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quinta-feira, março 13, 2014

Estará ele na posse de todas as suas faculdades?

O ambiente foi concebido para os delírios mais inimagináveis: Passos Coelho à compita com o nosso bem conhecido Poul Thomsen. Sem papel para deletrear, o alegado primeiro-ministro confirmou o que dele se sabe (e Teofrasto antecipou): «Um orador sem critério é como um cavalo sem freio.»

Com efeito, estando o país a confrontar-se com o mais alargado período de recessão de que há memória, que coincide com os três anos de vigência do seu governo, Passos Coelho não foi módico nas palavras: «Estamos a mostrar um nível de crescimento que não temos há mais de 12 anos.» Ninguém prepara o alegado primeiro-ministro antes de o soltarem? Uma pequena cábula que cabe num bolso do casaco?

PS — Com aquele seu jeito muito próprio, Passos Coelho não excluía há um ano a possibilidade de uma espiral recessiva (travada pelo chumbos dos cortes pelo Tribunal Constitucional): «Ninguém pode afastar a hipótese de uma espiral recessiva». Mas neste comício dos austeritários organizado pelo Jornal de Negócios e pela RR, o alegado primeiro-ministro, referindo-se aos signatários do manifesto, disse: «são os mesmos que falavam na espiral recessiva. E quanto a isso estamos conversados». Esta deselegância atinge também Cavaco Silva, que mais uma vez comeu e calou.

sábado, outubro 19, 2013

sábado, outubro 12, 2013

"A Comissão Europeia age como um agente de defesa
dos interesses das nações credoras do Norte
e não dos interesses da zona euro como um todo"


• Paul De Grauwe, O LEGADO DA AUSTERIDADE [hoje no Expresso/Economia]:
    ‘A recente ligeira melhoria das taxas de crescimento do PIB na zona euro (é preciso uma lupa para se ficar realmente impressionado) levou a declarações de vitória dos responsáveis políticos europeus, sugerindo que os programas de austeridade impostos a países da moeda única estão a dar frutos. Estes mesmos políticos sentem-se vingados e usam o pequeno volte-face nas taxas de crescimento como prova de que a austeridade, embora dolorosa, funcionou e deve dar confiança para o futuro. Mas será assim?

    Os programas de austeridade que foram postos em movimento depois de 2010 não pararam o crescimento explosivo dos rácios da dívida. Pelo contrário. Os países que impuseram os programas de austeridade mais intensos, como a Grécia, Portugal e Espanha viram os seus rácios de dívida aumentar ainda mais. O mecanismo que está por trás é bem conhecido. As recessões que grassavam nestes países eram "recessões de folha de balanço" nas quais os agentes privados tentavam desesperadamente reduzir os seus níveis de endividamento.

    Quando por insistência da Comissão Europeia e dos países credores, os governos do Sul da Europa foram também forçados a reduzir os seus níveis de dívida, um círculo vicioso foi posto em ação levando a mais profundas recessões, ou mesmo a depressões semelhantes às dos anos 30 do século passado em alguns deles. Estas depressões cavadas provocaram menos receitas por parte dos governos. Em resultado deste círculo vicioso os programas de austeridade foram particularmente ineficazes na redução dos défices orçamentais totais. Num estudo que fiz para o Centro de Estudos de Política Europeia, calculava que um aumento médio de 1% na austeridade só leva a uma melhoria de 0,5% no equilíbrio orçamental. Dito por outras palavras, para melhorar em 1% o equilíbrio orçamental, é necessário um programa de austeridade de pelo menos 2%. Um tal programa de austeridade leva também a uma queda do PIB. Segundo os cálculos do FMI uma austeridade de 1% faz cair o PIB em 1,4. Assim, os programas de austeridade da zona euro impõem um negócio desfavorável para os países do sul da Europa: de forma a melhorar os seus equilíbrios orçamentais em 1%, sacrificam 2,8% do seu PIB.

