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domingo, 8 de junho de 2025

REOLHARES


UM ENCANTO DE COISA MEDIEVAL

«Temo às vezes que as árvores não pensem bem dos livros, que neles se vejam mortas. Depois lembro que os próprios seres humanos se consolam, prevendo as flores que hão-de nascer das suas cinzas. Posso então concluir tranquilamente que, quando as duas criações, plantas e escrita, ocupam um só espaço, isso se faz em pleno assentimento e harmonia.
Mesmo a palavra «feira» retoma o seu encanto de coisa medieval, desprotegida. Com mais um bocadinho de liberdade, existiriam cestos e pregões. As pessoas retomam os passeios do fim de tarde, como os há nos livros de Eça. E parece que saem desses livros. Se não ouvimos já o roçagar das vestes femininas pelo chão, podemos, no entanto, conhecer, por uma vez, esse rumor de gente, a exclamação de encontros inesperados. Será mesmo provável que as crianças se sujem ao rolarem sobre as ervas o que, para os lisboetas, começou a tornar-se difícil e precioso. O calor puxa os cheiros vegetais. E até a minha chuva, a mal amada, desce para criar simulacros de perigo, e as pessoas defendem as cabeças com os sacos das compras que fizeram. Deve-se isto à feliz inexistência de tectos e paredes. E não é uma dívida pequena.
A argumentação que mão me interessa, a da centralidade do lugar e do maior sucesso nos negócios, que a façam os peritos, os que vendem. Tendo eu, como a Lou Andreas-Salomé, dificuldade em distinguir livros de flores, sinto-me bem nesse lugar comum. O que vai ler caminha no jardim, o que vai caminhar passa entre livros.
Há uma ausência de especialização que vive aqui os últimos momentos e que queria durar um pouco mais.»

Hélia Correia em “Os Livros no Parque” Lisboa Maio 2004

(Texto publicado em 13 de Maio de 2011)

quinta-feira, 24 de abril de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


ZIP 30.020/S - 1971

Pare, Escute e Olhe - Arte Poética

Um muito interessante "single" do pré-25 de Abril, que reuniu algum sucesso popular, comprado na então sucursal da “Discoteca Roma”, na Rua Morais Soares, esquina com a Praça Paiva Couceiro (em Lisboa) e produzido por "Zip-Zip".

A loja, com duas simpatiquíssimas e competentes empregadas, não resistiu aos tempos de Abril e fechou. Mais tarde  a casa-mãe também fechou as portas na Av. de Roma. Para não variar instalou-se lá uma agência bancária e agora é café a armar ao fino.

À época, e ao nível da pequena banheira onde vivíamos (vivemos), este disco originou uma leve e doméstica polémica, qualquer coisa como mosquitos por cordas.

Por uma estranha omissão (tipográfica ou qualquer outra) não consta da ficha do disco o nome de Hélia Correia como autora do poema “Arte Poética”, face B do "single".

O disco revela apenas o nome de José Jorge Letria e daí poder inferir-se que Letria é o responsável, não só da música, como da letra.

O suplemento “Juvenil” do jornal “República” de 19 de Outubro de 1971, fazia publicar um “Para Que Conste” em que o facto é denunciado e, ao mesmo tempo, se revelava que “mesmo em espectáculos públicos não tem feito Jorge Letria qualquer alusão ao nome de Hélia Correia” e exigia-se a respectiva rectificação e invocavam-se direitos de autor e reprodução.

Já que estamos em maré de documentos e curiosidades, diga-se que, na contracapa do disco, José Jorge Letria fez publicar um texto de sua autoria: “É do Silêncio Que Vos Falo” e que aqui se reproduz:


“Foi mais de um ano de silêncio (depois do primeiro disco-fracassado). Mais de um ano de silêncio inteiramente assumido. Voluntariamente aceite. É fora dos circuitos normais (televisão, rádio, promoção, venda) que, dolorosamente, sem trincheiras nem disfarces, se descobrem os amigos (?), que se aprende a abominar a hipocrisia e a falsa coerência, a miséria das intenções, a ignorância das coisas elementares.

"É no silêncio (um certo silêncio, entenda-se), que se descobre a utilidade das palavras. O seu fogo. A sua forma exacta. A sua acutilante facilidade de chegar onde mais ninguém chega. E ao mesmo tempo a sua infinita pobreza. A sua enorme timidez. Sim, porque as palavras são tímidas. Haverá alguém que duvide?

