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sexta-feira, 18 de junho de 2021

OLHAR AS CAPAS


Vencer!

Roger Martin du Gard

Tradução: Maria Lamas

Círculo de Leitores. Lisboa s/d

Mais uma vez, avalia a que ponto o mal-entendido é irremediável, a que ponto são e continuarão a ser dois. Talvez ele não tenha culpa… Mas que parte cabe também ao outro!

O automóvel ronca em frente da porta.

Como um autómato, André desce a escadaria.

Encostado ao carro, muito direito, recebe o beijo de adeus; depois fecha a porta:

- Vá…

Maquinalmente, diz a meia voz:

- Eis-me sòzinho!

Levantar-se-á sozinho: sentar-se-á sozinho à mesa, sòzinho…

Voltará da herdade; onde está ela?... Na sala, ninguém; no quarto, ninguém…

-Sòzinho!

Sente-se pregado ao fim da escadaria por um indivisível terror de viver. A porta de entrada aberta como um túmulo.

Ergue os olhos para a casa vazia…

Maria, curiosa, debruçada da janela da senhora, segue com os olhos o automóvel que desce a avenida.

domingo, 19 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


José Milhazes, comentador político na SIC, escreveu num destes dias:

Em vez de celebrar de forma atabalhoada o 46º aniversário do 25 de Abril, seria mais sensato transferir as comemorações para quando a pandemia estiver dominada, e realizá-las no dia 25 de Novembro.

Os muitos Josés Milhazes que esperneiam por aí, respiram uma demência senil para a qual ainda não foi encontrada vacina.

Este José Milhazes nasceu em 1958, foi militante do PCP, estudou História na então União Soviética, doutorou-se e por ali viveu uns bons anos.

Nunca fui de grandes viagens, e se aconteceram foi por motivos profissionais.

Há uma série de países que gostava de visitar, mas a União Soviética está completamente fora de questão.

Era miúdo quando aconteceu a invasão da Hungria, já não era miúdo nenhum quando aconteceu a invasão da Checoslováquia e isso, com boas ou más fontes que me passaram pelos olhos, chegou para deixar escorregar os amanhãs que um dia poderiam vir a ser cantados.

Sobre a invasão da Checoslováquia tive longas conversas com o meu pai, que era um convicto marxista-leninista, discussões bem acompanhadas por tintos de colheita do ano, nunca grandes vinhos-para-enganar-burguês.

 Não que o meu pai concordasse com tudo o que se passava na União Soviética, ou que o socialismo estava à disposição numa qualquer loja de esquina, mas guardava convicções que o levavam a ser um homem daquele sonho.

Sou de esquerda mais por Roger Vailland, Albert Camus, Roger Martin du Gard, os neo-realistas italianos, portugueses, outras leituras, do que por Marx, Engels ou Lenine, não lidos na íntegra, sou de esquerda porque é uma maneira de ser, como dizia o José Saramago.

Bastas vezes chateio-me com o Partido, entendo que lêem pouco, dizem, praticam coisas que não consigo entender, mas li a Autobiografia de Mário Dionísio, de quem gosto muito, e por lá está escrito que os erros dos nossos amigos não podem fazer-nos esquecer os nossos inimigos.

Bom, mas eu vim aqui pelo disparate do José Milhazes e acabei por me meter por ruas, travessas e becos, mas o que queria dizer realmente é que para um fulano que se formou em História, mesmo que tivesse sido na União Soviética, não calha bem dizer que a gente do 25 de Abril comemora o 25 de Novembro.

Equívocos, ou habilidades, palavras suaves, que servem para continuar a enganar quem não pensa pela sua cabeça, ou tem preguiça em assim pensar.

Por aqui me fico e é tempo de escolher a música.

Porque é domingo, e como andámos por aqueles lados, ficamos com a Valsa nº 2 de Shoskatovich.

1.

«O mercado de trabalho português é marcado pelos baixos salários e pela precariedade (em 2018, mais de um terço dos trabalhadores do privado tinha um contrato de trabalho não permanente e 76% do emprego líquido criado no privado nos últimos seis anos assentou em vínculos precários). São estes os trabalhadores mais vulneráveis.

