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sexta-feira, 21 de novembro de 2025

VELHOS RECORTES


Foi diversa, difícil, dura, a luta de muitos de nós contra a ditadura de Salazar/Caetano.

Este recorte é da revista Seara Nova nº 1458 de Abril de 1967.

Sempre a margem esquerda: Almada, Baixa da Banheira, Seixal, Cova da Piedade.

Por ocasião do 74º aniversário da Cooperativa Piedense, diversas iniciativas registavam a efeméride e sempre a cultura. «Não há machado que corte a raiz ao pensamento», como escreveu o poeta Carlos de Oliveira e que Manuel Freire fez música e deu canção.

Além de um sarau consagrado à música popular portuguesa, apresentava-se o Coro da Academia de Amadores de Música, sob a direcção de Fernando Lopes-Graça e também poesia e música com Carlos Paredes, José Carlos de Vasconcelos, Adriano Correia de Oliveira.

quarta-feira, 23 de abril de 2025

REOLHARES


Aproveitemos Reolhares para lembrar como as Marchas, as Danças, as Canções nasceram, criadas por gente única do nosso património, gente irremediavelmente esquecida:


MARCHAS, DANÇAS E CANÇÕES


Em Setembro de 1945, a casa de João José Cochofel,  no Senhor da Serra, em Semide, juntou Fernando Lopes-Graça, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira e João José Cochofel.

Na Sala Ping-Pong, nasceu o projecto musical Marchas, Danças e Canções.

Na contra capa do disco, explica ao que vinham essas canções:

«O que são as “Canções Heróicas” que, pela primeira vez, se oferecem ao público editadas em disco? Resumidamente, podemos dizer que são obrinhas de circunstância ou, se quisermos ser mais explícitos e sem temer o uso rigoroso das palavras, defini-las-emos como canções politicamente empenhadas. Politicamente empenhadas no sentido, ou na medida, em que pretenderam contribuir – e cremos que de facto contribuíram – para a luta do povo português, a que primordialmente foram destinadas, contra o regime despótico, anti-democrático e violentador de corpos e almas que durante cerca de cinquenta anos lhe foi imposto.»


Um ministro de Salazar disse: 

«É mais perigoso um mi bemol de Lopes Graça do que mil panfletos subversivos.»

Por sua vez, José Gomes Ferreira, em A Memória das Palavras ou o Gosto de Falar de Mim, conta como, naquele ano de 1945, tudo começou:

«Nesse Verão, como lhe contasse que eu ainda não tinha encontrado poiso no campo para convalescer, Fernando Lopes Graça, propôs-me:

-Venha comigo para o Senhor da Serra, perto de Semide…

- Há por lá alguma pensão?


- Pensão propriamente dita não há. Mas a srª Rosinha costuma receber hóspedes num quartito muito limpo e com uma vista extraordinária para o Vale da Lousã… E fica a dois passos da casa do João José Cochofel, onde vou instalar-me.

Na casa de João José Cochofel juntaram-se, então, Fernando Lopes Graça, José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira.»

Novamente José Gomes Ferreira:

«Por esses dias, com tantos poetas às ordens, ensejou-se a Fernando Lopes Graça realizar um velho sonho que expôs em meia dúzia de frases sóbrias aos circunstantes. Queria letras para canções. Marchas, danças, rondas infantis, hinos… O que nos apetecesse. Contanto que não nos demorássemos muito, pois a inspiração já ardia.»

Esgotada a inspiração dos poetas circundantes, Fernando Lopes Graça implorou o auxílio a Coimbra (Joaquim Namorado, Arquimedes, Ferreira Monte) e a Lisboa, donde acudiram ao chamamento Mário Dionísio, Armindo Rodrigues e Edmundo Bettencourt.

(Texto publicado em 29 de Março de 2017)

Legenda:

Na primeira fotografia vêem-se João José Cochofel, Fernando Lopes Graça e José Gomes Ferreira.
Na segunda fotografia João José Cochofel e Carlos de Oliveira.

Fotografias retiradas da Fotobiografia de José Gomes Ferreira 

 

(Em Reolhares vamos publicando textos publicados, nos últimos 15 anos no Cais do Olhar.).

sábado, 27 de janeiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL


Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                 João Bénard da Costa

 

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

Nestas viagens, fazemos a primeira incursão pela música.

