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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

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Enzo Sellerio
Uma rede de olhares
mantém o mundo unido,
não o deixa cair.
E embora eu não saiba o que acontece com os cegos,
meus olhos vão se apoiar em costas
que podem ser de deus.
No entanto,
eles buscam outra rede, outro frio,
que anda fechando olhos com um terno emprestado
e descerra uma chuva já sem solo nem céu.
Meus olhos buscam isso
que nos faz tirar os sapatos
pra ver se há algo mais nos sustentando por baixo
ou inventar um pássaro
para averiguar se existe o ar
ou criar um mundo
para saber se há mesmo um deus
ou colocar o chapéu
para confirmar que existimos.

Roberto Juarroz, in: Poesía vertical, 1983 - 1993. Tradução de Renato Rezende. In: Puentes. Poesía argentina y brasileña contemporánea. Ed. Fondo de Cultura Económica. Antología bilingue

terça-feira, 23 de outubro de 2012

57

No luxo do dia
irrompe abruptamente
o corpo de outro dia.

Não é uma vaga miragem,
nem um recordo impaciente,
nem uma premonição
que explode e se antecipa.

Outro dia ocupa este dia
porque às vezes o tempo
corrige a si mesmo.
Ou somente se substitui:
cede seu turno a outro
de seus múltiplos leitos.

O relevo do tempo
não se oculta na somba.

Roberto Juarroz, in: Decimotercera poesía vertical / Poesía vertical, 1983 - 1993. Tradução de Renato Rezende. In: Puentes. Poesía argentina y brasileña contemporánea. Ed. Fondo de Cultura Económica. Antología bilingue