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segunda-feira, 27 de outubro de 2025

NOTÍCIAS DO CIRCO


Eleições no Sport Lisboa e Benfica.

Um sábado chuvoso e 86.297 exerceram o seu voto, aqui e além fronteiras.

Um record de votantes a nível mundial em clubes desportivos. O anterior pertencia, desde 2010, ao Barcelona com 57.098 votantes.

19 de Abril de 1972

2º mão das meias finais da Taça dos Clubes Campeões Europeus

Em Amsterdão o Benfica perdera por 1 a 0.

Em Lisboa não passaram de um empate a zero.

Artur Portela Filho no República:

«A estes ninguém os meteu em autocarros.

São oitenta mil e foram eles que escreveram os cartazes.»

Provam que a multidão pode ser um acto voluntário.

Provam que o entusiasmo pode ser um acto espontâneo.

A diferença entre a política e a sociologia chama-se Benfica. Um Benfica é o que é – indústria do músculo. Fábrica de chutos, catedral de taças – e mais aquilo que nada mais consegue unir.

O Benfica foi inventado para substituir a Política.

Agora, que a Política quer regressar, encontra o lugar tomado. 80.000 lugares tomados.»

terça-feira, 3 de junho de 2025

À Lupa


«Se Rui Costa ama verdadeiramente o Benfica, então fará tudo o que estiver ao seu alcance para que o Benfica não continue a adiar a sua razão de existir. Que faça o que se espera dele enquanto grande benfiquista que é. Que anuncie a sua demissão, para deixar o clube e os seus donos escolherem o futuro com a celeridade que o atual contexto exige. Tem uma oportunidade de escrever uma página muito digna no próximo sábado».

Vasco Mendonça em A Bola

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

CRONICANDO POR AÍ


«Eusébio, Coluna, o pequenino Simões, o Torres gigante desciam da escada do avião para a pista do Aeroporto de Luanda e uma alucinada onda de perfume descia com eles. Ainda não disse: quem vinha à frente era o senhor Otto Glória, brasileiro, com o seu crespo bigode mestiço, a impor respeito ao miúdo que eu era, talvez 12, 13 anos. O Benfica, o SLB desses anos, cheirava bem. O Benfica perfumava uma noite tropical, resgatava até uma noite colonial. Eu estava lá.

Já cá não estarei em 2050, mas o telepático futuro, em sussurro ou estrépito, vem contar-me à noite as coisas que hão de vir. De 2050, o maléfico futuro deu-me conta de elixires entorpecentes e de um Portugal apocalíptico.

Um spleen baudelairiano afligirá os velhos. Em vez de jogarem à sueca nos jardins e baterem uma camuflada manilha, atacam-se uns aos outros, numa nevrose inexplicável que uma cerrada e negra melancolia há de cobrir.

Os jovens de 2050, conta-me o xamânico futuro, estarão abúlicos, anémicos e anómicos. O sexo é fortuito, destituído de sedução, agora interdita, um sexo imparticipativo, obrigado à repetição de um mecânico vaivém, nem bem que entras, nem bem que sais, sem efusões ou magia.

O pesadelo é a regra de 2050. Os escritores soçobraram, perdido no tempo o segredo da esplêndida prosa, entregues à lamúria de quem ignora o mistério ou o engenho da alegria, o elixir da felicidade.

Toda a música é sonâmbula, e os coros estão proibidos – nos velhos e decrépitos auditórios, os raros espectadores entreolham-se com horror. Não há cânticos na rua, ninguém sabe já o que é uma mole humana unida à volta de um rubro estandarte, narinas sôfregas, mãos trémulas de sentimento, numa só voz a soletrar a vitória e a glória.

De onde vem essa decadência? Foi essa a patética pergunta que fiz ao profeta de 2050. Vi-o ganhar a dimensão do colossal Gulliver. O espírito da nação, gritou-me ele, afundou-se como o imemorial rio que seca. E acrescentou: tudo começou, abrupta, inexoravelmente, dez anos antes, em 2040.

Descubram, então, a labiríntica verdade que nem a mais astuta sociologia antecipou. Num tribunal, sentenciou-se um processo que o Ministério Público começara no remoto, mortalíssimo ano de 2024. Um caso de corrupção desportiva, que se arrastou por penosos e novelescos 14 anos. O réu foi, por fim, em 2040, apostrofado e condenado: era, diz-me o xamã de 2050, um clube de futebol. Condenado a baixar ao Hades que era a 4.ª divisão, o clube foi extinto. Dessa certeza jurídica nasceu, como o perverso Baco da coxa de Zeus, a caducidade e morte da fé de toda uma nação.

Ao primeiro vendaval de incredulidade, sobreveio o tufão da amargura. Um torpe ateísmo sentimental derramou-se como véu negro sobre os corações: todos os corações, o do rico e do pobre, mulheres, homens, as jovens raparigas de perna lábil e lábios rouge, os cândidos rapazes movidos a cerveja e a inescrutável e labiríntica testosterona. Uma inteira nação, os políticos, a Assembleia da República, as forças armadas, o inconsolável Presidente, mesmo o impávido jurista, uma inteira nação, repetiu-me ele, transformara-se numa gigantesca barata kafkiana, e de Dante imitou os nove ciclos do inferno.

O clube, confidenciou o xamã, era o mesmo desses rapazes que eu vira descer as escadas de um avião em Luanda, esses rapazes, Eusébio, José Augusto ou Humberto, que espalhavam fragrâncias na noite de África e nas tardes da Europa.

Sonho ou pesadelo, acordei. Não voltarei a escutar o inverosímil xamã: o futuro ou é glorioso ou nunca será. SLB forever!»

Manuel S. Fonseca na sua Página Negra

Legenda: o velho estádio da Luz ainda em construção.