Do mesmo modo, a dinâmica de emprego dos últimos anos traz consigo elementos de fragilidade. Entre 2013-19 foram criados 500 mil postos de trabalho, entre os quais 75 mil no sector do alojamento e restauração. Empregos que, agora, ficarão muito expostos a este choque brutal de procura. Os dados preliminares dão conta de que nestas semanas, neste sector, 62% das empresas encerraram temporária ou definitivamente.»

Pedro Adão e Silva

2.

A afirmação de Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia de que os velhos deveriam manter-se isolados até ao final do ano, deixou-me em polvorosa.

A deputada do Partido Socialista Isabel Moreira, escreve sobre esta ideia da senhora presidente, no Expresso:

«Simplesmente, sabemos que a partir de um determinado momento vamos começar, lentamente, a fazer a nossa vida em novos moldes. Nada será como antes. Ainda não sabemos como decorrerão os dias após o isolamento sem vacina, mas certamente teremos de nos proteger e de proteger terceiros, tentando que saúde e vida mais ou menos habitual se conjuguem, porque precisamos de sair disto com um país de pé.

Precisamos, também, de sair disto como gente. Todas as pessoas precisam de ver as suas pessoas, todas as pessoas precisam de passear, ainda que com restrições, todas as pessoas precisam de algum sentido de normalidade.

O que não é normal é o discurso da clausura dos idosos por tempo indeterminado como se gente acima de certa idade, que vive em contextos muito diferenciados, não tivesse autonomia individual, autodeterminação, capacidade de tomar decisões, incluindo a capacidade de escolher quais os riscos de saúde que quer ou não assumir.

Não se pode esperar com enorme tranquilidade que homens e mulheres acima de 65 anos fiquem fechados em casa ou em lares por meses e meses, sem direito ao mundo exterior, sem direito ao afeto, sem direito a escolher. Quando estivermos em período de regresso à normalidade, as pessoas idosas não podem ser condenadas a morrer da precaução. Pelo contrário, temos de as respeitar enquanto cidadãos e cidadãs capazes de fazerem as suas escolhas, livres naquilo que não afete terceiros, gente que ainda quer ser gente.»

3.

Um homem de 26 anos morreu, na tarde deste domingo, vítima de agressões com uma arma branca, ocorridas no bairro da Brandoa, na Amadora. Os dois alegados autores do homicídio foram detidos no local.

4.

Os negros números:

Em Portugal morreram 714 pessoas.

Os Estados Unidos registam 38.664 mortos, no estado de Nova Iorque ocorreram 14.451 mortes.

Itália: 23.660 mortos
Espanha: 20.453 mortos
França: 19.718 mortos
Grã-Bretanha: 16.060 mortos


Em todo o mundo já morreram 164.716 pessoas.

Legenda: contracapa do catálogo da Cinemateca, Imagens, Abril 1984

terça-feira, 7 de novembro de 2017

DEZ DIAS QUE ABALARAM O MUNDO


Cresci rodeado de livros.

Uma sorte, um privilégio, diga-se. Foi assim que tudo começou.

Há os que não têm nem essa sorte, nem esse privilégio. Os que têm de procurar são as pessoas que me merecem admiração, as pessoas de quem gosto, enquanto que os que têm livros à disposição, entendem que ler é uma grande maçada, ignoro-os, esqueço-me que existem, se bem que os oiça bolsar que os livros estão empoeirados, as canecas de cerveja ensinam melhor, a cerveja dá prazer, os livros apenas aborrecimento.

Havia o hábito de, nas prateleiras mais altas, colocar os livros que se convencionava não serem lidos em determinadas idades.

Lá em casa não havia essa regra. Os livros, todos, eram para serem lidos.

Juntamente com os Salgari, os Walter Scots, os Júlio Verne, ter lido o Eça de Queiroz aos 13/14 anos foi uma aventura inesquecível. Naturalmente que, mais tarde, ao Eça tive que voltar, e não é por já tanto o ter lido e relido, que alguma vez deixarei de lhe bater à porta.

Um livro de capa preta tinha o título de Dez Dias Que Abalaram o Mundo.