    Alguns observadores têm argumentado que este é um preço necessário para reformar os desequilíbrios na zona euro. Mas será assim? A questão não é se a periferia tem de praticar a austeridade ou não. Tem (embora lhes devesse ser dado mais tempo). A questão é se para a zona euro como um todo um ajustamento mais simétrico não poderia melhorar o balanço desfavorável entre equilíbrio orçamental e crescimento económico da periferia. Defendo que um ajustamento fiscal mais simétrico, juntamente com a decisão dos países credores do norte de estimularem as suas economias, teria reduzido o preço que os países do sul europeu tiveram que pagar (em termos de perdas de produção) para alcançar uma dada melhoria nos seus equilíbrios orçamentais.

    Outra forma de ver o poder deste argumento é o que exponho a seguir. A imposição de programas de austeridade na zona euro tem sido vítima da "falácia da composição". O que resulta para uma nação falha quando todos os países aplicam as mesmas políticas. Quando um país é forçado a poupar mais com um programa de austeridade isso pode resultar quando é só ele a proceder assim. Nesse caso, a tentativa de aumentar as poupanças e desta forma criar um superavit da conta corrente é facilitada pelo facto de os outros continuarem a gastar, isto é, aceitarem défices das suas balanças. Quando porém todos os países tentam poupar mais ao mesmo tempo, isto é, quando todos tentam criar superavits, as tentativas individuais de cada país tornam mais difícil para os outros alcançar o mesmo objetivo, forçando-os a aumentar os esforços de austeridade. No final, não terão êxito, mas o PIB será menor em toda a parte.

    É surpreendente que a Comissão Europeia como guardiã dos interesses da zona euro como um todo não tenha levado em conta as implicações dos programas de austeridade generalizados para todo o sistema. Isto pode ter que ver com o facto de a Comissão agir como um agente de defesa dos interesses das nações credoras do Norte e não dos interesses da zona euro como um todo. É tempo de a Comissão agarrar o seu papel de defensora dos países devedores com o mesmo vigor com que defende os interesses dos credores. É tempo também de a Comissão insistir e possivelmente enviar troikas para os países credores para se assegurar de que eles cumprem a sua parte dos processos de ajustamento. As nações devedoras do sul enfrentam hoje um legado de níveis insustentáveis de dívida que continuará a arrastá-las para baixo durante muitos anos, se não décadas. A incapacidade das nações credoras e da Comissão Europeia que as representa de pensarem em termos dos interesses de todo o sistema cairá sobre eles como uma vingança quando os credores tiverem de aceitar a reestruturação da dívida dos países do sul da zona euro.’

sexta-feira, outubro 04, 2013

Disseram consenso?

• Hugo Mendes, Disseram consenso?:
    ‘Era óbvio que, falhado o acordo de “salvação nacional” promovido por Belém em Julho passado, o clima de emergência regressaria nas vésperas do OE2014 para pressionar o PS a aceitar o “consenso” que muitos pensam que o País necessita. Portugal precisa de um “consenso”?

    Sem dúvida. Precisa que seja consensual que cortar rapidamente o défice em ambiente recessivo destrói a economia e o Estado social; que a evolução realista da divida pública tornará a sua trajetória insustentável; que a precarização laboral e as privatizações não resolvem nenhum problema estrutural que impedisse, no passado, a economia de crescer; e que a estratégia europeia para resolver os desequilíbrios na zona euro - a "germanização" da União - vai empurrar os países periféricos para longos anos de estagnação económica, de desemprego massivo, e de retrocesso social.

    Criticar este como um consenso populista, radical e impossível de discutir em público é interpretar mal o que se passa hoje na UE. (…)’

quinta-feira, outubro 03, 2013

Ilusionismo de cabaré da coxa

      Em nenhuma circunstância estamos perante um pacote de austeridade”.

