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quinta-feira, outubro 22, 2015

O golpista

Homem forte do presidente encomendou 'caso das escutas'

Preparado ao longo de um ano em Belém, o caso das escutas (ou inventona de Belém, como ficou conhecido o golpe) foi lançado nas vésperas das eleições legislativas de 2009. A seguir à vitória de Sócrates, Cavaco Silva apelou a um «sobressalto cívico».

Seis anos depois, Belém desencadeia um novo golpe: apela à rebelião dos deputados do PS e deixa a pairar a ameaça de suspender a democracia durante seis nove meses.

É este homem perigoso que se alçou à chefia do Estado que alguns qualificam como «institucionalista».

domingo, agosto 23, 2015

Uma campanha tóxica


Manuel Carvalho escreve hoje um artigo no Público, no qual procura mostrar como Passos Coelho, desde que o terrível Ângelo o lançou para estas altas cavalarias, recorreu sempre a campanhas de contra-informação para desgastar os seus adversários (internos e externos). Trata-se de um depoimento relevante, tanto mais que Manuel Carvalho — tendo feito parte, sob o inesquecível comando de José Manuel Fernandes, da direcção do Público que se prestou a assumir a autoria material da abjecta inventona de Belém — terá conhecimento (por dentro) de como estas coisas se fazem.

Recomenda-se a leitura do artigo a todos aqueles que têm uma visão idílica do funcionamento da democracia e se abespinham quando a crispação ocupa o espaço reservado ao debate de boas maneiras. Se se sentem incomodados quando, perante a profunda degradação das condições de vida da maioria da população, se exerce o direito à indignação, ao menos saibam estar à altura de dar resposta a estas manobras subterrâneas palidamente descritas por Manuel Carvalho. Eis o artigo na íntegra, intitulado Uma campanha tóxica:
    «Estamos a um mês e meio das eleições legislativas e António Costa e o PS continuam a lutar em vão para sair do buraco defensivo onde a imparável máquina de comunicação e de contra comunicação do PSD e do CDS os confinou. Os socialistas e o seu líder não perceberam ainda que os seus adversários políticos estão há anos a aprender a usar as redes sociais para armadilhar as campanhas e desta vez estão a conseguir resultados demolidores. Nos casos dos cartazes ou na história dos empregos que serão criados por um eventual governo do PS, bastou o lançamento de rápidas medidas de contra-resposta baseadas em mensagens básicas e potencialmente polémicas para alastrarem pelo Facebook ou pelo Twitter para que os socialistas acabassem acossados por pedidos de desculpas ou em explicações destinadas a conter os danos.

    No final do dia, já ninguém se lembrava das mensagens originais – o que sobrava era a espuma da sua demolição. Há mais de um mês que o PSD e o CDS estão a conseguir abater todas as iniciativas de campanha do PS ainda antes de levantarem voo.

    Bem se sabe que muita da responsabilidade por este estado atarantado e reactivo dos socialistas se deve a um interminável rol de culpas próprias — o caso dos cartazes do desemprego é mais do que “aselhice”, é pura e simples incompetência que, essa sim, merece censura e valoração política. Mas há no geral a ideia de que o PS está a ser arrasado por uma campanha tóxica que dissolve todas as acções de campanha num eficaz batido com os temperos da demagogia, do primarismo argumentativo e da manipulação. O admirável mundo novo de comunicação que começou a ser ensaiado nas primárias do PSD em 2009 e que se qualificou em 2011 chega a estas eleições num formidável grau de aprimoramento.

    Os “marqueteiros” brasileiros, que à custa de cortinas de fumo foram capazes de eleger uma presidente, Dilma Rousseff, sem que ela sequer se tivesse dado ao trabalho de apresentar um programa de governo andam por aí. Depois, na rectaguarda, nos gabinetes dos ministros, concentra-se uma tropa de reserva jovem, frenética, imersa dos pés à cabeça no mundo da net e imbuída de um messianismo que não olha a meios para erigir um país novo. Contra este saber, competência e mobilização, Edson Ataíde parece um aprendiz da idade da pedra e Vieira da Silva ou Ferro Rodrigues locomotivas do tempo do vapor. De pouco adianta fazer contas, gizar programas ou estudar propostas. Eles lá estão para as embrulhar numa fórmula devastadora que as reduzirá a uma anedota, mesmo que para lá chegar seja necessário mentir. Pela primeira vez, estas eleições arriscam-se a ser dominadas pelo império das redes sociais e só o PS e o seu líder (que só há semanas abriu uma conta no Twitter) parecem não ter percebido os impactes deste pouco admirável mundo novo.

