Mostrar mensagens com a etiqueta Comércio tradicional. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Comércio tradicional. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


 Crónica publicada no Diário de Notícias de 8 de Julho de 2018.

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

AH! SIM, O NEGÓCIOZINHO...


 Quiosque na Alameda.

Em outros dias, os preços escarrapachados não são os praticados.

Mas estamos na semana da Jornada da Juventude.

Vá de enfiar mais umas moedas no bolso.

Na baixa de Lisboa os restaurantes não aderiram ao Menú do Peregrino, apenas alguns pequenos restaurantes nos bairros populares o praticaram.

Aparentemente ninguém explicou a esta gananciosa raça de pseudos empresários da restauração que a malta da Jornada era jovens que não vinham à procura de lagosta ou bifes à Marrare.

Serão sempre uns reles e oportunistas chicos-espertos.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

CAIS DO SODRÉ 77

Para completar as “Memórias” de ontem, ficam aqui três fotografias.

A da“Livraria Anglo-Americana”, hoje está lá a “Caneças”, boutique do pão, uma fotografia do “British Bar” e outra do “English-Bar”.

Foram tiradas no mesmo dia cinzento, provavelmente no ano de 1977, mas nunca depois desse ano.

Quando José Cardoso Pires desenha para a “Expo 98” o seu “Lisboa Livro de Bordo”, já o “English-Bar” não existia. Transformara-se na cervejaria que ainda hoje lá está. Daí que, no que ao Cais do Sodré diz respeito, Cardoso Pires apenas referir o “British-Bar” e o “Bar Americano” que ainda por lá se encontra mas não é nada do que era e que de bar só ficou o nome. Situa-se em frente à “Caneças”.

Esta fotografia do “British-Bar” é de antes da remodelação que se verificou após as filmagens de A Cidade Branca de Allain Tanner.
Ponto de encontro, a qualquer hora do dia e da noite, de trabalhadores de agentes de navegação e agentes transitários, “ship-chandlers”, um pouco de tudo que à navegação, naquele tempo, dizia respeito.

O antigo dono levou o papagaio (ou arara?), bem como o relógio com os ponteiros a andarem em sentido contrário, relógio que aparece no filme A Cidade Branca.
O problema do relógio, o Silva resolveu: mandou vir um outro de Copenhague. Papagaio (ou arara?) nunca mais houve.

José Cardoso Pires no seu "Livro de Bordo":

“No British Bar os anos passam, as gerações mudam, vêm literatos, vêm contrabandistas, vêm estivadores à mistura com meninas de civilização, mas o espírito e a cor local mantêm-se inconfundíveis. Tem um sabor a cais sem água à vista, este lugar.”

“English-Bar” era uma sala espaçosa com maples de couro, como nos velhos clubes ingleses, um ambiente mais calmo, mais respeitável que o do “British”. 

Para simplificar, dizer que era ali que parava o patronato das agências de navegação.

Também tinha balcão e no bengaleiro estava pendurada uma bolsa com tacos de golfe.

Texto publicado em 5 de Junho de 2010.

CAIS DO SODRÉ 79

"Bar Americano" era diferente do “British” e do “English”.

Uma sala pequena, um balcão de madeira, também paredes de madeira. Um bar de silêncios.

Como todos os bares do Cais do Sodré, a clientela era constituída por trabalhadores de agências de navegação e similares.

Uma conclusão simples: dos três bares o “British” era o bar popular, o bar de toda a gente.

E para que o retrato fique um pouco mais composto, voltamos ao “Livro de Bordo” do José Cardoso Pires, ele que um dia disse que um “barman” é um comandante do prazer:

Não há dúvida, os bares são realmente navegações pessoalíssimas. Do outro lado da rua tenho “O Americano” que, como figura de proa, não ostenta um relógio de intrigar mas um possante urogalo embalsamado num altar de parde. Em tempos foi um balcão de suevos, daneses e britânicos, funcionários, todos eles, das agências de navegação do Cais do Sodré, e aqui, hoje que o dia está de feição, torno a tropeçar noutro poeta: Pessoa. O Pessoa, sempre o Pessoa, o Pessoa, nosso fadário. Também ele, nos gloriosos anos trinta, frquentava “O Americano” às horas litúrgicas dos “morning drinkers”. Navegações é o que eu digo. Nos bares do Cais do Sodré ninguém está livre de apanhar com uma porta à deriva pela proa.

