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segunda-feira, 21 de abril de 2025

GENTE MINHA, MINHA GENTE


Existem dois livros de Bocage na Biblioteca da Casa.

Em nenhum deles se encontra este seu poema.

Os primeiros versos do soneto, li-os como epígrafe do texto «35 Anos de Opressão Fascista» de José Dias Coelho, que consta do livro A Resistência em Portugal, que hoje se apresenta em Olhar as Capas, livro que comprei nos primeiros meses, após o 25 de Abril.

O caminho das pedras trouxe-me até aqui.

Cheguei aos 80 anos.

Nunca esperei viver tanto!

Senti que era tempo de lembrar os escritores, os poetas, os cantores, os músicos, os actores, os realizadores, os pintores, tanta gente, tanta gente, que me ajudaram a fazer o caminho.

É um difícil passo, provavelmente, não terei tempo para os apresentar todos.

A abertura da secção cabe a José Dias Coelho, morto pela PIDE no dia 19 de Dezembro de 1961, acontecimento denunciado num poema de António Quadros(pintor), para o qual José Afonso fez música, palavras e canção que muitos, nem todos, conhecem,  e que nos grita que a morte saiu à rua num dia assim.

Palavras de Margarida Tengarrinha, sua mulher, no prefácio de «A Resistência em Portugal»:

«Quando podia, e era muito raro poder, fazia pequenas esculturas, desenhos e gravuras, muitas das quais foram publicadas na imprensa clandestina do Partido. A sua última gravura, feita em Novembro de 1961 para o «Avante», representava o operário Cândido Martins assassinado na frente da manifestação do Barreiro contra a burla eleitoral.»

houve um tempo antes de abril.
um tempo monstruoso
calados    amordaçados    sitiados    vigiados
o medo sobretudo o medo
era de noite e levaram quem nesta cama dormia, perseguições prisões mortes silêncios lutas
também um tempo de canções quem deu a cara as palavras as músicas as vozes
um dia foi a tal madrugada por que esperámos tanto tempo
depois os que entraram na barca para a afundar.
um retrato de desencanto, de impotência franjas de uma esperança apenas sonhada
e no entanto era possível
mas algum erro os filhos da madrugada cometeram
a culpa é de todos a culpa não é de ninguém
por aqui, têm passadio algumas das canções, alguns dos poetas, alguns dos músicos, alguns dos cantores, que nos ajudaram a ir ao encontro da manhã clara.
os que foram protagonistas duma grande esperança e são hoje figurantes dum grande desencanto

Funcionário clandestino do Partido Comunista, José Dias Coelho seguia pela Rua dos Lusíadas, quando cinco agentes da PIDE, saltaram de um automóvel e alvejaram-no, à queima-toupa, com um tiro no peito, e dispararam outro tiro quando já se encontrava por terra.

Antes de ser assassinado, José Dias Coelho estivera em casa de Mário Castrim que, na altura, morava na Rua Luís de Camões, perto da estação dos carros eléctricos de Santo Amaro. 

No livro “Viagens”,  o poema “Viagem Através de Uma Fatia de Bolo-Rei”, Mário Castrim assinala  esses últimos momentos de vida de José Dias Coelho:

Corria o ano de 1961.
Estávamos à porta do Natal.
Eram quase duas horas da manhã

e eu perguntei-lhe

se queria comer alguma coisa.

Disse que sim. Mas que

estava com muita pressa.

 

Enquanto vestia a gabardina, trouxe-lhe

uma sanduíche de fiambre

um copo de vinho

uma fatia de bolo-rei.

Estava de pé

comia como se fosse a primeira vez

desde a infância.

 

- Há quantos anos

deixa cá ver

há quantos anos é que eu não comia

bolo-rei?

Este é bom, sabe a erva-doce

e a ovos.

(Caíam-lhe migalhas

aparava-as com a outra mão

em concha)

 

- Comes outra fatia, camarada?

 

- Isso não.

Estou atrasado já.

Mas se ma embrulhasses...