"Para mim conservo a certeza de que está tudo ainda por fazer. Não são meia dúzia de discos ou de frases publicitárias, publicamente ditas, que definem uma música e lhe dão a necessária consistência. Desfaçam-se pois os equívocos. Já não é sem tempo. A quem me ouvir deixo, entretanto, a possibilidade de transformar em acto (ou quase) o que no canto se propõe. Se isso não acontecer fico, pelo menos, com a certeza de ter levado até ao fim a minha ingenuidade. Ou seja o silêncio donde partiu. Para os que ficarem pelo caminho vai também a minha saudação.” 


quinta-feira, 13 de março de 2025

OLHAR AS CAPAS


 Um Olhar Português

Textos de:

Regina Louro, Francisco José Viegas, Mário Cláudio, Fernando DaCosta, Eugénio de Andrade, Fernando Assis Pacheco, Hélia Correia, José Cardoso Pires, Mário Ventura, Al Berto, Lídia Jorge, Viale Moutinho, João de Melo

Capa: João Machado

Círculo de Lisboa, Dezembro de 1991.

A vila de Peniche estava toda retalhada por água. Uma pequena casa envelhecera mesmo dentro do mar, sobre um montículo de pedra e sedimento. Os pássaros soltavam os seus gritos, feitos para superar o estrondo das tormentas. Os barcos acolhiam-se ao redor do grande lombo de cimento e rocha que com eles dormitava, num embalo.

- Foi uma ilha, sabe?

- O quê?

- Peniche.

Mas sob as rodas sentia-se a firmeza do alcatrão.

Mário parou o carro junto ao forte que era agora um museu da Resistência.

-Quer entrar? – perguntou.

- Não – disse a mãe. Parecia muito desinteressada. Talvez sentisse fome ou não quisesse, não suportasse recordar-se mais. Dava aquela viagem por cumprida.

A prisão, pensou ele, tinha a matéria e a alma de um rochedo. Estava misturada com as ondas. Talvez o seu avô se confortasse com aquela presença familiar, talvez se distraísse com as fúrias e os arrulhos da rebentação. Alguns homens haviam-se atirado, nadado para longe, confiando no mar e não na terra para fugir. Isso fora ainda antes de ele nascer, supunha; fora há muito tempo já. As coisas que os moveram, que os trouxeram para aqui, também se consumiram e passaram. «Nunca conhecerei as suas vidas.»

Arrancou devagar, contra o sol baixo.

- No Verão, é tudo bem diferente – disse a mãe. – Há muita gente, os dias são compridos. Espero que fosse Verão quando ele vinha. Hás-de pintar um qiadro do Verão.

 Mário riu-se:

- Para quê? A mão não gosta.

- Gosto – respondeu ela. – Não entendo, mas nós nunca entendemos muita coisa.

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

O SILÊNCIO COMO UM BEM-ESTAR


 Decido dar-lhe tempo deixar que se dissipe pouco a pouco a estranheza, tornando confortável o silêncio como um bem-estar de amigas que já dispensa a voz. Observo as paredes quase curvas da casa, tal o peso da sua solidez, e espero que Maria Carlos queira abrir enfim uma passagem onde eu possa caber.

Hélia Correia em A Casa Eterna

Legenda: fotografia de Luís Eme

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

OLHAR AS CAPAS


 

Poesia, Um Dia

Carlos Alberto Machado, Hélia Correia, Jaime Rocha, José Mário Silva, Margarida Vale de Gato,

Miguel-Manso

Colecção AzulCobalto

Companhia das Ilhas, Setembro de 2014

É uma ideia de aldeia, de comunidade, de partilha. Uma ideia que alastrou a uma vila, a um conselho – Vila Velha de Ródão. Começou com uma conversa entre uma bibliotecária e um escritor, corria o ano de 2011: porque não um Encontro de Poetas em Vila Velha de Ródão?

Porque não?

Temos o rio Tejo, barcos, grifos, jardins, comboio. Temos aldeias de xisto, temos museus, lagares, poetas populares. Temos uma população maravilhosa e ávida de cultura. Temos uma biblioteca, uma associação cultural, um grupo de teatro, serras, montes, ribeiros. Temos pessoas  as que gostam de ler e de discutir literatura. Temos boa comida e muitos bolos tradicionais, queijos, enchidos, azeite. Temos sol.