Hoje “O Americano” perdeu lastro, balança à tona dum passado de bebedores em inglês, reflectidos no “gin-tonic” ou no “sling”. Está quase em seco, como se vê, sem esses navegantes de balcão; e a emoldurar a sua solitude exibe calendários de “shi-chandlers” com navios de grande curso a fumegarem nas paredes. 

José Cardoso Pires sentado a uma mesa do "Bar Americano". Desconheço a data da fotografia, que foi retirada de um número da revista "Ler" editada pelo "Círculo de Leitores."

Texto publicado em 4 de Junho de 2010.

AH! SIM, AS LOJAS COM HISTÓRIA...


 Tive sempre o pressentimento de que as Lojas com História era apenas uma ideia, talvez se possa dizer uma ideia interessante. mas apenas isso ou histórias para camelos como diria o Fernando Assis Pacheco

Quando chegasse a especulação do imobiliário, adeus lojas, adeus história, adeus ideias interessantes, adeus Lisboa.

Chegou agora a vez do Bar Americano, ali ao Cais do Sodré.

Do site das Lojas com História, retiro este paleio:

 «O Bar Americano foi inaugurado em 1920 no coração de uma zona ribeirinha conhecida pelos seus bares. Rapidamente assimilou o ambiente multilíngue e multiétnico - marinheiros de todas as partes do mundo, turistas (mas menos do que hoje), diversos artistas e gente da noite, seja por profissão ou profissão. Dos muitos milhares de convidados que já recebeu, a memória tende a ficar naqueles nomes atemporais, como os dos escritores José Cardoso Pires e Alexandre O'Neill, que aqui sentavam e escreviam, festejavam ou apenas passavam o tempo /noite.

O Bar Americano é um dos três bares de influência anglo-saxônica da região - entre Corpo Santo e Cais do Sodré. Cardoso Pires, frequentador destes bares, escreveu numa crónica intitulada De bar em bar.»

 Não ponho mais paleio porque o resto até refere que o Bar Americano tem uma enorme tela de televisão que atrai numerosos espectadores em dias de jogo de futebol.

 O Americano era um bar de silêncios, cuja única música que se ouvia, era o tilitar do gelo nos copos.

Foi aí que ouvi que, em conversa pacata e feliz, a descrição do que é um barman: «o que ouve é como não tivesse ouvido, o que vê é como não tivesse visto.»

 Fechou um dos bares mais antigos de Lisboa e que, neste ano prestes a findar, completou 100 anos.

Naquele enorme quarteirão nascerá mais um Hotel.

Deixo-vos a seguir umas memórias de tempos que já foram, notáveis tempos.

 São lúgubres estes tempos de crise pandémica.

Estamos a tentar sairmos vivos, mas o galho está difícil!

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

CHÁ NUM ABRIL CHUVOSO


Assinado por Paulo Lourenço, o Jornal de Notícias publicou um trabalho sobre o fechar de portas da histórica Casa Pereira no Chiado, intitulado. «O adeus à casa de onde saiu o chá que acalmou Marcelo Caetano».

Respiga-se este pormenor:

«Sorridente, Lemos pai - natural da zona de Vila Real, apesar de desde muito novo radicado em Lisboa - recorda as vivências ao balcão. Questionado sobre se assistiu ao cerco de Salgueiro Maia ao Quartel do Carmo (que fica a uns escassos 300 metros), no 25 de Abril de 1974, acena negativamente com a cabeça, mas revela um pormenor inédito acerca desse dia: "Fechei a casa e fui-me embora. Mas antes ainda atendi um militar da GNR que veio cá buscar um chá para o presidente do Conselho, Marcello Caetano se acalmar".»

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

OLHARES

´
A minha vida profissional desenrolou-se, primeiro numa empresa alemã de import-export, que fugiram logo após o 25 de Abril sem pagar um chavo aos trabalhadores, depois numa agência de navegação.