Chegou-se a pensar em Adriano Correia de Oliveira, que entrou primeiro na Casa que José Afonso.

Mas este EP do Manuel Freire é o primeiro disco das grandes músicas que fizeram todo o nosso mundo musical antes do 25 de Abril.

Lado 1

Dedicatória - poema de Fernando Miguel Bernardes

Livre – poema de Carlos de Oliveira

Lado 2

Eles - poema de Manuel Freire

Pedro o Soldado – poema de Manuel Alegre

Todas as músicas são de Manuel Freire.

Acompanhamento viola: Fernando Alvim

Rapidamente tornaram-se hinos de intervenção, cantados um pouco por toda a parte.

Principalmente Livre, com aquele seu grito, retirado do Cancioneiro Popular, de não haver machado que corte a raiz ao pensamento.

Estávamos então unidos pelo desejo de derrubar uma ditadura.

Muitas vezes direi: naquele Portugal, o canto foi o melhor, e mais eficiente, sinal de protesto.


terça-feira, 25 de abril de 2023

CONVERSANDO


 Era uma vez…

Quarenta e nove anos do 25 de Abril.

Final do poema «A Nossa Terra» do poeta catalão Félix Cucurul em  «Vida Terrena» :

«Agora, juntos, temos de construir um país

sem fome de nenhuma espécie, sem mitos,

um país de onde não seja preciso partir,

uma pátria onde tu e eu possamos sentir-nos

plenamente entre outros homens»

A «Vida Terrena» é o número 12 da excelente «Colecção Poesia e Ensaio», invenção de Vitor Silva Tavares, enquanto director literário da Editora Ulisseia.

Tradução de António de Macedo com a colaboração de Carlos de Oliveira que também escreveu o prefácio.

A fotografia no cimo do texto é um pormenor da Exposição «Carlos de Oliveira: A Parte Submersa do Iceberg», Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira, Outubro de 2017 e mostra uma reprodução do 1º volume dos Dias Comuns do José Gomes Ferreira, 16 de Maio de 1966, em que acusa a recepção de «Vida Terrena» que Félix Cucurul lhe enviara de Barcelona e que lhe trouxe à memória um rosbife, rijo como cornos, ou como diz o Zé Gomes: «duro como o fascismo».

segunda-feira, 3 de maio de 2021

OUTRO GALO NOS CANTARIA


25 de Julho de  1966

Em torno da nossa mesa habitual na cave do Martinho, o Magalhães Godinho, o Carlos de Oliveira, o Abelaira e eu discutimos futebol.

Trocámos de certas consequências grotescas advenientes desse fenómeno, sobretudo dos artigos dos jornalistas analfabetos («a selecção portuguesa possui todas as características da imaginação da raça latina» - escreve um deles).

- Em todo o caso – articula Magalhães Godinho – sejamos justos. Se os nossos catedráticos, por exemplo, encarassem a sua profissão com a seriedade que o Eusébio encara a dele, outro galo nos cantaria.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume I

terça-feira, 30 de março de 2021

LUGAR DE ENCONTRO




Além disso, o Monte-Carlo, bem perto da casa dele (onde hoje é a Zara) foi durante algum tempo um lugar de encontro que apagava tristezas. O Abril de 74 afastou-nos: o tempo era de menos, as coisas eram de mais. Os horários e os sítios (pelo menos para mim) mudaram. E para mim também, durante um tempo, a literatura e as artes solitárias apagaram-se.

Eduarda Dionísio, do testemunho sobre Carlos de Oliveira no número da Relâmpago dedicado ao poeta.

Legenda: onde hoje está a Zara, era o Monte Carlo

domingo, 12 de julho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

MARCHAS,DANÇAS E CANÇÕES

Em Setembro de 1945, a casa de João José Cochofel,  no Senhor da Serra, em Semide, juntou Fernando Lopes-Graça, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira e João José Cochofel.

Na Sala Ping-Pong, nasceu o projecto musical Marchas, Danças e Canções.

