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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

PoliCardo
A vida é, assim, feita a golpes de pequenas solidões.

Roland Barthes, in: A Câmara Clara. Ed. Nova Fronteira

terça-feira, 27 de setembro de 2011

O Coração

Amanda Cass
Coração: Esta palavra vale para todo tipo de movimentos e desejos, mas o que é constante é que o coração se constitui em objeto de dom - quer ignorado, quer rejeitado.

1. O coração é o orgão do objeto (o coração, infla, fraqueja, etc., como o sexo), tal como é retido, encantado, no campo do Imaginário. O que o mundo, o que o outro vai fazer de meu desejo? Essa a inquietude em que se concentram todos os movimentos do coração, todos os "problemas" do coração.

2. Werther se queixa do príncipe de X: "Ele aprecia meu espírito e meus talentos mais do que este coração, que contudo é meu único orgulho [...] Ah, o que sei, qualquer outro pode saber - meu coração é meu e de ninguém mais."
Você me espera onde não quero ir: ama-me onde não estou. Ou ainda: o mundo e eu não nos interessamos pela mesma coisa; e, desgraçadamente para mim, esta coisa dividida sou eu; não me interesso (diz Werther) pelo meu espírito; você não se interessa por meu coração.

3. O coração é o que acredito dar. Cada vez que este dom me é devolvido, é então pouco dizer, como Werther, que o coração é o que resta de mim, uma vez extraído todo o espírito que me atribuem e que não quero: o coração é o que me resta, e este coração que me resta no coração é o coração pesado: pesado do refluxo que o encheu dele mesmo (apenas o amante e a criança têm o coração pesado).

(X... deve ausentar-se por semanas, talvez mais; quer, no último momento, comprar um relógio para a viagem; a vendedora graceja: "O senhor quer o meu? O senhor devia ser bem jovem, quando eles custavam esse preço, etc."; ela não sabe que eu estou com o coração pesado.)

Roland Barthes, in: Fragmentos de Um Discurso Amoroso. Ed. Martins Fontes

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O Intratável

Nonnetta
Afirmação: Ao contrário de tudo e contra tudo, o sujeito afirma o amor como valor.

1. Apesar das dificuldades da minha história, apesar das perturbações, das dúvidas, dos desesperos, apesar da vontade de me livrar disso, não paro de afirmar em mim mesmo o amor como valor.
Todos os argumentos que os sistemas mais diversos empregam para desmistificar, limitar, apagar, enfim, depreciar o amor, eu os escuto, mas me obstino: "Sei bem, mas contudo...". Transfiro as desvalorizações do amor para uma espécie de moral obscurantista, para um realismo-farsa, contra os quais ergo o real do valor: oponho a tudo "o que não vai bem" no amor, a afirmação do que vale nele. Essa teimosia, é o protesto do amor: debaixo do concerto de "boas razões" para amar de outro modo, amar melhor, amar sem estar apaixonado, etc., uma voz teimosa se faz ouvir que dura um pouco mais de tempo: voz do Intratável apaixonado.

Roland Barthes, in: Fragmentos de Um Discurso Amoroso. Ed. Francisco Alves

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Espera

Nonnetta
Tumulto de angústia suscitado pela espera do ser amado, no decorrer de mínimos atrasos (encontros, telefonemas, cartas, voltas).

(Schonberg)

1. Espero uma chegada, uma volta, um sinal prometido. Pode ser fútil ou imensamente patético: em Erwartung (Espera), uma mulher espera seu amante, de noite, na floresta; quanto a mim, só espero um telefonema, mas é a mesma angústia. Tudo é solene: não tenho noção das proporções.

Roland Barthes, in: Fragmentos de Um Discurso Amoroso. Ed. Francisco Alves

domingo, 23 de maio de 2010

Serenade for the Doll
Devo parecer com quem amo. Postulo (é isso que me faz gozar) uma conformidade de essência entre o outro e eu. Imagem, imitação; faço o máximo de coisas possíveis como o outro. Quero ser o outro, quero que ele seja eu, como se estivéssemos unidos, fechados no mesmo invólucro de pele [...]

Roland Barthes, in: Fragmentos de Um Discurso Amoroso. Ed. Francisco Alves

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Fragmentos de um discurso amoroso

Abraço


O gesto do abraço amoroso parece realizar por um momento, para o sujeito, o sonho de união total com o ser amado.




Adorável


Não conseguindo nomear a especialidade do seu desejo pelo ser amado, o sujeito apaixonado chega a essa palavra um pouco tola: adorável.