Ambas as empresas tinham escritórios no Cais do Sodré.

Durante todo esse tempo, tinha o privilégio de subir e descer o Chiado.

Assisti a todas as transformações que a zona foi sofrendo ao longo dos anos, e nesse lapso de tempo está o trágico incêndio que, naquele 25 de Agosto de 1988 provocou o drama que não mais esquecerá.

Soube agora que a Casa Pereira, na Rua Garrett nº  38, tem os dias contados

Uma loja pequena, mercearias finas, aberta desde 1930.

Volta e meia entrava mesmo que não tivesse nada para comprar. Deliciava-me com o aroma do café, cujos lotes eram preparados pelos trabalhadores e o olhar pelas prateleiras repletas de bolachas artesanais, chás, chocolates, garrafas de licores e Vinho do Porto.

Naturalmente, a Casa Pereira fez parte dos 63 estabelecimentos que em 2016 formaram o primeiro grupo do programa Lojas com História.

Muitos já fecharam portas ou mudaram de ramo.

Lê-se no sítio da Câmara Municipal de Lisboa, que Lojas com História é um

«Projeto que surge no âmbito de um programa criado em Fevereiro de 2015 e que tem como prioridade trabalhar com o comércio tradicional e histórico da cidade de Lisboa no sentido de, por um lado, preservar e salvaguardar os estabelecimentos e o seu património material, histórico e cultural, e por outro lado, dinamizar e reativar a atividade comercial, essencial para a sua existência. É movido por um sentido de urgência na proteção deste património, sabendo que nele reside uma parte relevante da identidade e caráter da cidade e que é, ao mesmo tempo, um importante mecanismo social e económico para o desenvolvimento da cidade.»


Mas os donos da Casa Pereira vão fechar portas no final do ano.

As exigências actuais do negócio não se compadecem com romantismos.

Já está tudo apalavrado e a loja vai ser vendida mas, tanto quanto se sabe, não se manterá no ramo.

«Antigamente, 80% eram clientes habituais, agora quase todos os clientes são turistas e gente de passagem.»

Por Dezembro, os chocolates para os netos ainda serão comprados na Casa Pereira e tentarei dar-lhes conta do significado que isso encerra.

Tentarei…

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

OLHARES


Gosto do nome: «La Gondola».

O meu pai apreciava lá ir jantar nas noites de calor.

Ficávamos sentados nas mesas por debaixo das buganvílias, logo no lado esquerdo quando se entra a porta do chalé.

O edifício do restaurante situa-se numa das últimas vivendas que, noutros tempos, enchiam a Avenida de Berna, a Avenida da República.

O restaurante estava de portas abertas desde 1943.

Fecharam no dia 6 de Agosto por mor de uma permuta de terrenos entre a Câmara Municipal de Lisboa e o Montepio Geral que ali vai construir a sua nova sede.

«La Gondola» não conseguiu entrar no capítulo do Programa Lojas com História da edilidade lisboeta.

Por aqueles lados, a Câmara quer que haja um enorme centro de escritórios e, para disfarçar o cimento, projectam um pedaço de jardim.

Dão-lhe o pomposo nome de renovação da Praça de Espanha.


Será mais um prego, grande, mesmo grande, espetado na identidade da cidade.


Recordo o último jantar que tivemos com o meu pai em «La Gondola».

Era Agosto e à mesa também estavam a Aida e o Miguel.

Abancámos na esplanada e por ali ficámos a derreter garrafas geladas de Ponte de Lima Branco. Lembro que o meu pai comeu pescadinhas fritas com arroz de pimentos.

Quanto aos comes dos restantes, a memória não responde.

Naquele tempo, e este jantar foi há mais de trinta anos, a cozinha de «La Gondola» era caseira, a preços nada exorbitantes.


Ainda os «chefs» não tinham aterrado para destruir a cozinha portuguesa e fazer as delícias (?) de uma série de gente a armar ao chico-rico-esperto, que não sabe o que é comida a saber a comida e faz de um de um almoço, de um jantar uma sequela de exibicionismo e fanfarronice.