Da apresentação de Jaime Rocha

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

POSTAIS SEM SELO

Gosto de abrir as portas que há no tempo.

Hélia Correia

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

POSTAIS SEM SELO

Não sou uma pessoa medrosa, mas começo a ter medo, o que é um sinal dos tempos que vivemos.

Hélia Correia, entrevista ao Público de 9 de Fevereiro

sábado, 3 de fevereiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL


                 Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                 João Bénard da Costa

 

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

Ele há-de trazer algumas histórias em que andou metido nos tempos em que esperávamos (quem? quantos? Como, então, apareceram tantos a gritar por Liberdade, a dizerem-se democratas?) pela tal madrugada.

Por madrugada, lembrará, agora, o que leu num comentário à morte de Melanie Safka publicada no Público e um deste dias há-de recordar, sobre Melanie Safka, uma crónica do José Duarte.

«A sua intervenção não se esgotou na música. Cresci a ouvi-la - e foi a única artista estrangeira que explicou ao mundo o conceito de "Madrugada": dizia ela que os portugueses eram os únicos que tinham uma palavra para descrever aquele tempo suspenso entre a noite e o dia, um tempo grávido de sentido. Faz falta.»

 

ZIP 30.020/S - 1971

Pare, Escute e Olhe - Arte Poética

Um muito interessante "single" do pré-25 de Abril, que reuniu algum sucesso popular, comprado na então sucursal da “Discoteca Roma”, na Rua Morais Soares, esquina com a Praça Paiva Couceiro (em Lisboa) e produzido por "Zip-Zip".

A loja, com duas simpatiquíssimas e competentes empregadas, não resistiu aos tempos de Abril e fechou. Mais tarde  a casa-mãe também fechou as portas na Av. de Roma. Para não variar instalou-se lá uma agência bancária e agora é café a armar ao fino.

À época, e ao nível da pequena banheira onde vivíamos (vivemos), este disco originou uma leve e doméstica polémica, qualquer coisa como mosquitos por cordas.

Por uma estranha omissão (tipográfica ou qualquer outra) não consta da ficha do disco o nome de Hélia Correia como autora do poema “Arte Poética”, face B do "single".

O disco revela apenas o nome de José Jorge Letria e daí poder inferir-se que Letria é o responsável, não só da música, como da letra.

O suplemento “Juvenil” do jornal “República” de 19 de Outubro de 1971, fazia publicar um “Para Que Conste” em que o facto é denunciado e, ao mesmo tempo, se revelava que “mesmo em espectáculos públicos não tem feito Jorge Letria qualquer alusão ao nome de Hélia Correia” e exigia-se a respectiva rectificação e invocavam-se direitos de autor e reprodução.

Já que estamos em maré de documentos e curiosidades, diga-se que, na contracapa do disco, José Jorge Letria fez publicar um texto de sua autoria: “É do Silêncio Que Vos Falo” e que aqui se reproduz:


“Foi mais de um ano de silêncio (depois do primeiro disco-fracassado). Mais de um ano de silêncio inteiramente assumido. Voluntariamente aceite. É fora dos circuitos normais (televisão, rádio, promoção, venda) que, dolorosamente, sem trincheiras nem disfarces, se descobrem os amigos (?), que se aprende a abominar a hipocrisia e a falsa coerência, a miséria das intenções, a ignorância das coisas elementares.

"É no silêncio (um certo silêncio, entenda-se), que se descobre a utilidade das palavras. O seu fogo. A sua forma exacta. A sua acutilante facilidade de chegar onde mais ninguém chega. E ao mesmo tempo a sua infinita pobreza. A sua enorme timidez. Sim, porque as palavras são tímidas. Haverá alguém que duvide?

"Para mim conservo a certeza de que está tudo ainda por fazer. Não são meia dúzia de discos ou de frases publicitárias, publicamente ditas, que definem uma música e lhe dão a necessária consistência. Desfaçam-se pois os equívocos. Já não é sem tempo. A quem me ouvir deixo, entretanto, a possibilidade de transformar em acto (ou quase) o que no canto se propõe. Se isso não acontecer fico, pelo menos, com a certeza de ter levado até ao fim a minha ingenuidade. Ou seja o silêncio donde partiu. Para os que ficarem pelo caminho vai também a minha saudação.” 

