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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Senhor Onofre
A escritora Camila Monteiro, autora do blog Vida Complicada Demais e de uma porção de livros, se arriscou a me entregar o mais lindo dos seus contos, O Presente do Senhor Onofre, para transformar em vídeo. O texto é uma fofura. O vídeo... é uma fofura com um toque de humor à moda da Carla. Espero que assistam e gostem.
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
Conto Coletivo
Sabem quando a gente reúne um grupo de pessoas para inventar uma história e cada participante acrescenta um trecho? Foi o que o Clube dos Blogueiros Leitores fez. No vídeo aí no alto, eu narro o resultado, um conto coletivo chamado O Elevador. Divirtam-se! :)
quinta-feira, 17 de julho de 2014
Encontrando a Camila
Google Images
Prontos para a solução do misterioso desaparecimento da Camila? Então cliquem em Cadê a Camila 2. Acho que vocês vão gostar. :) Quem não leu a primeira parte pode clicar primeiro em Cadê a Camila 1.
terça-feira, 15 de julho de 2014
Procurando a Camila
Nem adianta procurar. Só eu sei a verdade.
Oi, pessoal! Meu post de hoje vai ser no blog da Camila Monteiro. Caso vocês não saibam, ela tomou chá de sumiço, mas eu já resolvi esse mistério e conto pra vocês em prestações. É só clicarem em Cadê a Camila 1. Divirtam-se! :)
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Na Revista Pesquisa FAPESP
Capa do exemplar de maio de 2013
A revista pertence à FAPESP, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, e se dedica à divulgação de pesquisas científicas, mas, na seção Ficção, costuma publicar um conto relacionado ao mundo acadêmico.
Meu conto tem um quê de ficção científica e outro de maluquice. Espero que vocês gostem. :)
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Subsolo na Garrafa
Muito obrigada à Alessandra, do Restaurante Maresias,
que forneceu a garrafa PET pra foto! :)
Pronto, pessoal, a UNIMEP liberou meu conto premiado. Ele se chama "Subsolo na Garrafa" e está no site Diário do Engenho. É um texto bem maluquinho, com dois narradores (dois Rodrigos) contando partes da mesma história. Espero que vocês gostem.
Muito obrigada, também, ao Alexandre Bragion, pela publicação, e ao Leroy, pela foto!
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Receita Secreta
Conto especialmente confeitado para os fãs da Manu.
Receita Secreta
Um reconfortante bolo de nozes com sorvete a esperava em casa. “Compulsão alimentar?”, pensou Manuela, derramando calda de caramelo sobre a nutritiva escultura. “Minha compulsão se chama Juliano. Desde que ele foi embora, não consigo me controlar.” Acomodou-se na cozinha e começou a comer às pressas, enquanto pensava no ex-colega de trabalho. “Dizem que ele foi posto na rua por minha culpa. De certa forma, foi mesmo. Mas eu pedi desculpa e ofereci ajuda pra encontrar outro emprego. Ele que não quis. Preferiu trabalhar com a mulher, abrir uma segunda loja de doces, mais uma Receita Secreta. Aquela mulher dele, com jeito de mosca morta! Só serve pra cozinhar, mas cozinha bem, tenho que admitir. Que bolo mais huuum!”
* * *
— Descobriram quem é a dona da bolsa?
— É aquela dona esquisita, que vive rondando a doceria do seu Juliano.
— Isso eu já sei! Descobriram o nome dela?
— O Gilsinho descobriu. É Manuela Alguma Coisa. Tava nos documentos.
— E telefone? Descobriram o telefone?
— O Gilsinho achou na agenda.
— Então fala pro Gilsinho ligar pra ela e pedir resgate. Manda dizer que, se ela não pagar, a gente vai vender os documento e o celular.
— Sei não... A dona é amiga do seu Juliano...
— Amiga nada! Ela só entra na loja quando ele não tá.
* * *
— Vem, menino! Pode confiar em mim. Eu tenho um negócio pra te propor.
* * *
* * *
— A Manuela mandou você aqui pra comprar as receitas dos nossos doces? — perguntou Juliano.
— Não. Ela não me mandou aqui. Eu resolvi vir antes que ela faça uma bobagem. A Manu anda obcecada pelos doces. Ela acredita que a sua esposa esconde receitas de família, num computador.
— Sei, sei. No computador do primeiro andar — disse Juliano. — Foi uma história que nós inventamos pra imprensa, quando precisamos promover a loja. Como funcionou, instruímos as atendentes a repeti-la pros clientes. É puro marketing.