Na conta capa do disco, explica ao que vinham essas canções:

«O que são as “Canções Heróicas” que, pela primeira vez, se oferecem ao público editadas em disco? Resumidamente, podemos dizer que são obrinhas de circunstância ou, se quisermos ser mais explícitos e sem temer o uso rigoroso das palavras, defini-las-emos como canções politicamente empenhadas. Politicamente empenhadas no sentido, ou na medida, em que pretenderam contribuir – e cremos que de facto contribuíram – para a luta do povo português, a que primordialmente foram destinadas, contra o regime despótico, anti-democrático e violentador de corpos e almas que durante cerca de cinquenta anos lhe foi imposto.»



Um ministro de Salazar disse: 

«É mais perigoso um mi bemol de Lopes Graça do que mil panfletos subversivos.»

Por sua vez, José Gomes Ferreira, em A Memória das Palavras ou o Gosto de Falar de Mim, conta como, naquele ano de 1945, tudo começou:

«Nesse Verão, como lhe contasse que eu ainda não tinha encontrado poiso no campo para convalescer, Fernando Lopes Graça, propôs-me:

-Venha comigo para o Senhor da Serra, perto de Semide…


- Há por lá alguma pensão?

- Pensão propriamente dita não há. Mas a srª Rosinha costuma receber hóspedes num quartito muito limpo e com uma vista extraordinária para o Vale da Lousã… E fica a dois passos da casa do João José Cochofel, onde vou instalar-me.

Na casa de João José Cochofel juntaram-se, então, Fernando Lopes Graça, José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira.»



Novamente José Gomes Ferreira:

«Por esses dias, com tantos poetas às ordens, ensejou-se a Fernando Lopes Graça realizar um velho sonho que expôs em meia dúzia de frases sóbrias aos circunstantes. Queria letras para canções. Marchas, danças, rondas infantis, hinos… O que nos apetecesse. Contanto que não nos demorássemos muito, pois a inspiração já ardia.»



Esgotada a inspiração dos poetas circundantes, Fernando Lopes Graça implorou o auxílio a Coimbra (Joaquim Namorado, Arquimedes, Ferreira Monte) e a Lisboa, donde acudiram ao chamamento Mário Dionísio, Armindo Rodrigues e Edmundo Bettencourt.

Texto publicado em 29 de Março de 2017

Legenda:

Na primeira fotografia vêem-se João José Cochofel, Fernando Lopes Graça e José Gomes Ferreira.
Na segunda fotografia João José Cochofel e Carlos de Oliveira.

Fotografias retiradas da Fotobiografia de José Gomes Ferreira 

sábado, 27 de junho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

SARAMAGUEANDO

Se no dia em que sair daqui sair não tiver ainda (já) outro emprego, começo o ano da estaca zero, completamente desprovido. Mas continuo a ter uma grande consideração por mim mesmo.

Miguéis por baixo deste parágrafo escreveu a seguinte nota:

Bravo! seu Saramago.

Não espantam estas palavras de José Saramago.

Uma integridade, outras coisas mais, agarrada, toda uma vida, à teima dos ossos.

«Que nos importa morrer se não morrermos de rastros?»

Versos de Cantiga de Ódio de Carlos de Oliveira.

«Posso morrer de fome mas não peço esmola.»

 «Só sei que “para vivir de rodillas vale más morir de pie.»

Palavras de Mário Henrique Leiria em Depoimentos Escritos.

Foi a coragem, outras coisas mais que, em 1975, face ao despedimento do Diário de Notícias, à recusa dos seus pares e camaradas de Partido em que integrasse a equipa de O Diário, que o levou a viver de traduções, de colaborações várias, de arrancar para o Alentejo e do chão levantar um livro que o levaria, anos passados, ao Prémio Nobel da Literatura.

Apenas se conhece a versão de José Saramago sobre a sua substituição, por Natália Correia, à frente da direcção literária da editora Estúdios Cor.

Natália Correia, o que lhe sobrava em talento poético, escasseava-lhe em outros predicados que definem as pessoas.

Uma lindíssima mulher, segundo opinião corrente e variada, mas de uma vaidade cega que a conduzia a becos sem saída.

