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segunda-feira, 7 de abril de 2025

INCIPIT

            à memória de Davi Mourão-Ferreira

E se em vez das palavras fosse um eco

de pura solidão que te chamava?

E se em vez doutro nada fosse um erro

e se em vez do presente fosse nada?

 

E se em vez da memória fosse o sopro

da pura solidão adormecida?

E se em vez da ausência fosse o corpo

e se em vez de um só verso fosse a vida?

 

É só jogo de ausências este verso

ou espelho numa leve madrugada,

feito engano de luzes e disperso

batimento de remos na jangada?

 

(Náufragos de nós mesmos sem saber

As imagens que o verso quis perder.)

 

Luís Filipe Castro Mendes em Poemas Reunidos

sábado, 20 de novembro de 2021

ANTÓNIO OSÓRIO (1933-2021)


Morreu o poeta António Osório.

Poeta do amor e da fulguração, dos afectos e dos silêncios.

Sem ainda saber da sua morte, foi um poema de António Osório que escolhi para a apresentação da capa da revista Granta nº3. Como diz Carlos Vaz Marques no prefácio deste número da revista:

«António Osório o poeta da gratidão escolheu a Granta para retornar aos versos, após um longo interregno em prosa.»

David Mourão-Ferreira, em 1981, escreveu que «António Osório constitui um dos casos mais notáveis da moderna poesia portuguesa, já pelo tom de voluntária surdina em que a sua voz efectivamente corresponde aos valores expressos nos própios títulos dos seus livros. Com efeito, a sua poesia, partindo geralmente de uma «raiz afectuosa» que nunca deixa de mostrar-se visível ao nível do texto, afirma-se pela demarcação de um «lugar de amor» em que se patenteia uma reiterada recusa ou «ignorância da morte», graças à qual fantasticamente convivem, no espaço do poema, os mortos e os vivos, o passado e o presente, a memória e o quotidiano numa teia subtil de sugeridas relações ou de perturbantes contrapontos.»

A Raiz Afectuosa

Com os anos

a pouco e pouco

a raiz afectuosa

penetrou

no fundo da terra

até chegar

ao mais pequeno

e mais antigo

veio de lágrimas. 

terça-feira, 25 de maio de 2021

NOVAS CARTAS PORTUGUESAS


O jornal Público atingiu níveis de ilegibilidade. Pelo menos para os meus olhos. Virou neo-liberal e de direita.

Mas ainda mantém uns certos laivos de outros bons tempos. É o caso de ter iniciado uma colecção, Censura no Feminino, que reúne 10 obras de autoras portuguesas proibidas pela Censura, publicadas em fac-símile, e custam, cada um, 6,50 euros.

O primeiro volume da colecção foi Novas Cartas Portuguesas de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa.

Pelos temas abordados, pela qualidade da escrita, o livro terá de ser, obrigatoriamente, lido por quem nunca o fez e passarão a saber da dimensão política e social que contém. Os tempos eram os da enganosa primavera política de Marcelo Caetano mas ainda hoje retém uma assombrosa actualidade.

«E a minha mãe fartou-se de moer o meu pai com palavras e choros, homem não te metas nestas coisas, olha o resultado que dá, a gente aqui a morrer de fome e os outros de barriga cheia, que o patrão não os castigou mas só a ti que eras o das ideias.

Que uma das tarefas dos patrões é a de castigar os empregados e a tarefa dos empregados é a de trabalhar para os patrões a fim de estes ficarem mais ricos e mais patrões. Talvez eu um dia case com um patrão.

A verdade é que isso não quer dizer nada, pois quando o meu pai vem bêbado e bate na minha mãe, grita: aqui eu é que sou o patrão. E ela cala-se e põe-se a chorar baixinho.»

Segundo Ana Luísa Amaral, foi em Maio de 1971, que Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa decidiram escrever um livro a seis mãos.

Em Janeiro de 1972 dão a obra como concluída e, em Abril, o livro seria publicado  pelas Estúdios Cor, então com direcção literária de Natália Correia que, mesmo tendo sido instada a cortar partes da obra, a publicou na íntegra.

