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sexta-feira, 11 de abril de 2025

À LUPA

«Não sei o que andei a fazer na vida para só ter começado agora a ler o Guerra e Paz.».

Ana Sá Lopes numa crónica no Público.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

OLHAR AS CAPAS


De Olhos Abertos

Marguerite Yourcenar

Prefácio: Matthieu Galey

Tradução: Renata Correia Botelho

Capa: Carlos César Vasconcelos

Relógio D’Água Editores, Junho de 2011

Gosto muito de ler e também gosto de reler, como os amantes de música gostam de tocar novamente um mesmo trecho, ou de pôr a tocar um mesmo disco. Entre os escritores da geração que precedeu a minha, releio muito Hardy, Conrad, Ibsen, Tolstoi… Alguns Tchekov, certos Thomas Mann… E o livro que reli, se não mais vezes, foi a autobiografia de Gandhi.

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS


A Sonata a Kreutzer é um curto romance de Tolstói publicado em 1889.

Será um dos livros mais antigos da Biblioteca da Casa.

Publicado pela Livraria Guimarães na Rua do Mundo, hoje Rua da Misericórdia, mas sem qualquer indicação da data em que foi editado.

Encadernação amadora, imagem do topo, do meu avô que, seguindo as instruções do meu pai, conservou a capa original do livro. 

O livro tem a assinatura de posse do meu pai.

Ainda antes de ser o leitor em que me constituí, o meu pai avisara que não se colocam assinaturas, ou carimbos de posse, nos livros.

 Um livro muito interessante de Tolstoi que, logo a abrir nos infoma que estávamos no princípio da Primavera e que há dois longos dias viajavam de comboio.

Quatro viajantes permaneceram sempre na carruagem: uma mulher de meia idade, cigarro na boca, gorro na cabeça, seu marido, também um sujeito idoso, boné de Astrakan, uma camisa com bordados russos, homem de poucas palavras, lia e fumava, volta e meia preparava uma chávena de chávena de chá, iremos saber que se chama Pozdnychev e que mantém com o narrador um longo monólogo, quase diálogo à volta de uma epígrafe do Evangelho Segundo São Mateus: «Eu, porém, vos digo: todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso já cometeu adultério com ela em seu coração».

Pozdnychev matara a mulher e, se já transportava em si uma enorme solidão, piorou.

«O homem é muito pior do que o animal, quando não vive como homem. Foi o que se deu comigo. Como resistia à tentação, que, sobre mim, podiam exerecer outras mulheres, julgava-me um homem honesto e digno. E acusava minha mulher de fazer do nosso lar uma sucursal do inferno.

E comtudo, a culpa não era della, mas da educação que havia recebido. Educação egual devem receber todas as raparigas da nossa sociedade.

Ha muito quem se queixe da forma porque a mulher é educada. Ha muito que deseje dar-lhe outra orientação. Pura rethorica! Para educar a mulher, é necessário, primeiro do que tudo, fazer compreender ao homem a verdadeira missão da mulher.

Emquanto o homem a destinar para seu regalo e prazer, a educação da mulher será o reflexo dessas idéas. Desde creança lhe ensinarão a fazer valer os seus encantos. Este pensamento tornar-se-á preocupação, mais do que isso, acabrá por ser o único fim da sua existência.»

O romance foi proibido na Rússia logo após a sua publicação.

Surgiu uma versão mimeografada e, apesar da fúria dos censores russos,  foi amplamente divulgada.

Em 1890, o Departamento Postal dos Estados Unidos proibiu o envio de jornais contendo partes serializadas da obra. Isto foi confirmado pelo Procurador-Geral dos Estados Unidos no mesmo ano. Theodore Roosevelt classificou Tolstoi como um  “pervertido sexual".

OLHAR AS CAPAS


A Sonata de Kreutzer

Leon Tolstoi

Tradução: Maria Benedicta Pinho

Colecção Guimarães nº 16

Guimarães Editores, Lisboa s/d

Pozdnychev interrompeu-se. Sacudiam-no os soluços. Passados momentos, prosseguiu:

- Quando a vi no caixão, compreendi o meu erro!

Suspirou fundamente, e continuou:

- Só comprheendi o alcance do acto que praticára ao vêr-lhe o rosto cadavérico.

Comprehendi  que fôra eu que a matára, que a mergulhára no nada… Ella estava alli, inerte, fria, imóvel qual estatua, porque assim o quizéra!

Era irreparável o mal que eu praticára!

Quem não passou por transes destes, nãoi ospóde compreender!

Permanecemos silenciosos. Pozdnychev tremis, chorava.

-Sim! – disse ainda – Se eu soubesse o que hoje sei, nada teria sucedido! Nunca a teria desposado!

Não me casaria! Nunca!

E apoz novo silencio:

- Aqui tem o que eu fiz! Todas as provações porque passei. É precisos comprehender o sentido do Evangelho de S. Matheus.