Ao pacote de austeridade constante do Orçamento do Estado para 2013 (filtrado pelo Tribunal Constitucional), que se mantém em 2014, há a somar os cortes (salvo a TSU dos pensionistas) que o Governo ofereceu à troika em carta enviada, em 3 de Maio de 2013, a Durão Baroso, Mario Draghi e Christine Lagarde:

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segunda-feira, setembro 16, 2013

Ensaio sobre a austeridade

Hoje no Libération, p. 16
(enviado por Raúl C.)

domingo, setembro 08, 2013

Espiral recessiva

Pois é… mas acontece que, com a devida vénia ao Tribunal Constitucional, o valor das medidas de austeridade tomadas em 2013 foi menos de metade do montante derretido no ano anterior.

sábado, agosto 03, 2013

"Isso não é reforma [do Estado], é corte"

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A edição do Expresso de 20 de Julho fazia uma alusão a um trabalho que nos deixou expectantes. Em conversa com Sobrinho Simões, Artur Santos Silva fazia uma série de considerações nada abonatórias sobre Cavaco, Gaspar, Passos e Portas. Sublinhava o presidente da Fundação Gulbenkian e chairman do BPI que “[e]m sete avaliações [da troika] nunca cumprimos nada.” E acrescentava — o que mereceu ser posto em relevo na série “Frases que impõem respeito” — que “não é cortando nos salários e nas pensões que se vão resolver os problemas das reformas. Isso não é reforma [do Estado], é corte.

Folheei avidamente a edição seguinte do Expresso e não encontrei a conversa entre Artur Santos Silva e Sobrinho Simões. Na edição de hoje, voltei a não encontrar transcrita a conversa. Aconteceu alguma coisa?

segunda-feira, julho 29, 2013

"Cortes de 4700 milhões vão assassinar sinais de retoma da economia"

Extractos da entrevista de Miguel St. Aubyn, professor catedrático do Departamento de Economia do ISEG, ao i:


    Surpreendeu-o a carta de demissão?
    Não. Tinha a intuição que desde o episódio da TSU isso poderia acontecer. Na minha opinião foi falta de apoio político no seio da coligação governamental e no país em geral, embora ele tenha reconhecido também alguns erros, é um facto.

    Foram mesmo erros?
    Sim. Nomeadamente a previsão que foi feita no Orçamento de 2012 para 2013 era excessivamente optimista. Muita gente pensou logo nisso.

    Mas como é que um economista como Vítor Gaspar pôs a sua chancela nessas previsões?
    Ele poderia explicar melhor. Talvez se tivesse deixado convencer pelas suas próprias ideias.

    É um economista que cria os seus modelos e depois tenta encaixar a realidade nesses modelos?
    Pode ser qualquer coisa desse estilo. O próprio trabalho dele nunca foi o das previsões macroeconómicas. Podia estar convencido que as coisas estavam a funcionar melhor do que estariam. Talvez tenha sido optimista em relação à componente externa, ao comportamento das nossas exportações? E também pode ter havido uma dose daquilo que os ingleses chamam de wishful thinking. Mas não foi certamente o primeiro a quem aconteceu uma coisa dessas, nem será certamente o último.

    Vítor Gaspar ministro das Finanças foi diferente do Vítor Gaspar economista?
    Não é muito fácil prever como é que um investigador será como ministro das Finanças e a maior parte dos investigadores nunca ocuparão esse cargo. Nem a maior parte dos ministros das Finanças foram investigadores em economia. Mas a actuação dele como ministro das Finanças não me surpreendeu, dadas as suas opiniões e análises anteriores, que lhe conhecia. Aqui no ISEG, mas também na Universidade Católica, achámos que a recessão iria ser maior do que a prevista. Havia também uma excessiva crença em certos efeitos que podemos apelidar de não keynesianos. Isto é, a ideia de que um ajustamento que fosse sendo cada vez mais bem conseguido levaria a uma retoma da confiança, do investimento e também uma reorientação da actividade produtiva para os bens transaccionáveis e para as exportações. E talvez essa equipa, onde se inclui o ministro das Finanças e a troika, tenha pensado que isso aconteceria de forma mais rápida. É até um dos pontos que me parece ser reconhecido numa avaliação recente que o Fundo Monetário Internacional fez sobre o ajustamento na Grécia. A ideia de que certas alterações estruturais e certas medidas criariam efeitos mais rápidos e visíveis. O que não está a acontecer.


    A dívida pública já atingiu os 127,2% do PIB. Como é que se corrige esta derrapagem?
    O problema da sustentabilidade da dívida é um pau de dois bicos. Um maior crescimento permitiria a sustentabilidade da própria dívida existente. O que permitiria um cenário sem reestruturação dos empréstimos aos países sob ajustamento. Mas teria de ser um crescimento na Europa. E pode acontecer. Não podemos dizer porque estamos em recessão, vamos continuar eternamente assim. Agora se a retoma não acontecer rapidamente o cenário da reestruturação da dívida começa a impor-se. É uma questão aritmética.

