Mostrar mensagens com a etiqueta Luís de Camões. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Luís de Camões. Mostrar todas as mensagens

domingo, 13 de julho de 2025

À LUPA


«Nos (prováveis) 500 anos do seu nascimento, pouco se sabe da vida do poeta nacional. Mas é certo que escreveu Os Lusíadas e alguns dos mais assombrosos poemas da lírica portuguesa. Deveria bastar.»

Luís Miguel Gaspar no Público de 9 de Junho

Legenda: ilustração de Susa Monteiro

terça-feira, 10 de junho de 2025

REOLHARES


Dito já que começaram as iniciativas que visam registar o centenário do nascimento de José Saramago, acrescenta-se que irei pegando num qualquer livro de José Saramago e copiarei dele uma frase, um parágrafo, aquilo que constitui os milhares de sublinhados que, ao longo dos muitos anos de leituras, invadiram os livros de José Saramago que habitam a  Biblioteca da Casa.

Que Farei Com Este Livro?, o livro de hoje para sublinhados, reflecte as dificuldades por que passou Luís de Camões para publicar Os Lusíadas: o desinteresse do rei, a perseguição que a Inquisição lhe moveu.

Saramago pretende que o livro seja o retrato das dificuldades de um qualquer autor, num qualquer tempo.

«Damião de GóisSem dúvida são melhores os caminhos rectos, mas esses não os há na vida das nações nem nos interesses dos paços e dinastias. A vossa obra será publicada, Luiz Vaz, mas só quando, claramente a balança pender para um lado ou para outro.

Luís de Camões: Porém o livro não será diferente do que é.

Damião de Góis: A diferença estará nos olhos que o lerem. E a parte que ficar vencedora fará que seja o livro lido com os olhos que mais lhe convierem.

Diogo do Couto: E a parte vencida, que fará?

Damião de Góis: Ficará esperando a sua vez de ler e fazer doutra maneira.

Luís de Camões: Eu sei o que escrevi.

Damião de Góis: Sabereis, não o duvido. Mas também eu sabia o que escrevera na segunda parte do meu livro Sobre a fé, costumes e religião dos Etíopes, e não cuidei que tivesse o santo Ofício motivos para determinar que ele fosse apreendido na alfândega de Lisboa.»

(Página 93)

No dizer de Eugénio de Andrade «de Camões, em pura verdade, muito pouco sabemos. Nasceu pobre, viveu pobre, morreu mais pobre ainda.»

Luís de Camões: Já não tenho muito por que me ofenda. Mas o meu livro terá de ser publicado graças ao seu próprio mérito, não por caridade, mesmo de amor.

Francisca de Aragão: Há pouco dizias que te irias pôr à porta do paço a pedir esmola. Aceitarias essa e não aceitas o que esmola não é nem pode ser, mas amor, como tu próprio declaraste?

Luís de Camões: Se eu fosse esmolar pelas ruas e praças talvez me dessem dinheiro para comer. Mas não mo dariam se eu dissesse que o destinava a pagar ao livreiro que me imprimisse o livro.»

(Página 134)

(Texto publicado em 22 de Novembro de 2021)

À LUPA


Luís de Camões: um génio arruivado e quezilento que escrevia como ninguém.
Nos (prováveis) 500 anos do seu nascimento, pouco se sabe da vida do poeta nacional. Mas é certo que escreveu Os Lusíadas e alguns dos mais assombrosos poemas da lírica portuguesa. Deveria bastar.

Luís Miguel Queiroz no Público de 9 de Junho

Legenda: ilustração de Susa Monteiro

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

OLHAR AS CAPAS


Luís de Camões

Hernâni Cidade

Colecção A Obra e o Homem nº 7

Editora Arcádia, Lisboa, Dezembro de 1961

O que importa saber, quanto às relações da poesia com a biografia. É se a realidade objectiva que o poeta nos dá, é a que a sua experiência fixou e não a que a sua fantasia teria escolhido ou inventado.

quarta-feira, 3 de julho de 2024

SONETO DE CAMÕES

                         Car j’imite...Toit le monde imite,
                          Tout le monde ne dit pas.


                                                            Aragon

Que me quereis, perpétuas saudades?
 Com que esperança inda me enganais?
 Que o tempo que se vai não torna mais,
 E se torna, não tornam as idades.

 Razão é já, ó anos, que vos vades,
 Porque estes tão ligeiros que passais,
 Nem todos pera um gosto são iguais,
 Nem sempre são conformes as vontades.

 Aquilo a que já quis é tão mudado,
 Que quase é outra cousa, porque os dias
 Têm o primeiro gosto já danado.

 Esperanças de novas alegrias
 Não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
 Que do contentamento são espias.

Carlos de Oliveira de Terra da Harmonia em Poesias

quinta-feira, 27 de junho de 2024

OLHAR AS CAPAS

Camões, Camilo, Eça, e Alguns Mais

Aquilino Ribeiro

Livraria Bertrans, Lisboa s/d

É louvada a longanimidade e tolerância de Fr. Bartolomeu Ferreira porque estando os Lusíadas à mercê do seu lápis de revedor não suprimiu a jóia erótica sem para da ilha voluptuosa e outras belezas desenvoltas do poema.

quarta-feira, 26 de junho de 2024

BLOGUEANDO POR AÍ


Pergunta do exame de Filosofia. Quando o nível é este, mais vale não haver nível. Pobres professores, pobres alunos, pobre mundo que nos deste Aristóteles e Camões para isto.