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

NOTíCIAS DO CIRCO

António Ricciardi, presidente do conselho superior do Grupo Espírito Santo, num depoimento prestado em Outubro de 2015 ao Ministério Público, disse saber pouco sobre o GES e assinava documentos sem ler.

«Ricardo Salgado é que controlava a gestão do grupo».

Rui Costa, agora presidente do Sport Lisboa e Benfica, fez parte da SAD nos tempos em que Luís Filipe Vieira era o presidente.

Segundo depoimento prestado por Luís Filipe Vieira, Rui Costa desconhecia os documentos, provenientes da SAD, que assinava. Ele, Vieira, é que controlava tudo, e sabia de tudo.

terça-feira, 6 de agosto de 2024

CRONICANDO POR AÍ


«O Benfica é bom a formar miúdos. Tem é um grande problema com os graúdos. A deformação do clube prossegue, mas não desistamos. Um dia será possível contar outra história

Há uns dias, vi Rui Costa explicar que a transferência de João Neves para o Paris Saint-Germain ainda não era oficial, porque «nestas coisas» há sempre detalhes que é preciso ultimar, arestas que devem ser limadas. Não deixa de ser irónico que os dirigentes do Benfica falem com tanta tranquilidade e seriedade acerca destes negócios. Nunca um dirigente do Benfica nos últimos 20 anos aparentou ser tão profissional quanto no momento em que havia um atleta para vender.

É sempre nestes dias que os dirigentes do Benfica vestem o seu melhor fato para uma cerimónia quase sempre deprimente. Ontem, segunda-feira, minutos depois de confirmada à CMVM a venda de João Neves por uns míseros 59,9 milhões de euros, fui confrontado com um daqueles recordes que parecem ter sido pensados por uma equipa de guionistas. Ao que parece, o Benfica é o clube no mundo com mais vendas por valores superiores a 60 milhões de euros. A coisa é dita como se de uma proeza extraordinária se tratasse. Respiro fundo e olho pela janela. Faço os possíveis por conter as lágrimas de alegria e o orgulho deste desígnio em que se cumpre, afinal, o Benfica contemporâneo. Penso por momentos em marcar encontro com alguns amigos no Marquês, até que dou meia volta e lá abandono a ironia. É então que me lembro do que está quase sempre em causa nestes dias. Um miúdo. Mas não é um miúdo qualquer, como os 54 milhões — depois de comissão — parecem indicar.

É o miúdo da camisola impecavelmente enfiada nos calções, fiel a uma imagem que o precedia em várias gerações de ídolos, capaz de evocar o melhor da história do seu clube sem dizer uma palavra. Não precisou. Estava tudo à vista desde o primeiro momento.

O miúdo com idade para ser tiktoker e jovem promessa que pegou na primeira oportunidade e nunca perdeu tempo. Preferiu chegar a adulto mais depressa e com isso tornou-se referência do balneário e da bancada.

O miúdo bem formado, de maneiras raras no futebol, imediatamente reconhecido pelos seus pares. Pelo que joga e pelo modo como se apresenta. Um embaixador do Benfica e do desporto. Uma razão para se gostar ainda mais de futebol.

O miúdo que sempre representou com a maior elevação o clube do seu coração e que nunca se esqueceu dos seus outros pares, os que estavam na bancada.

O miúdo que sempre compreendeu e abraçou a responsabilidade de nos fazer sentir que quem está no relvado sofre tanto como os que estão cá fora, o que muitas vezes foi tudo.

O miúdo que, de camisola impecavelmente enfiada nos calções, deu tudo o que tinha por um clube com uma liderança desfraldada que não fez nem quis fazer o suficiente para manter alguém que foi Benfica da cabeça aos pés, do primeiro ao último minuto.

O miúdo que se fez homem no Benfica e merecia continuar a escrever essa história. O miúdo que, antes de escrever na sua biografia «capitão do Sport Lisboa e Benfica», viu o seu nome ser escrito no balancete. Em vez de se tornar um inevitável símbolo humano da grandeza do Benfica, o miúdo João Neves tornou-se mais uma página inevitável no rol de transferências do clube que bate recordes de tudo o que diz respeito a dinheiro, mas que, a cada ano que passa, encolhe um pouco mais face aos adversários.

Este é o clube em que o dinheiro é movimento na ordem dos milhares de milhões, mas ninguém considera admissível que se questione que modelo de gestão é este em que há tanto dinheiro para tanta extravagância absolutamente irrelevante, e não há dinheiro para um projeto desportivo mais ambicioso em que atletas como este miúdo sejam sempre os últimos a sair. Neste Benfica, a única coisa cerca quando um jovem talento aparece é que a direção e os empresários de sempre estão prontos, como sempre estiveram ao longo destes anos, para explicar que não havia nada a fazer, mesmo que nunca se tenha tentado algo diferente. Aparentemente, a única coisa que os dirigentes do Benfica têm como absolutamente certa no futebol mundial é que qualquer negócio tem de pagar 10% de custos de intermediação a Jorge Mendes.

Pois bem, o miúdo João entra diretamente para o vasto plantel dos jogadores que podiam ter sido heróis de uma história improvável num clube gigante e contra-cíclico que gere o que é seu para se tornar cada vez maior e não apenas para existir, porque sabe que assim estará mais perto de fazer história. Mas, para surpresa de ninguém, ainda não foi desta. Não sabemos exatamente o que obriga o clube a vender João Neves hoje, porque ninguém não clube parecer realmente capaz de explicar. É mais fácil responder com um sorriso quando nos falam nos golos do Pavlidis e dizer que não se quer agoirar. Compreendo.