    É sustentável uma situação como esta arrastar-se durante, por exemplo, mais cinco anos?
    É insustentável de diversos pontos de vista. Quer do ponto de vista do peso da dívida quer do ponto de vista social. Nós já temos quase 20% de desemprego, não é possível. Acho difícil que o próximo ano seja um ano com uma recessão como a deste ano. A situação torna-se muito complicada. Daí que os cortes anunciados na despesa tenham um efeito recessivo, em cima de uma recessão, muito gravoso.

    Acredita que se pode cortar mais 4,7 mil milhões na despesa do Estado?
    Não. Esses cortes na despesa pública induziriam uma quebra no PIB significativa de tal maneira que teria efeitos importantes nas receitas fiscais. Em cima disso teríamos mais aumento do desemprego, maior instabilidade social, insatisfação geral das pessoas, ou seja uma situação politicamente muito difícil de gerir. A troika não devia exigir mais cortes.

    Mas esse corte de 4,7 mil milhões não pode ser considerado como uma redução da despesa não reprodutiva, com reflexos positivos no défice orçamental e na dívida pública?
    O corte de 4,7 mil milhões tem um efeito bastante menor no défice orçamental porque ao deprimir a actividade económica isso vai-se traduzir em novas perdas de receita fiscal. O efeito sobre a dívida pública em percentagem do PIB também pode ser muito pouco significativo, eventualmente de sinal contrário ao desejado, porque esse rácio aumenta quando o PIB é mais baixo.

sábado, julho 27, 2013

Os amanhãs que (já não) cantam

• José Pacheco Pereira, Os amanhãs que cantam [hoje no Público]:
    ‘Há uma obscena falta de vergonha incrustada no texto da moção de confiança que o Governo vai apresentar e que, por si só, é um retrato de uma política que, após as ingenuidades e ignorâncias iniciais, tem sido feita pelo dolo, para a manipulação e para o engano. Que haja intelectuais por detrás desta mistificação, faz-me confirmar uma velha desconfiança quanto à corrupção que a ambição traz ao pensamento. E mais: com esta moção, todos os membros do Governo passam a ser versões de Paulo Portas e a reverem-se no modelo de duplicidade sobrevivente do "irrevogável".

    O que esta moção nos diz é uma completa mistificação desde a primeira letra. Diz-nos que havia um ciclo político pensado em duas fases: uma, o cumprimento do "programa", outra, o desenvolvimento e o crescimento. A crise governativa das últimas semanas foi o rito de passagem, a perda da pele da serpente, que permitiu abandonar a velha pele, para fazer reluzir a segunda. Ou seja, ainda bem que houve esta crise, catártica na sua bondade, para podermos, limpos e lustrais, apresentar um "novo ciclo" aos portugueses. Nada disto é verdade, nem o "programa" foi cumprido, bem longe disso, nem este "novo ciclo" estava previsto nestes termos na programação governativa, nem as vítimas da "austeridade" podem esperar qualquer alívio, nem as vítimas que se seguem, as da "reforma do Estado", podem escapar à desvalorização do seu trabalho e ao desemprego. O programa real continua, o virtual vem aí. Só que não é para os mesmos.

    Cumpriu-se o "programa", apesar de nenhum dos números do défice e da dívida ter sido atingido? Podemos "regressar aos mercados"? Obtiveram-se os resultados miraculosos do "ajustamento"? Bem pelo contrário, o que Passos, Gaspar, Moedas e outros pensavam, em completa consonância com a troika, é que após uma varredela para o lixo da economia "ultrapassada", após o desmantelamento do Estado social, após a inversão das relações de poder na legislação laboral, após o fim dos "direitos adquiridos", depois da "libertação" da sociedade do Estado, após o "ajustamento" dos portugueses a viverem "de acordo com as suas posses", muito poucas, aliás, a economia exportadora, a economia desenvolvida tecnologicamente, a sociedade dinâmica dos "empreendedores" esmagasse os "piegas", sem que o Estado tivesse qualquer outro papel do que garantir a ordem pública e a hierarquia social estabelecida. O "arranque" viria da sociedade "libertada", e nunca jamais, em tempo algum, o Estado voltaria a ser "desenvolvimentista".