— Eu fiz ideia. Acontece que a Manu acredita e quer minha van emprestada pra... pra... Olha, eu vou contar de uma vez. A Manu me ligou hoje. Ela quer roubar as receitas. Pare de rir! É sério. Ela quer subir na van pra alcançar o primeiro andar e... Pare de rir! Você tem que me vender as receitas antes que a doida da minha irmã vá presa. Ela é maluquinha, mas é inofensiva. Não merece uma coisa dessas.
— Não merece, é? Por acaso a sua “irmãzinha inofensiva” contou pra você por culpa de quem eu perdi o emprego?
* * *
— Volta, Bebel! Que que foi?
Manuela andou ansiosa pela varanda, enquanto, de uma casa do outro lado da rua, Juliano, escondido com Gilsinho, gravava a cena.
Gravou as tentativas inúteis de abrir a porta e as janelas. Gravou a olhadinha desesperada para baixo e o balançar negativo da cabeça diante da altura. Gravou os tapas na grade. Só não conseguiu gravar o pensamento de Manuela: “Que droga! Os pivetes garantiram que iam deixar uma janela entreaberta.”
Manuela tirou uma caixa de bombons da bolsa. “Melhor que a encomenda!” pensou Juliano, dando um close na caixa. A marca “Receita Secreta” aparecia bem. Três bombons depois, Manuela pulou da varanda, caiu de mal jeito e foi embora mancando.
O vídeo com “a ladra da doceria” fez sucesso na rede. A loja vendeu como nunca. Manuela se curou da “compulsão Juliana” e nunca mais falou com a irmã.
terça-feira, 29 de março de 2011
Ininvejável
Um conto sobre a dor de não ser invejável
Ininvejável
Juliano estava trabalhando na tabela de compras quando Manuela chegou insistindo para que ele levasse um presente de boas-vindas ao gerente recém-chegado. A moça insistia e insistia porque apostara com os colegas que conseguiria fazer o “funcionário padrão” largar o serviço.
— Mas, Juliano, o que custa você levar um presentinho pro homem? Ele é o nosso novo chefe.
— Já disse que tô ocupado, Manu! Tira esse presente da minha mesa. Eu já ajudei na vaquinha. Manda outro entregar ou vai você mesma.
— Eu não posso. As pessoas iam ficar com inveja de mim.
— E daí? — perguntou Juliano, tirando o pacote da mesa.
— Daí que inveja mata — respondeu Manuela, fazendo o infalível charminho que usava para convencer Juliano a trabalhar em seu lugar. — Você não quer que eu morra, né, Julianinho?
— Ah, entendi por que você quer que eu vá. Você quer que eu morra no seu lugar, quer que o pessoal tenha inveja de mim.
Manuela olhou pro relógio e se irritou porque o tempo combinado para ganhar a aposta estava passando.
— Inveja de você? Ninguém tem inveja de você, Juliano. Você é ininvejável! — disse, irônica.
— Como assim?
— Nada, bobagem, brincadeira! Esquece!
— Esqueço coisa nenhuma — respondeu Juliano, magoado. — Explica o que você quis dizer. Explica que eu levo o pacote.
— Bom, é que você é meio insignificante aqui no escritório. Ninguém repara que você existe.
— Eu carrego este escritório nas costas. Sou um ótimo funcionário.
— É, mas eu sou mais popular que você. Sou conhecida.
— Conhecida como puxa-saco!
— Pode ser, mas eu sou boa nisso e não te invejo — respondeu Manuela, ferida. — Nós cinco fizemos uma reunião e decidimos que só você poderia entregar o presente porque o novo chefe nem repararia na sua presença. Assim nenhum de nós levaria vantagem por ser o primeiro.
— Eu sou invejável — insistiu Juliano. — O seu namoradinho Laércio, que é vagabundo, pode até não me invejar, mas o Figueira deve morrer de inveja do meu casamento feliz.
— Não fala assim do Laércio! Ele não precisa trabalhar porque sabe entrar nos esquemas. Já você, nem quando nós te convidamos, você topa.
— Eu não sou ladrão...
— Cala a boca! Você pediu, vai escutar. O Figueira não quer nada com o seu casamento feliz. Ele acha a sua mulher um lixo.
— Dá aqui esse presente, Manu! Dá pra mim que eu entrego.
Manuela voltou para sua mesa. Dobrar Juliano sempre lhe dava uma sensação de vitória, mesmo quando não havia uma aposta envolvida.