Copiado da Antologia do Esquecimento

quinta-feira, 13 de junho de 2024

MÚSICA PELA MANHÃ


 Hoje, Dia de Santo António, talvez ficasse a propósito uma Marcha Popular, mas a conclusão foi trazer Amália, nesse lindíssimo, genial num melhor dizer, LP «Com que Voz» em que Alain Oulman arranjou músicas para que nossa Diva cantasse poetas portugueses.

COM QUE VOZ

Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou.
Que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado.

Mas chorar não estima neste estado
aonde suspirar nunca aproveitou.
Triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.

Assim a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima ao pé que a sofre e sente.

De tanto mal, a causa é amor puro,
devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dele aventuro.

 

Luís de Camões

quarta-feira, 12 de junho de 2024

CAMÕES

Lia-me Camões meu Pai.
A tristeza de ambos
se juntava, em mim crescia.
E a voz, a inalterável
mergulhia das palavras
procriavam sarmentosos liames.
(Basílico a Mãe depunha no lume,
a carne com alecrim perfumava).
O livro de carneira negra,
as letras juntas em oiro:
morros, alusões, muros
verdentos, o último da vida ouvia.
Mordaça invisível. Em lágrimas,
minhas, de meu Pai e de Camões, voava.


António Osório 

terça-feira, 11 de junho de 2024

OLHAR AS CAPAS


Rever Portugal

Textos Políticos e Afins

Edição Mécia de Sena e Jorge Fazenda Lourenço

Prefácio: Jorge Fazenda Lourenço

Capa: João Botelho

Guimarães Editores, Lisboa, Abril de 2011

Camões não tem também culpa de ter sido transformado em símbolo dos orgulhos nacionais, em diversos momentos da nossa história em que esse orgulho se viu deprimido abatido. Claro que esse aproveitamento não teria sido possível se ele não tivesse escrito Os Lusíadas. Porque para além de encher-se a boca com a Fé e o Império, que nem uma nem outra eram para Camões o que eram para o Dr. Salazar, o poeta que servia para mais nada senão para exercícios de gramática estúpida, o que, tudo junto, chega para gerações lhe terem ganho alguma raiva e perdido o gosto de o ler. E há mais e pior: quando no liceu líamos Os Lusíadas éramos proibidos de ler (e não estudávamos) as passagens consideradas mais chocantes pela pudicícia hipócrita desta nossa sociedade de sujeitos felizmente desavergonhados que fingem lamentavelmente possuir a virtude que não têm, e vivem a perseguir os reprimir os pecados alheios.

DEVERIA BASTAR


Luís de Camões: um génio arruivado e quezilento que escrevia como ninguém.
Nos (prováveis) 500 anos do seu nascimento, pouco se sabe da vida do poeta nacional. Mas é certo que escreveu Os Lusíadas e alguns dos mais assombrosos poemas da lírica portuguesa. Deveria bastar.

Luís Miguel Queiroz no Público de 9 de Junho

Legenda: ilustração de Susa Monteiro

segunda-feira, 10 de junho de 2024

POSTAIS SEM SELO


Vê, enfim, que ninguém ama o que deve,

Senão o que somente mal deseja.

Luís de Camões em Os Lusíadas, Canto IX, Estância 29

Legenda: «Camões invocando as Tágides», pintura de Columbano Bordalo Pinheiro.

OS 500 ANOS DE LUÍS DE CAMÕES

Pormenor da capa de Afonso Cruz para o JL – nº 1400 da edição de 29 de Maio a 11 de Junho de 2024 - em que são evocados os 500 anos do nascimento de Luís de Camões.

Larga colaboração em que se destaca o artigo de Lucas laurentino, professor na Universal Federal do Rio de Janeiro, quando destaca o nome de Jorge de Sema como o mais profundo e competente estudioso de Camões:

«O conjunto das obras de Jorge de Sena dedicadas a Luís de Camões desnorteia e impressiona o leitor. Talvez o melhor adjectivo para descrevê-lo seja “monumental”. Já houve quem contasse nada menos do que 2.158 páginas senianas sobre o poeta, entre livros e coletâneas de ensaios. Haverá outro pesquisador que tenha lido Camões com maior minúcia? Sena parece examinar os poemas camonianos num microscópio, disposto a investigar cada detalhe de casa verso.»

Recorde-se que Jorge de Sena, no ano de 1977, foi o convidado para proferir o discurso  das Comemorações do Dia de Portugal e de Camões. E nunca estas comemorações voltaram a ter um discurso tão inteligente, tão culto, tão livre, tão repleto de sentimento.

Esse discurso faz parte do livro Rever Portugal  - Textos Políticos e Afins, que é o tomo V das Obras Completas de Jorge de Sena editadas pela Guimarães.