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

SUBLINHADOS SARAMGUIANOS


 Creio já ter escrito por aqui, que comecei por ter uma ideia base, não muito concretizada, para estes Sublinhados Saramaguianos e, que dia a dia, foram sofrendo variações várias. No avançar desses dias dei-me, de repente, como diz a professora do meu neto mais novo «a navegar na Mayonesse».

Por causa dos Sublinhados, dos Poemas, dos Postais, neste mês de Centenário de José Saramago, não voltei a autores, a capas que normalmente por aqui habitualmente surjem. Um desses autores é o Manuel António Pina.

Mas hoje, mato dois coelhos com uma cajadada:

«Um dia destes hei-de escrever das invejas e das calúnias de que este homem cordial, generoso, corajoso e bom era objecto. Agora, é só para dizer que o dia de que falo era nítido, claro, e resguardado para mim e para a minha amizade para com o Zé. E acrescentar que, entre nós, nunca houve um adeus.

Provavelmente, apenas provavelmente Saramago não veria ser-lhe atribuído o nobel da Liertuta se um tal de Sousa Lar, subsecretário da cultura sendo secretario Santana Lopes e primeiro-ministro Cavaco Silva.»

Tenho uma ideia, baseada em mero pensamento pessoal,  porque nunca vi escrito, de que Saramago já teria pensado em mudar-se para Lanzarote, uma paisagem, que terá entendido, lhe faria muito bem às suas ideias e à sua escrita, assim como Hélia Correia, como ajuda extra, só gostar de escrever em dias de chuva, mas aproveitou o episódio do anedótico Sousa Lara & Cª, para deixar expresso, bem expresso, que foi por causa disso que passou a viver em Lanzarote. 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

OLHAR AS CAPAS


Granta

Nº 4

Direcção e Editorial: Carlos Vaz Marques

Textos de Mia Couto, Ruy Duarte de Carvalho, António Cabrita

                  José Tolentino Mendonça, Lidia Jorge, Hélia Correia

Capa: Ruy Duarte de Carvalho

Edições Tinta-da-China, Lisboa, Outubro de 2014

Perguntam-me, com frequência, em que momento me tornei escritor. Habituei-me a não ter pressa em dar a resposta. Nem a essa nem a outras indagações. Aprendi com um personagem de uma história minha, que assegurava o seguinte: a diferença entre os sábios africanos e os sábios europeus é que os primeiros são os últimos a dar respostas. O facto é que vale uma certa demora: para pensar não apenas a resposta mas, antes dela, a própria pergunta. Como diria o meu mestre Rosa: Deus demora, mas não falha. No meu caso, Deus ainda não chegou.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

OLHAR AS CAPAS


Granta

Nº 3

Direcção e Editorial: Carlos Vaz Marques

Textos de Ruy Belo, Alexandra Lucas Coelho, Hélia Correia, Siri Hustvedt,

                  Ha Jin, Hilary Mantel, Susana Moreira Marques, Haruki

                   Murakami, António Osório, Valério Romão,  Paul Theroux,

                   Teresa Veiga, Lina Wolff

Capa: Luísa Ferreira

Edições Tinta-da-China, Lisboa, Maio de 2014

O Retorno

Volta, volta

logo que possas.

E que o Sol

abençoe as tuas raízes.

 

Segue umas crianças,

acompanha, viva,

a sua alegria.

 

 Vê as árvores,

as que foram tuas,

esconde-te por trás

do velho mirto florido.

 

Não esqueças a Mimosa,

a tua cadela, linda,

companheira, com olhos

quase tão belos e doces como os teus.

 

Procura o nosso Tempo.

Pede-lhe que seja generoso.

Não te deixes desfazer:

Volta, volta serena.

António Osório

domingo, 17 de outubro de 2021

OLHAR AS CAPAS


Granta

Nº 2

Direcção e Editorial: Carlos Vaz Marques

Textos de José Eduardo Agualusa, Miguel Esteves Cardoso, Hélia Correia,

                 Afonso Cruz, José Gardeazabul, Luísa Costa Gomes, Ana Teresa

                 Pereira, João Pina, Raquel Ribeiro, Gonçalo M. Tavares

Capa: João Pina

Edições Tinta-da-China, Lisboa, Outubro de 2013

Durante muito tempo não quis saber do Ochoa, precisamente porque o meu trabalho não era sobre política. Mas houve um escritor que um dia me disse: «Para compreender a maneira como Cuba olha para Angola se materializava naquela obsessão pelo Ochoa que ainda existe na sociedade cubana. O trauma não é Angola, ou a guerra: o trauma é terem fuzilado aquele homem, filmado o julgamento, transmitido diariamente na televisão como um reality show sobre um crime e o seu castigo, a autocritica, o mea culpa, peito aberto às bals. Os militares do Ministério do Interior de Camaguey só tinham medo que eu fizesse perguntas sobre o Ochoa, nem queriam saber de Angola. Quem me teria denunciado? Talvez nunca venha a sbar, mas sei agora que a minha teoria se concretizou ali, diante do Freddy e do Nicoklai.