Juliano entregou o presente, os esquemas e os colegas. Foi demitido e continuou ininvejável.
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Pó de Broca
Fazia dez anos que Eulália pensava em livrar-se do sítio. Aquele lugar de má sorte estava acabando com sua família. Seus filhos viviam doentes. Os vizinhos ajudavam como podiam, mas gostavam de fazer piadas, dizendo que o mal era preguiça.
Na semana em que seu neto mais velho morreu de “doença ruim”, Eulália soube que um hotel de luxo pretendia adquirir terras na região. Os proprietários locais enfileiravam-se para falar com o administrador do projeto e oferecer-lhe seus imóveis. Desesperada para salvar os netos restantes, Eulália resolveu furar a fila. Em seus sessenta anos de muita luta e pouco estudo, aprendera que “gente importante gosta de papel”. Escreveu:
Senhor gerente do HOTEL
Meu nome é Eulália ao seu dispor e tenho um sítio lindo pra vender. Ele é bem grande e tem muito mato atlântico que dá pra botar abaixo com machado ou tacando fogo. Tem bicho pequeno bom de caçar. Onça eu garanto que não tem mais. Meu falecido acabou com a última. O cafezal tá judiado, mas, se o senhor fizer gosto em continuar a plantação, pode ficar com todo o pó de broca do nosso depósito. É um veneno tão bom que o governo não deixa mais vender. Quem tem esconde porque vale ouro, mas o senhor pode ficar com ele junto com o sítio. Pergunte de mim na farmácia do Juca que eles mostram onde eu moro.
Sua criada Eulália Braga
O hotel comprou o sítio por uma ninharia quando Eulália soube que seu cancerígeno depósito de BHC não era tão bom quanto parecia. O “mato atlântico” e seus bichos à beira da extinção foram preservados e atraem ônibus de turistas.
Na semana em que seu neto mais velho morreu de “doença ruim”, Eulália soube que um hotel de luxo pretendia adquirir terras na região. Os proprietários locais enfileiravam-se para falar com o administrador do projeto e oferecer-lhe seus imóveis. Desesperada para salvar os netos restantes, Eulália resolveu furar a fila. Em seus sessenta anos de muita luta e pouco estudo, aprendera que “gente importante gosta de papel”. Escreveu:
Senhor gerente do HOTEL
Meu nome é Eulália ao seu dispor e tenho um sítio lindo pra vender. Ele é bem grande e tem muito mato atlântico que dá pra botar abaixo com machado ou tacando fogo. Tem bicho pequeno bom de caçar. Onça eu garanto que não tem mais. Meu falecido acabou com a última. O cafezal tá judiado, mas, se o senhor fizer gosto em continuar a plantação, pode ficar com todo o pó de broca do nosso depósito. É um veneno tão bom que o governo não deixa mais vender. Quem tem esconde porque vale ouro, mas o senhor pode ficar com ele junto com o sítio. Pergunte de mim na farmácia do Juca que eles mostram onde eu moro.
Sua criada Eulália Braga
O hotel comprou o sítio por uma ninharia quando Eulália soube que seu cancerígeno depósito de BHC não era tão bom quanto parecia. O “mato atlântico” e seus bichos à beira da extinção foram preservados e atraem ônibus de turistas.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Zevers, O Esquecido
Conto que obteve o 2º lugar no VI Concurso de Contos e Crônicas, da Unimep.
Zevers, O Esquecido
Era um dia de rotina dos Infernos. Pecadores nus tentavam esconder-se entre os vapores sulfúreos. Por trás das rochas, hordas demoníacas espreitavam, preparando o ataque. O chão, a ponto de liquefazer-se, queimava os pés descalços. Ao centro da grande caverna, instrumentos de tortura aguardavam suas vítimas.
Uma corneta recurva como um chifre emite o sinal tão esperado. Demônios lançam-se às almas perdidas que correm, caem, lutam ou simplesmente deixam-se estar imóveis, petrificadas de horror. Tridentes zunem, acertando seus alvos pelas costas. Garras afiadas arrastam os prisioneiros até as paredes de onde pendem grilhões. Iniciam-se as torturas. Gritos lancinantes ecoam. Estalam chicotes de aço.
Nem todos passam pelo suplício ao mesmo tempo. Alguns permanecem acorrentados observando com terror o que os aguarda e matando a sede com goles de chumbo derretido, servido em belas taças de pedra.
