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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O arfar do mistério

Alaya Gadeh
Você deve juntar todas as forças e malas vazias para poder partir em direção ao mistério. Parecerá desmesura de encanto, mas aprende-se que é mais doloroso. Todo mergulho traz consigo o bater seco na água. O afundar, o sufoco.
Um segredo na pressão nos ouvidos, o peito contraído e um quase morrer. Um quase morrer... de coração que se esmaga entre dedos.
Quanto mais fundo, mais apertado. Quanto mais mistério, mais despedaço.

Esse triz de privar o sopro terminando com o soco do fundo. Já sem peito e sem ar, o chão. Um agachar que arremessa a volta. Todos os nervos já estreitados e o buscar louco pelo novo fôlego.
É na subida que te pega o sortilégio: pouca força nas pernas, já não há tona.

Samantha Abreu

domingo, 15 de maio de 2011

Notas Silenciosas

Nenhum barulho ensurdece
quando
você se fecha
dentro da própria cabeça.

A cadência da quietude,
a pressão dolorosa
do vácuo, espaçoso,
dentro de si.

Tenho uma gama
de embalos,
uma sucessão de deslizes
nas notas mais agudas.

O silêncio
ainda me cabe como uma luva.

Samantha Abreu

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Sal nos olhos

A chuva lá fora,
mas molhado
está aqui,
inundando a casa que é vida
e os olhos
que ardem nessa água de mar.

Desaguar salga feridas.

Desaguar...
Uma única palavra
para tantos litros de mágoas.

Samantha Abreu

domingo, 13 de março de 2011

Estado (In)determinado

O que sinto não é belo,
não me faz sorriso esticado,
não ilumina de sol.

O que penso não é agitado,
não tem pessoas bebendo,
não tem amigos à toa.

É como estar em uma caixa
encolhida,
sem espaço, ofegante.

Dizem que é amor,
mas eu acho que é
estar repleta
de solidão.

Samantha Abreu

domingo, 7 de novembro de 2010

Universo particular

Existe um universo particular ainda desconhecido. Pode-se saber algumas cores e dores, sem esperar com isso qualquer tipo de segurança que garanta autodomínio. A ribanceira depois da curva é sempre inesperada. Desse mundo, até agora não se sabe se redondo, se planície ou pra que lado se deve ir. A única certeza é de que no limite da razão, ainda somos perdoáveis. Mas a um passo depois da linha, não.

Samantha Abreu

terça-feira, 12 de outubro de 2010

intuition

Nonnetta
Sempre que eu começava a gostar de alguém, alguma coisa me dizia pra deixar os esforços de lado.

O tal amor não vale a pena. Não vá às penas, babe - dizia minha intuição aguçada.

Todas as possibilidades de felicidade ficaram em algum canto empoeirado do passado. Desde então, tornei-me viajante do tempo e as palavras não me alcançam mais. Sei, antes de qualquer indício, quando algo vai dar errado. Aprendi a enxergar o que existe por trás das aparências, além do que se mostra.

Não me diga o que fazer, não tente me convencer. Tenho o sexto sentido de almas mudas.

Por isso, meu bem, não diga nada.

Aprenda a se fazer satisfeito com o que pode sentir.

Samantha Abreu

domingo, 22 de agosto de 2010

da desordem dos recomeços

Magritte
Em nenhuma das costuras que nos remendam ficaremos inteiros: eu, você, você, eu. Hão de se esgarçarem aos impactos, hão de se arrebentarem nas rochas.
Em nenhum dos retoques ficaremos refeitos. Duas cicatrizes de feridas que sempre doerão e continuarão se abrindo pelo ardor de memórias.

Em todos os consertos nos sobrarão rachaduras. Seremos sempre esse desencaixe. Mãos que não se entrelaçam, suores que não colam, pés que não se enroscam. A cara metade deformada pelo tempo e pela tênue linha entre o amor e ódio, filhos da mesma chama: brasas de uma única fogueira, que fagulham juntas mas morrem por ventos de distintas direções. Um contorno mal feito, uma descombinação, um descompasso, uma desproporção.
Uma história sem pé nem cabeça.