Importa agora registar que a editora Guerra & Paz de Manuel F. Fonseca tem vindo a publicar a obra de Jorge de Sena:

«Ah, o 10 de Junho! Às 17:00, numa sessão que vai ser universal e nada paroquial, Margarida Braga Neves e António Carlos Cortez falam de Camões-Jorge de Sena, e aí se estreará o talvez mais belo dos 5 livros que comemoram os nossos 500 anos de Camões vistos por Sena. Apoiado pela Gulbenkian, o livro chama-se Babel e Sião: está lá, de Camões, a redondilha Sobre os rios que vão, em papel negro escrita a prata. E está lá o conto Super Flumina Babylonis, no primeiro encontro, no mesmo livro, de Sena e Camões enquanto poetas e criadores. Obrigado, Isabel de Sena, por ter abençoado este encontro comovente.»

Copia-se a abertura do discurso de Jorge de Sena na cidade da Guarda: 

É para mim uma honra insigne o ter sido oficialmente convidado pela comissão organizadora das comemorações de Camões em 1975, e do dedicar-se do Dia de Camões à recordação das comunidades portuguesas ou de origem portuguesa dispersas pelo mundo, para aqui falar na minha dupla qualidade de estudioso de Camões, e de residente no estrangeiro, que eu sou. Com efeito, em 1978, cumprem-se trinta anos sobre a primeira vez que, de público me ocupei de Camões, iniciando o que, sem vaidade me permito dizê-lo, tem sido uma contínua campanha para dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da Revolução de Abril de 1974, e ao mesmo tempo sofrer em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência. Esse meu Camões foi longamente o riso dos eruditos e dos doutos, de qualquer cor ou feitio; foi a indignação do nacionalismo fascista, dentro e fora das universidades, dentro e fora de Portugal; foi a aflição inquieta do catolicismo estreito e tradicional, dentro e fora de Portugal; e foi a desconfiança suspeitosa de muita gente de esquerda, a quem eu oferecia um Camões que deveria ser o deles, quando eles preferiam atacar ou desculpar o Camões dos outros. Foi e ainda é, e será. Porque, sendo Camões o maior escritor da nossa língua que é uma das seis grandes línguas do mundo e um dos maiores poetas que esse mundo alguma vez produziu (ainda que esse mundo, na sua maioria, mesmo no Ocidente, o não saiba), ele é uma pedra de toque para portugueses, e porque tentar vê-lo como ele foi e não como as pessoas quiserem ou querem que ele seja, é um escândalo. São essa pedra de toque e esse escândalo o que, neste momento solene, a três anos de distância do 4o. centenário da morte do maior português de todos os tempos, vos trago aqui, certo e seguro de que ele mesmo assim o desejaria. E, antes de mais, peço que, nas minhas palavras anteriores ou nas minhas palavras seguintes, ninguém veja ataques ou referências pessoais que não há; tenhamos todos, tenham todos a humildade de reconhecer que, quando se fala de Camões e de Portugal, não podemos pensar em mais ninguém.
Quanto a ser um residente no estrangeiro, vai para dezoito anos que o sou, o que, curiosamente, é mais ou menos o tempo que o próprio Camões viveu fora de Portugal, desde que dele partiu para as Índias [em 1553, até que regressou,]* em 1570, tão pobre como partira, mas com Os Lusíadas no bolso ou na bagagem, para publicá-los. Eu nem estou a regressar, nem tenho Lusíadas nenhuns. Mas não sou exactamente um emigrante no estrangeiro, ainda que neste viva, e com os emigrantes me possa identificar – aqueles emigrantes que vi e tenho visto de perto, primeiro no Brasil e depois nos Estados Unidos, e também pelo mais largo mundo que tenho percorrido, e que, com a sua laboriosidade, a sua dignidade, a sua humanidade convivente, são em toda a parte, míseros e mesquinhos, ou ascendidos e triunfantes, muitas vezes, os embaixadores que Portugal não envia, ou os representantes da cultura que Portugal não exporta. Por dezassete anos, recordemos, Camões foi apenas um deles, quando ninguém sabia ou podia ainda saber o génio que ele era. Reatando: eu não sou exactamente um emigrante no estrangeiro, porque, quando saí de Portugal, tinha vinte anos de escritor publicado, e desde então a maior parte da minha obra, ou grande parte dela, foi escrita para Portugal ou em Portugal publicada. Seja o que seja, continuo a ser o que era, quando me exilei muito a tempo naqueles idos negros e tristes de 1959: um escritor português que vive no estrangeiro e que mantém um permanente contacto com Portugal, até por obrigação profissional: catedrático de Literatura Portuguesa, que é um dos meus títulos e deveres, não tenho outro remédio senão estar a par do que se publica. Por outro lado, a minha fidelidade a Portugal – e fidelidade é uma das palavras-chave da minha pessoa e da minha obra, como liberdade é outra – nunca me permitiu livrar-me de partilhar (acrescentadas da dor da distância) as dores e as alegrias, os desalentos e as esperanças de Portugal. Permitam-me ainda um esclarecimento. Na melhor das intenções, vária imprensa anunciou ou referiu que eu falaria aqui como representante dos luso-americanos. Se alguém pensou que eu tal faria, mais que num plano meramente simbólico de partilhar com eles o viver nos Estados Unidos, enganou-se redondamente. Primeiro que tudo, eu não sou um luso-americano: esta palavra significa não o português que vive na América, mas ou o que adquiriu a cidadania americana, ou o que descende de portugueses e já nasceu americano: luso-americanas são duas filhas minhas, por naturalização, e um neto meu que o é nato, como brasileiro por naturalização eu sou, e dois filhos meus o são natos, enquanto minha mulher e outros cinco filhos mantiveram a nacionalidade portuguesa. E, em segundo lugar, que é o primeiro de todos, eu não recebi dos luso-americanos nenhum mandato eleitoral para falar em nome deles, embora esteja certo de que mo teriam dado, se a eles o tivesse pedido, por saberem que os respeito e estimo, sem distinção de credo ou cor (porque há luso-americanos de cor, idos de Cabo Verde para lá, por exemplo). Democrata como sou, eu não falo em nome de ninguém, sem ter recebido um expresso mandato para tal. Eu fui convidado por Lisboa e de Lisboa, o que é uma honra, mas Lisboa não tem o direito de nomear representantes de nada ou de ninguém. Esse vício centralista da nossa tradição administrativa – um dos vícios que Camões denunciou e castigou nos seus Lusíadas – deve ser eliminado e banido dos costumes portugueses, sem perda da autoridade central que deve manter unido um dos povos mais anárquicos do mundo e menos realistas quando de política se trata. Porque os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha; e por isso disfarçam a sua insegurança adulta com a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista, quando se vêem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade. Isto não sucedeu só agora, e não é senão repetição de outros momentos da nossa história sempre repartida entre o anseio de uma liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou sejam as liberdades dos outros, tão respeitáveis como a de cada um) e o desejo de ter-se um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido, ou D. Sebastião. Também dos limites da ordem social e dos deveres do homem para consigo mesmo e a sociedade de que faz parte foi Camões um mestre. Assim, aqui, no âmbito de celebrações que são camoneanas e do Portugal disperso pelo mundo desde que o país existe e desde que, no estrangeiro, comunidades portuguesas ou de lusa origem se formaram ou mantiveram, eu não represento luso-americanos, e não falo em nome deles ou de ninguém no largo mundo. Aceito falar, como eu mesmo, da importância e do significado de Camões hoje, e da necessidade de ter presente ao espírito esta ideia tão simples: um país não é só a terra com que se identifica e a gente que vive nela e nasce nela, porque um país é isso mais a irradiação secular da humanidade que exportou.»