Em um canto do salão, um espelho oval reflete as metamorfoses de um ser indeciso. Zevers, o das grandes orelhas, transforma-se várias vezes, sem resolver-se. Ora é homem, ora é mulher, ora velho, jovem, belo, forte, frágil... Ensaia caretas de pavor, contorções de dor, gritos, gemidos, lamentações... Pensa até em ajoelhar-se e iniciar uma prece, uma súplica aos Céus. Não tem tempo. Uma tenaz em brasa puxa-o pela orelha.
-- Anda, Zevers! Atrasado como sempre! Escolha qualquer forma e junte-se aos pecadores.
Zevers novamente não tem tempo. A corneta recurva soa outra vez e toda a balbúrdia cessa.
-- Fim da primeira parte do exercício! Troquem de personagens e aguardem meu sinal! -- grita o instrutor que passa voando.
Grande correria em direção ao espelho. O grupo dos pecadores transforma-se em demônios apavorantes e a horda dos demônios torna-se um bando de pecadores apavorados.
Precisam superar-se. É a regra do treinamento. O Inferno está dividido em duas equipes que treinam todos os dias, invertendo papéis. Assim será até o Juízo Final, quando os verdadeiros condenados chegarão. Aí sim, os demônios serão somente demônios e cumprirão seus deveres.
Soa a corneta novamente e Zevers continua em frente ao espelho. Não sabe qual forma apavorante escolher. Um diabrete vermelho? Um monstro sem cabeça, com olhos na barriga? Uma serpente-salamandra? O problema de Zevers é o excesso de imaginação (além das orelhas grandes, é claro). Mesmo como crocodilo alado, as orelhas lá estão! Um crocodilo com orelhas daquele tamanho, só mesmo no Inferno!
Desiste do exercício. Retira-se do salão às escondidas. Está entediado e cheio de dúvidas. Será que os pecadores realmente virão algum dia? Há séculos que treinam e tentam. Sim, Zevers também é um espírito tentador. Conhece bem os homens. Já levou milhares de almas ao caminho da perdição. Mas será que haverá mesmo um julgamento? Será que seus esforços fazem sentido? Zevers é um demônio de pouquíssima fé.
Esgueira-se pelos corredores mal iluminados a procura de “seus aposentos”. Quer dormir. É um hábito humano do qual não abre mão. Adquiriu-o depois de perder a memória em uma batalha contra um espírito de luz. Zevers, o esquecido, era visto com certo respeito, pois enfrentar uma criatura celeste exigia coragem. Ele, porém, não se lembrava da luta.
Suas excentricidades não paravam por aí. Além de dormir e até sonhar, Zevers lia e dava ouvidos a tudo o que escutava. Agora, por exemplo, escutava passos a segui-lo. Parou. Os passos pararam. Decidiu voar e ouviu outras asas em seu encalço. Espiões, certamente!
-- O que vocês querem? -- berrou com falsa fúria.
O bater de asas afastou-se, os corredores ficaram vazios.
Desconfiavam dele e com razão. Ele era um conspirador, um dissidente entre dissidentes. Precisava disfarçar melhor. Foi à câmara do supervisor das atividades tentadoras, um arquidemônio curioso e detalhista, e, depois das formalidades de sempre, fez seu relatório:
-- Estimulei um conflito religioso no Oriente, instiguei a criação de novas armas biológicas, convenci os laboratórios que estavam a meu encargo a manter em segredo a cura de certas doenças a fim de continuarem vendendo remédios...
Continuou falando de massacres, crimes ambientais, corrupção, exploração da miséria... fatos verdadeiramente ocorridos com os humanos aos quais fora designado como tentador.
O arquidemônio chamou-o “o melhor espírito das trevas em termos de tentação, quase tão bom quanto o próprio Satã”. Zevers saiu orgulhoso. Era bom ser elogiado mesmo quando, ou melhor, especialmente quando não merecia. Aqueles pecados todos haviam acontecido, mas sem a interferência de qualquer demônio. Os homens tinham feito o que fariam de qualquer jeito, simplesmente porque eram estúpidos em seus ódios e interesses. Zevers desprezava a humanidade. Odiava-a. Queria poder exterminá-la antes que ela mesma o fizesse. Graças a ela, era obrigado a reconhecer sua inutilidade como tentador. E lá estava ele, um demônio inútil como os outros, uma existência sem sentido dedicada a tentações desnecessárias e à espera de um Juízo Final que talvez não viesse.