Luiz Pacheco numa das suas muitas entrevistas-descasca-pessegueiro, chama-lhe
 «degenerasda», e conta a história de que, numa das suas estadias na prisão do Limoeiro, Natália Correia teve lá em casa a mulher de Pacheco mais um filho pequeno, mas tentou assediar a rapariga, Pacheco  avança uns pormenores escabrosos e remata que, quando saiu da prisão, «esclareceu o assunto com a Natália».

Natália Correia não teve qualquer pejo em substituir José Saramago.

O contrário, certamente, não aconteceria.

Não são conhecidas as razões por que o fez mas, provavelmente, não andarão longe de motivos fúteis a roçar lampejos de inveja, porque de dinheiro não precisava Natália para viver dado que, ainda segundo Pacheco, «só «arranjava amantes velhos com massa.»


Legenda: contracapa da Correspondência entre José Rodrigues Miguéis e José Saramago.

Texto publicado em 23 de Julho de 2017

domingo, 31 de maio de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

OLHARES

Aqui ainda é O Toni dos Bifes.

Um dos restaurantes mais antigos de Lisboa, na Rua Praia da Vitória, junto ao Saldanha.

Carlos de Oliveira morava no prédio ao lado de O Toni dos Bifes.

Almoçava por lá. Depois o Augusto Abelaira ia ter com ele, ou almoçava também, e depois iam para o Monte Carlo onde continuavam a aparecer mais escritores, pintores, cineastas, artistas de teatro e cinema.

Quando ainda havia cafés.

Os cafés eram locais privilegiados para as tertúlias.

 Locais de convívio e de escrita.

Augusto Abelaira terá sido o escritor que mas utilizou os cafés para a escrita dos seus romances.

Era vê-lo mergulhado na escrita/leitura de papeis, cachimbo em riste – podia-se fumar nos cafés, pois então!

Na Cister, na Alsaciana, na Coimbra, que ainda existem.

A primeira fase consiste em escrever, escrever, porque as fases seguintes, de reescrita e montagem, têm de ser em casa. Seria preciso andar com uma mala e espalhar muitos papéis.

Mais ainda:

Como eu escrevo nos cafés, o que eu precisava era que houvesse cafés para, durante a manhã, estar a escrever. Como os cafés vão desaparecendo, a possibilidade de escrever é cada vez menor. Quando todos os cafés tiverem desaparecido de Lisboa eu encerro a escrita. Deixo de escrever, isto é, vou morrer, quando fechar o último café em Lisboa onde possa escrever.


Jorge Silva Melo foi um assíduo frequentador dos cafés de Lisboa.

O seu livro de memórias No Século Passado está cheio de referências:

E era nos cafés, abertos desde manhã cedo e até de madrugada, abertos aos feriados e aos domingos que tudo isso se ia passando.

Também os Dias Comuns do José Gomes Ferreira estão cheios de referências dos cafés que frequentava com os escritores seus amigos e camaradas, cafés que iam fechando – naquele tempo com destino certo de dependências bancárias - e obrigava a arranjar outro refúgio.

Tal como no 4º volume desses Dias Comuns, José Gomes Ferreira conta:

6 de Janeiro de 1968

A Bel comunicou-me este triste recado do Carlos de Oliveira: o café Bocage, nosso ninho de longos anos Avenida da República vai fechar amanhã.

28 de Maio de 1968

Fechou o Martinho.
Que se passa em Lisboa, onde já se respira tão pouco?
O Abelaira telefonou-me, alarmado, a dar-me a notícia fantástica.
- Mas será verdade’ – PERGUNTEI, INCRÉDULO.
- É… - Disse-me o Magalhães Godinho… A notícia vem no jornal da tarde.
Silêncio inquieto diante desta mutilação do fumo do passado.
- E agora?
- Talvez o Paladium  nos restauradores.
- Pois seja o Paladium!


E nisto de cafés, no fechar da página, impossível não ir buscar o João César Monteiro em Uma Semana Noutra Cidade:

São 10 da noite. Estou a escrever no Monte Carlo, onde só há homens. Precisava de apanhar o Fernando para lhe cravar umas aguardentes. É meu desejo estar completamente grosso por volta da meia-noite e com o espírito propenso à obscenidade. Se arranjasse 100 paus ia às putas. Deve ser fabuloso ir às putas na noite de Natal. Duvido é que haja alguém que esteja para me aturar a bebedeira por 100 paus.
"Não estamos em Itália, não há grappa alla ruta, não há comoções nocturnas da Zé, não há nada. Nem sequer o direito ao vómito. Não há nada, mas ainda há vida. Ainda estrebucho, minha senhora. Ainda digo merda e embarco no tudo ou nada do amor. Ainda me jogo inteiro no real e no possível, no confronto entre o que sou e o que podia ser. Ainda simpatizo (ao longe é certo) com as lutas históricas do proletariado de todo o Mundo.