CONVERSANDO


 Do livro de Urbano Tavares Rodrigues, livro de Urbano Tavares Rodrigues, que hoje se apresenta em Olhar as Capas, escolhemos uma citação da crónica «Dia da Arte e do Povo», que retrata a Festa do Povo que ocorreu em Belém no dia 10 de Junho de 1974 em que os artistas plásticos pintaram um longo painel que, misteriosamente, foi destruído num incêndio.

Nessa festa aconteceu, talvez, o primeiro acto censório do governo provisório, dos responsáveis televisivos de então. Sim, era impossível que, tão só de repente, tivessem surgido tantos democratas, quando tanta gente, tanta gente, tanta gente, não marcou presença na colagem de cartazes, na distribuição de panfletos, não foi perseguida pela pelos carros de tinta azul da polícia e pelos esbirros da PIDE.

Ainda nos lembramos quando Cavaco Silva, na pele de primeiro ministro do reino, disse frente às câmaras da televisão disse que aquele 10 de Junho era o Dia da Raça.

Neste 10 de Junho, Dia de Camões, recordamos os acontecimentos desse 10 de Junho de 1974:


« No dia 10 de Junho de 1974, um grupo de quarenta e oito artistas plásticos do Movimento Democráticos dos Artistas Plásticos pintou, no Mercado da Primavera em Belém, um enorme mural.

Entre muitos outros pintores, participaram na pintura colectiva Júlio Pomar, João Abel Manta, Nikias Skapinakis, Menez, Vespeira, Costa Pinheiro, MargaridaTengarrinha Dias Coelho, Sá Nogueira, João Abel Manta, Palolo, Ângelo de Sousa, Nuno San-Payo, Lima de Carvalho, João Vieira, Jorge Martins, Querubim Lapa, Alice Jorge, Fernando Azevedo, Rogério Ribeiro, José Escada, Vítor Palla, António Domingues, Jorge Vieira, Carlos Calvet.

Vergílio Ferreira no seu Diário:

«Dois amigos pintores (o Baptista e o Querubim) deixaram-me dar umas pinceladas. Lembrei-me de Napoleão, em Austerlitz, aos soldados: tu podes dizer «eu estive lá». De modo que também lá estive.»

Este mural viria a desaparecer, num incêndio, em 1981, e nunca se conseguiu apurar as causas.

O mural fazia parte de uma série de actividades de solidariedade para com o Movimento das Forças Armadas.

Durante o dia, o Mercado da Primavera registou, através da cultura e das artes, outros eventos de saudação à Liberdade que o Movimento das Forças Armadas nos trouxera.

