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sábado, 10 de agosto de 2024

AINDA O STUART CARVALHAIS


 Sabia que o Zé Gomes Ferreira escrevera algo sobre o Stuart Carvalhais mas não lembrava onde. O ficheiro ideológico da Biblioteca da Casa já conheceu melhores dias.

De repente, tão só de repente, acabei por encontrar o texto do Poeta. Está na página 189 de Gaveta de Nuvens. Nas nuvens estava eu quando falhei a referência que seria para aparecer no Outro Lado das Capas. As desculpas devidas aos viajantes do Cais do Olhar e aqui fica a citação:

»Sim, eu vi eu assisti não só ao advento dos modernistas com novas técnicas e novos olhos - «exijo apenas que os pintores tenham olhos diferentes dos meus», já escrevi não sei onde -, mas também aos desvios dos temas cediços das feiras, dos borrachos, das romarias, das procissões, dos barbeiros ao ar livre, das cabeças de mendigos, etc., para a sensualidade íntima de Lisboa por dentro.

O primeiro lugar da minha cronologia de experiências pessoais pertence ao Stuart – que conheci em 1917 no rescaldo dramático da 1ª Guerra Imperialista – sempre com o tinteirinho de tinta da China na algibeira para o desse e viesse. (Quanto ao papel, qualquer servia. «O das mercearias para embrulhar manteiga, é estupendo”» - ouvi-o eu dizer certo dia…)

De Redacção em Redacção, de taberna em taberna, mal lhe encomendavam um boneco qualquer, rapava do tinteirinho e da pena e, como uma espécie de Bocage do desenho, logo ali improvisava o que lhe pediam, em geral uma anedota de rua com varinas ou costureiras de pernas à mostra.

Mais preocupado com as pessoas, as «pedras vivas» - expressão anos depois vulgarizada por António Sérgio – do que com os meandros de caliça e basalto de Lisboa – lembro-me de que, na obra desse tempo do grande artista popular, se destacavam sobretudo as «bichas» (do açúcar, do pão, do petróleo) em que o Stuart de Carvalhais punha todo o génio satírico babado de ternura militante que sentia pelas mulheres do povo, resignadas e famintas, à espera da ração minguada daqueles tristes dias de guerra vil.»

Legenda: ilustração irada de Stuart e os Seus Bonecos

domingo, 4 de agosto de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Stuart Carvalhais.

Uma das grandes figuras populares da Lisboa que fizeram desaparecer.

Deixou uma enorme colaboração em jornais e revistas que mostra uma janela aberta sobre o quotidiano daquela cidade onde a alegria é triste e a tristeza escorre alegremente pelas ruas.

As autoridades, políticas e intelectuais, do reino deixaram essa obra perdida por aí.

Sempre houve em Portugal uma mentalidade de descuido, de desinteresse, de ignorância, que esquece, ou faz por esquecer, os nossos melhores, protagonizada por uma gajada oportunista a que se podiam adiantar terríveis nomes mas há que poupar os viajantes do blogue, que até sabem que nomes são, gente que amiúde me deixam perplexo, revoltado, no limiar do vómito.

"Adeus, "pá", até qualquer dia",
escreveu Leitão de Barros no Diário de Notícias de 5 de Março de 1961, três dias depois da morte do artista.

«Esta voz de Lisboa vem despedir-se de ti, que foste durante meio século o mais lisboeta dos humoristas da imagem. Desde saberes beber uma garrafa de vinho até desenhares, como mais ninguém, as pernas das garotas que nascem nas calçadas deste velho burgo, como os esguios e esbeltos caules dos lírios e dos jarros, foste modelarmente o nosso primeiro artista de rua.»

Lembrar, ainda, o que escreveu Aquilino no editorial do livrinho aqui citado:

«Malempregado Stuart! Num meio sem carácter, com diminutíssima cultura, sem um estratificado social apreciador da beleza artística, não podia encontrar, já não digo galardão, mas incentivo condigno, o seu lápis tão singular, filho de uma genialidade nata.»