Texto publicado em 21 de Janeiro de 2016

sexta-feira, 24 de abril de 2020

ALGUÉM LHES DIRÁ O QUE SOFREMOS...


Estas são as últimas fotografias de murais, pintados, pós 25 de Abril, nas ruas de Lisboa.

Havia mais algumas mas estão em muito pior estado do que aquelas que foram publicadas.

Há 46 anos, sem muitos o saberem, chegávamos à véspera do Dia das Surpresas.

Neste caminhar do 25 de Abril pelo tempo, há quem pergunte se o 25 de Abril cumpriu o que, por aqueles dias, foi prometido ao povo.

Há um poema de José Saramago em que se pode ler:

«O homem diz que sabe o caminho, mas não acrediteis porque o homem não sabe o caminho e há sessenta séculos que o homem diz: Eu sei o caminho mas nós sabemos que o homem não sabe o caminho e outros sessenta séculos ouviremos o homem dizer: Eu sei o caminho mas o pobre do homem não soube, não sabe, nem saberá jamais o caminho.»

Não sei das contabilidades do cumpriu ou não cumpriu.

Pelo menos sei de uma, e considero-a de uma importância tal que me faltam palavras:

O FIM DA GUERRA COLONIAL!

Lembram-se das palavras de morte que o botas-ditador-de-santa-comba
nos lançou?

«A Pátria não se discute, defende-se!»

Mas qual pátria?

Toda uma juventude serviu de carne para canhão para defender o que nem sequer era nosso.

O Jorge de Sena tem um poema, simplesmente arrepiante, que marca o quanto foi possível aqueles ditadores de pacotilha terem resistido tanto tempo:


«Uma vez eu, chegando a Portugal
após muitos anos de ausência minha e alguns
de guerras africanas, encontrei uma vizinha
muito estimável que era casada com
um operário categorizado e antigo republicano.
O filho dela estava nas Africas, arriscando
a vida dele e a dos outros em defesa
do património da pátria de alguns (muito mais
que das gerações brancas que vivem nas Áfricas).
Eu condoí-me, todo embebido de noções políticas.
E ela, com um sorriso resignado, respondeu-me:
- Pois é, mas ele está a ganhar tão bem!»

Os cinco dias a que me propus o colocar fotografias dos murais, juntando uma canção daqueles tempos, levou a que muitas dessas canções tivessem ficado de fora.

Mas o Manuel Freire não poderia faltar.

Foi ele que com a «Pedra Filosofal» divulgou o António Gedeão, o próprio poeta o reconheceu, que não teria a projecção que teve, se não fosse essa canção.

Mas irei escolher «Livre», um poema de Carlos de Oliveira que faz parte de um EP editado em 1968.



Legenda: o título é tirado de um poema de Egito Gonçalves.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Pego na folha de papel, onde o bolor do poema se infiltrou, levanto-a contra a luz, distingo a marca de água (uma ténue figura emblemática) e deixo-a cair. Quase sem peso, embate na parede, hesita, paira como as folhas das árvores no outono (o mesmo voo morto, vegetal) e poisa sobre a mesa para ser o vagaroso estrume doutro poema.

Carlos de Oliveira em Sobre o Lado Esquerdo

terça-feira, 20 de agosto de 2019

OLHARES


Corria o ano de 1950, Bilhete Postal de Afonso Duarte a agradecer a Carlos de Oliveira ter-lhe enviado os seus livros Terra da Harmonia e Descida aos Infernos.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

EM ARANJUEZ PASSANDO POR COCHOFEL


João José Cochofel é um amável poeta.

Claro que já ninguém o lê, muito poucos saberão quem seja.