    (…)

    O "novo ciclo" do Governo, naquilo que não é pura sobrevivência eleitoral, mas discurso de feiticeiro, serve para reciclar a linguagem do poder aos mesmos interesses de sempre. Mas a sua fragilidade é a mesma do discurso do "rigor orçamental". É mais agradável de ouvir, mais enleante, leva o PS à ilharga, foge da agressividade militante da engenharia utópica Passos-Gaspar, mas destina-se a manter o mesmo círculo de ferro que captura a democracia portuguesa por um establishment financeiro e de grandes empresas nacionais (cada vez menos) e estrangeiras, e de uma elite que aceita servi-las e aceita os seus limites de fogo daquilo que se pode ou não fazer.

    Visto de longe, sanitariamente de longe, este Governo, para se manter, fez todos os tratos com Cassandra e abriu todas as caixas de Pandora. É só esperar pelos resultados do "novo ciclo".’

sexta-feira, julho 26, 2013

"Ficaremos então a saber o que já se suspeitava: a identidade do CDS é revogável"


• Pedro Silva Pereira, A dissimulação:
    'No mesmo comunicado em que, por razões de alegada "consciência", anunciou a sua famosa demissão "irrevogável", Paulo Portas antecipou, com impressionante franqueza, o que significaria continuar no Governo. Explicou ele, preto no branco: "ficar no Governo seria um acto de dissimulação". É sabido que depois, pensando melhor entre a demissão e a dissimulação, Portas decidiu-se: escolheu dissimular. Assim sendo, o anunciado "segundo ciclo" de governação da direita será, assumidamente, o ciclo da dissimulação. E o espectáculo já começou.

    Como explica o Dicionário da Porto Editora, "dissimulação" é o "acto ou efeito de dissimular; fingimento, disfarce; ocultação". E "dissimular" é "fingir" ou "fazer parecer diferente". A propaganda ostensiva dos últimos dias prova que o desafio assumido por este Governo remodelado é esse mesmo: fazer parecer que é o que não é.

    O primeiro fingimento, demasiado grosseiro para passar despercebido, consiste na tentativa de fazer passar este Governo remodelado por um "novo Governo". A intenção é óbvia: fugir às responsabilidades pelos resultados desastrosos dos últimos dois anos - como se estes devessem ser facturados não ao Governo de Passos Coelho e Paulo Portas mas a essa outra entidade, entretanto desaparecida: o "Governo do primeiro ciclo". Mas não há disfarce que resista: o Governo que Gaspar reconheceu falhado e desacreditado, e que o País viu dividido e desautorizado, é este mesmo Governo que Passos Coelho e Portas conduziram até aqui, com 127% de dívida pública, 10,6% de défice, 4% de recessão e quase 18% de desemprego. Nenhuma renovação de caras, nenhuma revisão orgânica, nenhuma redistribuição de poder poderá apagar estes dois anos de falhanço, desastre económico e tragédia social.

    O segundo fingimento não é menor do que o primeiro e diz respeito à própria ideia de um "novo ciclo". É aí que Paulo Portas terá de jogar o melhor das suas habilidades na arte da dissimulação para cumprir uma estratégia de absoluta duplicidade: garantir continuidade à ‘troika' ao mesmo tempo que se promete mudança aos portugueses. É certo, a escolha do discurso e dos protagonistas pode ajudar. Mas não é tudo. Há-de chegar o momento da verdade, sem lugar para mais fingimentos nem disfarces: o Orçamento para 2014 e o corte de 4.700 milhões de euros. O novo ciclo confirmar-se-á, então, como um segundo ciclo de austeridade, com mais cortes nas pensões e nos salários. Com mais despedimentos na função pública e com mais desemprego. Nesse dia, cairá a máscara.