Os golos de um novo avançado dão muito jeito para continuarmos a contar com a tolerância de sócios e adeptos, quem sabe até com a sua amnésia ou indiferença face aos gigantescos problemas estruturais que hoje condicionam a afirmação do Benfica. Os mais fortes adversários do clube são, esses sim, aqueles que continuam a navegar à vista, ao sabor de mais uma venda milionária para demonstrar que isto, seja lá o que isto for, funciona, apesar de o dinheiro não trazer felicidade nem vitórias nem grandeza, apenas a sensação desoladora de que somos, há demasiado tempo, uma peça no carrossel de um empresário.

O Benfica é bom a formar miúdos, de facto. Tem é um grande problema com os graúdos. A deformação do clube prossegue, mas não desistamos. Um dia será possível contar outra história do Benfica ao mundo. A de um clube lutador, muito antes de ser vendedor. É inevitável.

Desculpa, João. E obrigado.»

Vasco Mendonça, hoje, em A Bola. 

sexta-feira, 14 de junho de 2024

OLHAR AS CAPAS


A Funda

2º Volume

Artur Portela Filho

Capa: Mendes de Oliveira

Moraes Editores, Lisboa, Novembro de 1972

«A estes ninguém os meteu em autocarros.

São oitenta mil e foram eles que escreveram os cartazes.»

Provam que a multidão pode ser um acto voluntário.

Provam que o entusiasmo pode ser um acto espontâneo.

A diferença entre a política e a sociologia chama-se Benfica. Um Benfica é o que é – indústria do músculo. Fábrica de chutos, catedaral de taças – e mais aquilo que nada mais consegue unir.

O Benfica foi inventado para substituir a Política.

Agora, que a Polítca quer regressar, encontra o lugar tomado. 80.000 lugares tomados.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL


Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                         João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

História como a que hoje trazemos também pode pertencer a um Viagem por Abril.

24 de Fevereiro de 1965.

Estádio da Luz, jogo da 1ª mão dos quartos-de-final da Taça dos Campeões Europeus.

Benfica 5 -  Real Madrid 1.

No  dia seguinte o Mundo Desportivo titulava a toda a largura da 1ª página: «O “Vale dos Caídos” mudou-se para Lisboa.»

 Portugal e Espanha viviam em ditadura.

 Em Portugal, a leitura do título teve leituras várias, dependendo dos olhos que o leram. Ainda recorda a satisfação do avô, benfiquista e republicano histórico”, a entrar em casa, o jornal na mão, com os olhos brilhantes de satisfação. E o motivo não era apenas a vitória do Benfica…
A crónica do jogo abria assim:
«Não foi realmente a batalha de Aljubarrota. Nem tão pouco a de Valverde, ou qualquer outra em que os espanhóis e os portugueses tivessem escrito páginas gloriosas da sua história. Mas foi bonito assistir-se à vitória do futebol sobre o do Real Madrid.»
Mas o que fez explodir Franco foi o título, ao fazer a associação com o monumento que, nos arredores, de Madrid glorifica os mortos franquistas da Guerra Civil Espanhola, os nossos vizinhos entenderam que se tinha ido longe demais. Recorde-se que o monumento apenas pretende recordar uma parte dos espanhóis mortos durante a Guerra Civil
Protesto veemente e Salazar teve que encontrar, em nome da defesa da boa harmonia entre as duas ditaduras, uma reparação.

Num ápice despediram o jornalista José Valente e o Mundo Desportivo só reapareceu ao público oito dias depois, falhando duas edições. Naquele tempo os jornais desportivos eram trissemanários.
No dia 5 de Março, quando o jornal voltou a ser publicado, lia-se na 1ª página:
«A Empresa Nacional de Publicidade e o director do Mundo Desportivo lamentam e repudiam as expressões contidas numa crónica inserida neste jornal e que muito feriram a sensibilidade dos seus leitores. Ao autor da referida crónica, chefe de redacção do Mundo Desportivo, único e total responsável pelo escrito que veio a público, foram aplicadas as sanções que o caso requeria.»

Deste modo, a paz podre da união Ibérica podia prosseguir os seus caminhos. Pelo lado que nos toca, esse caminho foi interrompido no dia 25 de Abril de 1974.


Ainda uma nota de rodapé: naquele tempo, no futebol apenas era permitida uma substituição – a do guarda-redes.

Sabem quem era o guarda-redes suplente do Real Madrid?

Nada mais que o cantante-machucador-de-corações Júlio Iglésias.
Anos mais tarde, o jornalista Neves de Sousa escreverá no semanário Sete um divertida crónica que pode ser recordada aqui.

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

UM BRILHOZINHO NO MEIO DA PODRIDÃO


Quase me tenho esquecido do futebol.

Há muito, mesmo muito, que deixou de existir o futebol que, desde os meus 5 anos , já lá vão mais de 70 anos, me encantou os dias.

Agora o futebol é um carrocel de corrupção, de vigarices, jogadores adquiridos e vendidos como se fossem gado.

Gostei muito de ler a crónica que Vasco Mendonça escreve no jornal A Bola de hoje: «Por um Futebol de Camisosla Enfiada nos Calções.

Por isso digo:precisamos de mais jogadores e intervenientes que enfiem a camisola nos calções, antes de jogar, antes de falar, e até antes de pensar. Podem dizer-me que é apenas um detalhe ou que tudo isto é apenas a obsessão estética de alguém que apoia o Benfica e os seus jogadores. Estarão enganados ou, eventualmente,desapontados por não terem um jogador assim no vosso clube. Lamento. Ma sprometo que o emprestamos à seleção, para poderem gostar tanto dele como nós.

 Vasco Mendonça em A Bola 

domingo, 16 de julho de 2023

CRONICANDO POR AÍ


Este calor de ananases anda a dar cabo de mim. Vingo-me em leituras frescas como esta crónica do Manuel S. Fonseca que roubo do seu blogue.

Também estive naquela mão do Vata, entalado no meio de 120 mil benfiquistas, mesmo no lado norte, no enfiamento da baliza, e juro que não vi mão nenhuma e não vi por circunstâncias várias.

