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20080618

A exegese de um sentimento


Estão os pássaros laboriosamente construindo

em meio deste dia as paredes de uma tarde antiga.

Começa-lhes no bico aquela alegria

onde eu corria de canto para canto

e andava dentro dela de janela em janela.


Quem me trouxe de novo até à minha casa?


Podem calar-se os pássaros inúteis.


Ruy Belo
in Todos os Poemas I
Imagem (C) Evelina Oliveira

20080509

E tudo era possível


Na minha juventude antes de ter saído

da casa de meus pais disposto a viajar

eu conhecia já o rebentar do mar

das páginas dos livros que já tinha lido


Chegava o mês de maio era tudo florido

o rolo das manhãs punha-se a circular

e era só ouvir o sonhador falar

da vida como se ela houvesse acontecido


E tudo se passava numa outra vida

e havia para as coisas sempre uma saída

Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer


Só sei que tinha o poder duma criança

entre as coisas e mim havia vizinhança

e tudo era possível era só querer.


Ruy Belo
in Homem de Palavra(s)
Imagem (C) E. Munch

20080504

No tempo...nos dias...


Este céu passará e então

teu riso descerá dos montes

pelos rios

até desaguar no nosso coração


Ruy Belo
Imagem(C)Tamaulipas México

20080312

lugar onde...


[...] Neste país do espaço raso do silêncio e solidão[...]
Imagem (C) Museu Dali de Barcelona

20071202

Manhã de Domingo...


Eu estava só naquela tarde e tu vieste

de dentro povoar-me de cidade o coração

prometido para o lugar

onde costumamos deixar as palavras

Tinham posto de novo fitas nas árvores

reuniram-se os corpos e as vozes

para todos juntos sentirem

pontualmente a alegria.

E tu pousaste então ó meu pássaro naquele coração

cingido no meio da cidade


Ruy Belo,
Todos os Poemas (IVolume)
Imagem (C) Mário Cesariny

20071020

Sábado...Manhã...


Aí estás tu à esquina das palavras de sempre

amor inventado numa indústria de lábios

que mordem o tempo sempre cá

E o coração acontece-nos

como numa dádiva de folhas nupciais

nos nossos ombros de outono

Caiam agora pálpebras que cerrem

o sacríficio que em nossos gestos há

de sermos diários por fora

Caiam agora que o amor chegou


Ruy Belo

"Acontecimento" in Aquele Grande Rio Eufrates
Imagem(C) Juan Gris

20070915

Setembro...nesta manhã...


A tua voz edifica-me sílaba a sílaba

e é árvore desde a raiz aos ramos

Cantas em mim a primavera breve tempo

e depois os pássaros irão

povoar de ti novas solidões



E eu sentirei na fronte permanentemente

o sudário levemente branco do teu grande silêncio

ó canção ó país ó cidade sonhada

dominicalmente aberta ao mar que por fim pousas

na fímbria desta tua superfície


Ruy Belo, Compreensão da árvore
in Aquele Grande Rio Eufrates
Imagem (C) Anne Marie Summers

20070906

PARA O MEU AMIGO Q.



É bom estarmos atentos ao rodar do tempo

O outono por exemplo tem recantos entre

dia e noite ao pé de certos troncos indecisos

cercados um por um de sombras envolventes


Rente às árvores vamos, húmidos humildes

Dizem que é outono. Mas que época do ano

toca nestas paredes que roçamos

como gente que vai à sua vida

e não avista o mar, afinal símbolo de quanto quer,

ó Deus, ó mais redonda boca para os nomes das coisas

para o nome do homem ou o homem do homem?


Banho lustral de ausência é este tempo

de pés postos na terra em puro esquecimento

E vamo-nos perdendo de nós mesmos, vamos

dispersos em bocados, vítimas do vento

ficando ali, ali, nalgum lugar que amamos

Nada mais do que terra há quem ao corpo nos prometa

Quem somos? Que dizemos?

Reúna-nos um dia o toque da trombeta


Ruy Belo,
"Efeitos Secundários" in Todos os Poemas I
Imagem (C) Maqueson Pereira da Silva

20070629

Orla marítima



[...]


De terra vem a água e da água a alma

o tempo é a maré que leva e traz

o mar às praias onde eternamente somos

Sabemos agora em que medida merecemos a vida


Ruy Belo
Imagem (C) Kandinsky