O grupo de teatro A Comuna concebeu um espectáculo, vulgo cegada, em que figuras  notórias da ditadura eram caricaturadas.

O espectáculo estava a ser transmitido, em directo, pela Televisão, mas a emissão foi subitamente interrompida quando o actor, que fazia de Cardeal Cerejeira, proferia estas palavras:

«Senhor Presidente da República. Senhor Presidente do Conselho. Filhas, artistas e filhos meus muito queridos em vosso Senhor Jesus Cristo. Pedem a o patriarca Cerejeira que diga algumas palavras nesta festa de artistas. Que palavras pode dizer o patriarca de Lisboa senão fazer cantar como um apóstolo anima mea gaudiae pinctome, canatatis, representatis, pictos, pictos, picta.
Que palavras pode dizer o cardeal de Lisboa senão o fazer exultar de alegria a arte. O grito do Natal ressoa em nós quando a arte se transforma em parte e se parte para a Arte que é o particípio do Espírito Santo.

Esta é a festa dos artistas em que pelo que fazeis dais glória aos nossos governantes que mais não fazem que executar a vontade de Deus e a vontade do povo, salvo seja…»

Passados poucos minutos, a locutora Alice Cruz, leu o seguinte comunicado:

O programa que transmitíamos em directo do Mercado da Primavera foi interrompido por ordens superiores, estranhas aos trabalhadores da televisão que manifestam o seu repúdio por tal medida, pelo que oportunamente tomarão a atitude conveniente.

A ordem de interrupção fora ordenado pelo Major Mariz Fernandes, representante da Junta de Salvação Nacional na RTP .

 No dia seguinte, Raul Rego, ministro da Comunicação Social, emprestou a sua concordância com o acto censório, e acrescentou:

Temos que ter em consideração os sentimentos de parte da população portuguesa.

Passados dias, o Conselho Permanente do Episcopado divulga um comunicado afirmando a sua mais viva indignação por esse espectáculo que foi sentida pela generalidade da população católica de Portugal.

Fontes:

Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa.

Legenda:

a)      Pormenor do mural colectivo tirado de Entre as Brumas da Memória

b)      Fotografia da feitura do mural, tirada de O Século de 12 de Junho de 1974

c)      Fotografia da representação da cegada de A Comuna tirada do Expresso de 15 de Junho de                 1974.

sexta-feira, 1 de março de 2024

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...



 

Os governantes, os intelectuais esqueceram que, há 500 anos, nascia um dos maiores vultos da História portuguesa: Luís Vaz de Camões.

Na estrofe 145 do Canto X de Os Lusíadas ele lembra a austera, apagada e vil tristeza das gentes portuguesas e agora que, a passos muito rápidos, se aproxima o dia das eleições para novo governo da nação, lembrar às mesmas gentes algo que Henrik Ibsen disse: «prometer mudança, aafinal de contas, resume-se a mentir, por muito respeitável que seja quem promete.»

No topo do texto, apresenta-se a estrofe 145 do Canto x tirada da  5ª edição de Os Lusíadas, organizada por Emanuel Paulo Ramos para a Porto Editora s/d, por onde, começos dos anos 60, dividi orações e estudei as mais diversas  aventuras gramaticais camoneanas e a lápis ainda estão as notas tomadas no decorrer das aulas.

Este poema foi o pesadelo de muitos estudantes que passaram a odiar a poesia e acabando por não reconhecer, desconhecer Luís de Camões como um enorme nome da nossa literaturaa.

1.

São muito maus os políticos que, nas últimas duas décadas, pelo menos, têm dirigido os destinos da Europa.

Esta semana, o presidente Macron, olhando o descalabro trágico dos dias na Ucrânia disse, numa reunião em Paris de líderes da União europeia e da NATO formou a opinião de que, para além de ajuda monetária e de armas e munições, a Nato deveria começar a pensar em enviar militares para a Ucrânia.

Declaradamente nenhum líder se mostrou favoravelmente à ideia, mas soube-se, pelos corredores, que membros dos países do leste europeu, sentados nas cadeiras do parlamento europeu, seriam favoráveis à ideia.

Como também não nos podemos esquecer que, nas próximas eleições europeias, a extrema direita aumentará, quase brutalmente, o número de deputados. 

2.

Portugal exportou menos quantidade de azeite mas, com a inflação, acabou por ultrapassar a barreira dos 1000 milhões de euros.

Contudo em Portugal a subida do preço do azeite está a provocar uma quebra no consumo. O preço já ultrapassa os 10 euros por litro.

3.

No conjunto dos 27 países da União Europeia, Portugal é o país que está envelhecer a um ritmo mais rápido: 25% das pessoas com mais de 75 anos vivem sozinhas.

4.

No ano passado fecharam 16 lojas históricas de Lisboa, o número mais alto dos últimos anos.

O Restaurante Bota Alta, desde 1976, no Bairro Alto, será a próxima.

 «Estamos a assistir a uma desfiguração total do Bairro Alto e também da cidade. Uma autêntica bandalheira, para a qual temos alertado, nos últimos dez anos, mas em relação à qual nada tem sido feito», acusa Paulo Cassiano, gerente do restaurante que encerrará devido ao aumento da renda mensal pedido pelo senhorio. De 1300 euros passaria para 11 mil.