O  pide-censor, a quem a obra foi atribuída para leitura e opinião, não teve dúvidas:

«Sou do parecer que se proíba a circulação no País do livro em referência, enviando-se o mesmo à Polícia Judiciária para efeitos de instrução e processo-crime».

No processo podia ainda ler-se que o livro era pornográfico e a tentório da moral pública.

A Pide invadiu a editora e as livrarias e procedeu à apreensão da obra.

Chamadas à esquadra, as três autoras só não foram imediatamente presas porque Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa pagaram uma caução de quinze contos. Maria Isabel Barreno, por sua vez, provou que não tinha posses para isso e, em contrapartida, teve de comparecer uma vez por mês na polícia, para ofício de corpo presente. Posteriormente, David Mourão-Ferreira emprestou-lhe o valor para que também ela pudesse pagar a caução.

O julgamento começou a 25 de Outubro de 1973 e, nos interrogatórios, a acusação tentou por todos os meios saber quem escrevera o quê. Nunca o souberam e, Maria Teresa Horta, a única das autoras que ainda está entre nós, sobre essa autoria,  já disse que levava com ela o segredo.

O julgamento nunca veio a ter um fim.

Em Abril de 1974, um juiz mandava em paz as três Marias. 

Um livro de coragem dentro do cinzentismo ditatorial daqueles dias tão amargos.

Ana Luísa Amaral, é de opinião que o livro está muito além do seu tempo. Como as grandes obras normalmente estão. Entendo que este livro é uma grande obra, é um grande livro dentro da literatura portuguesa do século XX, dentro da história dos direitos humanos do século XX.

«Nas ancas tenho ainda a marca dos teus dedos; a marca da tua boca, o traço molhado da tua língua, dos teus dentes.

Desço:

macio deve ser o chão que as árvores conservam com a sua seiva.

Não necessàriamente meu amor sem ti a liberdade ou a pressa de morte do meu corpo»

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

OLHAR AS CAPAS

Natal

 Antologia de contos natalícios

Organização de Mário Braga e Afonso Botelho

Capa e ilustrações: Helena Sá

Editora Arcádia, Lisboa, Novembro de 1978

 Em 1934, passámos a véspera de Natal num velho vagão onde viajavam três cães perdigueiros, um hortelão de frades e uma criada de servir, a Rata, que estreava uma peineta nova, dessas que havia com aplicações de turquesa fingida. Não havia transportes e, pouco antes da meia-noite, meu pai lembrou-se de visitar a família, que não era numerosa e por isso lhe dava pena deixá-la, à ceia, na vasta mesa toda mordida por golpes de canivete que até parecia obra de talha. Sujeitámo-nos pois àquela viagem no correio da noite que, além do mais, ia cheio até aos tejadilhos. Alguns preferiram o furgão; levava caixotes de passas de Alicante e uma urna para um morto, coberta com um pano encerado, como se fosse destinada aos abismos do oceano. A Rata persignava-se e rezava umas estropiadas letanias que ela sabia. O hortelão, o Miguel Cunha, era da minha terra – o maior mentiroso, o mais famoso gastador de petas lá do sítio. Nunca vi tal arte feiticeira, tal cordura bem-falante em tecer fantasias. Aos poucos, íamos com ele na legenda dos assuntos e, se um céptico nos cortasse o passo, éramos como mastins sobre a sua lucidez idiota. Porque ao pé do Miguel Cunha, tão generoso a contar-nos novelas, casos tortos, extraordinárias missões do bicho homem, todos os outros eram tolos e leigos no sentimento de urdir a vida.

O comboio, na noite clara, soltava fagulhas verdes e douradas. Víamos o rasto delas pelas portas que iam meio abertas. Eu tinha nesse ano umas luvas de lã de punhos altos, de alpinista, e os dedos estavam vidrados pelo frio.