O Vata também não, e até morrer dirá que não houve mão nenhuma, Talvez um ombro… «e cada um é livre de pensar o que quiser…»

«O Valdo cobrou um canto, o Magnusson saltou à minha frente e desviou de cabeça na área e a bola veio ter na minha direção. Meti o ombro e foi golo.»

O Manuel S. Fonseca coloca uma imagem da mão do Maradona, eu coloco uma imagem da mão do Vata, exactamente no dia em que ali atrás declaro que irei comprar a «Vida de Beethoven» da «Guerra & Paz», editora de que é proprietário este mesmo Manuel S. Fonseca.

Saravá!

«Houve uma guerra, é bom que se diga. Eu vou, é certo, falar de paz, da paz gritada, apupada, esfusiante e delirante, que é um jogo de futebol. Não posso é esconder que houve antes uma guerra e que as tropas inglesas da democrática Senhora Tatcher tinham agarrado pelos colarinhos e humilhado as tropas do ditador argentino, o general Videla.

A guerra fora nas Maldivas, mas estava-se agora no Estádio Azteca. O nome do estádio já provoca uma aflição kirkegaardiana: a angústia dos ecos ancestrais do choque de índios e conquistadores ressoava ainda em cada pedra do estádio. E estarem frente a frente, nessa final do Mundial de 1986, no quente mês de Junho, as equipas da Inglaterra e da Argentina, deixa cair sobre esse confronto um épico pingo de “capsaicina”, a substância activa “del chile”, o picante que faz arder “las carnitas” e “los tacos” mexicanos.

No Estádio Azteca, eram duas civilizações que estavam frente a frente. E lembrem-se, o próprio esférico, uma estreia, era uma bola novinha em folha, igualmente chamada Azteca, o nome a acordar os demónios do passado, mas na forma um exemplo de revolução tecnológica, a primeira bola de futebol a dispensar o couro, toda em adricron, um revestimento sintético impermeável, trinta e duas faces hexagonais elegantes, e de uma inquebrantável longevidade. O horror que foi jogar anos com bolas de catechu, a que uma boa chuvada acrescentava meia tonelada: eis o que afogou o mínimo Eusébio que havia em mim, a encharcada e incirculante bola de catechu.

Adiante e vejam, é a nova bola revolucionária que circula entre Shilton e Lineker, entre Valdano e o pequeno deus chamado Diego Maradona. Durante 45 minutos, esses dois mundos ressentidos, a nórdica rosa dos Tudor e o azul ultramarino das pampas, mediram-se, sem se ferir. Mas aos seis minutos da segunda parte, o defesa Steve Hodge tenta aliviar a pressão sobre a sua área: a mal pontapeada bola ganha efeito e cruza a área, Shilton, o guarda-redes, salta com Maradona. O punho de Shilton vai lá acima, a 200 metros de altura, mas o pequeno Maradona, num exercício de prestidigitação, voa 201 metros e a sua cabeça desvia a bola para o fundo das redes. E há aqui um grande imbróglio teológico-anatómico: a cabeça de Maradona ali, a 201 metros de altura, tão perto do céu, foi roubada por um Deus omni-invejoso. Deus, sentindo o homérico jogo de futebol a roçar-lhe os berlindes, quis também jogar e pôs a sua mão onde devia estar a cabeça prodigiosa de Dieguito. Diga-se, àquela bola, toda feita do leve adricron, bastaria, se Deus quisesse, um simples sopro, mas quem não quereria, em 1986, mesmo Deus, sopesar na própria mão a leveza desse revestimento sintético, o poliuretano, à prova de água.

Essa bola, a Azteca do Estádio Azteca de 1986, esteve, até ao ano passado, nas mãos do árbitro tunisino, Ali Bin Nasser, que Deus iludiu naquela jogada disputada nas nuvens. Quis agora o árbitro, sufocado pela insidiosa presença de Deus, descarregar a temível sombra sobre a humanidade. Num leilão, alguém pagou 2,4 milhões de dólares para ter em casa a bola que a mão de Deus tocou. Já pela camisola de Maradona, que ele, no fim do jogo, dera a Hodge, o inglês que fez o involuntário centro, em leilão alguém ofereceu e pagou mais de 9 milhões, a mais cara camisola de futebol de sempre.

Onde está, pergunto eu, a bola que a mão de Vata meteu na baliza do Olympique de Marseille, no jogo que estes meus olhos viram e que levou o Benfica à final da Liga dos Campeões? O que eu não pagaria por ela em leilão!»

Manuel S. Fonseca em A Página Negra

sábado, 24 de junho de 2023

NOTÍCIAS DO CIRCO

Declaração de Interesses: sou sócio do Sport Lisboa e Benfica.

Mas não posso estar, de modo algum, de acordo com esta frase do presidente Rui Costa a propósito da regulamentação dos novos direitos audiovisuais:

«O Benfica não irá cumprir nenhuma lei se se sentir prejudicado.»

Esta gente do futebol devia apenas dedicar-se ao pontapé na bola e deixar de dizer disparates boca fora.

É provável que esta rapaziada entenda que o futebol está acima do que quer que seja. Não está. Muito menos das leis que os governos apresentam.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Volta e meia o meu avô dizia:

Domingo temos de ir mais cedo para pagar as quotas.

Todos os meses um cobrador ia a casa de cada sócio para receber as quotas do Benfica.

Todos os meses o meu avô deixava o dinheiro para as quotas.

Simplesmente, a vida da família era muito modesta e os dias amargos obrigavam a minha mãe a utilizar o dinheiro das quotas do Glorioso para a compra  de 2 decilitros de azeite, meio quilo de batatas, uma cebola, o que que fosse na mercearia.

E esse dinheiro das quotas muito raramente era reposto.