    Ao fim de dois anos de reconhecido falhanço e três semanas de crise política, o Governo, a mando do Presidente da República, propõe-se perguntar ao Parlamento se é digno de confiança. Mas, verdadeiramente, não é sobre isso que o Parlamento lhe vai responder. O que vai ser votado é o juramento de fidelidade do CDS a um Governo que queimou, uma a uma, todas as bandeiras políticas que fizeram a identidade do CDS - dos contribuintes, aos pensionistas. E que, com maior ou menor dissimulação, vai continuar a fazê-lo. Ficaremos então a saber o que já se suspeitava: a identidade do CDS é revogável.'

quarta-feira, julho 24, 2013

Uma jogada de xadrez — porque a vida custa a (quase) todos

Fez-se insistentemente constar que Vítor Gaspar foi, durante um ano, o preceptor de Maria Luís Albuquerque, para que a Miss Swaps estivesse em condições de poder vir a assumir as pesadas responsabilidades de representante dos credores externos na Praça do Comércio. A realidade parece no entanto desmentir esta versão idílica da passagem de Gaspar pelo Governo. Na verdade, tudo leva a crer que o ex-procônsul esteve um ano à procura de emprego.

Todos os lugares que poderiam interessar a Gaspar estavam ocupados. Era preciso, portanto, fazer saltar uma peça. A escolha de um novo conselho de administração da Caixa Geral de Depósitos (CGD) foi o momento certo para arranjar uma vaga, tanto mais que o ex-ministro tinha chamado a si a incumbência de mexer no xadrez dos lugares do pote.

Gaspar convoca Ana Cristina Sousa Leal, até aí directora do Departamento de Estudos Económicos do Banco de Portugal, para a administração da CGD. Vagando o cargo que Ana Cristina Sousa Leal ocupava, é de imediato aberto concurso para o seu preenchimento. Veja-se o perfil requerido.

Tratando-se de um cargo vocacionado para produzir as previsões do Banco de Portugal, o diabo é se um dos outros eventuais candidatos se lembra de se fazer acompanhar das previsões falhadas de Vítor Gaspar (cf. aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui…), para mostrar ao júri do concurso tudo o que se não deve fazer em matéria de previsões. Não há crimes perfeitos.

Neste contexto, os empurrões e as cuspidelas com que Vítor Gaspar foi mimoseado num supermercado não foram a gota de água para escrever a carta pública de demissão. Gaspar foi ao supermercado à procura de um pretexto — para saltar de um governo no qual decidira fazer experiências sociais e levou o país a bater na parede.

Regresso ao início

• Fernando Medina, Regresso ao início:
    ‘(…) três semanas depois da demissão de Vítor Gaspar e após a espantosa sequência de eventos que lhe sucederam, estamos provavelmente no mesmo exacto sítio onde nos encontrávamos: com uma economia em recessão profunda e prolongada, com um desemprego socialmente explosivo, com um défice e dívida fora de controle e com um Governo apostado em prosseguir a mesmíssima política que até aqui falhou de forma tão clamorosa.

    Do lado da situação económica e social os indicadores são conhecidos: estamos no 3.° ano consecutivo de recessão, o investimento continua em queda abrupta (entre 2010e 2013 terá caído 35%), o desemprego sobe acima dos 17%, o défice mantém-se em valores de 2011, e a dívida ultrapassa os 125%. Tudo muito mais negativo que o inicialmente previsto e, pior que tudo, em sério risco de deterioração e não de melhoria.

    Mas nada disto fez mover o Governo. Aliás, se algo ficou claro do processo de diálogo entre os partidos é o facto de que o primeiro e principal obstáculo à mudança de política económica não está na Europa ou na Troika, mas sim na maioria que nos governa O documento apresentado pelo PSD ("Bases para um Acordo de Salvação Nacional"), que merece ser lido na íntegra, é aliás totalmente claro a esse propósito: prosseguir com os cortes de €4.700M já apresentados (ou medidas equivalentes), assumir uma leitura extrema (que não é a da Lei) quanto as obrigações decorrentes do novo Tratado Orçamental, ou omissão completa de qualquer referência à necessidade de melhoria das condições de serviço da dívida Teremos agora, é certo, com a remodelação do Governo, um tempo de alguma distensão e possivelmente uma alteração de ênfase no discurso político. Poderemos até ter alguma dilatação no tempo dos cortes anunciados para 2014. Mas o que não teremos seguramente é uma alteração de política com a profundidade e a abrangência necessárias à superação da dificílima situação em que nos encontramos.’

segunda-feira, julho 22, 2013

Ai a realidade é assim?!