 

Através da janela

do quarto às escuras

fico a vê-lo atravessar a Rua da Creche

seguir pela Rua dos Lusíadas.

 

Nenhum de nós sabia

que estava já erguida a pirâmide do silêncio

à espera dele

num breve prazo.

 

Quando talvez o gosto do bolo-rei

mais forte do que nunca

tivesse ainda na boca.

OLHAR AS CAPAS


A Resistência em Portugal

José Dias Coelho

Prefácio: Margarida Tengarrinha

Capa: Armando Alves

Colecção Situações nº 4

Editorial Inova, Porto, Junho de 1974

O único móvel existente é um «bailique, prateleira de madeira que serve de cama, muitas vezes nem enxerga  nem cobertores. Naquele espaço exíguo de 4 passos por 2, infindavelmente contados, o preso entra numa nova luta – a luta contra o tempo. Passa as longas noites de insónia esperando a manhã, quantas vezes temeroso do sono que lhe trará pesadelos – um dos mais frequentes é o de estar enterrado vivo, ou encerrado num jazigo – para os quais o acordar não é alívio.

O dia, monótono, solitário, sem ter que ler, é infindavelmente vazio e para o preencher o preso inventa as mais infantis maneiras de passar o tempo: brinca com fósforos, com os quais tenta escrever e desenhar nas paredes, modela bonecos de miolos de pão, joga damas sozinho. Mesmo estas distracções são reprimidas pelos carcereiros se se apercebem delas.

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

MÚSICA PELA MANHÃ


José Dias Coelho nasceu em Pinhel, Guarda, a 19 de Junho de 1923.

Foi assassinado pela PIDE na Rua da Creche em Lisboa no dia 19 de Dezembro de 1961.

Margarida Tengarrinha, mulher de José Dias Coelho, nasceu em Portimão a 7 de Maio de 1928.

Morreu a 26 de Outubro de 1923.

José Dias Coelho e Margarida Tengarrinha usariam o que aprenderam sobre as suas artes para falsificar documentos e apoiar a resistência à ditadura.

 

Antes de ser assassinado, José DiasCoelho estivera numa reunião na casa de Mário Castrim que então morava junto à estação da Carris em Santo Amaro, tal como conta num poema que consta do seu livro Viagens:

 

VIAGEM ATRAVÉS DE UMA FATIA DE BOLO-REI

Corria o ano de 1961.
Estávamos à porta do Natal.
Eram quase duas horas da manhã

e eu perguntei-lhe

se queria comer alguma coisa.

Disse que sim. Mas que

estava com muita pressa.

 

Enquanto vestia a gabardina, trouxe-lhe

uma sanduíche de fiambre

um copo de vinho

uma fatia de bolo-rei.

Estava de pé

comia como se fosse a primeira vez

desde a infância.

 

- Há quantos anos

deixa cá ver

há quantos anos é que eu não comia

bolo-rei?

Este é bom, sabe a erva-doce

e a ovos.

(Caíam-lhe migalhas

aparava-as com a outra mão

em concha)

 

- Comes outra fatia, camarada?

 

- Isso não.

Estou atrasado já.

Mas se ma embrulhasses...

 

Através da janela

do quarto às escuras

fico a vê-lo atravessar a Rua da Creche

seguir pela Rua dos Lusíadas.

 

Nenhum de nós sabia

que estava já erguida a pirâmide do silêncio

à espera dele

num breve prazo.

 

Quando talvez o gosto do bolo-rei

mais forte do que nunca

tivesse ainda na boca.


sexta-feira, 10 de junho de 2022

10 DE JUNHO DE 1974


 No dia 10 de Junho de 1974, um grupo de quarenta e oito artistas plásticos do Movimento Democráticos dos Artistas Plásticos pintou, no Mercado da Primavera em Belém, um enorme mural.

