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quarta-feira, 27 de maio de 2026

OLHAR AS CAPAS


Revolução

Hugo Gonçalves

Capa: Luísa Cunha

Companhia das Letras, Lisboa, Maio de 2024

Por mais companhias de dinamização cultural e acção cívica, o povo ainda não tinha aprendido as regras da convivência. O povo – ao vivo e aos magotes, rameloso e na disputa de um lugar sentado, com o banho por tomar ou uma sobrecarga de perfume – era menos inspirador do que nas estilizadas pinturas de mural com o punho no ar.

domingo, 26 de abril de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ

Na manhã de domingo, pós os 52 anos do 25 de Abril de 1974, reproduzimos algumas das centenas de cancões que elegem a data como um dia feliz e encimo o texto com a imagem do I Encontro da Canção Portuguesa de 29 de Março de 1974, num Coliseu a deitar fora e em que José Afonso, quando chegou a vez de actuar disse:

«Os habituais impedimentos que surgem nestas ocasiões, que aliás, são muito raras, obrigam-me a ter de cantar uma canção que pelo menos pode ser cantada por todos nós, que é a Grândola 





sábado, 25 de abril de 2026

POSTAIS SEM SELO


Em 29 de Setembro de 2024, ainda lembrando os 50 anos do 25 de Abril, o Público, no suplemento P2, publicou um trabalho de Sérgio B. Gomes, sobre o fotógrafo José Carlos Nascimento. Nesse trabalho reproduzem-se várias fotografias tiradas no dia 25 de Abril de 1974 e uma delas, a primeira desse dia, tirou-a enquanto aguardava a chegada de uma colega sua, que entretanto apareceu em passo de corrida e um grande sorriso, com as traseiras da Igreja da Graça em fundo. Trabalhavam na agência de publicidade Praxis, Cooperativa de Estúdios Técnico, com escritório/estúdio na Villa Sousa edifício onde existiu o Botequim da Natália Correia.

Gosto imenso desta fotografia e o suplemento está guardado nas páginas de recortes da Biblioteca da Casa.

Reproduzo a fotografia do Público e a imagem da exposição que José Carlos Nascimento apresentou em 2024 com 50 fotografias do dia histórico, tiradas desde a Graça, passando pelo quartel da legião na Penha de França, pelas ruas de Lisboa até ao quartel do Carmo.

A moça dirá ainda que foi o dia mais feliz da sua vida, como tantos de nós que viveram este dia, e que são menos porque a lei da vida os tem levado.

A alegria dos que sabem viver a liberdade que festejamos.

A Alegria de Abril.

COMEMORAR A "REVOLUÇÂO MISERÁVEL"


 O 25 de Abril, “essa revolução miserável”

André Ventura


«Cada pessoa na rua hoje vai mais do que comemorar, resistir. Resistir a quê? À manipulação da memória da revolução do 25 de Abril, à cuidadosa transformação da guerra colonial numa designação geográfica, a “guerra da África”, ou na “guerra no Ultramar”, a comparações absurdas entre abusos pontuais e muitos milhares de actos de violência e humilhação dia após dia, ano após ano, que duraram 48 anos. Já para não falar dos massacres, execuções sumárias, “heróis” assassinos que se especializaram em atirar granadas incendiárias contra mulheres e crianças.

Resistir a quê? Ao Chega. As manifestações do 25 de Abril este ano serão contra o Chega, contra o novo ambiente político de crueldade e agressão, e contra o ataque à “revolução miserável” feito por aqueles que gostavam da ditadura e das suas violências, por uma série de motivos, nenhum nobre e que esconderam pela censura, corrupção e prepotências quotidianas.»

José Pacheco Pereira no Público

RETRATOS


«A minha ria é a do Douro do vinho e também a dos muitos cursos de água do Alvão, serra que avisto desde casa e em cujos lameiros verdejantes esvoaçam borboletas de todas as cores, como a muito ameaçada borboleta-azul-das-turfeiras. No último domingo, segui-lhes o rasto, desfrutando da sua beleza efémera e dos mistérios de outras espécies que habitam o mesmo espaço, como a minúscula orvalhinha-redonda (Drosera rotundifolia L.), uma plantinha carnívora com lindas folhas em roseta que segregam uma substância viscosa para capturar insectos. Mesmo ao lado, a aldeia de Lamas de Olo seguia na sua pacatez bucólica, já sem casas de colmo. É pena. Deviam ter preservado, bem à vista, pelo menos uma ou duas como testemunho histórico, para se perceber melhor a paisagem da miséria daquele outro tempo.