É preciso saber que esta phrase: «Todo aquelle que olhar para uma mulher com olhos de cubiça, pratica o adultério», se não aplica unicamente à mulher do próximo, mas também à nossa própria mulher.

terça-feira, 9 de janeiro de 2024


Vértice

Nov-Dez 1960

Vol. XX Nº 206-207

Director: Raul Gomes

Editor Mário Braga

Número comemorativo do centenário da morte de Leão Tolstoi

«Não faças o mal e o mal não existirá.»

Tolstoi

Visado pela Comissão de Censura

Número duplo. 15$00

quarta-feira, 13 de maio de 2020

CONVERSANDO

A conversa entretinha-se à volta do que Luana dizia, quando queria fazer ver que todos os géneros de felicidade se parecem, mas cada desgraça tem o seu carácter peculiar.
Ele lembrou-se que Leon Tolstoi começava o seu belíssimo Ana Karenina com um: as famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são-no cada uma à sua maneira.
O silêncio apoderou-se da mesa. A chuva caía lá fora.
Ainda tempo para mais uma bebida, mais rasgos de filosofia…

quinta-feira, 26 de março de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Que raio a diferença que um dia faz?

Têm sido tão iguais os dias, as mesmas rotinas…

Os políticos europeus reuniram-se, via televisão, para encontrarem uma saída para esta terrível crise.

Mas há políticos nesta Europa comunitária? No mundo?

Se há, não prestam para nada!

Ao princípio era tudo união, solidariedade.

Words, words, words, tal como escreveu o velho Shakespeare.

Agora, cada um puxa para o seu lado.

Tal como no futebol: são onze contra onze e no fim ganha a Alemanha.

Políticos nos tempos de hoje, são uns tipos que prometem construir pontes mesmo onde não há rios.

Mas sempre foi assim!

Detesto hipocrisias e os dias de quem detesta hipocrisias, ficam muito limitados.

«Então porque bebo? – perguntava-se o velho escritor – É o medo de estar lúcido!

Que raio a diferença que um dia faz?


 1.

Anselmo Crespo no Diário de Notícias-on line:

«A resposta da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu, até agora, podia ser anedótica, se isto desse vontade de rir a alguém. Resume-se a isto: 7,5 mil milhões de euros que cabem na cova de um dente - e que nem sequer é dinheiro novo - e o fim do limite dos 3% de défice, que, durante anos, só alguns é que estavam obrigados a cumprir.
Devagar - muito devagarinho -, Bruxelas começa a retomar uma discussão que começou com a crise de 2008, sobre a mutualização da dívida e a que agora chamaram os "coronabonds". Mas sem pressa, que não há motivos para alarme.
O Banco Central Europeu, que promete fazer tudo o que for preciso, ainda não mexeu uma palha.»

2.

José Miguel Júdice defende que o Presidente da República deve promover uma aliança entre o PS e o PSD para enfrentar a crise provocada pela pandemia.

«O Presidente da República deve ser a figura cimeira na montagem dessa solução», disse, na SIC, o ex-dirigente do PSD.

Júdice entende que a esquerda vai fazer «exigências irrealizáveis» e que a única solução é um Governo do Bloco Central.

3.

 «Hospitais privados exigem que o Estado pague já todas as dívidas,» lê-se no Público.

4.

Gordon Ramsay, «chef» da alta cozinha britânica, anunciou que, por causa do coronavírus, os seus restaurantes iam fechar, agradeceu à sua «maravilhosa» equipa de colaboradores e no final da reunião despediu os seus 500 trabalhadores.

Nunca gostei de «chefs», sejam eles de onde forem, façam lá as «maravilhas» que lhes dê nas brilhantes cabecinhas

Aprendi com o José Quitério: sempre gostei de cozinheiros.

4.


Para o findar do dia, buscar este livrinho de Tolstoi:

«E a dor? – perguntou a si mesmo. – Que é dela? Então, dor, onde estás tu?»
Ficou atento.
«Sim, cá está ela. Pois bem, deixá-la doer.»
«E a morte? Onde está ela?»
Procurava o seu habitual medo, o anterior medo da morte e não o encontrava. Onde está ela? Qual morte? Não tinha medo nenhum, porque também não havia morte.
Em lugar da morte havia uma luz.
-É então isto! – disse ele de súbito em voz alta. – Que alegria!
Para ele tudo aquilo aconteceu num único instante e o significado desse instante já não mudou. Mas para aqueles que estavam presentes a agonia dele prolongou-se ainda por duas horas. Qualquer coisa fervilhava no peito dele; o seu corpo extenuado estremeceu. Depois o fervilhar e os estertores tornaram-se menos frequentes.
- Acabou-se ! – disse alguém por cima dele.
Ele ouviu estas palavras e repetiu-as na sua alma. «Acabou-se a morte – disse a si mesmo. – Já não existe.»
Inspirou o ar, parou a meio de um suspiro, esticou-se e morreu.»

5.