Entre muitos outros pintores, participaram na pintura colectiva Júlio Pomar, João Abel Manta, Nikias Skapinakis, Menez, Vespeira, Costa Pinheiro, MargaridaTengarrinha Dias Coelho, Sá Nogueira, João Abel Manta, Palolo, Ângelo de Sousa, Nuno San-Payo, Lima de Carvalho, João Vieira, Jorge Martins, Querubim Lapa, Alice Jorge, Fernando Azevedo, Rogério Ribeiro, José Escada, Vítor Palla, António Domingues, Jorge Vieira, Carlos Calvet.

Vergílio Ferreira no seu Diário:

«Dois amigos pintores (o Baptista e o Querubim) deixaram-me dar umas pinceladas. Lembrei-me de Napoleão, em Austerlitz, aos soldados: tu podes dizer «eu estive lá». De modo que também lá estive.»

Este mural viria a desaparecer, num incêndio, em 1981, e nunca se conseguiu apurar as causas.

O mural fazia parte de uma série de actividades de solidariedade para com o Movimento das Forças Armadas.

Durante o dia, o Mercado da Primavera registou, através da cultura e das artes, outros eventos de saudação à Liberdade que o Movimento das Forças Armadas nos trouxera.

O grupo de teatro A Comuna concebeu um espectáculo, vulgo cegada, em que figuras  notórias da ditadura eram caricaturadas.

O espectáculo estava a ser transmitido, em directo, pela Televisão, mas a emissão foi subitamente interrompida quando o actor, que fazia de Cardeal Cerejeira, proferia estas palavras:

«Senhor Presidente da República. Senhor Presidente do Conselho. Filhas, artistas e filhos meus muito queridos em vosso Senhor Jesus Cristo. Pedem a o patriarca Cerejeira que diga algumas palavras nesta festa de artistas. Que palavras pode dizer o patriarca de Lisboa senão fazer cantar como um apóstolo anima mea gaudiae pinctome, canatatis, representatis, pictos, pictos, picta.
Que palavras pode dizer o cardeal de Lisboa senão o fazer exultar de alegria a arte. O grito do Natal ressoa em nós quando a arte se transforma em parte e se parte para a Arte que é o particípio do Espírito Santo.

Esta é a festa dos artistas em que pelo que fazeis dais glória aos nossos governantes que mais não fazem que executar a vontade de Deus e a vontade do povo, salvo seja…»

Passados poucos minutos, a locutora Alice Cruz, leu o seguinte comunicado:

O programa que transmitíamos em directo do Mercado da Primavera foi interrompido por ordens superiores, estranhas aos trabalhadores da televisão que manifestam o seu repúdio por tal medida, pelo que oportunamente tomarão a atitude conveniente.


A ordem de interrupção fora ordenado pelo Major Mariz Fernandes, representante da Junta de Salvação Nacional na RTP .

 No dia seguinte, Raul Rego, ministro da Comunicação Social, emprestou a sua concordância com o acto censório, e acrescentou:

Temos que ter em consideração os sentimentos de parte da população portuguesa.

Passados dias, o Conselho Permanente do Episcopado divulga um comunicado afirmando a sua mais viva indignação por esse espectáculo que foi sentida pela generalidade da população católica de Portugal.

Fontes:

Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa.

Legenda:

a)      Pormenor do mural colectivo tirado de Entre as Brumas da Memória

b)      Fotografia da feitura do mural, tirada de O Século de 12 de Junho de 1974

c)      Fotografia da representação da cegada de A Comuna tirada do Expresso de 15 de Junho de 1974.

domingo, 7 de junho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

OS IDOS DE JUNHO DE 1974

No dia 10 de Junho de 1974, um grupo de quarenta e oito artistas plásticos do Movimento Democráticos dos Artistas Plásticos pintou, no Mercado da Primavera em Belém, um enorme mural.
Entre muitos outros pintores, participaram na pintura colectiva Júlio Pomar, João Abel Manta, Nikias Skapinakis, Menez, Vespeira, Costa Pinheiro, MargaridaTengarrinha Dias Coelho, Sá Nogueira, João Abel Manta, Palolo, Ângelo de Sousa, Nuno San-Payo, Lima de Carvalho, João Vieira, Jorge Martins, Querubim Lapa, Alice Jorge, Fernando Azevedo, Rogério Ribeiro, José Escada, Vítor Palla, António Domingues, Jorge Vieira, Carlos Calvet.