 

Agustina Bessa-Luís do conto O Correio da Noite

terça-feira, 12 de maio de 2020

CONVERSANDO


Durante muito tempo soube de cor um soneto de David Mourão-Ferreira que começa assim: «Ouvir, ouvir de noite uma ambulância…» Um dia, folheando ao acaso o Infinito pessoal ou a arte de amar, voltei a ler esse soneto e descobri que a minha memória o havia reescrito, substituindo umas palavras, invertendo a posição de outras, de tal modo que o poema de que me lembrava era já substancialmente diferente daquele que David escrevera. E, hoje ainda, já não sei de novo que parte dele me pertence e que parte pertence ao poeta. Como, se na verdade, o tivesse esquecido, e recordasse um poema meu escrito com palavras suas.
…Do mesmo modo a nossa vida passada se desvanece como uma memória alheia. E, contudo, essa é provavelmente a nossa verdadeira vida.

Manuel António Pina em Crónica, Saudade da Literatura

quinta-feira, 30 de maio de 2019

RELACIONADOS

Este é o EP, comprado pelo meu pai, em que Richard Anthony, com poema de Guy Bontempelli, canta Aranjuez, Mon Amour.
As memórias vão-se esvaindo, mas suponho que havia lá em casa mais versões cantadas, inclusive uma da Amália com uma versão adaptada por David Mourão Ferreira.
Quando fechei a casa do meu pai, todos os livros e discos vieram para aqui.
Mas agora não o encontrei.
É pena.
Ficamos apenas com o Senhor Richard Anthony.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

SARAMAGUEANDO


«Em Lisboa, para votar. Encontro alguns amigos preocupados com o resultado das eleições de amanhã. Tudo aponta para uma vitória folgada de Jorge Sampaio, mas eles duvidam, parece-lhes ser bom de mais para poder ser verdade. Apresento um argumento para o qual não há resposta. «É impossível que este país tenha como presidente da República um homem chamado Aníbal Cavaco Silva. Não porque não  fizesse sentido, mas porque o faria de mais…»

José Saramago em Cadernos de Lanzarote IV Volume

O 4º Volume dos Cadernos de Lanzarote cobre o ano de 1996.

A 1 de Abril regista a morte de Mário Viegas:

«Mário Viegas morreu. Era um cómico que levava dentro de si uma tragédia. Não me refiro à implacável doença que o matou, mas um sentimento dramático da existência que só os distraídos e superficiais não eram capazes de perceber, embora ele o deixasse subir à tona da expressão às vezes angustiada do olhar e ao ricto sempre sardónico e amargão da boca. Fazia rir, mas não ria. Pouca gente em Portugal tem valido tanto.»

A 17 de Junho a «morte anunciada» de David Mourão-Ferreira:

«…não era só literariamente que tínhamos ficado mais pobres, que também ficávamos reduzidos espiritualmente. Ainda que a alguns possa parecer o mesmo, não o é.»

A 27 de Setembro dá notícia de que pediu a «Rui Godinho, vereador da Câmara Municipal de Lisboa, velho amigo e camarada», se conseguia descobrir a data do falecimento do seu irmão Francisco de Sousa dado não constar o averbamento do óbito no registo de nascimento e explica: «o que me leva a pedir a tua ajuda tem que ver com O Livro das Tentações, onde inevitavelmente falar desse Francisco de Sousa de quem não me lembro tal como estão as coisas agora, é como se eu tivesse um irmão imortal…»

Este Livro das Tentações será publicado no ano de Outubro de 2006 mas com o título de Pequenas Memórias.

A página final é para nos dizer que o ano entrou em Lanzarote com o acompanhamento de «uma trovoada gigantesca que parecia querer deitar abaixo o céu e afogar a terra num dilúvio.» e para nos fazer ver que «se entra na velhice quando se tem a impressão de ocupar cada vez menos lugar no mundo. Durante a infância e a adolescência cremos que ele é nosso e que para ser nosso existe, na idade madura começamos a suspeitar que afinal não é tanto assim e lutamos por que o pareça, começa-se a ser velho quando percebemos que a nossa existência é indiferente ao mundo. Claro que sempre o tinha sido, mas nós não o sabíamos.»

Legenda: capa de Cadernos de Lanzarote, Volume IV publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria da escritora Nélida Piñon. 

sexta-feira, 17 de junho de 2016

POSTAIS SEM SELO


Há lâmpadas que tornam certas casas
Mais escuras por dentro do que por fora.