O ir mais cedo implicava ficar numa longa bicha à espera de vez. Porque nem sempre havia dinheiro quando os diversos cobradores batiam à porta dos sócios e estes para verem a bola tinham que se dirigir aos guichets do velho Estádio Da Luz ainda de apenas dois anéis.

Já o meu avô não estava connosco, podendo utilizar o débito directo para pagamento das quotas, não aderi ao sistema e, durante largos anos, ia pagá-las ao estádio, lembrando sempre a velha e costumeira frase do avô: Domingo temos de ir mais cedo para pagar as quotas.

O jornal Record revelava um destes dias que ainda existem clubes que com as facilidades de uma enorme gama de pagamentos on line se recusam a prescindir destes quase arcaicos cobradores de quotas.

Legenda: imagem do Record.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

AVANTE P'LO BENFICA!


Há alguns anos, Mário Castrim, numa das suas críticas de televisão no Diário de Lisboa, deixou escrito:

«Quem já leu Jack London, fecha os olhos quando entram os cãezinhos do circo.»

Nunca apreciei o espectáculo que o meu clube, antes do começo dos jogos, oferece aos espectadores com o voo da águia vitória.

Também não concordo com o «speaker» do estádio quando informa que vais ser cantado o hino do Sport Lisboa e Benfica.

O que eles põem a tocar é «Ser Benfiquista», uma cançoneta do Luís Piçarra, nunca o hino do clube.

A leviandade, a ignorância têm destas coisas lamentáveis.

Por isso retardo sempre a entrada no estádio para não ter que ver e ouvir disparates.

A águia é uma ave nobre que não pode estar sujeita a cenas circenses de péssimo gosto.

Sobre isso uma organização inglesa, que se dedica aos direitos dos animais, revelou ter enviado uma carta ao Benfica a pedir que retire a águia dos jogos do clube, e acrescentam:

«O lugar das águias não é em eventos desportivos. Na natureza, estas aves magníficas percorrem vastos territórios, passam a maior parte do seu tempo acima das árvores, voam livremente e caçam em espaços amplos.»

Tenho a quase certeza que estas palavras caíram em cesto roto.

Quanto ao hino do Sport Lisboa e Benfica, volto a contar :

Este é o verdadeiro Hino do Sport Lisboa e Benfica cantado pelo Orfeão do Glorioso.

Quando sentado na catedral, ouve o speaker do Estádio, com uma histeria de levantar fantasmas a dizer e agora, cachecóis ao alto, a uma só voz, cantemos o hino do Sport Lisboa e Benfica, fica todo pele de galinha.

O que se ouve é Luís Piçarra a cantar o Ser Benfiquista que, segundo António Vilarigues, no seu blogue O Castendo, é uma cançoneta apresentada a 16 de Abril de 1953, num sarau, no Pavilhão dos Desportos, para angariação de fundos destinados à construção do Estádio, com letra e música de Paulino Gomes Júnior, um confesso salazarista.

Abra-se um parêntesis para dizer que Luís Piçarra, um ferrenho benfiquista,  foi pessimamente tratado, nos últimos anos de uma vida muito difícil, por sucessivas direcções do clube.

Diga-se que  o Hino do Sport Lisboa e Benfica dá pelo nome de Avante, Avante p’lo Benfica, data de 1929, tempo do 25º aniversário do clube, tem letra de Felix Bermudes, um democrata e um homem da Cultura, e música de Alves Coelho.

É esta a letra do hino:

Do velho Clube Campeão,
Que um nobre esforço imortaliza,
Em gloriosa tradição.

Olhando altivo o seu passado,

Pode ter fé no seu futuro.
Pois conservou imaculado
Um ideal sincero e puro.

Avante, avante p'lo Benfica,

Que uma aura triunfante Glorifica!
E vós, ó rapazes, com fogo sagrado,
Honrai agora os ases
Que nos honraram o passado!

Olhemos fitos essa Águia altiva,

Essa Águia heráldica e suprema,
Padrão da raça ardente e viva,
Erguendo ao alto o nosso emblema!

Com sacrifício e devoção

Com decisão serena e calma,
Dêmos-lhe o nosso coração!
Dêmos-lhe a fé, a alma!

Claro que este Avante, Avante p’lo Benfica fazia comichões ao ditador Salazar que acabou por ordenar que o hino deixasse de ser cantado.

Ordens expressas foram, mais tarde, dadas à Censura para que os jornalistas não designassem os jogadores do clube por «vermelhos» mas sim por «encarnados.»


quarta-feira, 11 de maio de 2022

AS FOTOGRAFIAS DO VIAJANTE


 Quando por lá andou, o campeonato ainda não tinha ido à viola pelo que achou a sua piada à casa deste benfiquista beirão, em Sacados, para os lados de São Pedro do Sul.

Um «kitsch» de se lhe tirar o chapéu, e qualquer comentário que se coloque poderá estragar tudo, mas não há que fugir ao destaque do cigarrinho que o jogador benfiquista ostenta na beiça.

sexta-feira, 22 de outubro de 2021


PYE  - PATS 7002

Make Me An Island – If You Care A Little Bit About Me

Permitam-lhe que ele desarrume a memória e que, por uma história de nada – ou de tudo? – ponha o Joe Dolan a rodar.

Um café de província, Alfeizerão, junto a uma bomba de gasolina, uma bomba de gasolina da Mobil, que não era como as bombas de gasolina que o imaginário dos filmes americanos lhe transmitiu.

Duas, três mesas, uma jukebox a um canto, todas as sextas-feiras do último mês, de quase quarenta meses de tropa, dez tostões na ranhura da jukebox e o Make Me An Island do Joe Dolan a cantar no sonolento café, 2, 3 gins tónicos a completar o cenário.