Gente que só entendem a comida quando espetam na carta coisas como estas:

-          Cação da costa alentejana com crosta de queijo de Serpa e coentros sobre migas de feijão manteiga
-          - Osso buco de borrego do norte alentejano sobre ragout de batata e ervas finas
-          Tataki de atum marinado sobre tártaro de tomate com escabeche de legumes e seus sucos
-          Entrecosto de porco preto marinado servido com migada de batata e azeitonas de Moura
-          Figos da horta com creme de ovos perfumados com licor de Borba e amendoas torradas
-          Bacalhau confitado em azeite a 70º sobre rissotto de ameijoas com coentros e espargos verdes
-          Salmão fumado com molho de iogurte perfumado com poejos frescos e rosti de batata
-          Polvo assado no forno em vinho tinto alentejano com batatinhas novas e tomate assado
-          Frango do campo recheado com camarão e grelos de couve sobre talahrim com tomate xuxa e oregãos frescos
-          Pato laqueado e fumado e figos assados em Cabernet Sauvignon e crocante
-          Pregado com cerejas caramelizadas e presunto de porco preto
-          Carre de borrego em crosta de gengibre e molho de quatro especiarias

-          Creme de ervilhas com ovos de codorniz escalfados e azeite do chouriço


Naquele tempo, a cozinha do «La Gondola» era obra de gente autodidacta, sem frequência de escolas de hotelaria, mas que guardavam dentro de si os cheiros, os modos de fazer, de avós e mães, mantendo a qualidade, a simplicidade de fazer como padrão indesmentível.

Um restaurante à antiga, como dizia o meu pai.

Já em tempos recentes - mais de cinco anos? Talvez! - passei pela «La Gondola», era um tarde-pós-almoço de Janeiro, fria  e chuvosa, para tirar umas fotografias, antevendo  que «La Gondola» não permaneceria por muito mais tempo.

A ementa já não era bem como quando lá íamos com o meu pai.

Naquele dia, rezava assim:

Caril de gambas 20,50 euros
Bifinhos de vitela 19,50 euros
Linguine Nero Neptuno 18,50 euros
Sopa da Família 3,00 euros
Marquês de Borba Branco 16,50 euros
Quinta do Caleiro Reserva Douro 18,50 euros
Romã em ninho de casquinha de laranja 4,00 euros
Peras bêbadas 4,00 euros.

Nada a ver com «La Gondola» dos outros tempos.


Terá sido esta «La Gondola» dos tempos recentes., que neste Agosto findou.

Ficam as memórias.

Um destes dias, saberemos que o camartelo iniciou a destruição do lindíssimo chalé.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

OLHARES


Aqui ainda é O Toni dos Bifes.

Um dos restaurantes mais antigos de Lisboa, na Rua Praia da Vitória, junto ao Saldanha.

Carlos de Oliveira morava no prédio ao lado de O Toni dos Bifes.

Almoçava por lá. Depois o Augusto Abelaira ia ter com ele, ou almoçava também, e depois iam para o Monte Carlo onde continuavam a aparecer mais escritores, pintores, cineastas, artistas de teatro e cinema.

Quando ainda havia cafés.

Os cafés eram locais privilegiados para as tertúlias.

 Locais de convívio e de escrita.

Augusto Abelaira terá sido o escritor que mas utilizou os cafés para a escrita dos seus romances.

Era vê-lo mergulhado na escrita/leitura de papeis, cachimbo em riste – podia-se fumar nos cafés, pois então!

Na Cister, na Alsaciana, na Coimbra, que ainda existem.

A primeira fase consiste em escrever, escrever, porque as fases seguintes, de reescrita e montagem, têm de ser em casa. Seria preciso andar com uma mala e espalhar muitos papéis.

Mais ainda:

Como eu escrevo nos cafés, o que eu precisava era que houvesse cafés para, durante a manhã, estar a escrever. Como os cafés vão desaparecendo, a possibilidade de escrever é cada vez menor. Quando todos os cafés tiverem desaparecido de Lisboa eu encerro a escrita. Deixo de escrever, isto é, vou morrer, quando fechar o último café em Lisboa onde possa escrever.