Samantha Abreu

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Coloral

Quando ele foi embora, ela tratou logo de tirar todas as flores e cores da casa. Pintou todas as paredes de bege.

Aquelas flores só faziam cheirar a cemitério. Ficavam sobre o aparador, estáticas e cabisbaixas, velando toda a energia que com ele tinha se esvaído.

A casa fica sóbria assim, pálida. Ao contrário dela, entregue às alucinações, às pontas de viagens inacabadas e um alcoolismo anestesiador.

Coisas muito coloridas têm cara de criança ou de prostituta.

O estranho era que, mesmo com tudo em bege tão discreto, longe dele ela estava se sentindo um pouco dos dois.

Samantha Abreu

domingo, 25 de julho de 2010

Devaneio vicioso

Mais alguns segundos
para que eu possa terminar este cigarro
e aspirar
no trago
a sensação violenta
de ser invadida por ti.

Eu me completo do teu
tóxico jeito
de amar.
Um curto grau
de devaneio vicioso.

A ponta eu guardo
para posteriores abstinências.

Samantha Abreu

terça-feira, 29 de junho de 2010

Porque paz é fraqueza...

Lilya Corneli
A minha alegria está nos impulsos,
feito aqueles das ondas às rochas.

Mas não há impulsos na paz.
O espírito se aquieta e distrai.

Enquanto a alma pede a morte desse cômodo estado,
meu corpo insiste em aninhar-se,
onde as ondas não chegam
e estou protegida das rochas.

Samantha Abreu

sábado, 19 de junho de 2010

Aspiração

Eu piso no acelerador.
O vento da fuga me toma o peito,
desfaz o nó na garganta,
desembaraça os cabelos,
esvaziamento.

Chego amplamente
despovoada,
não sei onde.

Samantha Abreu

sábado, 12 de junho de 2010

(in)crível

Essa estranha beleza
em racionalizar.
Ser dolorido,
mas ser
verdadeiramente.
Tocar tua carne nua,
e saber-te
onde, saber-te
quando.

Não me parece mais encantado
nosso mundo.
Não tenho mais aquelas
fantasias.

Talvez, a realidade não seja assim
tão boa
para amores insólitos.

Samantha Abreu

Avesso

A pele lisa, o cabelo solto, o sorriso esticado.
Sou toda ostentação da ventura.
Minhas próprias formas de me aconchegar em máscaras.
A conversa proposta,
a gargalhada dissimulada,
a satisfação inventada.

Sou toda arquitetura:
com sacada, paisagem e brisa.
Sou a brisa,
o copo gelado,
o arrepio dos pelos.
Aqui fora, claridade.

Mas o avesso está coberto de sangue.

Samantha Abreu

terça-feira, 6 de abril de 2010

Pequenas mortes

De tudo o que me resta e que não seja
amor,
seja
o portão de partida
despedida,
de pequenas causas diárias.
Eu sangro momentos,
derreto venenos
e morro nos cotidianos fins.
Ainda prefiro
a mortalha
envolvendo
afazeres não entranhados.
Quero a devastação
irreversível
de qualquer pequena vida
vã.

Samantha Abreu

Labaredas


Todas as minhas pontas são labaredas. Possuo na casca uma felicidade vermelha e sobejante, que estala as extremidades de mim.
Sinto meu próprio açoite. Eu, mulher de tentáculos, termicamente borbulhante.
Às vezes me queimo, mas eu mesma assopro os hematomas.

Samantha Abreu

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Assombração

Lilya Corneli
Minhas sombras têm vida.
Está toda nelas
aquela que era minha,
que me fazia menina,
mexer o corpo
dançando,
abrir a boca
sorrindo,
fechar os olhos
amando.

Hoje, quando caminho
cabeça baixa,
melancólica,
elas ficam de chacota
zombaria.
Vão, mal-educadas
divertindo-se
atrás de mim.

Samantha Abreu
São milhas de estrada
e o vento toma o peito,
desfaz o nó na garganta,
desembaraça os cabelos,
esvaziamento.

O Amor bagunça nosso hall.
Visitas reparam,
casa revirada
sujeiras escondidas em cantinhos
esquecidos.

Samantha Abreu