Vergílio Ferreira no seu Diário:

Dois amigos pintores (o Baptista e o Querubim) deixaram-me dar umas pinceladas. Lembrei-me de Napoleão, em Austerlitz, aos soldados: tu podes dizer «eu estive lá». De modo que também lá estive.»


Este mural viria a desaparecer, num incêndio, em 1981, e nunca se conseguiu apurar as causas.

O mural fazia parte de uma série de actividades de solidariedade para com o Movimento das Forças Armadas.

Durante o dia, o Mercado da Primavera registou, através da cultura e das artes, outros eventos de saudação à Liberdade que o Movimento das Forças Armadas nos trouxera.

O grupo de teatro A Comuna concebeu um espectáculo, vulgo cegada, em que figuras  notórias da ditadura eram caricaturadas.

O espectáculo estava a ser transmitido, em directo, pela Televisão, mas a emissão foi subitamente interrompida quando o actor, que fazia de Cardeal Cerejeira, proferia estas palavras:

Senhor Presidente da República. Senhor Presidente do Conselho. Filhas, artistas e filhos meus muito queridos em vosso Senhor Jesus Cristo. Pedem a o patriarca Cerejeira que diga algumas palavras nesta festa de artistas. Que palavras pode dizer o patriarca de Lisboa senão fazer cantar como um apóstolo anima mea gaudiae pinctome, canatatis, representatis, pictos, pictos, picta.
Que palavras pode dizer o cardeal de Lisboa senão o fazer exultar de alegria a arte. O grito do Natal ressoa em nós quando a arte se transforma em parte e se parte para a Arte que é o particípio do Espírito Santo.

Esta é a festa dos artistas em que pelo que fazeis dais glória aos nossos governantes que mais não fazem que executar a vontade de Deus e a vontade do povo, salvo seja…

Passados poucos minutos, a locutora Alice Cruz, leu o seguinte comunicado:

O programa que transmitíamos em directo do Mercado da Primavera foi interrompido por ordens superiores, estranhas aos trabalhadores da televisão que manifestam o seu repúdio por tal medida, pelo que oportunamente tomarão a atitude conveniente.


A ordem de interrupção fora ordenado pelo Major Mariz Fernandes, representante da Junta de Salvação Nacional na RTP .

 No dia seguinte, Raul Rego, ministro da Comunicação Social, emprestou a sua concordância com o acto censório, e acrescentou:

Temos que ter em consideração os sentimentos de parte da população portuguesa.

Passados dias, o Conselho Permanente do Episcopado divulga um comunicado afirmando a sua mais viva indignação por esse espectáculo que foi sentida pela generalidade da população católica de Portugal.

Legenda:
a)      Pormenor do mural colectivo tirado de Entre as Brumas da Memória
b)      Fotografia da feitura do mural, tirada de O Século de 12 de Junho de 1974
c)      Fotografia da representação da cegada de A Comuna tirada do Expresso de 15 de Junho de 1974.

Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa

Texto publicado no dia 16 de Junho de 2014.

domingo, 17 de maio de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

RÁDIO PORTUGAL LIVRE

Capa da cassette, editada em 1977, pelas Edições Avante, contendo extractos de emissões da Rádio Portugal Livre.

A 12 de março de 1972, emitida desde Bucareste, o Partido Comunista Português fazia ouvir a sua voz através da Rádio Portugal Livre.

Através das ondas curtas, após a transmissão do Hino Nacional ouviu-se: 
«Aqui Rádio Portugal Livre! A Emissora Portuguesa ao serviço do Povo, da Democracia e da Independência Nacional.»