OLHAR AS CAPAS


Stuart e os seus Bonecos

Prefácio de Aquilino Ribeiro

Edição de Armando Paulouro, Lisboa s/d

Perdeu-se em Stuart de carvalhais um pintor? Na exposição que fez aqui há anos da sua obra, lembro-me das suas aguarelas primorosas, costureirinhas de lisboa, meninas de janela, lisboetas danadas para avida, com predomínio do belo sexo, o que era um índice da sua índole, aguarelas e pastéis, que só isso, obra de acaso, de impressão imediata, lhe asseguraria um lugar entre os mestres do género. Suart não imitava ninguém; mas ainda nestas especulações fortuitas, pelo sentimento que tinha da vida e da figura humana, com quem ele mais se parecia, a meu ver, era um Steinlen. Um e outro foram apontando em seus desenhos e dísticos a marcha da humanidade, e não haverá mais noite, a noite que vai em pós de tudo, que lhes apague os nomes.

(Do prefácio de Aquilino Ribeiro). 

domingo, 16 de junho de 2024

OLHAR AS CAPAS


Stuart

Catálogo da exposição de Stuart realizada no Palácio dos Corucheus

Maio/Junho de 1982

Programa e Organização de Paulo Madeira Rodrigues

Edição da Câmara Municipal de Lisboa, 1982

De dezenas de milhar de originais que Stuart desenhou, descuidadamente, em qualquer papel, em casa sobrea a prancheta, ou em mesas e balcões de café e tabernas de acaso, traçados a caneta, a lápis, a carvão de pau de fósforo queimado ou palito mastigado e molhados em saliva, borra de café ou de vinho, restam realticamente poucos. A maioria perdeu-se no lixo das redacções, nas limpezas negaligentes de arquivos, nos arrumos de estantes e de bibliotecas. REunem-se, agora, pouco mais de três centenas para realizar a «exposição possível» e a homenahem há muito devidas ao artista.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

O CU DE MARUXA


Um cu que se desvela em Agosto em Ourense
redondo para olhar um cu magnificente
um cu como um bisonte
o teu cu Maruxa adivinhado num restaurante

eu rimo tanto cu que trago na memória
o teu fará por certo mais história
é um cu para a glória é nena impante

rodando na cadeira el’ deixa-nos suspensos
quase presos Maruxa pelos beiços

lembra-me nédio raxo assim forte de febra
lêveda e alva nas Burgas cozinhando
se de soslaio agora se requebra

é como canta Maruxa! igual que um pássaro
ao qual neste mesón péssoro vénia
teu ouriflâmio cu me faz insónia

Fernando Assis Pacheco em Variações em Sousa

Legenda: ilustração de Stuart Carvalhais

terça-feira, 8 de março de 2011

POSTAIS SEM SELO


O Jazz nasceu à beira de um abismo. O corpo em situação extrema a descobrir a alma. Não a alma pendurada numa parede do museu teológico, mas a psique aprisionada nas masmorras da santa sé da moral que se liberta no grito que o homem lança no limiar do abismo. O grito é o orgasmo: o Jazz. É neste sentido que se pode falar de um erotismo do Jazz: a escalada de psique para eros. Escalada, apenas. Nunca o ponto de repouso da chegada. Por isso o Jazz é tensão, estirada, dor agudíssima, os ingredientes que elaboram o orgasmo em suspensão. Por isso o Jazz não é terminal, recusa-se a um fim, continua mesmo quando acaba. É fome de amor que se alimenta da insatisfação. Por isso no Jazz se abre o leque dos sons com que a lost generation ventilou o seu rosto afogueado pelo último Verão do mundo. Poesia sem letras, magia sem esperança, assembleia de bacantes na festa do descobridor da vinha, limando as unhas para arrancar olhos aos usurpadores do sonho. Porque no Jazz o que importa, acima de tudo, é não acordar!

Natália Correia

Legenda: Pintura de Stuart Carvalhais