    Vejam-se os casos dos cartazes, em especial o que ostentava uma infeliz imagem entre o zen e o profético. A facilidade com que esse cartaz foi ridicularizado pode ser justificada pela sua lamentável falta de gosto, mas para que essa consciência se tivesse generalizado ao ponto de o PS se sentir na obrigação de o retirar foi essencial a colocação nas redes sociais de uma bateria de posts que, pelo seu teor, quase forçavam os utentes do Facebook a gozá-los, a ridicularizá-los e a partilhá-los. Veja-se ainda como o caso das simulações de Mário Centeno sobre os 207 mil empregos foram transformados numa promessa de Costa através da colagem a uma declaração na qual José Sócrates aparecia a prometer 150 mil empregos. Saber o que em rigor foi dito não passou de um vago detalhe da comunicação. À noite, as televisões deliciavam-se a comparar Costa a Sócrates.

    Não precisamos de puxar muito pela cabeça para perceber que esta estratégia baseada no ardil tem tradições e experiência. Vale a pena recordar a reveladora entrevista de Fernando Moreira de Sá a Miguel Carvalho, da Visão, em 2013, no qual este especialista em comunicação explicava como um grupo de bloguers arrolado por Miguel Relvas se entreteve a “derreter” Manuela Ferreira quando foi líder do PSD, como as suas campanhas negras derrotaram Paulo Rangel nas eleições internas que se seguiram ou como trabalharam nos bastidores para levar Passos Coelho ao poder. A sua receita era bem simples e é impossível não a pressentir nestas semanas de arranque das legislativas. “Se deixarmos uma informação sobre o caso Freeport num perfil falso e se ele for sendo partilhado, daqui a pouco já estão pessoas reais a fazer daquilo uma coisa do outro mundo”, notava Fernando Moreira de Sá.

    Antes do debate entre Passos e Paulo Rangel, dizia Sá, “já tínhamos tweets preparados para complicar a vida do Rangel. Nos primeiros minutos começámos a tuitar como se não houvesse amanhã. Ao fim de cinco minutos riamos até às lágrimas! Até opinion makers repetiam o que nós dizíamos”. Convém notar que pelo menos 11 destes operacionais, entre eles o ex-ministro Álvaro Santos Pereira ou o influente deputado Carlos Abreu Amorim, acabaram por ver a sua acção premiada com belos cargos no Governo ou na Assembleia.

    Muitos dirão que aquilo que está a acontecer é uma decorrência lógica do avanço tecnológico e no modo como os cidadãos o ajustam ao seu quotidiano. É também pertinente verificar que, se o PSD e o CDS são muito mais competentes a adaptar-se a este novo mundo e a jogá-lo em favor dos seus interesses, isso só diz bem da sua competência. É verdade, mas apenas e se encararmos as eleições legislativas como um braço de ferro entre inimigos figadais, uma espécie de luta mortal onde só não vale arrancar olhos. O que está em causa, porém, é muito mais do que isso.

    Neste clima propenso ao truque e à redução da política ao grau zero da substância, o PS e António Costa não são as únicas entidades desarmadas pela surpresa e eficácia das realidades artificiais na campanha. Também o jornalismo tem pela frente um árduo desafio neste tempo em que, como muito bem escreveu Paulo Ferreira, no Observador, “os alinhamentos e a edição são, cada vez mais, feitos fora das redacções, em milhões de computadores ligados em rede e têm o ‘like’ como unidade de medida”. A reflexão sobre a pertinência, o interesse público ou a verosimilhança de determinadas informações está a perder-se na maré de posts sobre epifenómenos que são giros e suscitam reacções larvares de recusa e desdém no Facebook. David Pontes deixou no JN o registo dessa dificuldade: “As redacções dos jornais, diariamente bombardeadas por tretas”, vão ter de lidar com um “combate desigual contra um sistema montado para comunicar tretas”. A primeira forma de o travar é encarando-o de frente. Deixar que a campanha soçobre às receitas dos “marqueteiros” e dos seus homens de mão nas redes sociais é péssimo. Vai ser um combate feio, mas não se pode recusá-lo.»

terça-feira, junho 10, 2014

Cavaco no dia da raça

Pode acontecer a qualquer um. O Presidente da República sentiu-se indisposto quando discursava nas comemorações do 10 de Junho e a cerimónia foi interrompida durante cerca de meia hora. Tal como o Porfírio diz, acho lamentáveis as paródias sobre o seu desfalecimento, assim como o uso desbragado de imagens do momento. Posto isto, umas breves notas:
    1. Após se ter recomposto, o apressado retomar da leitura do discurso, sem uma palavra para os que aguardavam o seu regresso ao púlpito, revela-nos a essência da personagem: alguém que não tem poder de encaixe e cujas decisões são fortemente condicionadas por esta falha estrutural.