Jorge Silva Melo foi um assíduo frequentador dos cafés de Lisboa.

O seu livro de memórias No Século Passado está cheio de referências:

E era nos cafés, abertos desde manhã cedo e até de madrugada, abertos aos feriados e aos domingos que tudo isso se ia passando.

Também os Dias Comuns do José Gomes Ferreira estão cheios de referências dos cafés que frequentava com os escritores seus amigos e camaradas, cafés que iam fechando – naquele tempo com destino certo de dependências bancárias - e obrigava a arranjar outro refúgio.

Tal como no 4º volume desses Dias Comuns, José Gomes Ferreira conta:

6 de Janeiro de 1968

A Bel comunicou-me este triste recado do Carlos de Oliveira: o café Bocage, nosso ninho de longos anos Avenida da República vai fechar amanhã.

28 de Maio de 1968

Fechou o Martinho.
Que se passa em Lisboa, onde já se respira tão pouco?
O Abelaira telefonou-me, alarmado, a dar-me a notícia fantástica.
- Mas será verdade’ – PERGUNTEI, INCRÉDULO.
- É… - Disse-me o Magalhães Godinho… A notícia vem no jornal da tarde.
Silêncio inquieto diante desta mutilação do fumo do passado.
- E agora?
- Talvez o Paladium  nos restauradores.
- Pois seja o Paladium!


E nisto de cafés, no fechar da página, impossível não ir buscar o João César Monteiro em Uma Semana Noutra Cidade:

São 10 da noite. Estou a escrever no Monte Carlo, onde só há homens. Precisava de apanhar o Fernando para lhe cravar umas aguardentes. É meu desejo estar completamente grosso por volta da meia-noite e com o espírito propenso à obscenidade. Se arranjasse 100 paus ia às putas. Deve ser fabuloso ir às putas na noite de Natal. Duvido é que haja alguém que esteja para me aturar a bebedeira por 100 paus.
"Não estamos em Itália, não há grappa alla ruta, não há comoções nocturnas da Zé, não há nada. Nem sequer o direito ao vómito. Não há nada, mas ainda há vida. Ainda estrebucho, minha senhora. Ainda digo merda e embarco no tudo ou nada do amor. Ainda me jogo inteiro no real e no possível, no confronto entre o que sou e o que podia ser. Ainda simpatizo (ao longe é certo) com as lutas históricas do proletariado de todo o Mundo.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

OLHARES


Gosto de tascas.

Fujo a sete pés de restaurantes a armar ao pingarelho.

Gosto de comida a saber a comida e não essas paneleirices a que chamam nouvelle cuisine.

Por exemplo:

O que é um caldo verde com esfericação de chouriço e couve frita?

É gozar com o pagode.

Mas há pagode que dá o rabinho por estes disparates.

Há dias fechou uma das boas tascas de Lisboa, o Palmeira.

Nas Escadinhas do Duque havia a Casa Transmontana.

Penso que ainda tem portas abertas mas, segundo me disseram há tempos idos, com outras comidas e outras frequências.

A Transmontana era poiso de escritores e jornalistas.

Entrava-se e podíamos encontrar o Afonso Praça, o Fernando Assis Pacheco que, então,  trabalhavam no República, o Eduardo Guerra Carneiro que ia lá pelas alheiras e as batatas às rodelas.

Também o José Cardoso Pires.

Tudo gente morta.

A última vez que o vi por lá, o José Cardoso Pires comia uma morcela com grelos, acompanhada de meia garrafinha de Dão, que não acabou porque entretanto desceu o whisquinho da ordem.

Não sei em que tempo esta fotografia foi tirada, mas terá sido o tempo-hiato entre o que tinha sido e o que a seguir veio e que não sei dizer o que é.

Talvez as pernas, quando umas lágrimas de sol romperem os dias cinzentos, se encaminhem até lá.



E, nas Escadinhas do Duque, ainda existirá o Solar dos Galegos, onde bebia, com os tipógrafos do República, penaltis de vinho tinto a acompanhar rodelas de chouriço.