Foi nestes termos que o Avante de Abril de 1962 anunciou na sua primeira página a entrada em funcionamento da emissora clandestina do Partido Comunista Português – a Rádio Portugal Livre:

«A notícia divulgou-se mais que depressa e em pouco tempo o entusiasmo correu de Norte a Sul.» «Finalmente ouviu-se a voz de Portugal Livre, grande aspiração de todos os antifascistas portugueses. Mais um golpe profundo foi dado pelo nosso povo na censura salazarista.»


Foi através da Rádio Portugal Livre que pela primeira vez se fez ouvir a voz da cantora comunista Luísa Basto a cantar «Avante, camarada Avante!», da autoria de Luís Cília, que, hoje, funciona como hino do Partido.

A Rádio Portugal Livre encerrou a sua actividade em fins de Outubro de 1974, após a realização do VII Congresso Extraordinário do Partido Comunista Português que se realizou em 20 de Outubro desse ano.

A ideia da criação de uma rádio do Partido, segundo Rui Perdição, principiou a germinar pouco depois da fuga de Álvaro Cunhal de Peniche. O slogan «Aqui Rádio Portugal Livre! A Emissora Portuguesa ao serviço do Povo, da Democracia e da Independência Nacional», foi escolhido por Pedro Soares e pelo próprio Rui Perdigão que o proferiu na primeira emissão.

Além de Rui Perdigão, e de sua mulher Fernanda Perdigão, trabalharam na RPL, entre outros, Aurélio dos Santos, Alda Nogueira, Margarida Tengarrinha, Álvaro Mateus, Teresa Mendes, Maria da Piedade Morgadinho.

Durante a ditadura existiu uma outra rádio clandestina: a Rádio Voz da Liberdade da responsabilidade da Frente Popular de Libertação Nacional, a emitir desde Argel, dirigida por Manuel Alegre e em que trabalharam, entre outros, Fernando Piteira Santos e sua mulher Estela, a primeira voz a dizer:

«Amigos, companheiros e camaradas, daqui fala a Rádio Voz da Liberdade, em nome da Frente Patriótica de Libertação Nacional.»

Legenda:  a capa da cassette é um desenho do pintor António Domingues, datado de 1953.

Texto publicado em 12 de Março de 2014

quarta-feira, 10 de junho de 2015

PAINEL DE LIBERDADE


Naquele primeiro 10 de Junho em liberdade, que não mais foi Dia da Raça, uma enorme festa transformou o Mercado da Primavera, em Lisboa, num grito de solidariedade para com o Movimento das Forças Armadas.

Nesse espaço 48 artistas plásticos, (tantos como os anos de ditadura) das mais variadas tendências, pintaram um enorme painel colectivo ( 24 metros de comprimento por 4,5 de altura)  em que cada um, à sua livre maneira, pintou as suas cores da liberdade.

A parede dividida em 48 quadrados, piso térreo e dois andaimes marcando o primeiro e segundo pisos.

O calor era muito e alguns artistas trabalharam em tronco nu.

Assim ficaram distribuídos os 48 quadrados:

 1 – Margarida Tengarrinha
 2 – Sá Nogueira
 3 – João Abel manta
 4 – Júlio Pereira
 5 – Henrique Manuel
 6 – Palolo
 7 – Artur Rosa
 8 – Ângelo de Sousa
 9 – Nuno Sam-Payo
10 – Lima de carvalho
11 – Teresa Magalhães
12 – Guilherme Parente
13 – Fátima Vaz
14 – Manuel Peres
15 – René Bartholo
16 – João Vieira
17 – Jorge Martins
18 – Querubim Lapa
19 – Manuel baptista
20 – Eduardo Nery
21 – Charrua
22 – Helena Almeida
23 – Costa Pinheiro
24 – Jorge Pinheiro


25 – Júlio Pomar
26 – David Evans
27 – Alice Jorge
28 – Emília Nadal
29 – Fernando Azevedo
30 – Vespeira
31 – Rogério Ribeiro
32 – José Escada
33 – Vítor Palla
34 – Tomás Mateus
35 – António Domingues
36 – Menez
37 – António Sena
38 – Justino Alves
39 – Eurico
40 – Sérgio Pombo
41 – João Moniz Pereira
42 – Nikias Skapinakis
43 – Vítor Fontes
44 – Jorge Vieira
45 – Ana Vieira
46 – Maria Velez
47 – António Mendes
48 – Carlos Calvet

Fiquei sempre com a ideia de que não foi dada a esta obra colectiva, expressão do reconhecimento e da solidariedade dos Artistas Democráticos para com o Movimento da Forças Armadas, o devido valor.