A ria de David Lopes Ramos, saudoso colega e amigo, era a de Aveiro e na sua criação os barcos coloridos ainda não transportavam turistas, só moliço para adubar as terras de areia. Era a mesma exótica pobreza de Lamas de Olo e do resto do país, sobretudo do interior, vivida com medo e sem esperança. Num caso como no outro, emigrar era o grande desígnio.

No dia 24 de Abril de 1974, tal como Vasco Lourenço e Melo Antunes, duas figuras centrais do golpe e da posterior democratização do país, David Lopes Ramos estava em S. Miguel, Açores, a cumprir o serviço militar, como aspirante a oficial miliciano. Era ajudante de Vasco Lourenço e, de algum modo, também lhe somos credores de podermos viver hoje em liberdade, sem medo de regedores, de bufos da PIDE e da própria; e até de podermos dizer mal de quem nos devolveu a dignidade e o sonho, como faz frequentemente o falso cristão e proto fascista André Ventura, um filho ingrato da democracia.

Mal recebeu de Melo Antunes o célebre telegrama enviado por Otelo — “Tia Aurora segue Estados Unidos da América 25, 3 da manhã. Um abraço primo António.” —, Vasco Lourenço chamou alguns colaboradores, entre os quais David Lopes Ramos, a quem, depois do jantar, perguntou: “Ó Ramos, você sabe rezar?”. “Porquê? Porque me pergunta isso?”, respondeu-lhe David. “Porque, se soubesse, mandava-o rezar!”, acrescentou o capitão. “Não me diga! Não me diga que é hoje!”, exultou David, a tremer. “Sim, sim, é esta noite. Vamos embora preparar tudo…”, confirmou-lhe Vasco Lourenço. Em memória de David, o aspirante Ramos da Revolução de Abril

A partir das 3 da manhã, David Lopes Ramos foi para o quartel e, contou Vasco Lourenço, “ficou agarrado à rádio, a ouvir tudo o que era possível e a fazer-me relatórios da BBC, das rádios portuguesas, etc.”. Nessa noite, o aspirante Ramos teve uma outra tarefa: acordar Melo Antunes, que fora dormir para o casarão da sogra. “Eu fartei-me de telefonar toda a noite, e nada. A certa altura, disse ao David: ‘Vá lá a ver se o consegue acordar e se o traz’. Bem, atirou-lhe pedras contra a janela, acordou a vizinhança toda, mas o Melo Antunes só me apareceu pelas sete ou oito da manhã, finalmente acordado pelo telefone, que tocou toda a santa noite!”, recordou Vasco Lourenço.

Todos sabemos o que se passou em Lisboa e o que veio a seguir. Por intervenção de Melo Antunes e Vasco Lourenço, David Lopes Ramos viria a integrar o Movimento das Forças Armadas, tendo sido o adido de imprensa de Vasco Gonçalves nos quatro governos provisórios que este general liderou, entre Julho de 1974 e Setembro de 1975. Nesse tempo, era a David que todos os jornalistas recorriam e “por quem tinham uma grande consideração e respeito”, como recordou ao PÚBLICO o jornalista António Borga.

Após a queda do V Governo, David Lopes Ramos ingressou no Diário de Notícias (DN). Por pouco tempo: ele e outros jornalistas foram afastados logo a seguir ao 25 de Novembro de 1975. Saiu do DN, mas nunca mais abandonou o jornalismo. Esteve ligado à fundação do jornal Diário e viria, mais tarde, a integrar a equipa inicial do PÚBLICO, primeiro como subeditor de secção Cultura, depois como editor da Sociedade e finalmente como crítico de gastronomia e vinhos, primeiro na revista de domingo e a seguir no suplemento Fugas, onde se consagrou como um dos mais respeitados e reputados críticos de gastronomia e de vinhos do país.