E aquela maravilhosa tasca esquina da Rua da Trindade com o Largo do mesmo nome, antes da Livraria e do Expreso-Bar e de que, nesta fotografia se vislumbra a porta?


E aquela capelista-vende-tudo na esquina antes de se descer as ditas escadinhas por onde passava o Duque de Cadaval?

Fotografias tiradas no mesmo dia-sem-data da Casa Transmontana.

Passos velhos de uma certa Lisboa.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


 Há em Lisboa um pequeno número de restaurantes
 ou casas de pasto em que, sobre uma loja com feitio
 de taberna decente se ergue uma sobreloja com uma
 feição pesada e caseira de restaurante de vila sem
 comboios. Nessas sobrelojas, salvo ao domingo
 pouco frequentadas, é frequente encontrarem-se
 tipos curiosos, caras sem interesse, uma série de
 apartes na vida 

                 Fernando Pessoa em Livro do Desassossego                                                

Ao fim de 61 anos o Restaurante Palmeira, na Rua do Crucifixo, fechou portas na antevéspera de Natal.

Não mais as abrirá.

A câmara vendeu o prédio em hasta pública e os novos donos deverão ter em perspectiva a construção de um hotel.

É o que está a dar na baixa lisboeta.

O Palmeira era um dos últimos tascos de Lisboa onde se podia usufruir daquilo que se chama comida caseira.

Um balcão, como deve ser um balcão dum tasco, comprido, à direita de quem entra.

Comida a saber a comida.


Uns fabulosos pastéis de bacalhau, dobrada, cozido à portuguesa, feijoada à transmontava, mão de vaca com grão, favas à portuguesa, ervilhas com ovos e, todos os dias, um prato diferente de bacalhau.

Sabe-se que há, pelo menos, cem maneiras de cozinhar bacalhau.

No Verão, os caracóis.

E sempre o grito do Helder, citando Luiz Pacheco: caracóis, dizem, faz tesão.

A minha memória do Palmeira é mais de antes do 25 de Abril.

Ali aportava, mais o Helder Pinho, o Armindo, o Zé Ferraz, mais uns quantos, para o petisco e para elaborar planos para o derrube da ditadura.

Planos sem-fim.


Apenas romantismo e cavaqueira.

Para derrubar a ditadura, outros tiveram que meter mãos à obra.

Mas, naquelas mesas, ficaram muitas memórias, camaradagem, sonhos.

Jorge Sampaio, enquanto presidente da Camara, amiúde almoçava no Palmeira e a clientela metia estudantes das Belas Artes, magistrados do Tribunal da Boa Hora, trabalhadores de diversas profissões, ricos e pobres, mas tudo gente de bom gosto, que sabem o que é comer e beber de uma maneira que cada vez acontece menos em Lisboa.

E não só!


Passei por lá no findar do dia de encerramento.

Cheio que nem um ovo, à porta, em trabalhos de preparo, uma camara de reportagem de uma qualquer televisão.

Entrei só para fazer os bonecos que ilustram o texto.

Não me apeteceu comer, nem beber.

Odeio despedidas.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

OLHARES


A nostalgia dos velhos bairros, dos velhos vícios, dos velhos cheiros, das coisas que vão terminando.
Esta é uma daquelas lojas que quase desapareceram.
Esta ainda resiste no Beato.
Por mais incrível que pareça, praticamente vende de tudo.
É só pedir.
Se não tiverem, logo indicam onde podemos encontrar.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