Houve mesmo  quem lhe chamasse uma manifestação oportunista.

O painel acabou por ficar armazenado em instalações situadas perto do local onde foi pintado.

Em 1981, o painel seria totalmente destruído após um estranho incêndio que destruiu todo o armazém-

Legenda
- pormenor do painel em fotografia copiada de Portugal Anos 70 de Joaquim
  Vieira.
- Júlio Pomar pintando o painel fotografia em HelenaVaz Silva com Júlio Pomar.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

OS IDOS DE JUNHO DE 1974


8 a 14 de Junho

FOI DETIDO Saldanha Sanches, director do Luta Popular, órgão central do MRPP.
Dezenas de militantes desfilaram da Praça do Chile até à Praça do Areeiro, gritando slogans: Abaixo a nova Pide e Liberdade para Saldanha Sanches.

Segundo Maria José Morgado, que presenciou a prisão levada a cabo por polícias à paisana, esta prisão visou sobretudo atingir o MRPP e o “Luta Popular” e está integrada num conjunto de medidas repressivas contra os marxistas-leninistas-maoistas”. 

“É uma medida da coligação burguesa no poder contra a classe operária e a sua vanguarda
organizada.

NO DIA !0 DE JUNHO DE 1974, um grupo de quarenta e oito artistas plásticos do Movimento Democráticos dos Artistas Plásticos pintou, no Mercado da Primavera em Belém, um enorme mural. Entre muitos outros pintores , participaram na pintura colectiva Júlio Pomar, João Abel Manta, Nikias Skapinakis, Menez, Vespeira, Costa Pinheiro. MargaridaTengarrinha Dias Coelho, Sá Nogueira, João Abel Manta, Palolo, Ângelo de Sousa, Nuno San-Payo, Lima de Carvalho, João Vieira, Jorge Martins, Querubim Lapa, Alice Jorge, Fernando Azevedo, Rogério Ribeiro, José Escada, Vítor Palla, António Domingues, Jorge Vieira, Carlos Calvet.

Vergílio Ferreira no seu Diário:
Dois amigos pintores (o Baptista e o Querubim) deixaram-me dar umas pinceladas. Lembrei-me de Napoleão, em Austerlitz, aos soldados: tu podes dizer «eu estive lá». De modo que também lá estive.



Este mural viria a desaparecer, num incêndio, em 1981, e nunca se conseguiu apurar as causas.
O mural fazia parte de uma série de actividades de solidariedade para com o Movimento das Forças Armadas.

Durante o dia o Mercado da Primavera registou, através da cultura e das artes, outros eventos de saudação à Liberdade que o Movimento das Forças Armadas nos trouxe.

O grupo de teatro A Comuna concebeu um espectáculo, vulgo cegada, em que figuras  notórias da ditadura eram caricaturada.

O espectáculo estava a ser transmitido, em directo, pela Televisão, mas a emissão foi subitamente interrompida quando o actor que fazia de Cardeal Cerejeira o artista que proferia estas palavras:

Senhor Presidente da República. Senhor presidente do conselho. Filhas, artistas e filhos meus muito queridos em vosso Senhor Jesus Cristo. Pedem a o patriarca Cerejeira que diga algumas palavras nesta festa de artistas. Que palavras pode dizer o patriarca de Lisboa senão fazer cantar como um apóstolo anima mea gaudiae pinctome, canatatis, representatis, pictos, pictos, picta.
Que palavras pode dizer o cardeal de Lisboa senão o fazer exultar de alegria a arte. O grito do Natal ressoa em nós quando a arte se transforma em parte e se parte para a Arte que é o particípio do Espírito Santo.