David Lopes Ramos morreu no dia 29 de Abril de 2011 e já não viveu para assistir à tentativa de reescrita da História por parte da direita extremista, e não só. Imagino o que teria dito e pensado se tivesse assistido ao debate televisivo entre Pacheco Pereira e o líder do Chega e à tentativa deste de colocar no mesmo patamar os 48 anos da ditadura com os excessos e desvios dos 19 meses que separaram o 25 de Abril de 1974 do 25 de Novembro de 1975 — e até dos anos seguintes. Excessos e desvios próprios de qualquer revolução e que a consolidação do processo democrático foi corrigindo. Com uma irónica excepção: os únicos crimes violentos, com mortes, que ficaram sem castigo até hoje, é bom lembrá-lo, foram cometidos por grupos ou movimento de direita, como o MDLP, a que pertencia um dos ideólogos do Chega, Pacheco Amorim.

André Ventura também deve colocar David Lopes Ramos no mesmo saco dos “criminosos” da Revolução de Abril. Mas o líder do Chega teria de nascer três vezes ou mais para poder equiparar-se-lhe em honestidade, correcção e bondade. Mais do que um grandíssimo jornalista e crítico gastronómico, David era um homem intrinsecamente bom. Tê-lo conhecido e ter sido seu amigo foi uma das grandes dádivas que o jornalismo me deu.

A seu pedido, David Lopes Ramos foi cremado e parte das suas cinzas foram depositadas no cemitério de Pardilhó, Estarreja, a sua terra natal, e onde na próximo sexta, dia 1 de Maio, alguns amigos e a família irão fazer uma romagem. “O meu irmão faz-me muita falta”, suspira Arménio, o seu único irmão, 70 anos, cara chapada de David no que este tinha de mais virtuoso. A outra parte das cinzas foi espalhada na sua adorada ria de Aveiro, a que sempre voltava, para recordar os seus mortos e partilhar com os vivos o prazer simples de uma caldeirada de enguias, um peixe grelhado acabado pescar pelos artesãos da arte Xávega ou um galo caseiro assado no forno.

Um brinde à sua memória! E viva o 25 de Abril!»

Pedro Garcias no Público

MÚSICA PELA MANHÃ


«Entrados nos 52 do 25 (não é uma dança de números, são os 52 anos do 25 de Abril de 1974, que hão-de completar-se no próximo sábado), o mundo continua a afundar-se em cenários de opereta que tão depressa nos lembram as distopias de Orwell como as delirantes acrobacias marxistas (de Chico, Harpo e Groucho, não as do velho Karl). Foi preciso esperar 52 anos para ouvir catalogar, em televisivo horário nobre, com bastante saliva e fanfarronice, a nossa tão celebrada “revolução dos cravos” como “revolução miserável”, coisa que Salazar, lá na tumba, terá decerto apreciado. Lembram-se daquela antiga canção que Dalida cantava com Alain Delon, Paroles, paroles? Era um caso de amor, aqui é de ressentimento e ódio. Mas, num ou noutro, são só palavras. E não há palavras, mesmo as mais infames ou violentas, que apaguem a História. Por mais que as gritem.

Abril, guerras mil – e há um ogre a querer dançar
Noutro palco, o planetário, estamos em pleno manicómio. Fixemo-nos numa criatura, a que, por economia de letras, chamaremos ogre (nada que ver com Shrek, pois este não é verde, anda mais pelos tons alaranjados; nem é muito dado a atrair simpatias, excepto de acólitos e veneradores). Pois queria o ogre ser visto como um campeão da paz. Até lhe deram dois prémios e tudo. Como falhou na paz, atirou-se à guerra, trocando a paz das pombas pelo “pás” das bombas. Nada que uma canção não tenha já dito, antes do ogre. Ouça-se Amélia Muge em E viva a paz (1991): “E viva a paz e viva a paz/ p’ra mim, p’ra ti, cá p’ró rapaz/ pás, pás, pás… pum!/ lá vai mais um!”»


Nuno Pacheco no Público






quinta-feira, 23 de abril de 2026

REOLHARES

VELHOS RECORTES

O que aqui se publica, é uma Carta ao Director do Público enviada pelo leitor José da Cruz Santos que, quando o 25 de Abril fez 50 anos, num qualquer momento de inquietação, de desesperança, entendeu que outros leitores do jornal, deveriam conhecer o que lhe ia no pensamento.

Passou um ano.

Que pensará o leitor José da Cruz Santos? 


domingo, 5 de abril de 2026

NESTE DIA


No 1º volume dos Cadernos de Lanzarote, ano de 1993, Carmélia telefonou a Saramago, aos gritos de 25 se Abril sempre!, mas o entusiasmo de Carmélia deixou-o «lamentavelmente frio».