Ele que até à data, depois de um milhão de gin-tónicos – chapelada a Mr. Humphrey Bogart – bebidos, em muitos e diversos bares, uns rascas, outros a armar ao fino, terá sempre na memória o sabor daqueles gins.

As circunstâncias fazem milagres e ele sabe que os gins eram merdosos e aproveita para  citar Nuno Júdice:  nada nos faz reviver melhor o passado do que um cheiro que em tempos lhe esteve associado.

É isso.

O gin era marca Bols, a água tónica era Canada Dry, o limão não tinha casca, o dono do café aproveitava as cascas para os martinis, o gelo tirava-o das paredes da geladeira dos gelados Olás, mas nada, que Joe Dolan e o seu Make Me An Island, o saber que, em passo de corrida, o findar da tropa se aproximava não fizessem esquecer.

Terminou a tropa ao bater do meio-dia de 30 de Setembro de 1970.

Apanhou a camioneta azul da carreira dos Claras, chegou a casa, pegou na Aida e zarpou para Os Perús, à Praça do Chile, frango assado, no dizer do escritor e jornalista Rui Cardoso Martins,  os melhores frangos assados do mundo, uma garrafa de tinto Aliança, pudim flan, Antiqua, em balão aquecido, se faz favor, e  ala que se faz tarde para  o 3º anel da Luz, que ainda não era Catedral, ver o Glorioso espetar 8 a 1 no Olimpija, uma rapaziada que em Liubilana, na 1º mão da 1ª eliminatória da Taça dos Clubes Campeões Europeus, tinha cometido a soberba proeza de empatar a um golo.

Para o informe ficar como deve ser:

O árbitro foi o Sr. Queudeville do Luxemburgo e o Glorioso alinhou com José Henrique na baliza, Malta da Silva, Humberto Coelho, Zeca e Toni (Barros entrou aos 80 m), Jaime Graça, Matine, Simões (capitão), Artur Jorge, Torres e Eusébio.

O treinador era o inglês Jimmy Hagan, o garagista.

O pantera negra meteu 5 golos, Zeca, Artur Jorge, Jaime Graça, completaram o placard.

Na jukebox de um café de província, junto a uma bomba de gasolina, Joe Dolan acabou de soltar os últimos versos take me and break me and make me an island, I'm yours.

Ainda sente o último gole de gin antes de se pôr a caminho para o último recolher do dia, no RI 5 das Caldas da Rainha, a mesma porta de armas por onde, 42 meses depois, por um 16 de Março, um grupo de militares saiu, a caminho de Lisboa, para aquilo que, ainda hoje, ninguém sabe explicar muito bem o que foi.

Um ensaio para o 25 de Abril, dizem os que pormaiores querem abreviar.

Sing again, Joe!

domingo, 11 de julho de 2021

POSTAIS SEM SELO


 Toda a morte deixa um vazio à espera de ser preenchido.

quinta-feira, 8 de julho de 2021

NOTÍCIAS DO CIRCO



A notícia da detenção de Luís Filipe Vieira, presidente do Sport Lisboa e Benfica, já há muito deveria ter acontecido.

Se houvesse ética, transparência, amor ao clube, tanto os restantes dirigentes do clube, como da SAD, deveriam, desde já, ter colocado os seus lugares à disposição e, com bom senso, sem pontas de histerismo, mandatarem o presidente da Assembleia Geral para a convocação de eleições intercalares.

Gostaria muito que este episódio, fosse o primeiro passo para uma verdadeira limpeza, e consequente destruição da máfia do futebol pátrio

Que ninguém, mas mesmo ninguém, se ponha, agora, a assobiar para o lado.

segunda-feira, 17 de maio de 2021

PAPÉIS DATADOS


Durante seis meses privou com ele no Regimento de Infantaria 5 nas Caldas da Rainha. Dois temas os levaram a conversas várias: o Benfica e a guerra colonial. Terá sido ele o primeiro que, quase por sinais de fumo, lhe disse que o regime só cairia por intervenção dos militares. Como sempre desprezou fardas, lembra-se de lhe dizer: “bem poderei esperar sentado, meu tenente.”
Mais ou menos seis anos depois destas conversas, acontecia aquela madrugada “onde emergimos da noite e do silêncio”.
Uma pequeníssima notícia de jornal diz-lhe que, com 67 anos, morreu ontem João Manuel Bicho Beatriz, um dos co-organizadores da primeira reunião do movimento dos “Capitães de Abril.”
Sentia que tinha uma tarefa a cumprir e não descansou enquanto não a pôs em marcha e, tal como lhe dissera, uma grande convicção de que seriam os militares a resolver o problema da Guerra Colonial. Juntamente com muitos outros restituíram a este país a dignidade, das poucas vezes que a palavra Portugal foi soletrada com respeito. “Foi bonita a festa, pá”!
Cumprida a tarefa não andou para aí em bicos de pés a contar feitos e proezas, a mostrar os galões, foi mais um dos poucos salgueiros maias que fugiram à luz dos holofotes.
Após aquelas conversas, nas Caldas da Rainha, só o voltou a encontrar uma vez, já capitão ou major, não lembra bem, porque para ele foi sempre o tenente BichoBeatriz. Eram umas eleições para a presidência do Benfica, ali na secretaria do clube na Rua Jardim do Regedor. Já, então, Abril há muito se desfazia em oportunismos e traições vários. Falou-lhe das muitas esperanças frustradas, das desilusões, os esforços que só em parte resultaram, mas nada disso o levara à condição de um derrotado. Por temperamento optimista, esmagou logo ali o desencanto e propôs um almoço, num qualquer dia, para uma converseta e um tinto escolhido por colheita. Nunca houve esse almoço, aquelas coisas que vão ficando para amanhã e acabam em nunca mais. Se isso tivesse acontecido decerto que lhe levaria para ler, aquele fragmento de poema de Sophia Mello Breyner Andresen:

«Os ricos nunca perdem a jogada
nunca fazem um erro.
E esperam os erros dos outros,
São hábeis e sábios
têm uma larga experiência do poder
e quando não podem usar a própria força
usam a fraqueza dos outros
E ganham.»