Tratava-se da edição brasileira do livro de John Reed, uma edição popular, publicada em 1945 pela Editorial Calvino Lda do Rio de Janeiro.

O Mundo, alguma vez mudara? E em dez dias? Como teria sido?

Nada como ir ler para contar como foi.

No prefácio desta edição a que Egon Erwin Kish dá o nome John Reed, o jornalistas das barricadas, pode ler-se logo nas primeiras linhas:

«Combateu nas barricadas. Sua arma era o lápis, como a arma do ferreiro, lutando a seu lado, talvez fosse o martelo.
Mesmo examinada do ponto de vista jornalístico, a actividade de John Reed foi admirável. Os acontecimentos de uma semana, que seus colegas consideraram simples lutas episódicas entre os partidos russos ou incidentes pouco importantes da guerra, para John Reed foram dias que abalaram o mundo.»

Na abertura do prefácio, datado de Nova Iorque 1 de Janeiro de 1919, John Reed escreve:

«Este livro é um naco de história intensiva – tal como eu a vi. Nada mais pretende ser do que uma narrativa pormenorizada da revolução de Novembro, quando os bolcheviques, à frente dos operários e soldados, se apoderar.»

E a fechar:

«Na luta, as minhas simpatias não ficaram neutrais. Mas, ao narrar a história daqueles dias grandiosos, tentei ver os acontecimentos com os olhos de um repórter consciencioso, interessado em registar a verdade.»

Quando aos 17 anos, mais coisa menos coisa, em plena ditadura de Salazar, se pega num livro como Dez Dias Que Abalaram o Mundo só duas coisas poderiam suceder: colocar de imediato o livro de lado, lê-lo com o encantamento de uma aventura.

Sim, o livro é uma apaixonante reportagem, um livro honesto porque o autor declara de que lado está.

Penso que a vontade, a vontade e as ideias, têm um importante papel nos tempos da adolescência.

Caminhos que nos levam a tomar partido, não ficar naquela margem de não ser coisa nenhuma, nem direita, nem esquerda. Ficar no meio, com uma ténue ideia, a possibilidade de ver os dois lados.

Há uns anos, numa entrevista, António Mega Ferreira que, necessariamente, terá lido John Reed, dizia que o centro é uma cobardia, é uma falta de coragem, é para onde convergem, direita ou esquerda, quando não têm coragem.

Graham Greene, em O Americano Tranquilo vai mais longe.:

Mais tarde ou mais cedo temos de tomar partido, de forma a parecermos humanos.

É comum ouvir dizer que se chegou a determinado olhar sem ter passado por manifestos, pelos mais variados ismos.

Porque também se pode chegar a esse olhar, lendo, Albert Camus, Elio Vittorini, Roger Vailland, Jorge Amado Roger Martin du Gard, Hemingway, Soeiro Pereira Gomes, uma lista de nomes de todo interminável.


Em 1981, Warren Beaty realizou Reds um filme que retrata a vida do jornalista John Reed.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

POSTAIS SEM SELO


- Enfim – suspira a senhora Bosse, voltando à sua tarefa -, não se pode fazer a felicidade das pessoas contra a sua vontade… Não é verdade, Emile?

Roger Martin du Gard em Velha França

Legenda: fotografia de Vivian Maier

sexta-feira, 15 de maio de 2015

OLHAR AS CAPAS


Velha França

Roger Martin du Gard
Tradução de Alexandre Cabral
Capa: Paulo.Guilherme
Colecção O Livro de Bolso nº2
Portugália Editora, Lisboa, s/d