FADO PARA SUECOS


Sim, há os centros comerciais, mas troco-os pelas lojinhas de bairro, o chamado comércio tradicional, que deveria merecer, de todos nós, uma maior atenção e apoio.
Na minha rua existe a Drogaria do Sr. Carvalho.
Mas vende tudo, tudo mesmo.
O Sr. Carvalho e a mulher a Elisa, são gente de uma simpatia desarmante. Têm de tudo, mas se não tiverem tratam de arranjar: «Passe por cá amanhã!».
Tenho um gosto especial em ir lá, mesmo que não tenha nada para comprar.
Dizer bom-dia, encontrar gente que só ali encontro. Saber da saúde de vizinhos de rua, gente que, de repente, deixámos de ver e receamos o pior.
À porta da loja o Sr. Carvalho tem uma pequena estante com livros, DVDs, cassettes de video, coisas várias.
Coisas que os clientes lhe dão e o Sr. Carvalho disponibiliza.
Cada um paga o que entender e fica a saber que esse dinheiro o Sr. Carvalho destina-o a quem dele necessita.
Foi lá que encontrei esta verdadeira enciclopédia do Fado.
Pena estar escrita em sueco.
Mas como gosto de Fado não resisti a trazer.
Não percebo mas, para mim, o livro vale pelas fotografias.
Perece-me algo de bem interessante e dá para perceber que além do Fado o autor aborda também Adriano Correia de Oliveira.
Será que existe uma tradução deste livro?
Por mera curiosidade irei deixar algumas das fotografias do livro.

domingo, 13 de setembro de 2015

OLHARES


Descer a Rua da Misericórdia, antiga Rua do Mundo, um nome muito mais catita, ainda faltarem largos passos e sentir o cheiro do café moído no velho moinho vermelho em cima do balcão esquerdo de quem entra, de A Carioca.

Uma das casas de comércio mais antigas de Lisboa.

Praticamente estão desaparecidas as casas especializadas na venda de chás e cafés.


O sítio da Camara Municipal de Lisboa, diz sobre A Carioca:

Existe desde 1936 tendo sido vendida, em 1993, à Torrefação Negrita.
Na fachada da loja, duas montras vermelho vivo são emolduradas por mármore negro. No interior, sobre o balcão, encontramos a balança e moinhos tradicionais também de um vermelho garrido, e ao lado, uma enorme máquina de moagem com mós de pedra. Nas prateleiras dos armários em madeira, encontramos chá avulso e embalado, chocolates, rebuçados, e acessórios para confecionar café. 


Ao fundo grandes painéis em vidro evocam o emblema da casa - a carioca (negra brasileira) segurando uma chávena de café fumegante.
A Carioca ocupa-se do café desde o grão verde, tratando da torragem, até à moagem e confeção de lotes. Alguns puros ganharam fama – o Palace, o Presidente, o Tavares.
Quanto aos chás, tem cerca de 80 variedades entre os clássicos e os aromatizados, como por exemplo o Rosas da China.

sábado, 1 de agosto de 2015

TRANSUBSTÂNCIAS


À porta da tasquinha onde compro o tabaco
há sempre um rancho d’homens do Benfica.
Julgo até que cobram quotas para ficarem ali
a discutir estratégias e treinadores.
Quando entro, a meio da noite, a discussão
suspende-se e eles põem-se a tossir e a fazer tempo.
A velhota tem um ferro comprido
com que retira do alto das prateleiras
o maço de cigarros.
Existe uma luz fraca que deixa ver
as  caixas de bolachas e as garrafas de anis
cobertas de poeira.
Não sei porque perturbo aquele comício
de velhos reformados e jovens de blusão
que pousam sobre mim os seus olhos de somo de modo sobranceiro.
Sempre que quis fixar um rosto
ouvi  uma gargalhada ou murro sobre a pedra
das mesas com círculos de vinho:
não ando de sotaina pelas ruas
e o cabeção não me aperta o pescoço.
Começo a decorara os nomes desses apóstolos
que passam entre si uma hóstia
maciça e cobiçada.
E sei que um dia vou entrar naquela Tasca
e em vez de pedir o maço do costume
comungarei também a última jornada.