Pois foi, limitámo-nos a administrar as nossas divisões, as nossas fraquezas. Crê que foi aqui que chegámos. Um país onde grassa o clientelismo, a corrupção e onde a lei é a do salve-se quem puder, exige que voltemos às nossas velhas conversas e, se possível, restituir os sonhos de uma vida. Que os sonhos existem e porque tem mesmo que haver um futuro.
Até já, tenente Bicho Beatriz!


30 de Outubro de 2008

Legenda: encontro de militares de Abril para lembrar em 2004, em Évora, uma das reuniões preparatórias do Movimento. Bicho Beatriz é o segundo à esquerda. Dinis de Almeida é o segundo à direita

Fotografia de Manuel Moura/Lusa tirada de Abril

terça-feira, 11 de maio de 2021

NOTÍCIAS DO CIRCO


Desde Agosto de 1954 que sou sócio do Sport Lisboa e Benfica.

Em todos estes largos anos, assisti a tudo e de tudo: coisas lindas de morrer, coisas péssimas que me deixaram no limiar do vómito.

Ontem, o país assistiu a um espectáculo lamentável.

Durante perto de três horas, as televisões transmitiram, em directo, a prestação do cidadão Luís Filipe Vieira, como um dos maiores devedores individuais do Banco Novo ou lá do que quer que seja, na Comissão de Inquérito da Assembleia da República.

Era nessa condição que se encontrava naquela Comissão.

Não tinha que fazer qualquer declaração em que entrasse o nome do Sport Lisboa e Benfica. Só tinha que dizer quando e como pagará os milhões de euros que deve à Banca.

Os deputados da Comissão, possivelmente alguns serão benfiquistas, portaram-se bem. A excepção veio do deputado da Iniciativa Liberal, João Cotrim de Figueiredo, que não resistiu a um golpe baixo:

«Vou fazer a segunda pergunta que os portugueses mais querem ouvir. A primeira seria como é que o Benfica gasta 100 milhões e fica em terceiro?»

O benfiquista Cotrim de Figueiredo, como milhares de benfiquistas espalhados por aqui e por ali, estará terrivelmente chateado com a prestação futebolística do clube,  mas, ali e naquela hora, não poderia entrar pela baixa provocação…

Porque naquele lugar não estava sentado o presidente do Sport Lisboa e Benfica, mas sim o cidadão Luís Filipe Vieira.

Este cidadão declarou que não foge e que pagará tudo.

Os responsáveis do banco já dispuseram as cadeiras para esperarem sentados.

 Por mero acidente de percurso, o benfiquista Cotrim de Figueiredo estava na mesma fila para a votação da  presidência do clube, que eu. 

Posso dizer que não votei na continuação de Vieira, não sei se o voto de Cotrim seguiu o mesmo caminho.

Tempo para lembrar que nessas eleições, os associados do Sport Lisboa e Benfica tiveram a oportunidade de mudarem o rumo presidencial do clube. 

Alguns não pensaram assim, certamente estarão arrependidos, assim também aconteceu a muitos brasileiros que votaram Bolsonaro, a muitos norte-americanos que votaram Trump. 

É sempre tarde quando se chora.

Ficou muito clarinho que o presidente Luís Filipe Vieira tratou o clube com os pés e, em todos estes anos de péssima gestão, esteve mais preocupado com os negócios imobiliários na Matinha, em Moçambique, no Brasil, em Espanha do que com o clube.

Rosto do movimento «Servir o Benfica», Francisco Benitez veio a público pegar uma das frases ditas por Luís Filipe Vieira na Comissão de Inquérito Parlamentar às perdas do Novo Banco.

«Com esta afirmação fica claro que Luís Filipe Vieira» não é Benfiquista, nem foi para o Benfica para o salvar. Finalmente assumiu que foi para o Benfica salvar o dinheiro dos Bancos e se por acaso estes lhe tivessem pedido para ir para qualquer outro dos nossos rivais, ele teria ido sem qualquer problema. Assunto encerrado».

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

...E OS DIAS DIMINUEM

 


Sexta-feira 13.

Dia de azar.

Feitiços. Bruxas. Gatos pretos. Não passes por debaixo de escadas. Não abras o chapéu-de-chuva dentro de casa. Não tenhas relógios parados dentro de casa.

Em tempo de pandemia valerá a pena falar de sextas-feiras 13?

Bluff absolutamente inútil?

O papel todo branco à espera, ninguém sabe bem de quê!...

1.

Portugal registou hoje 6.653 novos casos de covid-19, um novo máximo diário, que aumenta para 204.664 o total acumulado de infetados no país desde o início da pandemia.

Nas últimas 24 horas morreram mais 69 pessoas devido ao novo coronavírus. No total, o país soma já 3.204 vítimas mortais.

Covid-19 justifica menos de metade dos mortos em excesso do último mês.

Estado paga 8.400 euros aos privados por cada doente Covid-19.

2.

Marcelo Rebelo de Sousa não gostou da solução de governação para os Açores.

3.

Ana Sá Lopes no editorial do Público de hoje: «Deixem-se de coisas: o PS apoia Marcelo»

4.

Quando em Março, face ao confinamento, todos sorriram quando os cinco anos do neto João perguntou se ia haver Natal.

Marcelo, para a semana, vai ouvir os partidos, em Dezembro reunirá o Conselho de Estado. Nestas reuniões espera que se determine aquilo com que contam os portugueses a partir de Dezembro.