5.

“Queria agradecer daqui, deste comício, ao meu amigo Pedro Passos Coelho por ter conseguido em poucos minutos explicado a Luís Montenegro tudo o que eu ainda não consegui explicar em dois anos de liderança”, disse perante os mais de 300 apoiantes que se reuniram numa sala de eventos em Sever do Vouga. Aos olhos do líder do Chega, o que Passos fez foi um “bom serviço à democracia”, que resumiu em poucas palavras: “Acho que Pedro Passos Coelho fez bem em ter vindo para dizer à direita e aqueles que se dizem de direita que o caminho não é por aqui. Basicamente o que Pedro Passos Coelho disse foi ‘ponham os olhos no Chega’.”

Pouco antes, aos jornalistas, tinha sublinhado que “em 20 minutos Passos Coelho explicou a Montenegro como é que há dois anos devia fazer no PSD”, nomeadamente ao levar para o debate temas como a imigração, a ideologia de género e até a estabilidade governativa.

6.

Nos últimos cinco anos houve 10 008 profissionais que se reformaram no SNS e, destes, 3226 são médicos. O presidente da Associação dos Administradores Hospitalares lembra que o pico das reformas ainda está para chegar.

7.

Nas últimas legislativas, em 2022, a percentagem de eleitores que apenas decidiram o voto no dia das eleições foi de 14%, ou seja mais de 750 mil pessoas; 

8.

Exportações portuguesas vão para países vizinhos para contornar sanções à Rússia
De repente, de 2021 para 2023, as exportações portuguesas de produtos químicos para o Quirguistão passaram de apenas 100 euros para mais de 80 mil euros e as vendas de todos os bens nacionais para esse país passaram a ser quase oito vezes maiores do que eram. A explicação? Exportar bens para o Quirguistão e para vários outros países próximos da Rússia parece estar a ser uma forma de as empresas europeias, incluindo as portuguesas, passarem ao lado das sanções impostas ao comércio com a Rússia por causa da guerra na Ucrânia.

9.

A ideia de que Donald Trump está a ser usado por Deus para moralizar a América, mesmo por causa e apesar de todos os seus defeitos, é uma crença tão forte que quase faz equivaler o trumpismo a uma religião. Assente nesse dogmatismo, os defeitos de carácter e os processos judiciais de Trump não abalam a convicção de que todos nós somos pecadores à espera de ser redimidos e que o ex-Presidente dos Estados Unidos é o escolhido por Deus para esta cruzada.

David P. Gushee, catedrático de Ética social cristã na Universidade Livre de Amesterdão, disse: “Se procuras uma justificação para alguma coisa, normalmente vais encontrá-la. Por isso, a ideia de que Trump é muito provavelmente a escolha por causa da sua má folha de serviço é uma prova ainda maior de que Deus o deve ter escolhido porque só Deus faria algo tão grandioso, não é assim?”

10.

«Quando um país já não tem anéis, sobram os dedos. Sempre houve gente nos governos capaz de trocar o interesse público por 30 dinheiros. Agora trata-se de espoliar pessoas dos seus bens e destruir a biodiversidade para enriquecer uma minoria em nome de álibis "verdes". No passado, o poder de interesses influentes arruinou a ferrovia, plantou autoestradas para ninguém, e pontes nos sítios errados. Agora querem fazer de Portugal o Congo europeu do lítio e do hidrogénio. Não é só mais uma crise do regime. O país está cada vez mais vulnerável.»

Vitorino Soromenho Marques


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

OS DIAS VISTOS NO CAFÉ DO MONTE

A crónica de Ana Cristina Leonardo está publicada no Público de 19 de Janeiro e tem por título:

Camões, zero, Ventura, um

«É  incompreensível que os 500 anos do nascimento do nosso maior poeta tenham passado em branco.

Imagine-se que Espanha esquecia Cervantes. Imagine-se que a França esquecia Balzac. Inglaterra, Shakespeare. A Suécia, Strindberg. A Alemanha, Goethe. A Irlanda, Joyce. Itália esquecia Dante. A Noruega, Ibsen. A Rússia (e os zulus), Tolstoi. A Argentina esquecia Borges. Cuba, José Martí. O Brasil, Machado de Assis. Os Estados Unidos esqueciam Mark Twain. A Índia esquecia Tagore. A China esquecia Li Bai. E por aí adiante até se esgotarem a geografia e as bibliotecas. 

É difícil imaginar. Mas mais difícil ainda – porque nos toca a todos nós – é imaginar que tenham esquecido Camões.