David Mourão-Ferreira

domingo, 12 de junho de 2016

CHEIRA A LISBOA





Lisboa.
Noite de Santo António.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Olhar de frente o Sol Assim se aprendem
as letras iniciais da Solidão.

David Mourão-Ferreira

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

UMA CERTA LISBOA


Mais um olhar sobre uma certa Lisboa.

O Tejo era um mundo de trabalho: cacilheiros, navios a descarregar ao largo, um mar de fragatas num vai-vem-rio-acima-rio-abaixo.
Olhava-as da mansarda da minha avó paterna, na Rua Senhora do Monte, mesmo na esquina com o Bairro Estrela D'Ouro.
Via-se o Barreiro, a névoa fabril a sair das chaminés, quando ainda as diversas fábricas da CUF não tinham sido construídas no Lavradio.

Fotografia do Ecomuseu Municipal do Seixal.


Padeiros de Lisboa.

Fotografia publicada por  
Lisboa no Guiness


Petrolino à porta.
A vizinha do rés do chão, no prédio onde nasci e cresci, vendia petróleo.
Todos os dias, excepto aos domingos, a carroça ficava armazenada, na Vila do Amaral, ao cimo da rua.
O macho era levado para os lados da Quinta da Eira.

Fotografia publicada por 
Digital Blue.



Natal do Sinaleiro.

Fotografia publicada por Siccapianos.


Um dos barcos a carvão que faziam a ligação Lisboa/Barreiro.
Quando assentei praça, em Tavira, ainda fiz a travessia num destes barcos. Chegou ao Barreiro à meia-noite para apanhar o comboio.correio. paragem em todas estações e apeadeiros.
Chegámos a Tavira às sete e meia da manhã.


Fotografia publicada por Alernavios


O China-das-gravatas.
Mas não eram apenas chineses que, deste modo, vendiam gravatas em Lisboa.

Fotografia de Garcia Nunes
 


Um miúdo-ardina de Lisboa.
Exploração de trabalho infantil ou, como se dizia naqueles tempos, o trabalho do menino é pouco mas quem o perde é louco.
Muitos dos ardinas de Lisboa, um número bem largo, eram corredores de Atletismo.
Vestiam as camisolas do Benfica e do Sporting.
Calcorrear, em alta velocidade, ruas de Lisboa era o tempo de treinar.
A maneira como embrulhavam o jornal e o lançavam para janelas e varandas.
Um assombro de pontaria, certa e colocada.

Fotografia de 
João Martins.


Fotógrafo à la minuta: «olha o passarinho!« Andavam pelos jardins de Lisboa, nas praias, nas feiras de Lisboa e arredores.
O meu avô materno foi fotógrafo à la minuta nos domingos em que não havia Concerto da Banda da Câmara.

Fotografia publicada por 
O Sabor do Olhar


Um aguadeiro na Lisboa antiga.
Como se lê em Memória de Elefante de António Lobo Antunes:
Os portugueses são estúpidos, informava o aguadeiro galego da história da mãe, vimos para aqui vender-lhes a água deles.

Fotografia de José Artur Leitão.




Pelo Natal, venda de perus nas ruas de Lisboa.
Não consegui encontrar nenhuma fotografia que mostrasse a venda no Martim Moniz.

Fotografia publicada por 
Restos de Colecção.


Moços de fretes ou de esquina.
A sós, ou em grupo, não havia nada que não transportassem,
O mandado mais simples era o da entrega de cartas. Mesmo as de amor.
O Armando, vivia na Vila Gadanho, junto à casa da minha avó materna.
Um pouco anormal mas um verdadeiro animal de força.
Um dia, transportou, às costas, uma secretária, desde o sexto andar da Rua da Senhora do Monte, à Graça, até à Mestre António Martins, na Penha de França.
Quis vinte e cinco tostões tostões e um copo, grande, de vinho.
E saiu com mil agradecimentos.
Os vinte e cinco tostões acabavam em mais vinho no Manel da Adega, na Rua Castelo Branco Saraiva.