Quando havia tertúlias nos cafés de Lisboa, lá estava ele juntamente com o Carlos de Oliveira, o Augusto Abelaira, o José Gomes Ferreira, o Manuel Mendes.

Penso na casa de campo que tinha no Senhor da Serra, em Semide, onde na sala Ping-Pong nasceu o projecto musical Marchas, Danças e Canções.

Em Setembro de 1945, a casa de João José Cochofel no Senhor da Serra, em Semide, juntou Fernando Lopes-Graça, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira e João José Cochofel.

Um ministro de Salazar disse:

«É mais perigoso um mi bemol de Lopes Graça do que mil panfletos subversivos.»

José Gomes Ferreira, em A Memória das Palavras ou o Gosto de Falar de Mim, conta como, naquele ano de 1945, tudo começou:

«Nesse Verão, como lhe contasse que eu ainda não tinha encontrado poiso no campo para convalescer, Fernando Lopes Graça, propôs-me:

-Venha comigo para o Senhor da Serra, perto de Semide…

- Há por lá alguma pensão?

- Pensão propriamente dita não há. Mas a srª Rosinha costuma receber hóspedes num quartito muito limpo e com uma vista extraordinária para o Vale da Lousã… E fica a dois passos da casa do João José Cochofel, onde vou instalar-me.»

Na casa de João José Cochofel juntaram-se, então, Fernando Lopes Graça, José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira.

Tudo isto para vos dizer que ao folhear o 46º Aniversário de João José Cochofel, pág. 127, encontrei o poema XI de Emigrante Clandestino, com estes versos sublinhados:

«O concerto de Aranjuez aquece e refresca
esta tristeza de emigrar
sem ter para onde na bagagem.»

A tal ponto que chegou a comprar um EP do Richard Anthony em que o francês canta um excerto do Concerto. Chegou a falar-me se quando encontrasse interpretações cantadas do Concerto lhe dissesse. Prazeres secretos nunca revelados.

Aqui há uns largos tempos, a Aida falou-me de que existia uma interpretação de Dulce Pontes. 

O meu já há muito que não anda por aqui, e eu não sou fã da cantora, mas o ter encontrado o poema do Cochofel fez-me lembrar que deveria ir à procura da interpretação da Dulce Pontes.

Estou certo que o meu pai gostaria e, por ele, nesta tarde asfixiante de calor, deixo-vos a Dulce Pontes com um trecho do Concerto de Aranjuez e o poema do João José Cochofel:

Aranjuez surge
com as suas águas mais vivas,
as suas sombras mais densas,
o seu sol mais estival,
que os olhos cegos de Rodrigo
trouxeram até à lonjura sem distância de ouvir
entre a pedra violenta de Toledo
 a carne lilás da caixeirinha da Gran Via
a guitarra de Yepes
O concerto de Aranjuez aquece e refresca
esta tristeza de emigrar
sem ter para onde na bagagem.

terça-feira, 30 de abril de 2019

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Capa do programa do filme Uma Abelha na Chuva, um trabalho cuidado: oito páginas ilustradas, um artigo de António Pedro Vasconcelos a contar das dificuldades do novo cinema português, uma selecção de declarações de Fernando Lopes sobre as filmagens, a montagem do filme., um artigo de Eduardo Prado Coelho fazendo a ligação entre o livro e o filme, uma breve biografia de Carlos de Oliveira e o poema Cinema extraído de Sobre oLado Esquerdo.

«A abelha abriu as asas, atirou-se ao voo e foi apanhada pela chuva. Sofreu de tudo. Os fios do aguaceiro a enredá-la; golpes de vento a amocharem-lhe o voo; sacolejões, vergastadas, impulsos. Deu com as asas em terra. A chuva espezinhou-a, arrastou-se no saibro, debateu-se ainda. Mas a voragem acabou por levá-la com as folhas mortas.»

João César Monteiro não tinha qualquer dúvida quando afirmou: «devo dizer que foi com o poeta Carlos de Oliveira que mais aprendi de cinema.»


