/08/17
O MEL DO AMOR
Foto: Gilberto Perin
O amor começa puro, sem mentiras, sem segredos, sem vergonha. É uma confiança absoluta, uma lealdade invejável. Como o mel lá de casa. Como o mel em todas as casas.
É só ter preguiça e comer o mel no pote, colocando a colher com a saliva de volta no conteúdo que o mel azeda. Quimicamente muda o gosto dos favos. Dali por diante, as confissões são favas contadas.
Quando deixa o pote aberto, a relação escancarada, a umidade pode alterar o mel pois terá água para uma bactéria do ódio se desenvolver.
É só narrar tudo o que acontece para os outros que o mel dos laços estraga.
O risco não é descrever apenas tudo o que acontece na vida a dois. É descrever também tudo o que não acontece, e cobrar desejos com juros e correção.
O romance fica exposto, sujeito a julgamentos e mentiras. Você perde o controle das lembranças a partir de conselhos e intromissões de familiares e de amigos.
Permite o contágio da inveja e do ciúme do mundo externo. Os dias adoecem de suspeitas. Há a descrição de pensamentos como se fossem fatos, e o exagero vai minando a verdade. Ao narrar o que se vive cada ouvinte aumentará um ponto. O que era poesia vira conto de terror e o que era conto de terror vira romance de suspense. Quem é distraído receberá a fama de indiferente, quem é estressado receberá a fama de egoísta.
A difamação sempre começa do casal para fora, não vem de fora para dentro. No momento em que se lambe a colher e se confunde o medo com a realidade e o coração sai pela boca.
Temos que selecionar o que vale ou não vale dizer do namoro ou do casamento. E guardar o que não é certeza e dividir o que é convicção. Jamais jogar fora o esforço secreto das abelhas por bobagens. Jamais inverter o trabalho dos insetos e converter o açúcar em pólen.
O mel do amor morre com a fofoca.
Publicado em O Globo em 17/08/17
O FIM RECOMEÇO
Foto: Gilberto Perin
O fim e o início são próximos. Não estão distanciados nem por um passo.
O que já testemunhei de amigo convicto da separação e logo depois marcava casamento. E a noiva era a futura ex. O que já testemunhei de parceiro que diz que a relação acabou num dia e noutro dia parte em viagem apaixonada de férias. Ou que cantou o término do romance para engravidar na sequência.
Discussão de relacionamento é paranormal. Fantasmas ressuscitam, garfos entortam, aparecem vozes na cabeça, casais levitam. Não há como definir os desdobramentos espíritas e acertar o resultado. Sempre surge um gol nos descontos da partida mudando o vencedor.
A pessoa pode ensaiar o discurso de despedida no espelho, e puxar um diferente do bolso na hora H.
As decisões sozinhas não persistem frente a frente. Um sexo selvagem é capaz de arrancar as certezas. Uma declaração apaixonada é capaz de roubar as ofensas. Um pedido de desculpa é capaz de enfraquecer o ódio.
A véspera da ruptura é enlouquecedora. Quando está prestes a se separar, o que costuma ocorrer é o contrário: uma forçada e inesperada renovação dos votos, uma surpreendente prorrogação dos laços. Você se sente culpado e se compromete ainda mais. Terá que telefonar para todos os amigos explicando o recálculo abrupto de rota. Ninguém entenderá, como sempre, o amor é um mistério até para quem ama.
Publicado em O Globo em 10/08/17
LIXEIRA DO WINDOWS
Foto: Gilberto Perin
Depois de dois anos de separação, é que o amor começa a ser superado. Não antes, por mais rápido que seja o relógio biológico e emocional de cada um.
Com o desenlace, o impulso é apagar todos os arquivos do relacionamento: imagens, cartas, textos, viagens, declarações. Trata-se de uma atitude passional e súbita para a sobrevivência, para se acostumar com a ausência dali por diante. Expulsa o romance mais do que realmente joga fora.
Mas o delicado de entender é que você apagou o passado dos aplicativos, mas ainda existe a lixeira do Windows do inconsciente. É preciso, então, entender o que aconteceu, para o seu bem ou para seu mal, e ter a coragem de descartar tudo de novo. O resto de tudo.
Jurava que já havia resolvido, porém vê que existe um purgatório da memória, assim como há em todo computador. Limpar a lixeira será o ato de libertação das mágoas. Quando está mais forte e com distanciamento crítico, para não sofrer com a preservação de relíquias duvidosas. Deixará de colocar em xeque as suas decisões, e de parar o olhar, atormentado, nas lembranças como se existisse um jeito de melhorá-las. Assumirá o que aconteceu como acontecido, o imperfeito como possível, o provisório como definitivo.
Não escolhe mais, apenas se desfaz. As palavras tornam-se fotografias inúteis.
Não terá mais a sensação de que está pondo você no lixo, ou parte da sua vida no lixo, aceitará que o fim é somente espaço para novas memórias.
Publicado em O Globo em 03/08/17
A DECISÃO MAIS DURA DA VIDA
Foto: Gilberto Perin
Talvez a decisão mais difícil da vida seja se separar de alguém que você ama mas não lhe faz bem. É lutar contra o amor em nome da saúde emocional.
É algo como escolher entre amar ou viver, entre o ruim e o pior. Sairá derrotado em qualquer uma das opções.
Abandonar um amor amando é amputar uma perna para continuar andando. É perder um pulmão para continuar respirando.
Você sabe que, se não acabar com a história, ela acabará com a sua personalidade. Vai enlouquecer, será subjugado e torturado, sacrificará o discernimento. Não terá futuro, somente um precário presente. Renunciará aos amigos, à família, ao trabalho, à sanidade para forçar a convivência.
Os raros momentos de harmonia de um domingo não compensam o inferno das semanas.
Ama o outro, porém nunca esteve tão infeliz e angustiado. Ama o outro, porém não desfruta nem da liberdade das distrações. Ama o outro, porém não se ama dentro desse amor. E um espelho quebrado em casa é muito perigoso.
Todos experimentaram esse dilema em maior ou menor escala. Nem sempre a paixão converge com a paz.
Romper um relacionamento racionalmente exige monumental concentração. Como largar drogas, abandonar cigarro, parar de beber.
Deve-se combater um inimigo que gostaria de abraçar e beijar. A ambiguidade dos sentimentos é revoltante, sendo necessário criar uma frente rígida de rituais para enfrentar a abstinência.
Tem que cortar a carne das palavras, tem que combater a enxurrada das lembranças, tem que se virar com a ansiedade, tem que acordar e fingir que não sonhou com nada, tem que trocar de caminho e endurecer o rosto quando o vento convida o olhar a virar para trás, tem que dissuadir a saudade, tem que fugir dos amigos em comum, tem que adulterar as declarações, tem que evitar músicas e ciladas, tem que montar na memória um pequeno e anônimo cemitério com uma pilha de pedras.
Nada mais triste do que não poder confiar no coração - já que, por amar, não consegue se defender, acreditará nas ofensas, diminuirá de estatura moral até ser insignificante, cederá a vaidade, depois abandonará o orgulho, em seguida pedirá desculpa sem razão nenhuma e aceitará a destruição e os maus-tratos como parte indispensável do romance.
O amor é capaz de matar. E só um grande amor próprio para nos salvar enquanto ainda é possível reunir os cacos.
Publicado em O Globo em 27/07/17
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