Sem dúvida, passará à reforma dentro de dois meses. Um outro chefe virá sentar-se aqui, fará o inventário, tomará posse de tudo. E ele, para onde irá ele?
Há trinta anos que usa a farda da companhia. Trinta anos sem uma censura; trinta anos sem um erro de escrita. E agora a reforma. Impossível escapar-lhe, tal como à morte.
Para trás fica a carreira que se acaba: uma existência de chefe de estação. Não é grande coisa; mas é uma existência que ele quis que fosse exemplar. Em trinta anos não concedeu a si próprio outra alegria que a de bem executar a sua tarefa; defendeu-se heroicamente contra todos os maus hábitos aos quais cede o comum dos homens. Nem tabaco nem amante. Nem mesmo uma esposa legítima (desde o momento que se detém uma parcela de poder, é preciso, para o exercer, parecer insensível, não dar o flanco mostrando algum sinal de fraqueza). As duas únicas distracções que se permitiu são de ordem intelectual: a colecção de selos e a biblioteca; entre dois comboios compulsava de boa vontade o álbum ou folheava um dos catorze volumes encadernados que lhe legara o padrinho, amador de teatro;: a obra completa de Scribe. Fora disto, tudo fora sacrificado a este ideal: ser um perfeito chefe de estação. E hoje, na véspera de abandonar tudo, de se enterrar vivo, a satisfação do dever cumprido não traz nenhuma compensação ao seu desespero.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

PERGUNTAS DE ALGIBEIRA


Por um antigo Verão, quando ainda havia Verão, em Almoçageme, quando Almoçageme ainda era uma pacata aldeia, numa festa de bombeiros, quando ainda havia festas de bombeiros, o Miguel apareceu com uma rapaziada francesa, altos, médios quadros de uma importante empresa.

Sandes de isca para um lado, bifanas para outro, caldo verde, pelo meio jarros de vinho tinto.

Eis senão quando, num assomo de infantilidade a roçar a mais parva das idiotices, lembrei-me de questionar os franceses sobre se conheciam Roger Vailland, Camus, Roger Martin du Gard, Georges Brassens, Jean Ferrat, enfim, uma cachoeira de escritores e cantores franceses, a que os rapazes, rigorosamente, disseram nada.

Boca-comentário para o lado: ainda dizem que os portugueses é que são ignorantes!...

Corria o ano de 2007, Baptista-Bastos numa entrevista ao Público, dizia:

Há tempos estive em França e perguntei: “Como é que vamos de Roger Vailland. E ninguém sabia quem era. Vai fazer agora 100 anos!”

Uma cadeia de hotéis do Reino Unido realizou, há escassas semanas, um inquérito a dois mil alunos do ensino secundário para testar conhecimento histórico e encontrou dados surpreendentes. A maioria dos alunos, entre os 11 e os 16 anos, baralhou as personagens históricas e contemporâneas e fez associações erradas.

Segundo o jornal The Independent, que divulgou os dados deste inquérito, a maior parte dos adolescentes colocou  Delia Smith (apresentadora de programas de culinária), Jerry Hall (modelo) e Camila, duquesa da Cornualha e mulher do herdeiro da coroa britânica Carlos, na lista de mulheres de Henrique VIII.

Os inquiridos não souberam dizer que países estiveram envolvidos na II Guerra Mundial e consideraram que Rod Stewart (cantor), Bruce Forsyth (actor) e Alan Sugar (empresário) foram primeiros-ministros durante esse conflito.

Quando foi pedido que identificassem William Shakespeare, uma grande percentagem de inquiridos disse tratar-se de um apresentador da BBC.

 Já Nick Knowles, apresentador, foi identificado pelo menos por um aluno como construtor das pirâmides e  Anne Frank, a adolescente judia que morreu no Holocausto, foi identificada como apresentadora de um talk-show americano, a Peste Negra como  um grupo rock.

Legenda: aguarela de Roque Gameiro.

terça-feira, 24 de abril de 2012

OLHAR AS CAPAS


O Drama de João Barois
Roger Martin du Gard
Tradução Lobo Vilela
Editorial Inquérito, Lisboa s/d

É de revolta em revolta que as sociedades se aperfeiçoam, que a civilização se estabelece, que a justiça reina… Liberdade de comércio, liberalismo de ensino, todas estas liberdades, como as chuvas fecundas do Verão, chegam nas asas da tempestade!


Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.
A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora. 

domingo, 11 de abril de 2010

DEZ DIAS QUE ABALARAM O MUNDO


Cresci rodeado de livros.

Uma sorte, um privilégio, diga-se. Foi assim que tudo começou.

Há os que não têm nem essa sorte, nem esse privilégio. 

Os que têm de procurar são as pessoas que me merecem admiração, as pessoas de quem gosto, enquanto que os que têm livros à disposição, entendem que ler é uma grande maçada, ignoro-os, esqueço-me que existem, se bem que os oiça bolsar que os livros estão empoeirados, as canecas de cerveja ensinam melhor, a cerveja dá prazer, os livros apenas aborrecimento.