Neste Dia, estamos com o 2º volume dos Cadernos de Lanzarote, ano de 1994, 5 de Abril: 

«Mal refeito ainda da viagem de regresso, tive de decidir-me a responder, enfim, aos inquéritos do Público e do Expresso, ambos sobre o vigésimo aniversário do 25 de Abril. A Vicente Jorge Silva, que convidou «vinte personalidades representativas dos mais variados secto­res e quadrantes da vida nacional» a escolherem «os dez melhores e os dez piores acontecimentos, situações e fenómenos registados» desde a revolução, respondi brevissimamente: que o pior do 25 de Abril foi o 25 de Novembro; que o pior de ateio foi Saraiva de Carvalho; que o pior de Vasco Gonçalves foi Vasco Lourenço; que o pior do Primeiro de Maio foi o Dois de Maio; que o pior da Reforma Agrária foi António Barreto; que o pior da Descolonização foi Agora Amanhem-se; que o pior das Nacionalizações foi Salve-se Quem Puder; que o pior da Reforma do Ensino foi Não Haver Ensino; que o pior da Liberdade de Expressão foi ser Liberdade Sem Expressão; que o pior da Democracia (até agora) foi Ca­vaco Silva. E a Joaquim Vieira, que me pedira 125 pala­vras sobre as circunstâncias em que recebi «a notícia de que estava em curso o derrube do Estado Novo» e «as recordações mais marcantes do período que se seguiu, até [mais de 1975», dei-lhe rigorosamente as palavras pedi­das, que assim rezam: «Nesse mês dormi algumas noites em casas de amigos não marcados pelo regime. Vários camaradas meus haviam sido presos, a minha vez podia não tardar. Passei uns dias em Madrid, mas, como a po­lícia não se "manifestou", regressei a Lisboa. Vim a sa­ber depois que a minha prisão estava marcada para o dia 29... Numa reunião na Seara (ouviam-se ainda tiros nas ruas) fui encarregado de escrever o editorial para o pri­meiro número "livre" da revista.» E rematei: «Não esque­cerei o Primeiro de Maio, nem o 26 de Setembro, nem o 11 de Março, nem a Assembleia do MF A em Tancos, nem os meses em que fui director-adjunto do Diário de Notícias. Não esquecerei o Alentejo nem a Cintura Indus­trial. Não esquecerei o que então chamámos Esperança.

Suspeito que não terão apreciado as respostas nem o tom em que foram dadas. O caso é que inquéritos destes me irritam pela sua inutilidade. Servem para en­cher papel.»

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

CRONICANDO POR AÍ


 O gosto pelas Crónicas, o desejo único de que o espírito de Abril se mantenha pelos tempos fora, «Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os Estados Sociais, os Estados Corporativos e o estado a que isto chegou. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem não quiser sair, fica aqui!», Salgueiro Maia ainda em 24 de Abril de 1974:

«Tinha nove anos. Os meus pais eram comunistas: «a nossa senha é Salgado Zenha», naturalmente. Levava para a escola primária dos Olivais autocolantes com um Z. 

Desde cedo, aos seis anos, que ia a pé para a escola, quinze minutos de deslocação com um colega e amigo. Éramos miúdos e estávamos por todo o lado, por toda a cidade. 

Lá estava a inscrição na parede ao pé de casa: «Não à lei Barreto/77». Havia política por todo o lado. Hoje também há, mas é mais invisível, mais elitista, menos democrática. E isto já não é bem um país, como sabeis, dada a perda, sempre reversível, de soberania. Ainda é uma pátria. Mas não há crianças nas ruas, aos bandos. Envelhecer deve ser isto. Prossigamos.

Os meus colegas de direita tinham todo o tipo de bugigangas do Freitas do Amaral, dizia-se que era a primeira campanha «à americana». Na sua autobiografia, Freitas do Amaral, já agora, usa o termo neoliberal para descrever as suas orientações e as do seu CDS. Sim, sou um respigador destes usos de uma palavra que alguns ainda rejeitam de forma ignorante.