Fotografia publicada por
 Adriano Pacheco.


Varina de Lisboa numa belíssima fotografia de Joshua Benoliel.
E aquele bonito poema de David Mourão-Ferreira, para música de Alain Oulman e eternizada na voz única de Amália.

 É varina, usa chinela,
tem movimentos de gata.
Na canastra, a caravela;
no coração, a fragata

Em vez de corvos, no xaile
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile
Baila no baile co’ o mar.

É de conchas o vestido;
tem algas na cabeleira;
e nas veias o latido
do motor de uma traineira.
E nas veias o latido
Do motor duma traineira
E nas veias o latido
Do motor duma traineira

Vende sonho e maresia,
tempestades apregoa.
Seu nome próprio, Maria.
Seu apelido, Lisboa
Seu nome próprio - Maria

Seu apelido – Lisboa.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Em tão pouco ou nada afinal acredito
Só me empolga o rigor com que o digo e não digo.

David Mourão-Ferreira

Legenda: pintura de Jakub Schikaneder

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

OLHARES


Acender o cachimbo
para deixar no mundo uma herança de fumo.

David Mourão-Ferreira 

terça-feira, 3 de março de 2015

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?



Um livro organizado, por Manuel Costa Silva, para Lisboa 94 Capital Europeia da Cultura.

Das palavras introdutórias

Graças às histórias e aos mitos do cinema, os filmes deram-nos a conhecer inúmeras cidades, a sua geografia, a sua arquitectura, o seu retrato imaginário o o seu verdadeiro rosto.

O binómio cidade/Cinema tem muitas leituras. Essa relação consegue transformar a cidade em protagonista, quer dizer incorporando a ventura humana, as personagens e os seus estados de alma.

A cidade pode ser cenário activo ou pode existir como um elemento passivo que favorece no mistério de uma história.

Lisboa a 24 Imagens é uma recolha de textos inéditos que pretende dar a ver a inscrição desta cidade nas histórias que os filmes contaram.


Textos de gente vária como João Bénard da Costa, Mário Castrim, Álvaro Guerra, Antonio Tabucchi, David Mourão-Ferreira, José Cardoso Pires, Mário Zambujal, Urbano tavares Rodrigues, Fernando Lopes, Jorge Silva Melo, José Fonseca e Costa, Lauro António, Monique Rutler, Joaquim leitão, Paulo Rocha, outros mais.

Pelo livro encontramos memórias dispersas, cartazes, revistas e folhetos que fizeram a história da cidade no cinema.

Cento e quatorze filmes nacionais e estrangeiros tiveram Lisboa como cenário ou apenas como nome mencionado, ou fonte de inspiração.


O último, e doloroso, capítulo do livro fala-nos dos cinemas desaparecidos, mortos e moribundos.

Estão lá o Eden, o Salão Lisboa, o Paris, o Jardim Cinema, o Royal, o Politeama, o Cinearte, o Tivoli, o Odeon, o Capitólio, o Berna, o Olympia, o Cine Pátria.

De 1994 até aos dias hoje quantos mais cinemas, tragicamente abatidos, outros a exercerem outras funções, outros, inexplicavelmente, abandonados, degradando-se em cada dia que passa?

O nosso adeus aos Cinemas Paraíso de tantas infâncias e adolescências.


Joaquim Leitão, no capítulo das Visões da Cidade, conta esta Pequena História Inspirada em Factos Verídicos:

Lembro-me, como se fosse hoje, da última vez em que me senti completamente feliz.

Foi em Lisboa. Num domingo ao fim da manhã, em maio. Ia a descer a Rua Morais Soares, pelo passeio onde dava o sol.

Lembro-me perfeitamente. Não aconteceu nada de especial. 

terça-feira, 30 de julho de 2013

O ÚLTIMO NÚMERO DE "A CAPITAL"


Primeira página do último número de A Capital, 30 de Julho de 2005, um sábado, tendo como director interino Paulo Narigão Reis.

Em 21 de Fevereiro de 1968 os ardinas passavam a ter mais um título de vespertino para apregoar. E com alguns, saía assim: Lisboa, Capital, República, Popular.