Pensando bem, ele duvidava da própria existência. Não se lembrava de Deus, de anjos, da queda e jamais vira Satã depois de perder a memória. Sabia, através dos homens, que havia outros infernos diferentes daquele: o inferno dos gregos, o inferno gelado e outros infernos quase esquecidos. Os homens eram tão maus que deveriam ter criado os demônios à sua imagem e semelhança. “Pensam-me, logo existo”, blasfemava Zevers cartesianamente, contra Céus e Infernos.
* * *
* * *
Ajoelhou-se, começou a rezar. As preces saiam de trás para a frente. Desesperou-se, precisava falar com Deus. Gritou:
-- Sei que está me ouvindo, fale comigo!
-- O universo todo está te ouvindo, Zevers. Para que tanto barulho? O que pensa que está fazendo? -- perguntou o arquidemônio aparecendo de repente.
Zevers tremeu. Como explicar-se? A verdade, talvez?
-- Olá, é um ritual de missa branca, como pode ver. Calma, escuta! Quero falar com Deus. É, falar com Deus. Preciso de respostas. Você sabia que existem outros infernos além do nosso?
-- Todos sabemos disso, seu desmemoriado! Se tem dúvidas, por que não pergunta a mim ou pede uma audiência a Satã?
-- Porque eu acho que Satã também não sabe.
Zevers perdeu a pouca prudência que lhe restava. Disse ao arquidemônio que, muitas vezes, ouvira Satã chorar de saudade de Deus. Disse que ouvira-o suplicar perdão em voz baixa e jurar vingança aos berros, porque não era atendido.
Um raio fulminou o altar e Satã, furioso, surgiu flamejante acompanhado por uma legião armada.
-- Amarrem o traidor mentiroso! -- ordenou.
Zevers foi preso sem opor resistência. A um sinal de Satã, os demônios partiram.
-- Mentindo sobre mim novamente, não é, Zevers?
-- Tende piedade, Satã, de minha atroz miséria! -- suplicou Zevers baudelairiano. -- Eu queria apenas falar com Deus.
-- Deus está morto, seu idiota! -- urrou Satã.
-- Não acredito! De jeito nenhum! Oh, desculpe-me, mas... Bem... nesse caso... -- disse Zevers aturdido -- que mal há em eu querer falar com Ele? Deixe-me tentar e, se ninguém responder, saberei que Ele morreu. Pensando bem, grande Satã, se nós dois tentarmos juntos, poderemos ter mais certeza ainda. Venha, rezar comigo. Venha!
-- Como se atreve a tentar-me!?
Satã bateu palmas e o arquidemônio retornou voando com uma enorme ânfora cheia d’água.
-- Despeje sobre o traidor! -- ordenou Satã.
-- Esperem! O que tem aí dentro? -- gritou Zevers.
-- Apenas água. Água do inferno grego. Você não é especialista em outros infernos diferentes do nosso? Então deve saber quais são os rios do inferno de Cérbero. Vamos, diga quais são! Diga os nomes. Eu te ordeno!
-- Aqueronte, Flegetonte... Cocito... Estige... -- balbuciou Zevers.
-- Esqueceu o mais interessante: o rio Letes, o rio do esquecimento.
A água caiu sobre Zevers que mal teve tempo de gritar e desmaiou. O arquidemônio desamarrou-o e transportou-o com cuidado, pelos ares, de volta ao inferno. O Príncipe das Trevas ficou só. Sabia que, por alguns séculos, nada teria a temer. Zevers perdera a memória e fora esquecido novamente. Acordaria rodeado por demônios dos quais não se lembrava e que também não se lembravam dele. Levaria tempo até reorganizar seus pensamentos subversivos e atrever-se a tentá-lo outra vez. Sim, ele certamente voltaria a tentá-lo porque era o único capaz de ouvir seu choro de saudade a qualquer distância.
-- Pronto, meu Príncipe! -- disse o arquidemônio, retornando. -- O esquecido está entregue. Repeti a história da luta entre ele e um anjo de luz.
“História verdadeira”, pensou Satã, orgulhoso. “Sou o maior anjo de luz que jamais existiu”.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
A SÉTIMA ESCULTURA
Inspirada na escultura acima, escrevi o conto "A Sétima Escultura", que ficou em primeiro lugar no Primeiro Concurso Literário de Arte Cemiterial de Piracicaba - SP.