Os terríveis números:

Itália

8. 215 mortes

Espanha

4.365 mortes

China

3.169 mortes 

Irão

2.234 mortes

França

1.696 mortes

Portugal

60 mortes

Mundo

23.004 mortes

6.

Fechar, hoje, com Cecília Meireles:

«Às vezes abro a janela e encontro o jasmieiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como reflectidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.»

terça-feira, 23 de maio de 2017

UMA TERRÍVEL VONTADE DE DEIXAR-ME IR...


A falar de comboios, Alice Vieira, no seu livro de crónicas Bica Escaldada, conta da morte de Leon Tolstoi numa estação de caminho-de-ferro:

Um dia, sem que até hoje alguém tenha conseguido explicar a razão, o velho Leão Tolstoi fugiu de casa, apanhou um comboio, saiu dele quando já estava muito longe, e deixou-se morrer, sozinho, na pequena gare de Astapovo. Sempre me pareceu a maneira mais digna de se morrer – sobretudo, como era o caso, aos 80 anos, depois de já se terem apanhado e perdido todos os comboios essenciais de uma vida.

Das razões de Leão Tolstoi, conta José Jorge Letria, num artigo de opinião publicado no Diário de Notícias de 15 de Maio de 2017:

No dia 14 de Novembro de 1910, Leon Tolstói morreu de pneumonia na estação de caminhos-de-ferro de Atapovo, na província de Riaz, depois de abandonar a casa onde vivia e onde Sofia Andreievna, sua mulher e valiosa colaboradora durante muitos anos, permaneceu.
A relação conjugal fora afectada pela decisão do autor de Guerra e Paz de prescindir de metade dos seus direitos de autor. Sofia nunca aceitou essa decisão, como não aceitou a metamorfose perada na vida e nos hábitos do marido que repudiou a condição aristocrática de ambos, passou a andar descalço e começou a servir-se a si próprio nas refeições.
Uma parte significativa da inquietação que esteve na origem desta radical mudança está presente no texto de Uma Confissão, livro publicado em 1882, quatro anos antes de A Morte de Ivan Ilitch. Também rejeitou a autoridade da Igreja Ortodoxa, que o excomungou em 1901. Em tempo de ruptura e crise escreveu no seu diário: “Tenho uma terrível vontade de deixar-me ir.”

Sobre a morte de Tolstoi, o poeta brasileiro Mario Quintana escreveu Poema da gare de Astapovo:


O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo
Contra uma parede nua…
Sentou-se …e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Gloria,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E entao a Morte,
Ao vê-lo tao sozinho aquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali a sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta…)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se ate não morreu feliz: ele fugiu…
Ele fugiu de casa…
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade…
Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


A arte é um dos meios que une os homens.

Leon Tolstoi

Legenda: imagem encontrada em Promosaik

sexta-feira, 17 de julho de 2015

POSTAIS SEM SELO


Na realidade era exactamente aquilo que é costume em casa de todas as pessoas que não são ricas mas querem parecer-se com os ricos e por isso são apenas parecidas umas com as outras: havia damascos, madeiras, flores, tapetes c bronzes – tudo aquilo que todas as pessoas de uma certa categoria fazem para serem parecidas com todas as pessoas dessa categoria. E a casa dele era tão parecida com as outras que nem era possível dar por isso; mas a ele tudo aquilo lhe parecia excepcional.

Lev Tolstoi em AMorte de Ivan Ilitchi

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Antes de dar ao povo sacerdotes, soldados e maestros, seria oportuno saber se ele está a morrer à fome.

Leon Tolstoi

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

OLHAR AS CAPAS


A Morte de Ivan Ilitch

Lev Tolstoi
Prefácio: António Lobo Antunes
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Janeiro de 2008

«E a dor? – perguntou a si mesmo. – Que é dela? Então, dor, onde estás tu?»
Ficou atento.
«Sim, cá está ela. Pois bem, deixá-la doer.»
«E a morte? Onde está ela?»
Procurava o seu habitual medo, o anterior medo da morte e não o encontrava. Onde está ela? Qual morte? Não tinha medo nenhum, porque também não havia morte.
Em lugar da morte havia uma luz.
-É então isto! – disse ele de súbito em voz alta. – Que alegria!
Para ele tudo aquilo aconteceu num único instante e o significado desse instante já não mudou. Mas para aqueles que estavam presentes a agonia dele prolongou-se ainda por duas horas. Qualquer coisa fervilhava no peito dele; o seu corpo extenuado estremeceu. Depois o fervilhar e os estertores tornaram-se menos frequentes.
- Acabou-se ! – disse alguém por cima dele.
Ele ouviu estas palavras e repetiu-as na sua alma. «Acabou-se a morte – disse a si mesmo. – Já não existe.»
Inspirou o ar, parou a meio de um suspiro, esticou-se e morreu.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

POSTAIS SEM SELO


Se quiseres ser universal, começa por conhecer a tua aldeia.



Fotografia de Chris Killip