Se nos lembrarmos que do cante alentejano à festa dos tabuleiros de Tomar, da dieta mediterrânea ao fado, passando pela falcoaria, das festas do povo de Campo Maior ao Carnaval de Podence, em Trás-os-Montes, passando pelo artesanato em barro de Estremoz – todas essas inscrições no Património Cultural Imaterial da Humanidade (categoria criada pela UNESCO em Outubro de 2003, activada em 2006 e que visa “a salvaguarda, respeito, sensibilização a nível local, nacional e internacional, do património cultural imaterial das comunidades, grupos e indivíduos, bem como a cooperação e o auxílio internacionais, no quadro de um mundo cada vez mais globalizado que ameaça uniformizar as culturas e aumentar as desigualdades sociais”) motivaram uma onda de patriotismo talvez só ultrapassada pela vitória de Portugal no Festival Eurovisão da Canção de 2017, momento inesquecível que Marcelo Rebelo de Sousa inscreveria nos anais da nossa história com a célebre frase: “Os portugueses ficaram com mais vinte centímetros”…

Indo directly to the point: face ao entusiasmo que toma de assalto todo e qualquer português quando ouve falar em pastéis de nata vendidos em Singapura ou em Manhattan, torna-se ainda mais incompreensível que os 500 anos do nascimento do nosso maior poeta tenham passado em branco e não serve de desculpa o passado surfista do ministro da Cultura, pois que entre a prática milenar de caminhar sobre as águas e a literatura não existe qualquer contradição, sabendo-se, aliás, que seria o afamado escritor (e aventureiro) norte-americano Jack London o grande divulgador na Califórnia do “desporto dos reis” (tal como era apelidado no Havai) – e da Califórnia haveria de chegar à Nazaré –, nomeadamente com a publicação em 1907 de A Royal Sport: Surfing in Waikiki, praia onde o próprio havia aprendido a cavalgar as ondas. Mas de tudo isto estará o ministro ciente…
2024: dois aniversários de monta. O do 25 de Abril e o de Luís de Camões. Ambos números redondos. O primeiro faz 50 anos; o segundo faz 500.

Do 25 de Abril, pertenço à última geração a quem foi sonegada a leitura de A Ilha dos Amores e que teria idade para não só se lembrar conscientemente da data, mas também ter participado na festa (porque de uma festa se tratou! – não tenhamos dúvidas). Quando nos formos – os da minha geração – o 25 de Abril acabará inevitavelmente transformado numa espécie de 5 de Outubro, na pompa e na circunstância, que é o que está sempre reservado aos acontecimentos históricos (não tenhamos dúvidas).

Ao contrário dos cravos, que sempre fenecem – os de plástico não contam –, Camões é eterno! Nunca, jamais, em tempo algum e enquanto for vivente um representante da espécie humana deixaremos de nos comover com isto:

Um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da Revolução de Abril de 1974”, diria aquele que descrevendo Portugal versejou: “terra de escravos cu pró ar ouvindo/ ranger no nevoeiro a nau do Encoberto” no seu excelente discurso proferido na Guarda a 10 de Junho de 1977, sem se esquecer sequer de adicionar ao retrato do poeta certeira ferroada: “Esse meu Camões foi longamente o riso dos eruditos e dos doutos, de qualquer cor ou feitio; foi a indignação do nacionalismo fascista, dentro e fora das universidades, dentro e fora de Portugal; foi a aflição inquieta do catolicismo estreito e tradicional, dentro e fora de Portugal; e foi a desconfiança suspeitosa de muita gente de esquerda, a quem eu oferecia um Camões que deveria ser o deles, quando eles preferiam atacar ou desculpar o Camões dos outros”.

Em síntese: feita a ressalva (sublinho de novo a Alemanha nazi…), não me parece de espantar que um país que esquece os 500 anos do seu poeta maior seja o mesmo onde tanto se fala e analisa as teses de Ventura, o evangélico. Sem esquecer que é o mesmo onde tanto se discute o que fazer ao desossado Eça. Ou ainda – e que não sejam perdoados porque sabiam o que faziam – o país que vendeu a língua por um prato de lentilhas!

Temos, claro, o sol e o mar e a gastronomia. No meu caso, nem me posso queixar. Tenho vizinhos adoráveis que, embora pouco dados à poesia, me obsequiam com azeite, tangerinas, abóboras e couves, variáveis que se vão adequando à época. Tenho espaço largo e silêncio.

Faltará a água. Mais velhos morrerão sozinhos. Os jovens continuarão a partir e as crianças a não nascer. As carrinhas de legumes e de pão deixarão de se fazer ouvir. Os parques fotovoltaicos tomarão conta do que resta da paisagem, cenários lunares despidos de pessoas (um parque de 42 hectares dá trabalho a três funcionários).

E quem não vê relação entre o estado da cultura e o “estado a que isto chegou”, remeto para outro poeta, no caso Eduardo Guerra Carneiro, que há anos deu como título a um livrinho de versos, Isto Anda Tudo Ligado, frase que, pelo menos desde os gregos antigos, se sabe ser verdadeira.»

sábado, 10 de fevereiro de 2024

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


Não sei, não sei mesmo, porque guardei alguns livros de estudo dos anos do liceu.

É o caso destas Selectas Literárias.

Há quem diga que guardar os livros da velha escola possui razões que não se prendem com o que neles aprendemos, mas sim com uma saudade do tempo em que fomos meninos.

As ditas selectas estavam no Outro Lado das Estantes, um nicho onde se guardam livros que não têm classificação na ordem da Biblioteca da Casa.

