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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Nuvens

Caminhar em nuvens
é o mais lento
e duro aprendizado:
há que esquecer
todo o peso
terrestre
e transformar pedras
em luz,
palavras em estrelas.

Caminhar em nuvens
é árduo ofício:
há que pintar as mãos
e os gestos de azul
e oferecer ao outro
o mapa da delicadeza.

Roseana Murray, in: Manual da Delicadeza de A a Z

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Receita para dias de chuva

Irisz Agocs
dia de chuva é para viajar
na neblina e no vento
para dentro para dentro

um livro fechado espera
que se abram as suas portas
com as chaves do pensamento.

Roseana Murray, in: Receitas de Olhar

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Palavras antigas

Eva Armisen
Astrolábios, sextantes,
alfarrábios,
arrumo nas minhas estantes
e cartas antigas,
roídas pelo tempo.
Arrumo luas e ventos,
todos os velhos instrumentos
para enfrentar o sol e a tempestade,
os rumos mais variados.
Parto nesse meu barco
para o país do amor.
Quantos homens, desde o início do mundo,
partiram, assim como eu,
uma bússola e um desejo,
o coração em sobressalto.
Quem, ancorado no cais,
esperará por mim?

Roseana Murray, in: O Mar e os Sonhos

Uma baleia

Kurt Halsey Frederiksen
Uma baleia,
apesar do seu tamanho,
é mais leve
que uma nuvem,
é mais leve
que um mistério,
é quase uma música pousada
em cima do horizonte.

Roseana Murray, in: O Mar e os Sonhos

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Flutua o horizonte
sobre o tempo
e as ilusões partidas.
O olhar apascenta nuvens,
montanhas e distâncias
e uma corda roída
tenta amarrar as lembranças.

Roseana Murray, in: Variações sobre Silêncio e Cordas

domingo, 26 de dezembro de 2010

Janelas

Em todas as janelas me debruço,
em todos os abismos
estendo uma corda
e caminho sobre o nada.
Também ando sobre as águas,
subo em nuvens,
galgo intermináveis escadas.
Abro todas as portas
e cavernas com um sopro
ou três palavras mágicas.
Mergulho em torvelinhos,
danço no meio do vento,
pulo dentro da tempestade.
Em cada encruzilhada me sento
e tento arrumar o destino,
estranho castelo de areia.

Roseana Murray, in: Recados do Corpo e da Alma

Caixinha mágica

Fabrico uma caixa mágica
para guardar o que não cabe
em nenhum lugar:
a minha sombra
em dias de muito sol,
o amarelo que sobra
do girassol,
um suspiro de beija-flor,
invisíveis lágrimas de amor.

Fabrico a caixa com vento,
palavras e desequilíbrio,
e para fechá-la
com tudo o que leva dentro,
basta uma gota de tempo.

O que é que você quer
esconder na minha caixa?

Roseana Murray