O jornal nasce de uma cisão no Dário de Lisboa. Norberto Lopes, director, Mário Neves, sub-director, juntamente com outros jornalistas, saem do Lisboa e formam a Sociedade Gráfica de A Capital.

Não alinhava com o regime mas não representou uma situação de oposição aberta.

Maria Teresa Horta coordenava o suplemento literário, Isabel da Nóbrega coordenava uma página feminina com ares novos, António Torrado dirigia o suplemento infantil, José Saramago coordenava o suplemento A Semana e esvrevia crónicas que, mais tarde, vieram a constituir o livro Deste Mundo e do Outro.

Na sucessão de directores que o jornal teve ao longo tempo, aparecem os nomes de David Mourão-Ferreira e Francisco Sousa Tavares.

Alguns dos jornalistas de A Capital, de antes do 25 de Abril: Rudolfo Iriarte, Manuel Beça Múrias, Daniel Ricardo, Adelino Tavares da Silva, Manuel Batoréo, José João Louro, Pedro Alvim, Alice Nicolau e o meu amigo Hélder Pinho.

O perfeito louco, o inventor de histórias e reportagens.

José João Louro, seu camarada de redacção:

Hélder Pinho, para mim, o verdadeiro repórter. O mais autêntico até ao «naifismo». O inventor do Leão de Rio Maior. Dezasseis primeiras páginas – o surrealismo na imprensa portuguesa. Foi leão, canguru, até acabar como cão-d’água. Um leão que assustou e entreteve o País. O fascismo decadente e podre pôs-se à caça do leão pelas serras, aventureiro em busca de uma ilusão.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

PERUS PELO NATAL


Tenho dos meus tempos de miúdo, a lembrança de ver, por estes dias de Natal, no Martim Moniz, dezenas de alentejanos a venderem perus.
Ramalho Ortigão escreve no V volume de As Farpas:
Lisboa prepara neste momento a festa de Natal.
Grandes rebanhos de perus, enrabeirados de lama, espalham no macadame as suas manchas movediças e escuras, de reflexos de aço adornadas de florescências brancas e vermelhas dos moncos. Pessoas idóneas pastoreiam esses galináceos, guiando-os a golpes de cana por entre as rodas dos trens e por entre as pernas dos viandantes. Na compra destes perus convém escolher os mais teimosos: à força de Cana são esses os mais tenros.
A minha avó não comprava o peru no Martim Moniz.
Um tio materno, operário da CUF no Barreiro, vivia no Lavradio, quando o Lavradio, até à Baixa da Banheira, era uma enorme quinta a perder de vista.
Uma casa térrea, com horta e capoeiras, e o peru era ali criado a bolota.
Perto do Natal, eu e o meu pai, íamos ao Lavradio buscar o peru.
Na Estação Sul e Sueste, hoje desactivada, apanhávamos o barco para o Barreiro, ainda movido a carvão.
 No Barreiro apanhávamos a camioneta para o Lavradio.
Barcos e camionetas eram escassos, com longuíssimos  intervalos de espera.
O peru, patas amarradas, viajava numa alcofa.
Trazíamos também alfaces, tomates, cebolas e tangerinas que exalavam um perfume único e embalador.
Nisto se perdia toda uma tarde.
Chegados a casa, a minha avó embebedava o peru com aguaradente, e começava os preparativos para o tempero e o recheio.
Depois era a grande festa do jantar de Natal.
Nunca, mas mesmo nunca, voltei a comer um peru como o que a minha avó cozinhava pelo Natal.
Ainda fiz algumas tentativas, mas já nada era igual.
Nem os barcos a carvão, nem a camioneta da carreira e o o meu tio deixara de ter a horta e as capoeiras.
O cimento tomou conta de tudo e hoje o Lavradio, e tudo à volta, é o que é: betão e mais betão.
Depois chegariam os obsoletos perus de plástico e nunca mais, no jantar de Natal, o peru assentou praça como festim.
Tudo isto é uma doce memória, mas ao mesmo tempo amarga.
Amarga, porque, tal como poema de David Mourão-Ferreira, de que o meu pai muito gostava, se pode ler:
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio.
Assim foi.,, assim será… e o Nada há-de retomar a cor do infinito.
Legenda: perus a serem vendidos nas ruas de Lisboa. Não foi possível identificar autor/origem da fotografia.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

SARAMAGUEANDO


No ano de 1992, José Saramago, surgia como o preterido histórico do Grande Prémio de Romance e Novela, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores.