Invejava os meus amigos de direita secretamente. Uma vez fui passar a tarde a casa do Pedro e fomos com a mãe dele às compras. De passagem, fomos dizer olá à avó, que estava a trabalhar numa sede de campanha do Freitas, ali na Cruz de Celas. A avó queria dar-me um sortido kit de campanha: «este menino é do Zenha», antecipou a mãe. Pois sou, confirmei, como se uma meta-preferência ético-política contrariasse a preferência imediata pela cor, pelo plástico.

Irritava-me o hino de Freitas do Amaral, o do «prá frente Portugal», que me ficou no ouvido até hoje, tal como o do «pão, paz, povo e liberdade» do cavaquismo ascendente. O Rafael, o meu melhor amigo, era do PSD e eu, aparentemente, tinha-o apodado de «fascista» quando soube disso, no dia em que nos conhecemos, fazia três anos. Conta essa história até hoje, mas eu não me lembro. A memória depende de outros, como tudo na vida. Aprende-se, imitando, claro. 

Lembro-me de ir a um entusiasmante comício de Salgado Zenha, que julgo ter sido no Teatro Avenida. Estava a abarrotar. Agitei uma bandeira com alegria, como ainda hoje gosto tanto de o fazer. O Teatro já não existe, substituído há muito por um mamarracho hediondo. 

Lembro-me de se achar que Maria de Lurdes Pintassilgo só servia os interesses da candidatura de Soares. Soares, esse sim, era odiado. O meu pai tinha sido advogado sindical na última década antes das eleições, a da queda brutal do peso dos salários no rendimento nacional depois do grande avanço do glorioso PREC.

Chorei no domingo da primeira volta, sempre tive a lágrima fácil: «perdeu-se uma batalha, mas não se perdeu a guerra», consolou-me o meu pai, ao mesmo tempo que dizia que jamais votaria em Soares. «É claro que vamos votar no Soares», disse a minha mãe, antecipando a deliberação coletiva proferida por Álvaro Cunhal. 

Andei então com um autocolante de Soares e tive mais companhia no recreio nessa altura. A seguir, logo em 1987, Soares foi Soares, nunca se pôde confiar nele, realmente. Mas a unidade possível era função do inimigo principal num tempo antes deste terrível consenso neoliberal. O neoliberalismo era só um movimento entre outros, não era ainda o regime europeu que Soares sempre endossou, retórica à parte.

E ainda não vi o documentário na RTP da autoria de Ivan Nunes e de Paulo Pena, de que já me falaram, sobre as eleições de 1986. Vou agora ver, provavelmente com melancolia de esquerda. 

Antes, porém, há que dizer e redizer, sem qualquer melancolia: «com o povo, por Abril, por Portugal». Sim, muito obrigado, António Filipe, por esta campanha imprescindível. Poder e razão não são sinónimos e nunca esta distinção foi tão importante. Pode perder-se e ainda assim ter razão, muitas razões.

Agora, vou votar no candidato que não se chama Ventura. Pensarei em Cunhal e no meu pai. Não é difícil votar. Difícil foi conquistar o sufrágio universal. E aí os comunistas foram, como sempre, imprescindíveis.

A vida, a luta e a resistência não terminaram no passado domingo, nem terminarão no dia 8. É papel dos democratas rejeitar Ventura, mas a luta não se esgota aí. De facto, continua a ser imprescindível derrotar o consenso neoliberal, desde logo tendo presente que rejeitar Ventura, não é apoiar as ideias de Seguro. 

A luta social terá de se intensificar e muito. Os perigos para a democracia não se encontram apenas em Ventura, mas nos projetos mais vastos de exploração, desde logo no pacote laboral. Sabemos quem continua a ser imprescindível para derrotar tudo isso.»

João Rodrigues em Abril, Abril

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

CONVERSANDO

Dizia-se, ontem, por aqui que este nosso mundo não só está mais perigoso, como caminha precipitadamente para o abismo!

Há silêncios que gritam tão alto, mas ninguém os ouve, ninguém os quer ouvir.

Os povos não aprendem com a História.

Poder-se-á dizer que, por exemplo, os venezuelanos já poderiam ter transformado as suas vidas,  o seu futuro, mas nada aconteceu.

Teria que ser os Estados Unidos a intervir na deposição de Maduro como presidente-do-país-que-nunca-foi?

Não, não teria que ser.

Nós portugueses, pela luta férrea de muitos democratas, alguns não viram a cor da liberdade, pela decisão militar e política dos Capitães, levámos quase meio século para derrubar a ditadura de Salazar e Caetano.