Eurostat

A dívida de Portugal atingiu 127,2% no final de Março e é terceira maior na Zona Euro. Significa isto que, não obstante a brutal austeridade, a dívida aumentou 14,9 pontos percentuais em relação ao primeiro trimestre do ano passado, altura em que o indicador se encontrava em 112,3%.

Que diz sobre isto o alegado primeiro-ministro ao qual o Presidente da República acabou de renovar a sua bênção? “A dívida não tem aumentado por estarmos a contrair novas dívidas ou por estarmos a exagerar nas nossas despesas”. Devagarinho, Passos Coelho ainda vai acabar por perceber o que é a espiral recessiva: estando em causa um rácio entre a dívida e o PIB, se caminhamos em recessão contínua, a dívida em percentagem sobe. E é esse rácio que conta para o Eurostat e para os famigerados mercados, quer Passos Coelho se espante ou não com a realidade.

Quando Passos pôs Cavaco no bolso

"Quando a poeira assentar, ficará o Presidente perdido no seu labirinto, sem grandeza, ou pior, enredado na teia que ele próprio urdiu"

• António Correia de Campos, Governo sobrevivente? [hoje no Público]:
    ‘Quando a poeira assentar, ficará o Presidente perdido no seu labirinto, sem grandeza, ou pior, enredado na teia que ele próprio urdiu. Se os vaticínios mais generalizados forem correctos (escrevo a 24 horas da esperada comunicação do Presidente) o País vai continuar com um governo medíocre mas recauchutado, que sabe ter a vida encurtada, sem margem de manobra e escassa convicção para exigir de Bruxelas condições viáveis de cumprimento do ajustamento. A crise económica e social vai ser agravada com a sangria dos 4,7 milhares de milhões de cortes no gasto público, o que, segundo o estudo de Luís Aguiar-Conraria, levará a uma quebra total acumulada de 9,4 milhares de milhões de euros no PIB, ao agravamento da dívida de 125 para 132%, a uma redução de 3,3 milhares de milhões de receitas fiscais para, no final, apenas reduzir o défice em 0,6 pontos percentuais. Os hospitais deixarão de curar e passarão a dever; as universidades deixarão de investigar e passarão a leccionar, em vez de ensinar a aprender; os desempregados aumentarão as filas de espera dos programas comunitários; os jovens, cansados de esperar pelos programas prometidos por Bruxelas, emigrarão, ou entrarão na depressão; os empresários sem recurso ao crédito trabalharão para aquecer, antes de fechar de vez as suas pequenas e médias empresas. O Governo, alegremente recomposto, dourar-se-á com novos cargos, novos protagonistas, novas equipas de gabinetes pagas a 14 meses, novas viaturas com a desculpa do leasing ser mais barato que a compra. Retomará, finalmente, os briefings regulares do ministro Poiares Maduro. Continuará, demagogicamente, a viajar para Bruxelas em classe económica, para salvar as aparências. Com a aproximação do seu fim à vista, passará a sair mais, a inaugurar o que Sócrates mandou construir e a emitir robustos discursos, acolhidos com assentimento pela corte do costume. No ano que lhe falta, ainda sem fundos de Bruxelas no horizonte, ser-lhe-á mais difícil programar. Reunirá as forças que lhe restem para sobreviver à dureza das autárquicas, ao habitual castigo das europeias para terminar, agoniado, nas tais legislativas antecipadas.

    E o Presidente? Falhado o débil estratagema, como muitos prenunciavam, fica então com a criança irremediavelmente nos braços. Queira ou não, o Governo sobrevivente será o seu, não o da Assembleia. Pelos seus erros pagarão mais uma vez os Portugueses.’

quinta-feira, julho 18, 2013

Pedra de toque: parar de escavar ou não


Parar de escavar não é um programa político, mas é um passo indispensável para travar a espiral recessiva.