Armando Silva Carvalho

Legenda: fotografia de Valter Vinagre tirada daqui.  

quarta-feira, 15 de abril de 2015

CERVEJARIA DA TRINDADE


Por uns santos trinitários
foi fundada esta abadia
depois maçons libertários
fizeram da noite o dia

Um eléctrico doente
de amarelo-sulfamidas
avança com grandes dentes
e propósitos suicidas

pela calçada sebenta
de gasolina barata
pneumático e arrabenta
um alfarrabista escapa

ao som dos quatro elementos
água terra fogo e ar
e velhos jornais cinzentos
começam a navegar

com a cultura nas velas
e um barril a estibordo
com cotão nas entretelas
grandes histórias a bordo

Aqui de quatro canecas
dez reputações se fazem
É o espírito em cuecas
que os terramotos arrasem

Como o que arrasou o Carmo
benedictino e ogival.
Desgraças, sabiás e fado:
cervejas de Portugal

José Carlos González em Lisboa e Outros Sapatos


terça-feira, 21 de outubro de 2014

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Na Praça da Figueira existe o Hospital das Bonecas.
Na Rua Palmira nº 35-C encontramos o Hospital dos Candeeiros.
Restauração e venda de candeeiros antigos.
Existe também todo o tipo de abat-jours em louça e não só.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Diferente era a cidade antes de ser invadida pelo pechisbeque dos Centros Comerciais.

Este anúncio da Discoteca Melodia e foi publicado no jornal A Voz de 12 de Maio de 1967.

Antes do incêndio que destruiu o Chiado, contavam-se cinco discotecas.

Na Rua do Carmo, a Melodia, a Universal e a Discoteca do Carmo.

Na Rua Nova do Almada, a tradicional Valentim de Carvalho e mais tarde, um pouco mais abaixo surgiu a Strauss.

Pelo menos duas vezes por mês fazia uma visita a estes principados.

Nem sempre para comprar mas para ter o prazer de olhar os vinis e andar á cata de novidades, ou uma qualquer raridade.


 Pensando um pouco, a Melodia terá sido a loja onde comprei mais discos, mas foi na Discoteca do Carmo que fiz as melhores compras.

De uma lembro-me perfeitamente: o LP que regista a gravação de Morte e Vida Severina, auto de João Cabral de Mello Neto, música de Chico Buarque, comprado num qualquer tempo do Natal de 67.

E não foi pechincha, custou uma nota preta.

Depois do incêndio, a Melodia ainda abriu uma loja quase no mesmo local da anterior, se bem que em moldes diferentes, mas os tempos eram outros.

Um pouco mais acima o tubarão Fnac abria portas no Centro Comercial dos Grandes Armazéns do Chiado, a Valentim de Carvalho, em frente, abria uma megastore no Edifício Grandella e nem a velha senhora conseguiu competir com o tubarão.

quinta-feira, 6 de março de 2014

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Cada vez se vêem menos as lojas em que se tiravam aquelas fotografias género artista de cinema, também as fotografias dos filho-quando-bebés-em-pelota, ou os miúdos mascarados em tempo de Carnaval.
As novas tecnologias têm liquidado todos esses pequenos negócios.
Este fotógrafo ainda tem portas abertas na Avenida Mouzinho de Albuquerque e com a curiosidade de ao lado da montra ter a mensagem Viva o Amor.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Que me desculpem os que se preocupam com o colesterol e afins, mas não consigo imaginar carne de porco para fritar, grelhar ou assar sem pimentão.

Durante perto de 30 anos, num talho do Mercado de Arroios, comprei massa de pimentão, fabrico caseiro que o dono, por sinal beirão, garantia que vinha directamente do Alentejo.

Verdade ou mentira o que sei é que era uma estupenda massa de pimentão.

As grandes superfícies têm liquidado o pequeno e médio comércio.

A crise tem invadido os mercados municipais de Lisboa. 

Menos vendedores de peixe, fruta e legumes, menos floristas, talhos, lojas diversas,todo um pequeno mundo que era o centro dos bairros, um corrupio de, um fervilhar de vozes, um entrecruzar de conversas.

O talho do Mercado de Arroios há uns tempos que fechou portas e deixei de ter aquela boa massa de pimentão.

Andei em experiências várias, todas elas de uma aflitiva desilusão, até que tropecei na amassa de pimentão Quinta d’Avó.

Não é bem como aquela que vinha do Alentejo mas está mesmo à porta e, até hoje, não encontrei melhor e o nome é bem bonito.

No rótulo pode ler-se: preparado à mão em Portugal.

A responsabilidade é da Marovina, Lda, com instalações na Venda do Pinheiro.

Chapeau!