Os tais silêncios…

Legenda: imagem de Geogia O’Keeffe.

quarta-feira, 7 de maio de 2025

OLHAR AS CAPAS


E Agora Que Fazer?

3º Volume

Coordenação e Introdução: Orlando Neves

Capa: Dorindo Carvalho

Diabril Editora, Lisboa, Maio de 1976

Quando em 25 de Abril de 1974, um grupo de militares com o apoio maciço do povo português derrubou a ditadura salazarista-marcelista, por muitas discussões que o programa do MFA suscitasse, a verdade era que se abria a Portugal um hipótese de processo revolucionário. Estes dois anos vieram revelar que as hesitações nesse processo, fizeram com que em Maio de 1976, se tenha seriamente de pôr em questão a existência, algum dia, de uma Revolução em Portugal originada nesse primeiro 25 de Abril.

terça-feira, 6 de maio de 2025

OLHAR AS CAPAS


A Revolução em Ruptura

2º Volume

Coordenação: Orlando Neves

Capa: Dorindo Carvalho

Diabril Editora, Lisboa, Novembro de 1975

«Fechamos hoje um período difícil da nossa revolução», afirmou o general Costa gomes no acto de posse do VI Governo, a que preside o almirante Pinheiro de Azevedo. A «nossa revolução» é, no dizer do Presidente da República, do actual Primeiro- Ministro e, mais ou menos no dizer de todos os representantes do poder político-militar, uma revolução socialista. Ao afirmarem-no, sem dúvida que não ignoram o  sentido da expressão: a revolução socialista objectiva-se na liquidação de todas as formas de opressão, na liquidação da exploração do homem pelo homem. Aí se chega através da luta de classes – e no caso da revolução socialista (oposta, por óbvio, à revolução burguesa) com a vitória – a obtenção do poder – das classes sociais «mais desfavorecidas» (para usar expressão cara ao MFA) que o mesmo é dizer do proletariado urbano e rural e seus aliados. Na revolução socialista (ainda obviamente) a substituição da classe dominada – o proletariado – é condição sine qua non para que assim se lhe chame.»

segunda-feira, 5 de maio de 2025

OLHAR AS CAPAS


MFA: Motor da Revolução Portuguesa

1º Volume

Coordenação: Serafim Ferreira

Capa: Dorindo Carvalho

Diabril Editora, Lisboa, Julho de 1975

Não há nenhuma revolução que se faça (sobretudo) com boas intenções. Mas a Revolução Portuguesa, nos seus propósitos iniciais de derrubar a ditadura fascista, sem sangue e sem tiros, parece querer fugir à regra. E, sendo assim uma excepção, poderá talvez correr o risco de se desvirtuar no que de essencial deve ser atingido, ou seja, abrir realmente caminho para a instauração em Portugal de uma sociedade democrática rumo ao socialismo. Se é ambicioso este projecto político, se as linhas da política definida pelo MFA apontam na verdade para uma sociedade socialista, não há dúvida de que a Revolução Portuguesa não pode fazer-se com improvisos, com sobressaltos, com ramalhetes de cravos: uma revolução triunfa sempre quando, ao modificar certas coisas, quer de facto que tudo se modifique e não apenas que tudo fique na mesma. Uma revolução triunfa sempre quando se mostra inteiramente capaz de levar até às últimas consequências o Programa com que iniciou o processo de derrubar pelas armas uma ditadura ou um regime antidemocrático. 

sexta-feira, 2 de maio de 2025

NOTÍCIAS DO CIRCO


Era para ser uma comemoração do 25 de Abril em S. Bento, organizada pela máquina de propaganda do staff de Montenegro, com a presença de Tony-Carreira-cantor-pimba-cá-do burgo.

Entretanto foi marcado o luto nacional pelo Papa Francisco e a festarola deslizou para o 1º de Maio, mesmo local, mesmos artistas, mesma parolice.

Aconteceu ontem com o subtítulo «São Bento em Família»

As televisões deram imagens e bateram na tecla do dueto entre o rural de Espinho e o cantor-pimba, na canção plagiada que fala duns sonhos de menino numa aldeia da Beira.


Simplesmente patético.

Os custos do show-comício, certamente, terão saído dos lucros da Spinumviva.

Ou não?