Revisitar estes livros é manter a ideia de que, enquanto os estudei, não aprendi nada que ficasse para a minha vida cultural. Foram outros os livros, foram outros os ensinamentos, e como não guardei livros da escola primária poderei dizer que a leitura do jornal A Bola, a daqueles tempos e não a dos dias de  hoje, completou o ensinamento das primeiras letras.

O volume A Terra e a Grei, imagem no topo do texto, está designado pelos seus autores, Corrêa de Oliveira e Saavedra Machado, como «Selecta de Língua e História Pátria para o 1º Ciclo dos liceus», editado em 1956 pela Livraria Didáctica, tem anúncio na 3ª página: «Todos os exemplares são numerados e autenticados pelo Ministério da Educação Nacional».

Mesmo os autores legíveis, entre outros: Almeida Garrett, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Rebelo da Silva, Teófilo Braga, João de Deus, Afonso Lopes Vieira, Maria Archer, Venceslau de Morais, têm textos inócuos, em que não  mostram qualquer referência que ofenda a Igreja e a Pátria.

Como mostra este início de texto de Rebelo da Silva:

«A caridade, a mais suave e formosa manifestação da lei moral ensinada por Cristo, deveu entre nós e na Europa os mais valiosos esforços na Idade  Média. Junto dos conventos e de alguns paços episcopais, tudo indica que existiam casas destinadas a recolher e a tratar os pobres».


Esta é a Selecta Literária, 1º volume, organizada por Júlio Martins e Jaime da Mota e destinada ao 3º ano Liceal.

Os textos selecionados continuam a defesa intransigente de Deus e da Pátria.

Vejam este excerto de um poema de Miguel Trigueiros:

Deus é Princípio e Fim. Para encontra-Lo

é unir – à Sua voiz – a nossa voz.

Não queiramos ir longe procura-Lo

pois Ele existe já dentro de nós.


Por fim, a Selecta Literária, organização também de Júlio Martins e Jaime Mota, professores efectivos do Colégio Militar, destinada aos 4º e 5º anos do Liceu.

Na 4ª página, os autores-militares, colocam este conselho:

«De acordo com o programa vigente, destinam-se aos alunos do 4º ano os trechos dos séculos XVII e seguintes; e aos do 5º ano, os trechos de Fernão e do século XVI

Além dos trechos contidos nesta Selecta Literária, devem os alunos do 4º ano ler o Frei Luís de Sousa de Garrett e algumas Lendas e Narrativas de Alexandre Herculano; e os do 5º ano, o Auto da Alma de Gil Vicente e excertos d’Os Lusíadas»

Claro que os excertos de Os Lusíadas destinavam-se ao passeio de andarmos a dividir as orações e a indicação professoral de que o Canto IX não era para ler.

Quantos dos que andaram por aquele tempo, às voltas com a divisão de orações e outras tropelias, não odeiam hoje o poema e desconhecem, por completo, Luís de Camões?

Dizer ainda que o governo da nação dedicou um soberano desprezo no 5º centenário do nascimento do poeta  que este ano se devia comemorar. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

CAMÕES E A TENÇA

        Irás ao paço. Irás pedir que a tença

     Seja paga na data combinada

     Este país te mata lentamente

     País que tu chamaste e não responde

     País que tu nomeias e não nasce

 

     Em tua perdição se conjuraram

     Calúnia desamor inveja ardente

     E sempre os inimigos sobejaram

     A quem ousou mais ser que a outra gente

 

     E aqueles que invocaste não te viram

     Porque estavam curvados e dobrados

     Pela paciência cuja mão de cinza

     Tinha apagado os olhos no seu rosto

 

     Irás ao paço irás pacientemente

     pois não te pedem canto mas paciência

 

     Este país te mata lentamente

 

Sophia de Mello Breyner Andresen de Grades em Poesia 70

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

POEMA PARA LUÍS DE CAMÕES

Meu amigo, meu espanto, meu convívio,
Quem pudera dizer-te estas grandezas,
Que eu não falo do mar, e o céu é nada
Se nos olhos me cabe.
A terra basta onde o caminho pára,
Na figura do corpo está a escala do mundo.
Olho cansado as mãos, o meu trabalho,
E sei, se tanto um homem sabe,
As veredas mais fundas da palavra
E do espaço maior que, por trás dela,
São as terras da alma.
E também sei da luz e da memória,
Das correntes do sangue o desafio
Por cima da fronteira e da diferença.
E a ardência das pedras, a dura combustão
Dos corpos percutidos como sílex,
E as grutas do pavor, onde as sombras
De peixes irreais entram as portas
Da última razão, que se esconde
Sob a névoa confusa do discurso.
E depois o silêncio, e a gravidade
Das estátuas jazentes, repousando,
Não mortas, não geladas, devolvidas
À vida inesperada, descoberta,
E depois, verticais, as labaredas
Ateadas nas frontes como espadas,
E os corpos levantados, as mãos presas,
E o instante dos olhos que se fundem
Na lágrima comum. Assim o caos
Devagar se ordenou entre as estrelas.

Eram estas as grandezas que dizia
Ou diria o meu espanto, se dizê-las
Já não fosse este canto.

José Saramago em Provàvelmente Alegria