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20080212

Amanhecera


[...]


Aquele sobressalto, tão impensado, revocou o cavaleiro ao sentimento da sua situação. Ajoelhou junto de Hermengarda e, pegando-lhe na mão já fria, beijou-lha. Nas raias da vida, aquele beijo, primeiro e último, era purificado pelo hálito da morte que se aproximava: era inocente e santo, como o de dois querubins ao dizer-lhe o Criador: "Existi!".


Depois ergueu-se, vestiu a sua negra armadura, cingiu a espada, lançou a mão do franquisque e, rompendo por entre o tropel, que fizera silêncio ao vê-lo, desapareceu através da porta da gruta, cujas rochas tingia cor de sangue a dourada vermelhidão da aurora.


[...]

Alexandre Herculano,
Eurico, O Presbítero
Imagem (C) Richter