Deixem o Luís cantar e vão ver o que nos acontece!... 

quarta-feira, 30 de abril de 2025

POSTAIS SEM SELO


«Alguns acharam que a festa de abril era incompatível com o pesar que sentimos pela morte do Papa Francisco. Estamos de luto, pensaram, e no luto não pode haver festa. 

Ocorreu-me a mim, velho agnóstico que sou, a ideia de que o verdadeiro luto pelo Papa Francisco estava afinal na alegria. Na alegria que ele próprio irradiava e na nossa profunda e inabalável alegria de abril».

Luís Filipe Castro Mendes de uma crónica no Diário de Notícias

Legenda: fotografia de Rui Ornelas

sábado, 26 de abril de 2025

sexta-feira, 25 de abril de 2025

NOTÍCIAS DO CIRCO

Já de há muito se sabe, que Montenegro e os acólitos que giram à sua volta, não gostam do 25 de Abril.

Causa-lhes azia, comichões várias…

Num golpe completamente saloio, miserável, aproveitaram-se do luto decretado pela morte do Papa Francisco, para cancelarem as festas governamentais – como se eles soubessem fazer festas, ou delas gostassem!...

David Pontes, em editorial do Público de hoje, diz-lhes o que realmente são:

«Mostrando uma insensibilidade notável às polémicas em torno desta data e da importância deste 25 de Abril específico, o executivo embrulhou-se sobre o que podia ou não fazer devido ao luto nacional por causa do Papa Francisco e criou uma polémica escusada, quando o apelo deveria ser a que o dia de hoje seja o mais consensual possível. Tal como foi o ano passado, com a participação no desfile de Lisboa do presidente da Assembleia da República, Aguiar-Branco, e da Iniciativa Liberal, que este ano volta a integrar o cortejo.

É este 25 de Abril, uno e inclusivo, que se quer. Sempre.»

quinta-feira, 24 de abril de 2025

REOLHARES


 


Houve um tempo de cravos nos canos das espingardas.

Houve um presidente da Câmara, personagem sinistra, Krus Abecasis de seu nome, que proibiu, o cultivo de cravos vermelhos nos viveiros municipais.

Ainda hoje, as gentes, que vibraram nas ruas, que gritaram contra o medo, quando, pelas manhãs de sábado ou domingo, compram cravos para decorar as casas, não sabem comprá-los de outras cores que não vermelhos.

Mas Reolhemos a tal probição Após o 25 de Abril.

 

(Em Reolhares vamos publicando textos publicados, nos últimos 15 anos no Cais do Olhar).

quarta-feira, 23 de abril de 2025

OLHAR AS CAPAS

Origens e Evolução do Movimento de Capitães

Diniz de Almeida

Edições Sociais, Lisboa, Março de 1977

Os homens fazem a sua própria história, contudo não a fazem arbitrariamente, nas condições  escolhidas por eles, mas antes sob as condições directamente herdadas  e transmitidas pelo passado.

terça-feira, 22 de abril de 2025

OLHAR AS CAPAS


Os Soldados Socialistas de Portugal

Marcio Moreira Alves

Capa: Sebastião Rodrigues

Colecção Século XX-XXI

Iniciativas Editoriais, Lisboa, Dezembro de 1975

Como pôde um exército colonial, ao serviço dum regime fascista e subdesenvolvido, tornar-se um movimento de libertação? De que maneira pôde uma oficialidade, que não recebeu qualquer educação política formal, passar em poucos meses, de uma posição liberal clássica, caminhar para uma opção socializante e, finalmente, escolher o socialismo que definiu, em termos de grande rigor conceptual, como sendo uma «sociedade sem classes obtida pela colectivização, dos meios de produção, eliminando todas as formas de exploração do homem pelo homem.» Qual foi a metamorfose secreta que levou a direcção do Movimento das Forças Armadas, a abandonar o personagem do general Spínola, um pouco caricatural, sem dúvida, com o seu monóculo, as suas luvas e o seu inseparável pingalim de comando, mas também sem dúvida depositário da confiança da Internacional da Direita? Como pôde esta direcção passar progressivamente às mãos de jovens comandos que falam, ao sair do mato, como se lá tivessem descoberto Phroudon e Che Guevara? Até que ponto Portugal, que segue o seu exército para a aventura de uma vida nova, é único? Até que ponto estará Portugal outra vez sozinho no tempo – desta vez no tempo do futuro, como durante tâo longos anos esteve no tempo passado?