    2. A selecção dos agraciados e condecorados diz muito sobre Cavaco Silva: por um lado, as preferências, as amizades, os agradecimentos pelo apoio à carreira do político há mais tempo na activo não foram, mais uma vez, esquecidos; por outro lado, a visão de que tudo o que conta no mundo da economia são os empresários e os gestores.

    3. A insistência num acordo — «o tempo de diálogo que se estende agora até à discussão do próximo Orçamento do Estado» — com uma direita que quer virar do avesso o regime democrático (e pela qual Cavaco Silva tomou partido) revela que o esgotamento do Governo é também acompanhado pelo esgotamento do Presidente da República.

    4. Fernando Lima, o assessor da inventona de Belém, esteve em lugar de destaque, mesmo atrás do Comandante Supremo das Forças Armadas, na tribuna das cerimónias militares.

    É tudo o que captei no dia raça.

sábado, junho 07, 2014

O scoubidou de Passos

Cavaco Silva acha «absolutamente normal» que sejam pedidas explicações ao Tribunal Constitucional. Alguém deveria explicar ao Presidente da República que os tribunais não servem para dar explicações (no sentido de aulas): — Diga-me lá, Senhor Dr. Juiz, se eu matar uma pessoa de noite à paulada, qual é a pena? E se for de dia e à chapada?

De qualquer modo, o que é grave é haver um (alegado) primeiro-ministro que se atreve a assumir uma atitude de afronta ao Tribunal Constitucional e o Presidente da República — o garante do regular funcionamento das instituições democráticas — queira fazer de nós parvos, assumindo uma postura de quem chegou há momentos de Marte e não deu por nada.

Ou seja, depois de se mostrar distraído com o desmantelamento do Estado social, o Presidente da República assiste, sem levantar um dedo, a uma ofensiva que visa o próprio Estado de direito. Nada que ele não tivesse tentado antes.

sexta-feira, março 28, 2014

Inventona de Belém


A imagem acima reproduz um extracto da arenga hoje escrevinhada pelo pequeno grande arquitecto. Até este zeloso ideólogo da direita acaba por escrever direito por linhas tortas, reconhecendo ter ocorrido um grave atentado contra o Estado de direito, desencadeado a partir de Belém.

terça-feira, janeiro 28, 2014

Como se desmontam ideias feitas?


Cavaco Silva como Presidente da República:
debate na RTP Informação em 23 de Janeiro,
com a participação de Pedro Silva Pereira,
Nuno Saraiva, Raúl Vaz e José Matos Correia
(reproduzido antes aqui)

    A propósito dos constantes apelos do Presidente da República ao consenso entre os partidos políticos, que fez Cavaco perante a completa marginalização a que foi votado o PS ao longo das dez revisões do memorando de entendimento (em que o Governo decidiu “ir além da troika”)? [ao minuto 6:45]

    Como é que se pode sustentar que a Presidência da República promoveu um golpe de Estado por despeito pela aprovação do Estatuto dos Açores, quando a inventona de Belém foi perpetrada antes dessa aprovação? [ao minuto 22: 52]

    O défice orçamental de 2010 foi apurado pelo INE e pelo Eurostat antes da assinatura do memorando de entendimento ou, como diz o actual governo, foi descoberto um desvio colossal que não se conhecia? [23:33]

sexta-feira, janeiro 24, 2014

Análise do(s) mandato(s) de Cavaco Silva



Ontem, na RTP Informação, debate com Pedro Silva Pereira, Nuno Saraiva, Raúl Vaz e José Matos Correia: era este o Presidente de que o país precisava?

Permita-se-me chamar, em especial, a atenção para as intervenções de Pedro Silva Pereira (3:50, 19:50, 38:25).

quarta-feira, setembro 11, 2013

Angola e o círculo do Presidente

Um dia, quando alguém se dispuser a estudar os principais episódios da História de Angola, é natural que recorra às fontes que melhor conheçam o passado e o presente de Angola. Nesse sentido, os investimentos angolanos na comunicação social portuguesa parecem ter um objectivo preciso: reescrever a História.

Compreende-se por isso que capitais angolanos, na sequência de outras aquisições na área da comunicação social, adquiram uma participação relevante na Controlinveste, a holding que detém o JN, o DN, a TSF e O Jogo. Trata-se de um negócio que constava estar a ser intermediado pelo Dr. Relvas antes de ser substituído pelo ministro Maduro.