Contra capa  do programa de Uma Abelha na Chuva com a reprodução do poema Cinema de Carlos de Oliveira:


CINEMA

I

O écran petrificado,
muros, ossos,
o movimento áspero da câmara
mergulhando nos poços
das leis universais,
o rigoroso cálculo da luz
em que a matéria já cansada,
autómatos, metais,
se envolve pouco a pouco
no vagaroso amor
que é o trabalho quase imperceptível
das manchas de bolor,
a ferrugem, o espaço rarefeito,
e um relógio apressado no meu peito.

II

A lentidão da imagem
faz lembrar
o automóvel na garagem,
o suicídio com o gás do escape,
quer dizer,
o coração vertiginoso
e a lentidão do mundo
a escurecer
nas bobines veladas
dos suaves motores crepusculares
ou, por outras palavras,
flashes, combustões,
entregues ao acaso das artérias,
melhor, das pulsações.

III

Radioscopia incerta
como nós,
mas provável, exacta
na dosagem da sombra com o cálcio
da sua arquitectura
milimetricamente interior,
transforma-se o espectáculo
por fim
no próprio espectador
e habita agora
a fluidez do sangue:
cada imagem de fora,
presa ao fotograma que já foi,
de glóbulo em glóbulo se destrói.

sábado, 26 de janeiro de 2019

TALVEZ PARA A SEARA, TALVEZ PARA O LISBOA...



28 de Agosto de 1970

O José Cardoso Pires telefonou-me. Quer um artigo meu para o Diário de Lisboa.
- O suplemento literário é muito mau e quero transformá-lo…
Estou de férias, pá. Vamos a ver se consigo arranjar coragem para isso.
Entretanto ele ia dizendo: O Carlos critica, critica, mas nunca me manda um artigo…

1 de Setembro de 1970

Morreu Mauriac. Dos seus romances sempre extraí esta visão: o cristianismo não era um produto da bondade dos homens, mas da sua maldade ingénita. Se os homens fossem bons não precisavam de Cristo.

2 de Setembro de 1970

Passei o dia a escrever um artigo, talvez para a Seara Nova, talvez para o Diário de Lisboa…
Cada vez escrevo com maior dificuldade.
Ainda bem.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume IX

sábado, 27 de outubro de 2018

VEJA-ME ESSE PROBLEMA NO SEU MORAIS


Encontrei ontem o Carlos que reescreveu Os Pequenos Burgueses em dois meses e meio.
- Ficou um livro realmente diferente… E tão diferente que penso em mudar-lhe o título. Qualquer coisa deste género: Os Pequenos Burgueses e Outras Personagens.
Aqui levantou-se-lhe o eterno problema. Personagem é masculino ou feminino? Como toda a gente sabe os puristas afirmam que é feminino. «O personagem» é um horrendo galicismo.
- Mas a mim soa-me muito mal «outras personagens»!
Você é capaz de me ver esse problema no seu Morais?
À noite telefonei-lhe e li-lhe duas abonações clássicas constantes do maorai (uma de Manuel Bernardes e outra de Francisco Manuel e Melo) que justificam o emprego de personagem no masculino.
O Carlos respirou feliz ao telefone,

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume IX

Legenda: pormenor da página do Dicionário de Morais para a entrada «personagem», problema que Carlos de Oliveira pediu a José Gomes Ferreira para lhe resolver.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

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Belíssima capa de Vitor Palla para o segundo romance publicado por Carlos de Oliveira e que nunca mereceu da parte do autor uma outra versão, tal como fez com as restantes obras.


Carlos de Oliveira, perante os seus livros, tinha uma permanente insatisfação.

«Escrever, reescrever, etc., uma espécie de teia que enreda o próprio escritor e a que é difícil escapar», disse numa entrevista a Maria Teresa Horta, A Capital 26 de Março de 1969.

Logo que o livro chegou às livrarias, a PIDE tratou de o apreender

Carlos de Oliveira renegou este seu livro e chegou a considerar que o livro não deveria fazer parte da sua obra.

Sou um admirador incondicional da obra de Carlos de Oliveira, da sua personalidade, predicados que dele fizeram um nome admirável no panorama da nossa literatura.

Considero Alcateia um bom romance, reli-o agora, e escapam-me os porquês das razões porque Carlos de Oliveira o deixou de considerar como livro seu.

A obra de Carlos de Oliveira ocupa na estante um pouco mais de um palmo de espaço, mas é todo um mundo que ali está. A sua presença é silenciosa mas ao mesmo tempo gritante.