Dias depois de tudo, li assim, num verso do poeta cubanoo Carlos Esquivel (que também esteve em Angola): «Nunca vuelvas donde fuiste feliz, porque es peligroso ser feliz dos veces.» E eu, que fora a Cuba tantas vezes desde 2005, primeiro deslumbrada, depois desiludida, cansada de tanto sorrir – aprendera finalmente a lição.

Raquel Ribeiro do texto «É Perigoso Feliz Duas Vezes»

Nota do editor: Arnaldo Ochoa foi um alto general do regime cubano que acabou fuzilado, acusado de tráfico de droga, de diamantes, e de marfim, e de ligações com Pablo Escobar, na Colômbia.

domingo, 1 de agosto de 2021

OLHAR AS CAPAS


Granta

Nº 1

Direcção e Editorial: Carlos Vaz Marques

Textos de Dulce Maria Cardoso, Valério Romão, Saul Bellow, Hélia Correia,  

                  Ricardo Felner, Fernando Pessoa, Ryszard Kapusciriski, Afonso Cruz,

                  Daniel Blaufuks, Simon Gray, Rui Cardoso Martins, Orhan Pamuk,

                  Rachel Cusk, Valter Hugo Mãe

Capa: Daniel Blaufuks

Edições Tinta-da-China, Lisboa, Maio de 2013

No conceito de deus, há o horror ao seu próprio vazio, Nuns tempos comos os de hoje, a abundância de recursos preencheu o espaço em que a fatalidade e o capricho, instrumentos da infelicidade, nos atiravam de uma esquina para a outra, como tremendos bofetões divinos. Vestimos os coletes insufláveis e nada pode golpear-nos, nem a água, nem as arestas, nem sequer a idade. Corremos muito à frente do destino com os mistérios do corpo e os da alma consideravelmente diminuídos. Temos o organismo escrutinado e não somente por transparecer mas por se revelar quimicamente. Se pensarmos no tanto que sofreram os investigadores renascentistas a fim de dissecarem um cadáver, não deixaremos de nos sentir gratos pelo sorteio cronológico que pôs o nosso nascimento nesta época.

Do texto Intervencionados de Hélia Correia

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

OLHAR AS CAPAS


Contos de Encantar

E. E. Cummings

Tradução e prefácio: Hélia Correia

Capa e ilustrações: Rachel Caiano

Ponto de Fuga, Lisboa, Maio de 2018

Era uma vez uma casa que se apaixonou por um pássaro.

Era uma casa alta e vazia e tinha numerosas janelas. Não vivia lá ninguém porque ela ficava no cimo de um monte muito elevado, distante de tudo, sem ninguém com quem brincar a não ser a manhã e ninguém com quem conversar a não ser o pôr do sol e ninguém com quem falar dos seus assuntos a não ser o crepúsculo. Claro que havia a tarde; mas a tarde raramente se aproximava da casa porque estava demasiado ocupada a pôr a lua na cama. E também havia a noite; mas do que a noite gostava era de passear e passear por entre todo o brilho e as graciosas espécies de flores a que vocês e eu chamamos «estrelas» porque não sabemos o que realmente possam ser. Por isso, com exceção dos três amigos – manhã, o pôr do sol e o crepúsculo – essa casa alta e vazia com numerosas janelas que ficava no cimo de um monte elevado estava completamente só.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

POSTAIS SEM SELO


A ameaça da ignorância muda de face mas não muda de maldade.

Hélia Correia

sexta-feira, 26 de junho de 2020

RELACIONADOS


Estragar capas de livros com a prensagem ou colocação de auto colantes, é um crime.

Que isso aconteça na Leya, onde o dono daquilo gosta mais de corridas de automóveis do que de livros, agora que aconteça na Relógio D’Água, dirigida por Francisco Vale, alguém que sabe verdadeiramente o que é um livro, torna-se um sacrilégio.