Na sua primeira edição, em 1982, Memorial do Covnento perdia para Balada da Praia dos Cães de José Cardoso Pires. Em 1984 Amadeo de Mário Cláudio foi escolhido em vez de O Ano da Morte de Ricardo Reis.Dois anos depois, Jangada de Pedra perdeu para Um Amor Feliz de David Mourão Ferreira e em 1989 era a vez de História do Cerco de Lisboa perder para Fora de Horas de Paulo Castilho.

De modo algum estão em causa as obras que foram escolhidas, simplesmente o entusiasmo que os leitores tinham para com as obras de José Saramago, não era acompanhado por grande parte dos seus pares.

O facto de Saramago ser um comunista assumido, dificultava – e de que maneira! – a possibilidade de lhe ser atribuído o prémio.

Só assim se pode compreender que O Ano da Morte de Ricardo Reis tenha sido preterido. Não vale a pena contar histórias para embalar meninos.

Na entrada a uma entrevista a José Saramago, publicada no JL de 5 de Novembro de 1991, José Carlos de Vasconcelos escrevia:

Vem aí “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” que vai dar muito que falar.

O tema era mais que polémico e ia provocando debates apaixonados.

O que não se julgava possível era que um devoto salazarista, um saudoso da Inquisição, armado em Subsecretário de Estado da Cultura de um dos governos do auto-denominado social democrata Cavaco Silva (o professor Cavaco é, pura e simplesmente, na mais exacta e sombria acepção do termo – um reacionário, tal como, na altura, escreveu Ruben de Carvalho), cortasse o romance de Saramago da lista dos nomeados para o Prémio Literário Europeu.

Mas isso é uma outra história e agora o que nos importa é referir que, chegados a 1992, começava a ser impossível José Saramago não ser o escolhido para o prémio da Associação Portuguesa de Escritores.

O Público, de 23 de Junho de 1992, dava, nestes termos, a notícia.

José Saramago ganhou o Grande Prémio de Romance com “Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Já se sabia desde a semana passada, mas a liturgia existe para ser cumprida: a APE anunciou ontem o feito.

O JL titulava:

À quinta foi de vez. Vitória no público e 3-2 no Júri.

Não existiu unanimidade no júri, constituído por Fausto Lopo de Carvalho, Maria Lúcia Lepecki, Salvato Trigo, Fernando DaCosta e Vitor Viçoso.

Lepecki e Salvato Trigo votaram em Évora e os Dias da Guerra de Mário Ventura.

A resposta de José Saramago não se fez esperar:





Vistas as circunstâncias – as recentes e as antigas -, e para não juntar o choque de uma recusa ao escândalo de uma exclusão, aceito este prémio sob condição de o seu valor ser usado na compra de autores portugueses contemporâneos a enviar aos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) que estejam interessados em os receber.
Peço à APE, ao Pen Clube e à SPA o favor de se encarregarem da selecção das obras e do seu encaminhamento…

Nem mais!

Nesta altura, o livro já ia na sua 5ª edição, mais de cem mil exemplares vendidos, a tradução castelhana estava no top de vendas, e preparavam-se as traduções para italiano francês e inglês.

O jornalista Joaquim Vieira, comentando a atribuição do prémio:

Depois de tantas expectativas falhadas, o prémio APE para Saramago chega em total inversão de valores: já não é o escritor que se torna conhecido ao ser distinguido pela Associação; é esta que projecta o próprio nome à custa do escritor.

Mas era impossível não juntar, à satisfação da atribuição do prémio, a desilusão, a tristeza, a tremenda injustiça por  O Ano da Morte de Ricardo Reis, não ter sido, em devido tempo, o livro escolhido.


Legenda: capa da tradução grega de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, retirada do site da Fundação José Saramago.