Havia o hábito de, nas prateleiras mais altas, colocar os livros que se convencionava não serem lidos em determinadas idades.

Lá em casa não havia essa regra. Os livros, todos, eram para serem lidos.

Juntamente com os Salgari, os Walter Scots, os Júlio Verne, ter lido o Eça de Queiroz aos 13/14 anos foi uma aventura inesquecível. Naturalmente que, mais tarde, ao Eça tive que voltar, e não é por já tanto o ter lido e relido, que alguma vez deixarei de lhe bater à porta.

Um livro de capa preta tinha o título de Dez Dias Que Abalaram o Mundo.

Tratava-se da edição basileira do livro de John Reed., um edição popular, publicada em 1945 pela Editorial Calvino Lda do Rio de Janeiro
.
O Mundo, alguma vez mudara? E em dez dias? Como teria sido?

Nada como ir ler para contar como foi.

No prefácio desta edição a que Egon Erwin Kish dá o nome “John Reed, o jornalistas das barricadas”, pode ler-se logo nas primeiras linhas:

“Combateu nas barricadas. Sua arma era o lápis, como a arma do ferreiro, lutando a seu lado, talvez fosse o martelo.
Mesmo examinada do ponto de vista jornalístico, a actividade de John Reed foi admirável. Os acontecimentos de uma semana, que seus colegas consideraram simples lutas episódicas entre os partidos russos ou incidentes pouco importantes da guerra, para John Reed foram dias que abalaram o mundo”.


Na abertura do prefácio, datado de Nova Iorque 1 de Janeiro de 1919, John Reed escreve:

“Este livro é um naco de história intensiva – tal como eu a vi. Nada mais pretende ser do que uma narrativa pormenorizada da revolução de Novembro, quando os bolcheviques, à frente dos operários e soldados, se apoderaram do poder governativo da Rússia e o colocaram nas mãos dos sovietes.”

E a fechar:

“Na luta, as minhas simpatias não ficaram neutrais. Mas, ao narrar a história daqueles dias grandiosos, tentei ver os acontecimentos com os olhos de um repórter consciencioso, interessado em registar a verdade”. (1)

Quando aos 17 anos, mais coisa menos coisa, em plena ditadura de Salazar, se pega num livro como “Dez Dias Que Abalaram o Mundo” só duas coisas poderiam suceder: colocar de imediato o livro de lado, lê-lo com o encantamento de uma aventura.

Sim, o livro é uma apaixonante reportagem, um livro honesto porque o autor declara de que lado está.

Penso que a vontade, a vontade e as ideias, têm um importante papel nos tempos da adolescência.

Caminhos que nos levam a tomar partido, não ficar naquela margem de não ser coisa nenhuma, nem direita, nem esquerda. Ficar no meio, com uma ténue ideia, a possibilidade de ver os dois lados.

Há uns anos, numa entrevista, António Mega Ferreira que, necessariamente, terá lido John Reed, dizia que o centro é uma cobardia, é uma falta de coragem, é para onde convergem, direita ou esquerda, quando não têm coragem.

Graham Greene, em “O Americano Traquilo” vai mais longe.: 

“ Mais tarde ou mais cedo temos de pomar partido, de forma a parecermos humanos”.

É comum ouvir dizer que se chegou a determinado olhar sem ter passado por manifestos, pelos mais variados ismos.

Porque também se pode chegar a esse olhar, lendo, Albert Camus, Elio Vittorini, Roger Vailland, Jorge Amado Roger Martin du Gard, Hemingway, Soeiro Pereira Gomes, uma lista de nomes de todo interminável.

Em 1981 Warren Beaty realizou Reds um filme que retrata a vida do jornalista John Reed, protagonizado, entre outros, pelo próprio Warren Beaty, Diane Keaton, Jack Nicholson, Gene Hacmann.



(1) – A tradução de “Dez Dias Que Abalaram o Mundo”, aqui citada, é a de A. Dias Gomes para “Publicações Europa-América”, Maio de 1976.