Os tempos pandémicos já são terríveis de viver, pior ficam com crimes destes.

O livro da Hélia Correia destinava-se a oferta. Tentei retirar o auto colante, mas deveriam ter utilizado uma cola de prender cientistas no tecto.

terça-feira, 23 de junho de 2020

CONHECI A CENSURA


Conheci a censura. Mas, não tendo gosto pelas memórias ressentidas, só muito raramente falo dela. Ainda há pouco toquei nesse terror quando reli Os Demónios – não Os Possessos – na tradução do António Pescada, a quem tão grata sou por me ter permitido ler sem desconfiança os meus romances russos. Está nele incluído o capítulo que Dostoievski se viu forçado a retirar aquando da publicação. Escreveu um outro, totalmente diferente. E a chave do enigma respeitante à personagem principal caiu no lodo. «Que nunca mais, que nunca mais isto aconteça», é o voto que faz qualquer leitor. E, no entanto, está a acontecer.
Não pela força de um poder instituído e frequentemente muito estúpido, mas pela força de um poder massificado, igualmente estúpido, igualmente autorizado por um puritanismo executório. É uma polícia da opinião que não parece imposta e que se aloja no interior de cada um para desencorajar a ousadia, sendo que a ousadia não está hoje na infantil libertinagem sexual e sim no dar palavra e dar figura ao que o homem e a natureza têm de terrível, de necessário, de indomesticável. Dar a palavra ao que é inominável, afrontar o tabu, eis a tarefa.
Não podemos deixar que uma cruzada de higienização se estenda à arte.

Hélia Correia

terça-feira, 5 de novembro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Aliás há poucas coisas excitantes na vida. Dizem até que o máximo, o mais alto desejo é o da tranquilidade.

Hélia Correia em A Fenda Erótica

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Tivera sempre uma espantosa habilidade para ouvir, punha nisso o prazer que muitos põem em espreitar o vizinho por entre as persianas.

Hélia Correia em A Fenda Erótica

Legenda: imagem Netflix.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

QUOTIDIANOS


As cerejas estão a acabar.
Parece que o Verão chegou a Portugal.
A corrupção alastra nas autarquias.
Não há meio de sabermos o que se passou realmente no roubo de armamento em Tancos.
Vítor Constãncio recebe de reforma do Banco Central Europeu 17 mil euros e 17 mil de Portugal. O que fez na estranja não é público, o que (não) fez em Portugal vai-se sabendo aos poucos, mas perdeu a memória e Joe Berardo continua a rir-se.
Soube-se agora que a campanha de Cavaco Silva á presidência da República beneficiou de dez cheques de 25.000 euros provenientes do saco azul gerido por Ricardo salgado no BES.
Soube-se hoje que somos menos, que estamos mais envelhecidos e que a taxa de pobreza diminuiu um pouco mas continua elevada e que afecta os jovens até aos 18 anos e os adultos com mais de 65 anos.
As televisões, diariamente, ocupam horas e horas e horas e horas de futebol.
Hélia Correia, uma escritora portuguesa, venceu o com o seu livro Um Bailarino na Batalha venceu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Talvez alguma televisão tenha gasto 3 segundos com a notícia.
Dizem que a chuva talvez volte amanhã.
A certeza é que quando as cerejas acabarem, só as voltaremos a ver lá para o Natal, vindas do Chile, a preços astronómicos.
No dia 20 de Julho, um sábado, às 21H30 irei rever, na Cinemateca, Belarmino, esse belo filme de Fernando Lopes.
No meio disto tudo, lembrar que Mário de Carvalho começa assim o seu livro Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina:

«Assola o país uma pulsão coloquial que põe toda a gente em estado frenético de tagarelice, numa multiplicação ansiosa de duos, trios, “ensembles”, coros. Desde os píncaros de Castro Laboreiro ao Ilhéu de Monchique fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam a paciência de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falatório é causa de inúmeros despautérios, frouxas produtividades e más-criações.
Fala-se, fala-se, fala-se, em todos os sotaques, em todos os tons e decibéis, em todos os azimutes. O país fala, fala, desunha-se a falar, e pouco do que diz tem o menor interesse. O país não tem nada a dizer, a ensinar, a comunicar. O país quer é aturdir-se. E a tagarelice é o meio de aturdimento mais à mão.»