«Fui o primeiro a dar a má notícia de que tinha de se mudar o estilo de Natal que sempre tivemos. Os portugueses têm de saber com antecedência o que vai acontecer no Natal.»

5.

Na passada terça-feira, com 83 anos, morreu o jornalista e escritor Artur Portela,Filho. Uma personalidade original, acutilante, mordaz, cáustico, anti-comunista, dizia-se o melhor cronista português, desdenhava dos que não conseguiam escrever como ele.

Antes do 25 de Abril escrevia no jornal República crónicas que intitulou A Funda, parcial e totalmente cortadas pela censura marcelista, mais tarde reunidas e publicadas em livro pela Moraes Editora.

Lembro-me de uma dessas crónicas, Abril de 1972, intitulada «Benfica, Reserva de Povo». Começava assim:

«A estes ninguém os meteu em autocarros.

São oitenta mil e foram eles que escreveram os cartazes.»

Mais á frente:

«O Benfica é, ainda, uma das raras solidariedades possíveis. Uma das únicas viáveis. Uma das poucas maneiras de ser povo.»

E pelo meio deixava perguntas:

«Que se deixou cair que o Benfica tenha apanhado do chão?

Que não se faz que o Benfica tente?

Que nos falta que o Benfica ouse?»

Em Maio de 1971, Mário Castrim criticou uma sua intervenção no programa «Canal 18» da RTP. Artur Portela não gostou e respondeu no dia seguinte no «Diário de Lisboa». Castrim deixou-lhe uma contra-resposta que começava, deliciosamente, assim:

«Ó Portela! Ó Filho! Assim se perde de um só golpe, a fama de intelectual valoroso, intemerato, glorioso há tantos anos preparada.»

Numa entrevista ao Público, Setembro de 2018, em tempo de Assunção Crista ser presidente do CDS, Artur Portela venenosamente, disse:

«Assunção Cristas ideologicamente é uma stripper.»

Legenda: pintura de Joseph Tomanek

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

ETECETERA

 

O Senhor Fernando Pessoa, vestido de Ricardo Reis, aconselhava:

«Para ser grande, sê inteiro».

Assim foi Juliette Gréco que, no dia 23 de Setembro, nos deixou.

Miles Davis voltou a sorrir-lhe e a repetir que reconheceria, aquele movimento de ancas em qualquer parte do mundo.

 Nasceu a 7 de Fevereiro, corria o ano de 1927.

A mãe disse-lhe que nesse dia chovia.

«A chuva ajuda todas as plantas a crescer, mesmo as venenosas», escreveu Gréco.

Jean Cocteau apelidou-a de «rosa das trevas», Sartre dizia que ela tinha mil poemas na voz.

Em 1965, para sair de um mundo ignóbil e imundo, tentou suicidar-se.

«Sartre tinha razão quando falou do inferno que são os outros. Tinha vontade de vomitar quando olhava à minha volta e via gente que era de uma tal mediocridade e de uma baixeza abominável. Todas essas personagens que dormiam com toda a gente, que não se amavam, que diziam mal uns dos outros. Aqueles a quem chamávamos a tout-Paris.

Falhou o suicídio e, mais tarde, com elegância, teve a possibilidade de dizer:

«Estou muito reconhecida à vida, embora por vezes ela tenha sido para mim muito cruel, muito dolorosa, muito difícil.»


1.

Abandonou o governo do país para se tornar presidente da união europeia, ocupa o cargo de presidente não executivo da Goldman Sachs International e agora, como presidente da Gavi-The Vaccine Alliance, irá monitorizar a distribuição de vacinas contra a Covid-19.

Durão Barroso, é ele o traste personagem que estamos referindo, dirá parvamente, entre dois arrotos de whisky, uma qualquer pilhéria, que sim, é mesmo um tipo esperto.

Para além de trafulhices, o personagem também percebe de vacinas?

O Fernando Assis Pacheco diria que isto são histórias para camelos.

Os camelos somos muitos de nós, quase a totalidade.

Isto anda tudo ligado e as vigarices, as corrupções, combinam-se em cada canto de uma qualquer rua deste mundo podre.

2.

Enquanto deputada da nação, pretendia que o orçamento da Assembleia da República lhe pagasse os fins-de-semana em Paris, cidade onde, então, vivia.

Como presidente da Câmara de Almada, disse que os miseráveis bairros de Almada têm uma vista privilegiada sobre o rio e sobre Lisboa e não se importava de lá viver.

A mediocridade política desta gente, explode em cada segundo dos dias que passam.

O nosso desencanto é enorme.

Que fazer?

3.

Segundo o Público, o governo prometeu 2500 camas para universitários mas só há 300.

E continua a desenfreada especulação, o escândalo sem nome, dos senhorios a alugarem quartos e apartamentos a estes jovens, que grande parte não conseguem suportar.

 4.

O processo chama-se Operação Lex.

Entre outros, três juízes vão sentar-se no banco dos réus.

De há muito os portugueses têm vindo a desconfiar da justiça portuguesa.

A partir de agora, aconteça o que acontecer, as razões dizem aos mesmos portugueses que não mais poderão pensar de modo diferente.

5.

Uma sondagem indica que 60,6% dos portugueses não acreditam que os fundos europeus que aí vêm, sejam bem aplicados, bem geridos geridos.

Há que seguir dinheiro.

Mas quem o fará?

 6.

António Costa vai dizendo :

«O nosso lema volta a ser emprego, emprego, emprego.»

Em resposta o Montepio deu início a uma onda de despedimentos enquanto e os inscritos nos centros de emprego de todo o país atingem os 409 mil e não havia tanto desemprego registado desde Janeiro de 2018.

7.

Uma história antiga:

«Lembro-me que me abracei a um polícia e, ambos aos saltos, saudando um crime: o Vata marcara com a mão e íamos à final da Champions.» 

Ferreira Fernandes no Público