Esta é a festa dos artistas em que pelo que fazeis dais glória aos nossos governantes que mais não fazem que executar a vontade de Deus e a vontade do povo, salvo seja…


Passados poucos minutos, a locutora Alice Cruz, leu o seguinte comunicado:

O programa que transmitíamos em directo do Mercado da Primavera foi interrompido por ordens superiores, estranhas aos trabalhadores da televisão que manifestam o seu repúdio por tal medida, pelo que oportunamente tomarão a atitude conveniente.


A ordem de interrupção fora ordenado pelo Major Mariz Fernandes, representante da Junta de Salvação Nacional na RTP .

 No dia seguinte, Raul Rego, ministro da Comunicação Social, emprestou a sua concordância com o acto censório, e acrescentou:

Temos que ter em consideração os sentimentos de parte da população portuguesa.
Passados dias, o Conselho Permanente do Episcopado divulga um comunicado afirmando a sua mais viva indignação por esse espectáculo que foi sentida pela generalidade da população católica de Portugal.

OS ARMADORES da pesca da sardinha afirmam que não suportam as exigências dos pescadores.

FORAM INTERROMPIDAS , em Argel, as negociações com o P.A.I.G.C.
Mário Soares:

É preciso fazer notar, neste momento, que incidentes desta ordem são perfeitamente comuns e até direi, quase naturais Há dificuldades da nossa parte, há dificuldades da parte deles.

PROSSEGUE  a greve na Timex.

O RECONHECIMENTO do direito à independência por Portugal é reclamado  pelo MPLA como condição essencial para o cessar fogo.

Sá CARNEIRO numa entrevista a um jornal do Brasil afirmou que o Governo Provisório é uma verdadeira equipa.

Legenda:
a)      Pormenor do mural colectivo tirado de Entre as Brumas daMemória
b)      Fotografia da feitura do mural, tirada de O Século de 12 de Junho de 1974
c)      Fotografia da representação da cegada de A Comuna tirada do Expresso de 15 de Junho de 1974.

Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

JOSÉ DIAS COELHO


Há 50 anos, num dia assim, a morte saiu à rua.

Na Rua da Creche a Alcântara, a PIDE assassinava, a tiro, o pintor e militante comunista José Dias Coelho. Tinha 38 anos.

Notícia curta dos jornais do dia seguinte:

Misteriosa cena de tiros no bairro de Alcântara. Um homem ferido mortalmente
.
Os pormenores souberam-se depois.

Cinco agentes da PIDE saltaram de um carro, perseguiram José Dias Coelho, cercaram-no e desfecharam-lhe, à queima roupa, um tiro no peito que e o deitou por terra. .Ainda dispararam um outro tiro. Eram oito horas da noite. Os assassinos meteram o corpo no carro e, passadas duas horas, já a expirar, deixaram-no no Hospital da CUF.

O julgamento dos assassinos foi uma farsa.

O Diário de Notícias, de 6 de Janeiro de 1977, colocava na 1ª página:

 O antigo agente da PIDE/DGS António Domingues, responsável pela morte do escultor comunista José Dias Coelho, foi, ontem, condenado em três anos e nove meses de prisão maior. Perdoados 90 dias e tomado em conta o tempo de prisão preventiva que já sofreu, desde 1974, vai o réu cumprir apenas mais cerca de 10 meses de cadeia. O tribunal (3ºTMTL) considerou não ter havido homicídio voluntário, mas apenas “ofensa corporal voluntária, de que resultou a morte “praeter-intencional”. Dado como provado o disparo de dois tiros, o último dos quais com a arama “muito próxima da roupa da vítima, a sentença foi recebida pela assistência com uma manifestação de protesto.

Na etiqueta  José Dias Coelho  deste blogue, podem ler-se outras evocações.

Hoje, deixo o texto que sua mulher, Margarida Tengarrinha, escreveu para o livro O Caso Dias Coelho (1):


(1)   – O Caso Dias Coelho de Fernando Luso Soares,, edição do autor, Lisboa Março 1977.