Ao lado de José Mosquito, que representa os capitais angolanos, aparece Luís Montez. Falando-se na substituição de João Marcelino na direcção do DN, estará na forja o regresso de Fernando Lima, o arquitecto da inventona de Belém, ao cabeçalho do DN?

quinta-feira, julho 11, 2013

Da Gomes Teixeira para a Avenida de Roma

Do Facebook







Consta, até, que já estarão a instalar microfones num café da Avenida de Roma.

sexta-feira, maio 24, 2013

Cavaco (2)


Aníbal António Cavaco Silva viu a Casa Civil da Presidência da República ser desmascarada por promover a inventona das escutas, talvez a mais forte acusação que se possa fazer a um Presidente da República num Estado de direito — e calou-se.

Aníbal António Cavaco Silva viu o seu nome envolvido noutras fantasias e realidades do cavaquismo — e, tanto quanto se sabe, engoliu em seco.

Aníbal António Cavaco Silva foi hoje comparado a Beppe Grillo — e amuou.

Estranhos são os critérios por que se rege o Presidente.

sexta-feira, abril 26, 2013

A mão atrás do arbusto: entre o passado e o presente [1]


Havia, em primeiro lugar, que tomar o poder no PSD. O cavaquismo saiu em peso à rua e apeou de uma penada um líder que já se confundia com John Wayne. Já o assalto a São Bento surgiu como uma empreitada bem mais espinhosa, porque a malograda Dr.ª Manuela, por muitas campanhas sujas que tivessem sido feitas, não subia nem uma décima nas sondagens. Foi então que o Presidente da República, através do seu braço direito, ensaiou um golpe sul-americano nas vésperas das eleições legislativas de 2009: a inventona das escutas.

sexta-feira, dezembro 07, 2012

O Presidente com medo

Foto de Luiz Carvalho

• Fernanda Câncio, O Presidente com medo:
    ‘É comum considerar-se que a hipótese de mandar um governo abaixo dissolvendo o Parlamento é "o poder" do Presidente. Chamam-lhe até "a bomba atómica". Já ser a última barreira entre a aprovação de uma lei que desrespeita fundamentos básicos da Constituição - a equidade, a proporcionalidade, a justiça - e a sua entrada em vigor não é muito valorizado. É pena: o sistema dá ao Presidente a prerrogativa de enviar as leis ao Tribunal Constitucional para certificar que, mesmo quando um governo e uma maioria de deputados decidam ignorar a Lei Fundamental, ele estará lá para se atravessar por ela - ou seja, pelo povo, contra a possibilidade de injustiça, o que é dizer de tirania. Não é uma escolha: é a mais nobre das suas obrigações.

    O atual PR, porém, demonstra um entendimento muito seu dessa obrigação. Quando em 2008 parou o País para se insurgir contra o Estatuto dos Açores, descobrimos que ao enviar o dito para o TC não solicitara a fiscalização da norma que mais o encanitava. Quando pediu a apreciação do diploma que alargava o casamento civil aos casais do mesmo sexo, "esqueceu-se" da exclusão da adoção - a única parte da lei que suscita sérias dúvidas constitucionais. E, quanto aos orçamentos de 2011 e 2012, reputados por muitos especialistas e por si próprio (disse-os "iníquos" por penalizarem excessivamente os funcionários públicos) como inconstitucionais, promulgou-os sem demora, deixando a outros o ónus de pedir a fiscalização sucessiva (pós-entrada em vigor) - onde o OE 2011 passou por um triz, mas o de 2012 chumbou.

    Ou seja: Cavaco deixou passar orçamentos que considerava desrespeitarem a Constituição, passando pela vergonha de num deles isso ser confirmado pelo TC. Porquê? Segundo o PR, porque nenhum seu antecessor enviou um orçamento para o TC e porque o País não pode ficar "sem orçamento".

    Ora, primeiro, com a fiscalização sucessiva o OE pode ser inviabilizado a meio do exercício - o que é muito pior. Depois, nenhum antecessor de Cavaco reputou de inconstitucionais normas de um orçamento - e nunca outro suscitou tantas dúvidas, e tão graves. Além disso, o PR cuja Casa Civil se queixou de ser escutada por um governo, que usou um seu discurso de posse para forçar a demissão do executivo em funções e que usa as publicações de Belém para ajustar contas com um ex-PM, acusando-o de manobras inconstitucionais - coisas todas elas nunca vistas -, teme o quê, ser o primeiro? O PR que preferiu receber pensões ao seu salário, que dá recados políticos no Facebook e vai a cerimónias públicas brincar com a situação do País tem receio de estrear um estilo?

    Valha-nos Pacheco Pereira, o mais famoso tradutor de Cavaco. "Se o PR enviar o Orçamento para o TC, o Governo ataca-o", disse na última Quadratura. Como ninguém perguntou "e então?", ficámos a saber que há quem ache normal que um Presidente da República tenha medo de um Governo. Falta então saber porquê - se não for só por feitio.’