A SÉTIMA ESCULTURA
Eu tinha apenas sete anos e estava ajudando meu pai na marmoraria quando aconteceu pela primeira vez. Foi rápido demais. Apaguei enquanto varria o chão. Correram parentes, correram clientes, correram vizinhos, correu a notícia:
-- O Zizinho da marmoraria morreu!
Esse "Zizinho" era eu, mas só me chamavam assim depois de morto. Em vida, eu era "aquele moleque do Ziza", "aprendiz de capeta".
Foi tanta gente carinhosa vindo chorar no meu velório que desisti de morrer e voltei.
-- Catalepsia -- diagnosticaram os clientes mais cultos.
-- Milagre -- concluiu minha mãe.
-- Parte com o diabo -- sentenciaram os vizinhos.
A família precisou me desterrar para a casa de um tio, porque os clientes começaram a evitar nossa marmoraria. Achavam que eu não dava sorte.
Tio Olavo foi bom para mim. Generosamente aceitou minhas dez horas de trabalho diário, como aprendiz, na fundição. Assim eu não sentiria que estava "morando de favor". Permitia-me, também, continuar esculpindo nos momentos de folga.
Ah, as esculturas, minha paixão, estiveram sempre comigo! Meu pai restaurava peças de mármore e me ensinou a esculpir usando retalhos de pedra. Na fundição, eu economizava cada centavo para imortalizar, em bronze, minhas pequenas criações.
Aos catorze anos, aconteceu de novo: morri e desmorri bem rápido. Tio Olavo se aborreceu. Era "má publicidade". Vendeu minhas estatuetas "pra pagar o prejuízo". Um comprador, dono de galeria, gostou delas e me arranjou uma bolsa para estudar artes plásticas.
-- Se ele vai perder tempo estudando desenho, -- disse tio Olavo -- é melhor arrumar um emprego de verdade pra se sustentar.
Fui trabalhar na galeria. Trabalho fácil, estudo interessante, muito tempo livre, material à vontade para esculpir, passeios a museus... era o paraíso! E o paraíso é o inferno quando aparece assim, de repente, para quem não está acostumado com a boa vida. Comecei a pensar na morte.
As esculturas vendiam bem... e eu pensando na morte. Eu ganhava prêmios... e pensava na morte. Minha exposição era um sucesso... e a morte me fazia delirar.
Delírio ou visão? Não sei.
Eu ia fazer vinte e um anos e cismei que morreria de novo e, dessa vez, poderiam me enterrar vivo. O terror foi tanto que passei mal. O mundo se transformou numa neblina brilhante. Um anjo de mármore apareceu e falou comigo. Disse que meu mal nunca mais me atacaria se, a cada sete anos, eu doasse uma escultura para um cemitério. Seriam sete esculturas, uma a cada sete anos, o anjo da visão me disse.
A primeira doação foi para meu próprio pai, que faleceu no mês seguinte. Fiz um anjo da saudade. Meu tio Olavo gostou tanto que se ofereceu para me aceitar de volta na fundição. Abri mão da oferta porque estava com exposição marcada fora do país.
O túmulo de minha mãe, morta sete anos depois, recebeu a escultura de uma pranteadora. Eu ainda estava rezando quando tio Olavo bateu no meu ombro.
-- Voltou da Europa pra enterrar os parentes? Veio fazer bonito pros jornais mostrarem como o "grande artista" é generoso?
Olhei incrédulo para ele.
-- Pare de me olhar com essa cara de abutre! E guarde suas esculturas pro seu enterro! Eu ainda vou viver muito.
E viveu mesmo. Doei outras esculturas para pessoas desconhecidas, a cada sete anos. Meu mal nunca mais me afligiu. Enriqueci, envelheci e esperei. Esperei, ansiosamente, a morte de tio Olavo. Preparei, com todo ódio, a escultura de seu túmulo: a escultura de um velho com olhos maus, deixando cair um livro de contabilidade.
No ano em que eu deveria entregar a sétima escultura, tio Olavo adoeceu. Obstinadamente, aguardei seu falecimento, porém meu aniversário chegou e tio Olavo melhorou.
Morri ao receber a notícia de sua saída do hospital. O velho miserável me enterrou mais que depressa e ainda mandou colocar sua escultura por cima do meu cadáver.
Agora estou enterrado, mas continuo bem vivo. Quem quiser uma prova é só visitar meu túmulo, pois, de sete em sete anos, quando faço aniversário, o livro da escultura se abre e, em vez de contabilidade, suas páginas metálicas ilustram a história da minha vida.
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