Serenidade sempre foi uma palavra que resultou da leitura  que sempre fiz da poesia e da prosa de Carlos de Oliveira.

Como disse Mário Castrim:

«É muito difícil falar de Carlos de Oliveira porque, se falamos dele, toda a banalidade é pecado.» 

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

QUE ME DEIXOU UM POUCO PERPLEXO


Em Amsterdão, Outubro de 1970, António José Saraiva escreve a Óscar Lopes e a dado ponto anda às bicadas ao neo-realismo português:

Provisoriamente a minha conclusão (ainda há autores para ler ou reler) é esta. À excepção do Manuel Alegre (e do O’Neill, se teimarmos em o considerar neo-realista, o que me parece impróprio) não há um ínico grande escritor neo-realista, não há sobretudo um único grande criador literário que tenha inventado alguma coisa de novo em Literatura. Em prosa não há ninguém comparável ao Aquilino, à Agustina, ou mesmo ao Miguéis, ou mesmo ao Torga, ou mesmo à Irene Lisboa, que, sem ser propriamente uma águia, inventou uma maneira nova de fazer prosa. O que não quer dizer que não haja entre eles alguns bons poetas e prosadores: O Manuel da Fonseca, o Mário Dionísio, o Cardoso Pires, o Namora por exemplo (excluo o Carlos de Oliveira, que li agora pela primeira vez, e que me pareceu profundamente inautêntico, a não ser na amargura envenenada). Parece-me que a teoria estética neo-realista não tem culpa disto, porque quando um autor tem génio não há teorias que o limitem.
E não há só uma invenção. Há talvez até recuo em relação a aquisições já feitas. Há um classicismo inquietante no Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, etc. (sem falar na simples ignorância do ofício do redol e outros.
(…)
Para resumir, para o conhecimento do nosso povo rural os neo-realistas nada acrescentaram ao Camilo e ao Aquilino; para o conhecimento da nossa burguesia citadina, nada acrescentaram ao Eça e ao Teixeira de Queiroz, e ficam muito abaixo do Paço d’Arcos.
Há a excepção do Ferreira de Castro, que me deixa um pouco perplexo. Ele não sabe escrever, tem diálogos horrorosos e é muito provável que a obra dele caia no esquecimento por lhe faltar a factura artística que dá perdurabilidade a uma obra. Mas abriu horizontes, chamou à literatura outra temática, e por esse lado tem um grande papel histórico. Mas tenho o palpite que, à excepção do Redol e do Soeiro, os neo-realistas voltaram a fechar o horizonte.


Legenda: Ferreira de Castro

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

OS NEO-REALISTAS DE LISBOA NÃO ME GRAMAM


Carta de Óscar Lopes para António José Saraiva, enviada do Porto em 2 de Setembro de 1969:

Ninguém em Portugal criticou mais desassombradamente os neo-realistas do que eu. O próprio E.L. parece valorizar muito mais o Carlos de Oliveira, o Cochofel, o Joaquim Namorado do que eu! Eu seria incapaz de consagrar um ensaio à poesia de Namorado, com quem aliás me dou bem. Os neo-realistas de Lisboa, em geral, não me gramam, e, como sabes, há uns 11 anos cozinharam um artigo bota-abaixo que o Alexandre Pinheiro Torres assinou. E nunca fui grande admirados do Ferreira de Castro, como creio que tu.
                                 

Legenda: Ferreira de Castro

quinta-feira, 26 de julho de 2018

OLHAR AS CAPAS



Terceira Idade

Mário Dionísio
Obras de Mário Dionísio nº 10
Publicações Europa-América, Lisboa s/d

(1 de Julho de 81: morte do Carlos de Oliveira)

É hoje o primeiro dia
em que há mundo sem ti

Esforço-me por entender o sem sentido disto

Mas não se pensa o que se chora
Espanto-me sim de esta cidade para mim vazia
ser para os outros como sempre a vi

Que pode haver agora?
Que enganosa miragem?
Tu não foste fazer uma viagem
Tua ausência não é um intervalo

Vai-se indo pouco a pouco o porque existo
E nunca mais também sem ti
saberei sequer reinventá-lo