Afirmação



Ao contrário de tudo e contra tudo, o sujeito afirma o amor como valor.





Angústia

O sujeito apaixonado, do sabor de uma ou outra contingência, se
deixar levar pelo medo de um perigo, de uma mágoa, de um abandono, de uma reviravolta - sentimento que ele exprime sob o nome de angústia.




Ausência

Todo episódio de linguagem que põe em cena a ausência do objeto amado - quaisquer que sejam a causa e a duração - e tende a transformar essa ausência em prova de abandono.



Chorar


Propensão particular do sujeito apaixonado a chorar: modos de aparição e função das lágrimas do sujeito.





Compreender
Ao perceber repentinamente o episódio amoroso como um nó de razões inexplicáveis e de soluções bloqueadas, o sujeito exclama: "Quero compreender (o que me acontece)!"


Coração

Essa palavra vale por todas as espécies de movimentos e desejos, mas o que é constante, é que o coração se constitui um objeto de dom - seja ignorado, seja rejeitado.



Corpo


Todo pensamento, toda emoção, todo interesse suscitado no sujeito apaixonado pelo corpo amado.




Dedicatória


Episódio de linguagem que acompanha todo presente amoroso, real ou projetado, e, ainda, mais geralmente, todo gesto, afetivo ou interior, pelo qual o sujeito dedica alguma coisa ao ser amado.



Despelado


Sensibilidade especial do sujeito apaixonado, que o torna vulnerável, à mercê das mais leves feridas.





Desrealidade


Sentimento de ausência, fuga da realidade experimentada pelo sujeito apaixonado, diante do mundo.




Errância

Apesar de que todo amor é vivido como único e que o sujeito rejeite a ideia de repeti-lo mais tarde em outro lugar, às vezes ele surpreende em si mesmo uma espécie de difusão do desejo amoroso; ele compreende então que está destinado a errar até a morte, de amor em amor.





Esconder

Figura deliberativa: o sujeito apaixonado se pergunta, não se deve declarar ao ser amado que o ama (não é uma figura de confissão), mas até que ponto deve esconder dele suas "perturbações" (as turbulências) da sua paixão: seus desejos, suas aflições, enfim, seus excessos (na linguagem raciniana: seu furor).




Escrever

Enganos profundos, debates e impasses que provocam o desejo de "exprimir" o sentimento amoroso numa criação (notadamente de escritura).




Espera


Tumulto de angústia suscitado pela espera do ser amado, no decorrer de mínimos atrasos (encontros, telefonemas, cartas, voltas).




Eu-te-amo


A figura não se refere à declaração de amor, à confissão, mas ao repetido proferimento do grito do amor.




Festa


O sujeito apaixonado vive cada encontro com o ser amado como
uma festa.





Louco



O sujeito apaixonado é atravessado pela ideia de que ele está ou está ficando louco.




Magia


Consultas mágicas, pequenos ritos secretos e ações de graça não estão ausentes da vida do sujeito apaixonado, qualquer que seja sua cultura.





Ternura

Gozo, mas também avaliação inquietante dos gestos ternos do objeto amado, na medida em que o sujeito compreende que esse privilégio não é para ele.



União




Sonho de total união com o ser amado.







Roland Barthes, in: Fragmentos de Um Discurso Amoroso. Ed. Francisco Alves. Ilustrações de Alone Gut


quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Lilya Corneli
Mas também, às vezes, a Noite é outra: sozinho, em postura de meditação (será talvez um papel que me atribuo?), penso calmamente no outro, como ele é: suspendo toda a interpretação; o desejo continua a vibrar (a obscuridade é transluminosa), mas nada quero possuir; é a noite do sem proveito, do gasto sutil, invisível: estoy a escuras: eu estou lá, sentado simples e calmamente no negro interior do amor.


Roland Barthes, in: Fragmentos de Um Discurso Amoroso. Ed. Francisco Alves

sexta-feira, 3 de julho de 2009


De amor não falemos. De que serviria dar nome ao que encerra somente o equívoco? Somos e não somos sós. E depois ser só não é ser só. Não estamos sós. Temo-nos um ao outro na distância e na ausência, que são só acidentes e nada de essencial atingem. Temo-nos no que ficou do fugidio encontro, na ternura renovada que nos inventamos ou recriamos. Ou na lembrança.

Roland Barthes, in: Fragmentos de Um Discurso Amoroso. Ed. Francisco Alves