Título do JL de  23 de Junho de 1992

domingo, 29 de janeiro de 2012

JANELA DO DIA


Por norma os fins-de-semana são dias parcos em notícias, os políticos os fala-barato, vão arejar e, apenas ficam as outras notícias, normalmente mortes outras tragédias, por vezes, um acontecimento feliz.
É um tempo propício para colocar à janela o que, nos últimos dias fui lendo pela concorrência.
Sara Figueiredo Costa, no seu Cadeirão Voltaire, faz uma bonita evocação, sobre o fecho da Livraria Portugal:

Nunca vi Natália Correia ao vivo, mas tenho dela uma imagem muito nítida, de cigarro na ponta de uma enorme boquilha, cabelo armado e os gestos fulgurantes a pontuarem uma fala segura e sonora. Encostada ao balcão da Livraria Portugal, Natália Correia perorava sobre a poesia portuguesa, enquanto os clientes da casa, muitos deles escritores, ouviam e rebatiam, ou fingiam não ouvir. É uma memória muito definida, tão definida que não é minha, apesar de integrar sem risco de falsidade maior do que tantas outras o meu acervo pessoal de memórias. É uma memória da minha mãe, que eu ouvi tantas vezes e que imaginei com tanta dedicação que passou a ser minha. E era uma memória da minha avó, caixa na Livraria Portugal durante muitos anos. Na verdade, a Livraria Portugal, onde só entrei mais tarde, quando comecei a vir para Lisboa sozinha (é uma espécie de ritual de passagem suburbano, vir a Lisboa de modo independente), forneceu-me muitas memórias como esta, episódios a que não assisti mas que se colaram ao meu imaginário sem nenhuma diferença relativamente àquilo que se consideram memórias realmente experimentadas: Vergílio Ferreira escolhendo livros na estante, David Mourão-Ferreira parando para respirar, entre livros, o sossego que não lhe dariam as suas muitas pretendentes, os recados que se deixavam, a minha tia trabalhando durante um tempo no andar de cima, aquele que tem as janelas para a rua, os livros que pediam à minha avó para esconder debaixo do balcão, não fosse a PIDE aparecer para os apreender, e que mais tarde eram passados a outra pessoa, a minha mãe, miúda, a espreitar as novidades, abrindo os livros com todo o cuidado e lendo de uma ponta à outra os volumes que não podia comprar, as discussões que por vezes estalavam entre gente das letras, umas vezes motivadas por barricadas estético-literárias, outras por histórias de cama mal contadas. Quando eu comecei a ir à Livraria Portugal já nada disto era assim, claro. A minha avó estava reformada, a minha tia trabalhava noutro sítio e a minha mãe já podia comprar alguns livros; Natália Correia aparecia na televisão, num programa chamado Mátria, David Mourão-Ferreira aparecia com o seu cachimbo na mercearia de uma aldeia onde eu também crescia, e a PIDE, felizmente, já tinha acabado há muito, entre tanques cobertos de gente e cravos que também hão-de ter passado pela Rua do Carmo. Agora, setenta anos depois de abrir as portas, a Livraria Portugal vai ter de fechá-las. A notícia vem em vários jornais, nomeadamente no i, onde António Machado, funcionário da livraria há 40 anos, explica que a situação é “insustentável com as grandes alterações no mercado livreiro, a quebra das vendas e a insuficiência de meios para pagar as despesas”. E diz mais: “Os livros vendem-se hoje em todo o lado: nas grandes superfícies, na internet, nos correios, a preços e com condições que não podemos acompanhar“. Suponho que isto seja o progresso, o mundo a funcionar, o inevitável e blá, blá, blá. Pela minha parte, estou muito triste.

sábado, 19 de novembro de 2011

POSTAIS SEM SELO


Para atrasar a morte vamos abrir a noite
com música de jazz  Percorrê-la depois

num barco de borracha   Celebrar o segredo
enforcar a memória   Descobrir de repente

Uma ilha que nasce dentro do teu vestido

Chamar-lhe madrugada    Adormecer contigo

 David-Mourão Ferreira